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Full text of "Cultura, e opulencia do Brasil por suas drogas, e minas, : com varias noticias curiosas do modo de fazer o assucar; plantar, & beneficiar o tabaco; tirar ouro das minas; & descubrir as da prata; e dos grandes emolumentos, que esta conquista da America Meridional dá ao Reyno de Portugal com estes, & outros generos, & contratos reaes."

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íCibrarn 

ÍBrmtin  JSutiToratíç 


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CULTVRA 

E  OPVLENCIA 

DO  BRASIL 

POR  SUAS  DROGAS,  E  MINAS 


AIOHHJVqO  H 


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Mv 


CULTU 


OPULÊNCIA 


POR  SUAS  DROGAS,  E  MINAS, 

Com  varias  noticias  curió  fas  do  modo  de  ftvzer  o  Áííucar  ;,  plantar, 
&  beneficiar  o  Tabaco  \  tirar  Ouro  das  Minas  ;•'&  deícu-     , 
brir  as  da  Prata  ; 
B  dos  grandes  emolumentos  ,  que  efta  Cmquifia  da  America  Meridional 
*dá  ao  Rejno  dePORTVGAL  com  eftes^  &  outros  géne- 
ros ,   &  Contratos  Reacs. 
O  T*  T*    \  ~~ ' 

DE  AND  RE  JOÃO  ANTONIL 

O  F  F   E  B^E   C  I D    <j4 

Aos  que  defejaó  ver  glorificado  nos  Altares  ao  Venerarei  Padre  joseph  de  anchieta 
Siccrdote  da  Companhia  de  j  E  S  U  ,  Milenário  Apoítolico ,  &  novo  Thau- 

marnran  rloBrafi!. 


LISBOA, 

KaOfficinaReal    D  E  S  LA  N  D  E  S  I  A  N  A; 
Com  as  licenças  necejfarias   Anno  de  1 7 1 1 . 


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^0 áâ  SEWJÍO^ES  <DE  E3\($E* 

nhos  }  &  Lavradores  do  Affucâry  (rdoT^a* 
baço ,  útrkm  cji4efeoc cupão  em  tirar  Ouro  d$$ 
\    <£\dmas  do  Estado  do^Brâfií. 

EVE  tantoo  Brafil  ao  Vene- 
ravel  Padre Jofeph  de  Anchie- 
ta, hum  dos  primeiros*  ÔCrfraii 
fervorofos  Miffionarios  defta 


America  Meridional  ,*  que  a  boca  cheá 
o  chama  feu  grande  Apoftoio  >  &  no- 
vo Thaumaturgo  ,  pela  luz  Euangeii* 
ca,  quecommunicou  a  tantos  milhares 
de  índios ,  &  pelos  innumeraveis  mila- 
gres >  que  obfou  em  vida ,  &  obra  conti- 
nuamente invocado  para  beneficio  de  toa- 
dos. Porem  çonfeífar  e&as  obrigaçoens, 


1 1 


>    i 


&  nao  cooperar  ás  glorias  de  taõ  infígrre 
Bemfeitor  ,naõbafta  para  hum  verdadei- 
ro agradecimento  ,  devido  juftamente, 
&  efperado.  Para  excitar  pois  efte  piado- 
ío  afFeólo  nos  ânimos  de  todos  os  que 
mais  facilmente  podem  ajudar  como  a- 
gradecidos  >  &  liberaes  obra  taõfanta, 
como  he  a  Canonização  de  hum  Varaõ 
tamlliuftre,  procurey  acompanhar  efta 
jufta  petição  com  alguma  dadiva ,  que 
pudeífe  agradar,  &  íer  de algua  utilidade 
aos  que  nos  Engenhos  doAfíucar,  nos 
Partidos,  &  nas  Lavouras  do  Tabaco, 
&  iiás  Minas  do  Ouro  experimenta 5  o  fa- 
vor do  Ceo  com  notável  aumento  dos 
bens  temporaes.  Portanto  com  eítalimi- 
tada  offerraprovocoaquelia  género fa  li- 
beralidade y  quenaõ  confente  fer  rogada, 
por  ruõ  parecer  que  dando  quer  vender 
benefícios.    E  ao  meímo  Venerável  Pa- 
dre Jofephde  Anchieta  peço  encarecida- 
mente ,  que  queira  alcançar  de  Deos  cen- 

tupli- 


mm 


tuplicada  remuneração  na  Terra,  &  no 
Ceo,  a  quem  fe  determinar  a  promover 
com  alguma  efmola  as  fuás  honras  ;  para 
que  publicadas  nos  Templos,  &celebra- 
das  nos  ALtaresYacreeentem  tambeni  ma- 
yor  gloria  áquelle  Senhor  ,  que  he  hon- 
rado nas  honras  do&Santos,&  glorifica* 

.  I  ;"    !  !  I    t  ;  :.:   ) 


dó  em  fuás  glorias 


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wm&^^mz  çê^^5ei£a?c^ic  ^*^^*i-^*29^*^-5 


IMEIRAPARTE.  \ 


■   E    ■        noá a 
OPVLENCIA    DO  BRASIL 

Na  Lavra  do  AíTucar. 

E    N     G    E     N    H     O      R    E    A     L 

Moentc ,  &  corrente. 

T    R    A    T    A    -   S    E 

-■ 

2)  0  íÁ/00'r  do  Engenho  do  AJfucarJosFeitò- 
res,&  outros  Ofjiciaes,  que  nellefe  Occupao, 
4  nas  obrigaçoenr  ,  óg  falarios. 

Da  z5A4oenda  ,  Fabrica ;,  &  Officims  do  En- 
genho, &  do  que  em  cada  bua  iMasJfç  fat* 

Da  T  Janta  das  C anuas  ,  (ua  conducçaÕ ,  &* 
moagem:  &•  de  como  [e  fa^  purga  ,  &»  en- 
caixa- o  Jjjucar  no  Recôncavo  da^  "Bahia  no 
"Br a/i!  para  o  %eyno  de  Tortugal  ,  &-  Jew 
emolumentos. 

PROE- 


I 

U  EM  chamou  às  Oíficinas,  em  que  Tê 
fabrica  o  AíTucar,  Engenhos  ,  acertou 
verdadeiramente  no  nome.Poi  q  cjiiem 
quer  q  as  vé  ,  Sc  confidera  com  a  refle- 
xão, cj  merecem;  he  obrigado  a  coníefr 
far  ,  que  ía&tiuns  dos  pr-incipaes  partos ,  &  inven- 
çoens  do  Engenho  humano  ,  o  qual  comopequera 
porção  do  Divino  ,  íempre-  fè  moftra  no  íeu  modo 
de  obrar  ,  admirável. 

Dos  Engenhos  bons  fe  chamaõ  Reaes  ,  outros 
inferiores  vulgarmente  Engenhocas.  Os  Reaes  ga*- 
nhãraõeíteapeliido,  por  terem  todas  as  partes ,  de 
que  fe  compõem  ,  Sc  todas  as  Oficinas  perfeitas , 
chea^de  grande  numero  de  Eícravos ,  com  muitos 
Cannaveaes  próprios,  &  outros  obrigados' á  Moeu* 
da:  &  principalmente  por  terem  a  Realeza  de  moe- 
rem com  agua  ,  ádifferença  de  outros  *  que  moem 
com  Cavalíos ,  &  Boys ,  Sc  faõ  menos  providos,  Sc 
aparelhados;  ou  pelo  menos  com  menor  perfeição, 
&  largueza,  das  officinas  neceílarias  >  Sc  com  pouco 
numero  deEícravos,  para  fazerem  ,  como  dizem,  o 
Engenho  Moente  ,  Sc  Corrente. 

E  por- 


iii 


: 


JE  porque  algum  dia  folgaey.de  ver  hum  dos 
mais  afamados ,  que  ha  no  Recôncavo  á  beira-mar 
da  Bahia  ,  aquém  chamaô  o  Engenho  de  Serigippe 
do  Conde;  movido  de  hua  louvável  curiofidade  , 
procurey  no  efpaço  de  oito  ,  ou   dez  dias ,  que  ahi 
efííve,,  tomar  noticia  de  tudo  o  que  o  fazia  taõ  ce- 
lebrado^ quafi  Rey  dos  Engenhos  Reaes.  Evalcn. 
dome  das  informaçoens ,  que  me  deo  ,  quem  o  àd- 
mimftrou  mais  de  trinta  anhos;  com  conhecida  \n- 
teljigcncia  ,  &  com  acrecentamemo  igual  à  indu- 
ílru  :  Sc  da  experiência  de  hum  famofo  Meftre  de 
Aílucar ,  que  cincoenta  annos  íe  oceupou  neííe  oÇ. 
ficío  com  venturofo  íòcceflo.,  &  dos  mais  Officiaes 
de  nome,  aos  quaes  miudamente  perguntei  o,  q  a  ca'? 
da  qual  pertencia  ;me  reíofvia  deixar  qefte  borrão 
tudoaquillcyquem  limitação  do  tempo  fobredito 
apreíTadameme  ,  mas  com  attençao  ajuntey  ,    6c 
eftendi  com  o  mefmo  e%!o ,  8c  modo  de  falia/ cla- 
ro ;  &  chaõ  ,  que  fe  ufa  nos  Engenhos :  para  que 
m  qúe  naõ  fabem  o  que  cufta.a  doçura  do  Aflucar 
4- quem  o  lavra,  o  conheçaõ,  &  fintaõ  menos  da r 
por  elle  o ..preço,  que  vai  :3c  quem  de  novo   entrar 
m .adismíftraçaõ  de  algu  Engenho  ,  tenha  eftas  no* 
Xicus  praâicas  ,  dirigidas  a  obrar  com  acerto  ;  que 
he  o  que  em  toda  a  oceupaçao  íe  deve  defejar  ,  & 
intentar.  £  para  mayor  clareza,  8c  ordem  ,  reparti 
em  variosCapitulos  tudo  o  que  pertence*  cita  Dro- 
ga* 


ga,  &a  quem  por  cila,  &  nella  traba-Iba  >  come* 
çando ,  depois  de  relatar  as  obrigaçoens  de  eada 
qual  ,  defde  a  primeira  origem  do  Aflucar  na  Carr» 
na  >  ate  íua  cabal  perfeição  nas  Caixas  ,  conforme 
o  meu  limitado  cabedal ■;  que  pelo  menos  fervirá, 
para  dar  a  outros  de  melhor  capacidade |  &  pe.ona 
mais  ligeira  ,  ôc  bem  aparada  ,  algum  eftimulo  de 
aperfeiçoar  efte  embrião.  E  íe  alguém  quizer  faber 
oAuthor  defte  curioíò,&  mil  trabaihojelle  hg  hum 
amigo  do  bem  publico  chamado 


0  Amiymo  %ofcam 


I  L  LUSTRÍS  SI  MO1   S  ENH  O  R.-  ■' 

Evi  efte  livro  intitulado  Cultura  ,  Êf  0p«* 
__  \^le?icia  do  Brafil  ^  mencionado  na  petição  aci- 
ma^ fendo  a  obra  de  engenho, pela  boa  difpofiçac, 
com  que  o  feu  Auchor  o  compoz,  he  muito  me- 
recedora da  licença,  (j  pede  :  porque  por  efte  meyo 
íaberáõ  os  que  fe  quizerem  pairar  ao  Eftado  do  Bra- 
fil, o  muito  que  cuftaõ  as  Culturas  doAíTucar,Ta- 
baço  ,  &  Ouro,  que  faõ  mais  doces  de  pofsuir  no 
Reyno;  q  de  cavar  no  Brafil. Naõ  contem  efte  livro 
coufa,  quç  íeja  contra  nofsa  Santa  Fé  ,  ou  bonsco- 
ftumes,  8c  por  ifso  fe  póJe  eftampar  com  letras  de 
Ouro.  Efte  he  o  meu  parecer,  que  ponho  aos  pcs  de 
V.  ílluftriffimá,  para  mandar  fazer  ó  que  for  fervi- 
do. Santa  Anna  de  Lisboa  em  oito  de  Novembro  de 
17ío. 

Fr.  Pado  de  Sao  Boaventura. 

Naõ 


„ 


Ao  contem  efte  Tratado  coufa  fufpeitoía 
contra  nofsa  Santa  Fè  ,  &  pureza  dos  bons 
coftumes ,  &  affim  fendo  V.Illuftriflima  fervido  pó* 
de  conceder  a  licença  ,  que  pede  o  Au;hor.  Trin* 
dade  em  jo.ckTSÍovembro  de  1710* 

Fr.  Manoel  da  Gonceyçaõ. 
í 

Iftas  as  informaçoens,  pode- (e  imprimir  o  li- 
vro inmuháo^Cultnra^  Opulência  do  Bra- 
fã  y  Sc  impreílo  tornará  para  íe  conferir,  8t  dar  H- 
oença  que  corra  ,  Sc  íerri  eila  naõ  correrá.  Lisboa  j* 
4e  Dezembro  de  1710. 

Moniz.     HaJJâ.     &ãonteiro.    Ribeiro. 
Fr.  Encarnação.    Rocha.    Barreto. 


T)o  Ordinário. 

■  ■       .       ■  •  ■ 

POde-fe  imprimir  o  livro  intitulado,  Cultura  s 
Qf  Opulência  do  Bra/il,  8c  impreílo  torne  pa« 
rafe  conferir,  Sc  dar  licença  que  corra ,  &  íemeiia 
naõ  correrá.  Lisboa  iz.  de  Dezembro  de  1710. 


B.  de  Tagafle, 


Do 


■Ha 


T>o  Taco. 


E 


N      H      o      r: 


I  o  livro ,  que  V.  M  AGESTADE  foy  fervido 
remeterme  :  íeu  Author  André  Joaõ  Anto- 
njJ  ;  &  fobrenaõ  achar  n-e.l.I-e  coufa  que  encontre  o 
Real  ferviçode  V.  Mageftade,  me  parece  fera  mui* 
toutil  para  o  Comercio:  porque  defpertará  as  dili* 
gencias ,  &  incitará  a  que  íe  procurem  taõ  fáceis  ia- 
rerefles.  Julga-o  muito  digno  da  licença  que  pede, 
V.  Mageftade  ordenará  o  que  for  fervido.  Saõ  Do- 
mingos de  Lisboa  ij.de  Janeyro  171 1. 

Fr.  Manoel  Guilherme. 


Ue  fe  poíTaifTprJmir,vifl2sas  licenças  do  S5- 
to  OíHcio,&Ordinario,&  depois  de  impreflo 
tornará  á  Mefa  para  fe  conferir,  &  taxar  ,  8c 
fem  iílonaõ  correrá.Lisboa  17.de  Janeyro  de  1711, 

Oliveira.  Lacerda.     Carneiro. 
Botelho.     Çofla» 


COncorda  com  o  íeu  origina!.  Convento   da 
Santiílima  Trindade  de  Lisboa  j.  de  Março 
de  171 1. 

Fr.  Manoel  da  Conceycao*  - 

Vido  eftar  conforme  com  (eu  original?  pode 
correr.  Lisboa  j.de  Março  de  171 1. 

Monix.    Hajfe.    Adonteyro.    Ribeyro.     Rocha, 
Fr.  Encarnação.     Barreto. 


p 


Ode  correr.  Lisboa6.de  Março  de  171 1. 

M.  Bi  ff  o  de  lagafte. 


T 


Axaõ  efte  livro  em  dous  toftões.  Lisboa  6. 
de  Março  de  17x1. 


Duque  P.    Oliveyra.    Botelho,  Pereyra* 


I    $ 


. 


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: 


LIV 

CA  PITVLO     L 

T>o  cabedal ,  que  ha  deter  o  Senhor  de  hum 
Engenho  %eal. 

SER  Senhor"  de  Engenho  ,  he  titulo ,  a  que 
muitos  afpiraó ;  porque  traz  configo  o  fer  fer- 
vido, obedecido,  &  refpeitado  de  muitos.  E  íe 
for ,  qual  deve  fer ,  homem  de  cabedal ,  &  go- 
verno •,  bem  fe  pode  eílimar  no  Brafil  o  fer  Se- 
nhor de  Engenho,quanto  proporcionadamen- 
te fe  eftimaõ  os  Titules  entre  os  Fidalgos  do  Reyno.  Porque 
Engenhos  ha  na  Bahia,  que  dao  ao  Senhor  quatro  mil  pães  de 
Aííucar ,  &  outros  pouco  menos ,  com  canna  obrigada  à  Mo- 
enda, de  cujo  rendimento  logra  o  Engenho  ao  menos  a  anieía- 
de ,  como  de  qualquer  outra  5  que  nelle  livremente  íèmoe:  & 
em  algumas  partes ,  ainda  mais  que  a  ametade. 

Dos  Senhores  dependem  os  Lavradores,  que  tem  Parti;- 
dos  arrendados  em  terras  do  mefmo  Engenho,  como  os  Cida- 
dãos dos  Fidalgos :  &  quanto  os  Senhores  -faõ  mais  poííantes  s 
&  bem  aparelhados  de  todo  o  neceífario ,  aíFaveis  3  ôc  verda- 
deyros ;  tanto  mais  faó  procu  r  ados ,  ainda  dos  que  naõ  tem  a 

A  caiuu 


li» 


_____ 

*  Cultura , 

canna  cativa  ,  ou  por  antiga  obrigação ,  ou  por  preço ,  qne  pa- 
raino  receberão. 

Servem  ao  Senhor  do  Engenho  em  vários  officios,  além 
dos  Efcravos  de  enxada,  Sc  fouce,  que  tem  nas  Fazendas,  & 
na  Moenda  j  &  fora  os  Mulatos,  &  Mulatas ,  Negros,  &  Ne- 
gras de  cafa,  ouoccupados  em  outras  partes  j  Barqueiros, 
Canoeiros ,  Calafates ,  Ca  rapinas  Carreiros ,  Oleiros  Va- 
queiros ,  Paftores ,  &  Pefcadores.  Tem  mais  cada  Senhor  de- 
ites neceíTanamente  humMeftre  de  Afincar,  hum  Banquei- 
ro ,  &  hum  Contrabanqueiro,  hum  Purgador,  hum  Caixeiro 
no  Engenho  ,8c  outro  na  Cidade,  Feitores  nos  Partidos,  6c 
Roças,  hum  Feitor  Mor  do  Engenho  :  &paraoEípiritual, 
lmm  Sacerdote  feuCapellaõ  :  &  cada  qual  deftes  Officiaes 
temíoldadâ* 

Toda  a  Efcravaria  (que  nos  mayores  Engenhos paíTa  o 
numero  de  cento  &  cincoenta  >  &  duzentas  Peças ,  contando 
asdos  Partidos)  quer  mantimentos ,  &  farda,  medicamen- 
tos >  enfermaria,.  &  Enfermeiro  :  &  paraiííofaõ  neceífanas 
Roças-de  muitas  mil  covas  de  Mandioca.  Querem  os  Barcos 
velame ,  cabos ,  cordas ,  &  breu.  Querem  as  Fornalhas,  que 
por  fete,  &  oito  mezes  ardem  de  dia,  ôc  de  noite ,  muita  lenha: 
Scparaifib  ha  mifter  dous Barcos  velejados  ,  para  íè  bufcâc 
nos  Portos  ,  indo.  hum  atraz  do  outro  fem  parar  ,  6r  muito 
dinheiro  para  a  comprar  :  ou.  grandes  mattos ,  com  muitos 
carros,  &  muitas  juntas  de  Boys,  parafe  trazer.  Queremos 
Canna  veaes  também  fuás  barcas,  &  carros  com  dobradas ef- 
qiupaçoens  de  Boys ;  querem. enxadas ,  .&r  fouces.  Querem  as 
Serranas  machados,  &  ferras.  Quer  a  Moenda  de  toda  a  ca - 
fta de  Paos  de  ley  de  fobrecel lente,  êc  muitos  quintaes  de  aço, 
&  de  ferro.  Quer  a  Carpétaria  madeiras  felec>as,&:  fortes  para 
Efteyos,  Vigas, Afpas,.&  Rodas:  &  pelo  menos  os  inírrumen- 
tos  mais  uíuaes,  a  faber  Serras,Trados,  Verrumas,Compaflbs, 
Regras,Efcopros,Enxós,Goivas,Machados,Martellos,Can- 

tins, 


&•  Opulência  do  TZr-ajil.  3 

tins ,  &  Junteiras ,  pregos  ,  &  Plainas.  Quer  a  Fabrica  do  Áf- 
fucar  Paroes,  &  Caldeiras,  Tachas,  &  Bacias,  fr  outros 
muitos  inítrumentos  menores,  todos  de  cobre  j  cujo  preço 
paíTadeoitomil  cruzados,  ainda  quando  fe  vende  naõtain, 
caro,  como  nosannospreíentes.  S ao finalmente  neceíTarias, 
além  das  fanzallas  dos  Efcravos,  &  além  das  moradas  doCa- 
pellaó,  Feitores,  Meítre,  Purgador , Banqueiro ,& Caixei- 
ro ,  húa  Capella  decente  com  feus  ornamentos ,  &  todo  o  apa- 
relho do  Altar }  &  húas  cafas  para  o  Senhor  do  Engenho,  com 
feu  Quarto  feparado  para  os  Hofpedes,  que  no  Brafil ,  falto 
totalmente  de  Eftalagens  ,  faó  contínuos  *  &  o  Edifício  do 
Engenho ,  forte  ,.&  efpaçofo  t  com  as  mais  OínanaS  ,  &  cala 
de  purgar,  Caixaria,  Lambiquej  &  outras  cotiías,  que  por 
miúdas,  aquifeefcufa  apontalías,  &  delias  fe  faltara  em  leu 

lugar.  .    .        „ 

O  que  tudo  bem  confiderado  :  affim  como  obriga  antins 

Homens  de  baftante  cabedal,  &  debom  juizo  ,  a  quererem 
antes  fer  Lavradores  poflantes  de  Canna  ,  com  hum ,  ou  ctous 
Partidos  de  mil  pães  de  Aflucar ,  com  trinta ,  ou  quarenta  Ef- 
cravos de  enxada ,  &  fouce  5.do  que  fer  Senhores  de  Engenho 
por  poucos  annos ,  com  a  lida,  &  attençaÕ ,  que  pede  o  gover- 
nodetodaeiTa  fabrica :  affim  he  para  pafmar,  corno  hojefe 
atrevem  tantos  a  levantar  Engenhocas  ,  tanto  que  chegarão  a 
ter  algum  numero  deEfcravos,  &  acharão  quem  bies  empre- 
ftaflealeuma  quantidade  de  dinheiro,  para  começar  a  tratar 
de  h„a  obra,  de  que  nao  fao  capazes  por  falta  de  governo,  & 
deas-encia  \  &  muito  mais  por  ficarem  logo  na  primeira  faíra 
tam  empenhados  com  dividas,  que  nafegunda  outerceiraja 
fe  declaraÕ  perdidos :  fendo  juntamente  caufa,  que  os  que  fia- 
rão délles  dando-lhes  fazenda,  6c  dinheiro -,  também  quf 
Wem-  &  q  outros  zombem  da  fua  mal  fundada  prefumpçao, 
que  tam  depreífa  converteo  em  palha  feccaaquella  primei, 
ra  verdura  de  húa  apparente,  mas  enganoíaeíperança.  f 
■    ■  ;  A  2  li  aia 


Cultura , 

E  ainda  que  nem  todos  os  Engenhos  íejaõ  Reaes ,  nem  ro- 
dos puxem  por  tantos  gaftos ,  quantos  ate  aqui  temos  apon- 
tado: com  tudo,  entenda  cada  qual,  que  com  as  mortes  ,  & 
/ugidas  dos  fervos,  &■  cõ  a  perda  de  muitos  Cavallos,  &  Boys, 
&com  as  fcccas ,  que  de  improviíò  apertão ,  &  mirraõ  a  Can- 
na,  &  com  os  defaftres  ,  queacadapafso  fuccedem  j  crecem 
os  gaftos  mais  do  que  fe  cuidava.  Entenda  também ,  que  os 
Pedreiros,  &  Carapinas ,  &"  outros  Offieiaes  defejofos  de  ga- 
nhar á  cu  ftaalhea,  lhe  facilitarão  tudo  de  tal  forte  ,  que  lhe 
parecerá  o  mefmo  levantar  hum  Engenho,  quehúafanzalla 
de  Negros :  &r  quãdo  começar  a  ajuntar  os  aviamentos ,  acha- 
ra ter  já  defpendido  tudo  o  que  tinha,  antes  de  fe.  pôr  pedra 
íoore  pedra,  &  naõ  terá  com  q  pagar  as  foldadas ;  crecendo  de 
improvifo  os  gaftos ,  como  por  caufa  das  enxurradas  os  Rios. 

lambem,  fe  naõ  tiver  a  capacidade,  modo,  &  agencia, 
que  fe  requer,  na  boa  difpofiçaõ ,  à  governo  de  tudo ,  na  elei- 
ção dos  Feitores,  &  Oífkiaes ,  na  boa  correípondencia  com 
os  Lavradores ,  no  trato  da  gente  fujeita ,  na  confervacaõ ,  & 
lavoura  das  Terras,  que  poíTue,&  na  verdade ,  &  pontualida- 
de com  os  Mercadores ,  &  outros  feusCorrefpondentes  na 
J^raçai  achará confufaõ ,  &  ignominia  no  Titulo  de  Senhor 
de  Lngenho,  donde  efperava  acrecentamento  de  eftimaçaoj 
^cde  credito.  Por  iílb,  tendo  jà  faltado  do  que  pertence  ao 
cabedal ,  que  ha  de  ter  h  tratarei  agora  de  como  fe  ha  de  havec 
no  governo:  &  primeiramente  da  com  pra,  &  confervacaõ  das 
I  erras,  ik  íeus  Arrendamentos  aos  Lavradores,  q  tem :  &  lo- 
go dxeleiçaó  dos  Officiaes,  que  ha  de  ad  mittir  ao  feu  ferviço > 
apontando  as  obrigaçoens,  &  as  foldadas  de  cada  hum  delles , 
contorniç  o  eftylo  dos  Engenhos  Reaes  da  Bahia:  &  ultima- 
mente do  governo  domcftico  da  fua  familia,  Filhos ,  &  Efcra- 
vos,  recebimento  dosHofpedes, &  pontualidade  em  dar  faús^ 
laçao  aquém  deve  j  do  que  depende  a  confervacaõ  do  feu  cre- 
dito ,  que  he  o  melhor  cabedal  dos  que  fe  prezaó  de  honrados, 

C  A- 


&-  Opulência. eh  cBraftL 

CAPITULO     II. 

Como  fe  ha  de  haver  o  Senhor  do  Engenho  na  compra , 
Qf  conjervaçaú  das  Terras ,  &  nos  Arrenda- 
mentos delias. 

SE  o  Senhor  do  Engenho  naõ  conhecer  a  qualidade  das 
Terras,  comprará  Salões  por Maflapés  ,  &  Apicús  por 
Saloens.  Por  iflb,  vai  ha-  fedas  informaçoens  dos  Lavradores 
mais  entendidos :  &  attentc  naõ  fomente  á  barateza  do  preço, 
mas  também  a  todas  as  conveniências ,  que  fe  haõ  de  bufcar  j 
para  ter  Fazenda  com  Cannaveaes,  Paftos,  Aguas,  Roças ,  Sc 
Mattos  3  &  em  falta  deites,  commodidade  para  ter  a  lenha 
mais  perto,  que  puder  fer,  &  para  efcufar  outros  inconvenien- 
tes, que  os  velhos  lhe  poderáõ  apontar,  que  faõ  osMeftres, 
aquemeníinou  o  tempo ,  6c  a  experiência  ,  o  que  os  moços 
ignoraó. 

Muitos  vendem  as  Terras  ,  que  tem ,  por  cançadas ,  ou 
faltas  de  lenha :  outros ,  porque  fe  naõ  atrevem  a  ouvir  tantos 
recados,  femelhantes  aos  que  fe  davaõ  a  Job,  do  Partido  quei- 
mado, dos  Boys  atolados  ,  dos  Efcravos  mortos,  &  doAf- 
fucar  perdido.  Outros  obrigados  a  vender  contra  vontade 
/por  caufa  dos  Acredores,  q  os  apertão,  bem  pôde  fer  que  ofFe- 
reçaó  Terras  novas  ,&  fortes }  porém  o  comprador  corre  en- 
tão outro  rifco  de  comprar  demandas  eternas ,  pelas  obriga- 
ções, &  hypothecas ,  a  que  eftaõ  por  repetidas  vezes  fujeitas. 
Por  tanto  neíTe  cafo  falle  o  comprador  com  os  Letrados :  per- 
gunte aos  Acredores,  que  he  o  que  pertendem;  Sc  fe  for  necef- 
fario,  com  authoridade  do  Juiz  cite  a  todos ,  para  faber  o  que 
na  verdade  fe  deve :  nem  conclua  a  compra ,  antes  de  ver  com 

A  3  feus 


!li 


tf  Cultura, 

feus  olhos ,  que  he  o  que  compra ;  que  títulos  de  domínio  tem 
©  vendedor ;  &  fe  os  ditos  bens  faõ  vinculados ,  ou  livres :  &  fe 
tem  parte  nelles  Orfaos,  Mofteiros,  ou  Igrejas ;  para  que 
fenaõ  falte  ao  fazer  da  efcritura  a  alguma  condição  ,  ou  fo- 
lennidade  neceífaria.  Veja  também  as  demarcaçoens  das 
Terras }  fe  foraõ  medidas  por  Juftiça  -,  &  fe  os  Marcos  eftafr 
em  fer,  ou  fe  ha  mifter  aviventallos ;  que  taes  faõ  os  Cohereos , 
afaber,  fe  amigos  de  juftiça ,  de  verdade ,  &  de  paz ;  ou  pe- 
lo contrario  trapaceiros  , defenquietos ,  &  violentos :  porque 
Jiaõ  ha  peyor  pefte  3  que  hum  mao  vizinho. 

Feita  a  compra ,  naõ  falte  a  feu  tempo  á  palavra ,  que  deo} 
pague,  &  feja  pontual  nefta parte •  ôcattente  á  confervaçaõ* 
&c  melhoramento  do  que  comprou,  &  principalmente  ufede 
toda  a  diligencia ,  para  defender  os  Marcos,  &  as  Aguas,  de  q 
neceílita  para  moer  o  feu  Engenho :  êcmoílre  aos  Filhos, 6c 
aos  Feitores  os  ditos  Marcos 5  para  q  faibaó  o  que  lhes  perten- 
ce,^ poflaõ  evitar  demandas^  pleitos,  que  faõ  húa  continua 
deíenquietaçaõ  da  Alma  >  &  hum  continuo  fangrador  de  rios 
de  dinheiro,  que  vay  a  entrar  nas  cafas  dos  Advogados ,  Soli. 
citadores.,&Efcrivaens,com  pouco  proveito  de  quem  pro- 
move o  pleito,  ainda  quando  alcança,  depois  de  tantos  gaftos3 
&  defgoftos,  em  feu  favor  a  fen tença.  Nem  deixe  os  papeis,  & 
as  efcnturas ,  que  tem  na  caixa  da  Mulher ,  ou  fobre  húa  meza 
expofta  ao  pó,  ao  vento,  á  traça,  .&  aocopimj  para  que  de- 
pois naõ  feja  neceíTario  mandar  dizer  muitas  Miflas  a  Santo 
António,  para  achar  algum  papel  importante,  quedefappa- 
xeceo ,  quando  houver  mifter  exhibillo.  Porque  lhe  acontece- 
rá, que  a  Criada,  ou  Serva  tire  duas  ,  ou  três  folhas  da  caixa 
da  Senhora ,  para  embu.ru.lhar  com  cilas  o  que  mais  lhe  agra- 
dar:  6c  o  Filho  mais  pequeno  tirará  também  algumas  da  me- 
za,  para  pintar  caretas ,  ou  para  fazer  barquinhos  de  papel, 
em  que  naveguem  mofcas,  &  grillos :  ou  finalmente  o  vento 
fará ,  que  voem  fora  da. cajfa  fem  pennas . 

Para 


v    E  Opulência  do  "Brafil.  f 

Para  ter  Lavradores  obrigados  ao  Engenho,  lie  necefíario 
paflarlhes  Arrendamento  das  Terras ,  em  que  haó  de  plantar. 
Eftescoftumaõ  fazer-fe  por  nove  annos,  ôchum  dedefpejo, 
com  obrigação  de  deixaré  plantadas  tantasTarefas  deCànna: 
ou  por  dezoito  annos,  &  mais  ,  com  as  obrigaçoens  ,  &  nume- 
ro de  Tarefas ,  que  afoitarem ,  conforme  o  eoítume  da  Ter- 
ra. Porém  ha-fe  de  advertir ,  que  os  que  pedem  arrendamen- 
to ',  fejaô  Fazendeiros ,  &  naó  deftruidores  da  Fazenda  ;  de 
forte  j  que  fejaó  de  proveito ,  èc  naó  de  dano.  E  na  Efcritura 
do  Arrendamento  fe  hão  de  por  as  condições  neceíTarias. :  v.g ; 
que  naó  tirem  paos  reaes :  que  naó  admittaó  outros  em  feU  lu- 
gar nas  Terras ,  que  arrendaó,  fem  confentimento  do  Senhor 
delias :  6c  outras ,  que  fe  julgarem  neceíTarias ,  para  que  algum 
delles,  mais  confiado,  de  Lavrador  fe  naó  faça  logo  Senhor. 
E  para  iíTo  feria  boa  prevenção,  ter  hua  formula  ,  ou  nota  de 
Arrendamentos  ,  feita  por  algum  Letrado  dos  mais  experi- 
mentados, com  declaração  de  como  fe  haverão  defpejando; 
acerca  das  BemfeitoriaS}  para  que  o  fim  do  tempo  do  Arren- 
damento naó  feja  principio  de  demandas  eternas. . 


.««»>  «s*3  Stat  jS4!  Sâ  £È8§&  £&  Sísí  &&J!èâÊ& 


«S*fflUfej^vííí'feí 


C    A   P  I  T   U  L  O    III. 

Comofe  ha  de  haver  o  Senhor  do  Engenho  com  os  Lá? 
vr  adores  y  &  outros  vizinhos  ;  Çjy.  âíles  com  o 

Senhor* 

Ter  muita  fazenda  cria  r  comummente  nos  homens  ri* 
cos,  &  poderofos,  defprezo  da  gente  mais  nobre :  St  par 
iíTo  Deos  facilmente  lha  tira ,  para  que  fe  naó  firvaó  delia  pa- 
ra crecer  era  foberba.  Quem  chegou  a  ter  titulo  de  Senhor, 
parece,  que  em  todos  quer  dependência  de  fervos.  E  ifto  prin. 


1 


Cultura  + 

cipalmente  Te  vêem  alguns  Senhores,que  tem  Lavradores  em 
Terras  do  Engenho  3  ou  de  canna  obrigada  a  moer  nelle;  tra- 
tando-os  com  altivez  ,  &  arrogância.  Donde  nace  o  ferem 
malquiftos,  &  murmurados  dos  que  os  naõ  podem  íbfrer:& 
que  muitos  fe  alegrem  com  as  perdas ,  Sc  defaílres ,  que  de  re- 
pentepadecem  ;  pedindo  os  miferaveis  opprimidos  a  cada 
paíío juíliça  a  Deos,,por  fe  verem  tam  avexados  -y  &  defejando 
verãos  feus  oppreflbres  humilhados  ,  para  que  aprendaõ  a 
naõ  tratar  mal  aos  humildes  :  aflim  como  o  Medico  defeja ,  & 
procura  tirar  fora  a  malignidade,  &  abundância  do  humor 
peccante,  que  faz  ao  corpo  indifpofto,  &:  doente }  para  lhe 
dar  defta  forte  naõ  fomente  vida,  mas  também  perfeita  faude. 
Nada  pois  tenha  o  Senhor  do  Engenho  de  altivo  ;  nada  de 
arrogante ,  &  foberbo :  antes  fej  a  muito  arTavel  com  todos3  & 
olhe  para  os  feus  Lavradores,como  para  verdadeiros  amigos* 
poistaesfaõ  na  verdade,  quando  fe  defentranhaõ ,  para  tra- 
zerem os  feus  Partidos  bem  plantados ,  ôt  limpos ,  com  gran- 
de emolumento  do  Engenho :  &  délhes  todo  o  adjutorio^que 
puder ,  em  feus  apertos,  aílim  com  a  authoridade,  como  com 
a  fazenda.  Nem  ponha  menor  cuidado  em  fer  muito  jufto,  & 
verdadeiro ,  quando  chegar  o  tempo  de  moer  a  Canna ,  &  de 
fazer,  Sc  encaixar  os  AíTucares  :  porque  naõ  feria  juíliça  to- 
mar para  íi  os  dias  de  moer,  que  deve  dar  aos  Lavradores  por 
leu  turno  j,ou  dar  a  hum  mais  dias  ,-que  a  outro  j  ou  mifturar 
o- AíTucar,  que  fe  fez  de  hum  Lavrador,  com  o  da  Tarefa  de 
outroscueicolherparafiomelhor,  &  dar  ao\  Lavrador  o  fo- 
menos ,  E  para  evitar  eftas  duvidas ,  &  qualquer  outra  fufpei- 
ta  femelhante  ,  avife,  ou  mande  avifar  com  tempo  a  quem 
por  direito  fefegue,  para  que  polia  cortar,  &  carrear  a  Caa- 
na ,  ôc  tella  na  Moenda  ao  feu  dia :  &  haja  nas- Formas  feu  í£ 
nal,  para  que  fediílingaó  das  outras.  Nemeítranhe,  que  os 
Lavradores  queiraõ  ver  noTendal ,  &  Cafa  de  purgar,  no. 
Balcaó ,  &  Cafa  de  encaixar ,  ao  feu  AíTucar  j  pois  tanto  lhes 

cuftou. 


&-  Opulência  ao  Jira/u.  t  f 

cuftou  chegalloapôrneííeeftado,  &  tanta  amargura  preces 
deo  a  eíta  limitada  doçura.  .     :    • 

Também  feria  final  de  ter  ruim  coração ,  fazer  mavizi. 
nhança  aosque  moem  a  Canna  livre  em  outros  Engenhos ,  fó 
porque  a  naõ  moem  no  feu:  nem  ter  boa  correfpondencia  eora 
os  Senhores  de  outros  Engenhos  ,  fó  porque  cada  qual  dellcs 
folo-a.de  moer  tanto  ,  eomo  outro  s  ou  porque  a  algum  delles 
lhevay  melhor,  com  menos  gafto ,.&  fem  perdas.  E  fe  a  enve- 
já  entre  os  primeiros  Irmãos ,.  que  houve  no  Mundovfoy  tam 
arrojada,  que  chegou  a  enfanguentar  as  mãos  de  Caim  com 
o  fatigue  de  Abel,  porque  Abel  levava  a  bençaõdoCeo,  & 
Caim  naõ,  por  fua  culpa:  quem  duvida,  que  poderia  chegar 
a  renovarfemelhantes  Tragedias  ainda  hoje  entre  os  paren- 
tes >  pois  ha  no  Brafil  muitas  paragens ,  em  que  os  Senhores  de 
Engenho  faõ  entre  fi  muito  chegadas  por  fangue,  Sr  pouco 
unidos  por  charidade,  fendo  ointereíTea  caufa  de  toda  a  dif- 
cordia ,  &  bailando  tal  vez  hum  pao  quefe  tire ,  ou  hum  Boy 
que  entre  em  hum  Cannaveal  pordefeuido,  para  declararei 
odioefeondido,  &  para  armar  demandas,  &  pendências  mos- 
taes ?  O  unicoremedio  pois ,  para  atalhar  pezados  defgoftoSj 
foe  haver-fe  com  toda  a  urbanidade ,  &  primor ;  pedindo  li- 
cença para  tudo,  cada  vez  que  for  neceífario  valer-fc  do  que 
tem  os  vizinhos :  &  perfuadirfe ,  quefenegaõ  o  que  fe  pede,, 
fera,  porque  a  neceflidade  os  obriga.  E  quando  ainda  fe  co- 
nheceíre,quet)negar-fehepordefprimor>  a  verdadeiras  & 
mais  nobre  vingançaferá,dar  logo  a  quem  negou  o  que  fe  pe- 
dio ,  na  primeira  occafiao  dobrado  do  que  pede,  para  que  de^ 
íta  forte  caya  por  bom  modo  na  cota  de  como  devia  proceder» 
Sobre  todos  porém  os  que  fe  devem  haver  com  mayor  ref- 
peito  para  com  o  Senhor  do  Engenho*  faõ  os  Lavradores,, que: 
tem  Partidos  obrigados  à  fua  Moenda ;  &  muito  mais  os  qu& 
lavraõ  em  Terras,  que  o  Senhor  lhes  tem  arrendado  .-particu- 
larmente ,  quando  deita  forte  começarão  fua  vida ,  &  chegai 

mo* 


__ 


— «. 


I 


*o  Cultura, 

raõ  por  efta  via  a  ter  cabedal  -,  porque  a  ingratidão ,  Sc  o  faltar 
ao  refpeito,  6c  cortezia  devida,  henota  digna  de  fer  muito 
eítranhada :  6c  hum  agradecimento  obfequioíb  cativa  aos  âni- 
mos de  todos  com  correntes  de  ouro.  Porém  efte  refpeito  nú- 
ca  ha  de  fer  tal,  que  incline  a  obrar  contra  juftiçaj  principal- 
mente quando  foíTem  induzidos  a  fazer  coufa  contra  ria  á  ley 
de  Deos:  como  feria,  a  jurar  em  demandas  crimes  ,  ou  eiveis 
contra  a  verdade ,  6c  a  por-fe  mal  com  os  que  com  razaõ  fe  de- 
fendem. E  o  que  tenho  dito  dos  Senhores  do  Engenho ,  digo 
também  $as  Senhoras  :  as  quaes ,  pofto  que  mereçaõ  mayor 
refpeito  das  outras,  naõhaódepreYumir,  que  devem  fer  tra- 
tadas como  Rainhas  j  nem  que  as  Mulheres  dos  Lavradores 
hão  de  fer  fuás  Criadas ,  Scapparecer  entre  ellas  como  a  Lua 
entre  as  Eftrcllas  menores. 


C  A  P  I   T  U  L  O    IV. 

Como  fe  ha  de  haver  o  Senhor  do  Engenho  tia  elet* 

çaõ  das  Pefíoas ,  &*  Officiaes ,  que  admittir  ao 

fett  fervigo :  Qf  primeiramente  da  eleição 

do  Capellao» 

SE  em  alguma  coufa  mais  que  em  outra,  hade  moftraro 
Senhor  do  Engenho  a  fua  capacidade ,  6c  prudência  j  eíla 
fem  duvida  he  a  boa  eleição  das  FeiToas ,  6c  Oííiciaes ,  que  ha 
de  admittir  ao  feuferviço  para  o  bom  governo  do  Engenho. 
Porq  fendo  a  eleição  filha  da  Prudcncia  ;  com  razaõ  fe  argui- 
ra de  imprudente  ,  quem  efeolher  Peffoas  ,  ou  de  ruim  vi* 
da,  ou  ineptas  para  o  que  haõ  de  fazer.  E claro  eftá,  que 
huns  com  a  ruim  vida  deíagradaráõ  a  Deos ,  6c  aos  homens,  &c 
foráõ  caufa  de  muitos,  6cbempezadosdefgoítoSj  &c  outros 

com 


E  Opulência  da  'Bra/il.  t  $ 

com  a  ineptidão  caufaráõ  dano  naõ  ordinário  â  Fazenda.  E 
iírolbepoderádeftranhar  com  razaõ,  naõ  fó  ôs^de  cafapor 
mais  chegados  a  queimarfe ,  ou  a  chamufcar-fe  eõcfcu  trato; 
mas  também  os  de  fora  .•  6c  principalmente  os  Lavradores  , 
obrigados  a  experimentar  fem  culpa  os  prejuízos  ,  que  fefe- 
guem  ao  feu  malogrado fuor  i  de  naõ  faberem  os  QfBciaes  o 
que  requero  feu  O ffkió. 

O  primeiro,  que fehadeefcolher  com  circuttfpeeçaõ ,  Sc 
informação  fecreta  do  feu  procedimento,  &  íaber  ,  he o  Ca- 
pellaõ, a  quem  fe  ha  de  encomendar  o  enfino  de  tudoaque 
pertence  ávida  Chriftaã  ;  para  deita  forte  fatisfazer  á  mayor 
das  obrigações,  que  tem  :  a  qual  he  doutrinar,  ou  mandar 
doutrinar  a  família ,  &  Efcravos,  naõ)à  por  hum  Crioulo  y  òii 
por  hum  Feitor,que  quando  muito  poderàenfinarlhes  vocal« 
menteasOraçoens,&:  os  Mandamentos  daLey  de  Deos,  $c 
da  Igreja ;  mas  por  quem  faiba  explicarlhes  o  que  hão  de  crer» 
o  que  hão  de  obrar ,  &  como  haõ  de  pedir  a  Deos  aquiílo ,  de 
que  neceílitaõ.  E  para iíTo  fe  íor  necefíario  dar  ao  Capellaõ  ai* 
gumacoufa  mais  do  que  fe  coítuma  j  entenda ,  que  efte  fera -é 
melhor  dinheiro ,  que  fe  dará  em  boa  maõ» 

Tem  pois  o  Capellaõ  obrigação  de  dizer  IVlkTa  na  Ca- 
pella  do  Engenho  nos  Domingos ,  &  dias  fantos ,  ficandolhe 
fivreaapplicaçaõ  das  Mulas  nos  outros  dias  dafemana  por 
quemquizer:  falvofefe  concertar  de  outra  forte  com  o  Se* 
nhor  da  Capella,rccebendo  eftipendio  proporcionado  ao  tra- 
balho. E  nos  mefmos  Domingos ,  &  dias  faiitos  ,ou  pelo  me* 
nos  nos  Domingos ,  fe  fe  admittir  comeffca  obrigação ,.  expli-^ 
earàa  Doutrina  Chriftaã,  a  faber  os  prineipaes  miyfteriosda 
Fé ,  &  o  que  Deos ,  &  a  Santa  Igreja  mandaõ,  que  fe  guarde. 
Qiiam  grande  mal  he  o  peceado  mortal' :  Que  penalhe  tem 
Deos  aparelhado.nefta  >&"  na  outra  vida ,  aonde  a%&kna  vive, 
&  vivirâ immortalmente.  Que  remédio  nos  deo  Deos  naE n= 
earnaçaõ,  ôcMorte  de  Jefu  Chriíto  feu  SantiflimoFilho,  para 


tt  -"Cultura, 

que  fe  nos  perdoaffem  aílim  as  culpas,  como  as  penas,  que  pe- 
las culpas  fe  devem  pagar.  De  que  modo  havemos  deconfef- 
farospeccados3&pediraDeosperdaõ  dellescom  verdadei- 
ro arrependimento,  Scpropofito  firme  de  naõ  tornar  a  com- 
mettellos ,  ajudados  da  graça  divina.  Em  queconíiíle  fazer 
penitencia  de  feuspeccados.  Quem  eílá  no  Santiflimo  Sacra- 
mento do  Altar :  Porque  eftá  ahi ,  ôc  fe  recebe :  Com  que  dií- 
pofiçaõ  fe  ha  de  receber  em  vida,  ôc  por  Viatico  na  doença 
mortal.  Quanto  im  porta  ganhar  as  Indulgências,  para  defeon- 
tar  o  que  fe  deve  pagar  no  Purgatório.  Como  cada  qual  fe  ha 
de  encomendar  a  Deos  paranaõcahirempeccado,  &  ofíè- 
recerlhe  pela  manhãa  todo  o  trabalho  do  dia.  Quanto  faõ  di- 
gnos de  abominação  os  Feiticeiros,&  Curadores  de  palavras, 
6c  os  que  a  elles  recorrem,  deixando  a  Deos ,  de  quem  vem  to- 
do o  remédio  ■:  os  que  daõ  peçonha,  ou  bebidas  (como  di- 
zem1) para  abrandar ,  &  inclinar  as  vontades  :  os  Borrachos, 
©s  Amancebados,  os  Ladrões,  os  Vingativos,  os  Murmura- 
dores,  òeosquejuraõfalfo,  ou  por  malignidade,  ou  porin- 
tereíle ,  ou  por  refpeitos  humanos.  E  finalmente  que  premio, 
&c  que  pena  ha  de  dar  Deos  eternamente  a  cada  qual ,  confor* 
me  obrou  nefla  vida. 

Procurará  também  a  approvaçaõ  para  ouvir  de  confiftaõ 
aos  feus  Applicados  -y  &  para  que  fendo  Sacerdote ,  &  Mini- 
ftrodeDeos,  lhespofla  fervir  frequentemente  de  remédio  5 
naõ  fe  contentando  fó  com  acudir  no  artigo  da  morte  aos  do- 
entes. Mas  advirta  naadminiftraçaõ  deite  Sacramento  ,  aue 
naõ  he  Senhor  delle,  por  muita  authoridade  que  tenha  :  por- 
que fe  o  Penitente  naõ  for  difpofto ,  por  caufa  de  eftar  aman- 
cebado, ou  andar  com  ódio  do  próximo ,  ou  por  naõ  tratar  de 
reftituirafama,ou  a  fazenda,  que  deve  -,  ainda  que  folie. o 
mefmo Senhor  do  Engenho,  o  naõ  ha  de  abfolver  :  &  nifto 
poderia  haver ,  por  rcfpeito  humano ,  grande  encargo  de  cõf- 
ciencia ,  &  culpa  bem  grave. 

Corre 


&•  Opulência  do  'Braftl.  i  j 

* .:":  Corre  também,  por  fua  conta  pôr  a  todos  em  paz  ,  :&  ata* 
l!*ar  diícordias :  &  procurar ,  que  na  Çapella ,  em  que  affiíte, 
feja  Deos  honrado ,  &  a  Virgem  Senhora  noíla,  cantandolhe 
nos  Sabbados  as  Ladainhas  ;  &  nos  mezes  ,  em  que  o  Enge- 
nho rtaõ  moe ,  o  terçodo  Rofario  :  naõ  confentindo  rifadas , 
nem  converfaçoens,  &  praticasindecentes  3  naõ  fó  na  Capei- 
la,  mas  nem  ainda  no  CopiarVparticularmente  quando  íe  cele- 
bra o  fanto  Sacrifício  da  Miíía. 

Advirta  alem  difto  de  nàõ  receber  Noy vos  ,  nem  bautí- 
zarfóra  de  algum  cafo  de  neceflidade,  nem  defobrigâr  na 
Quarefma  peílòa  alguma  3  fem  licença  in  fcriptis  do  Vigário, 
a  quem  pertencer  daila  -,  nem  fazer  coufa ,  que  toque  á  jurif- 
dicçao  dos  Párocos ;  para  que  nao  encorra  nas  penas ,  &  cen- 
furas,  que íbbreiíTbfaó decretadas y  &  debalde  fe  queixe do 
feu  defcuido ,  ou  ignorância. 

Finalmente  faça  muito  por  morar  fora  de  caía  do  Senhor 
do  Engenho :  porque  afíim  convém  a  ambos  -y  pois  he  Sacer- 
dote ,  &  naô  Criado ,  familiar  de  Deos ,  &  não  de  outro  ho- 
mem :  nem  tenha  em  cafa  Êfcrava  para  o  feu  ferviço }  que  naó 
feja  adiantada  na  idade :  nem  fe  faça  Mercador  ao  divino ,  oií 
ao  humano^  porque  tudo  ifto  muito  fe  oppoem  ao  eftado  Cle~ 
rical,  que  profeífa ,  &  fe  lhe  prohibe  por  vários  Stimmos  Pora* 
tiíices. 

O  que  fe  coftuma  darão  Capelíaõ  cada  anno  pelo  feu  tra- 
balho, quando  tem  as  Miífas  da  femana  livres ,.  faõ  quarenta*. 
ou  cincoenta  mil  reis  :  &  com  o  que  lhe  dao  os  ÀppIicadosr 
vem  a  fazer  húa  porçaõ  competente ,  bem  ganhada ,  fe  guar- 
dar tudo  o  q  acima  eílá  dito.  E  fe  houver  de  enfinar  aos  filhos 
do  Senhor  do  Engenho  5  fe  lhe  acrece  titara  o  que  for  juílo ,  ôc 
eorrefpondente  ao  trabalho. 

No  dia ,  em  que  fe  bota  a  Canna  a  moer ,  fe  o  Senhor  do 
Engenho  naõ  convidar  ao  Vigário ;  o  Capelíaõ  benzerá  o  En- 
genho A  ôc  pedirá  a  Deos  ,o^uedèbonirendimento,s  &  livre 


*4  Cultura , 

aos  que  nelle  trabalhão  de  todo  odefaftre.  E  quando  no  fim 
dafafrao  Engenho  pej ar y  procurará,  quetodosdemaDeos 
as  graças  na  Capella. 

C   A   P    I   T   U   L  O      V. 

Do  Feitor  Mor  do  Engenho  ,  Qf  dos  outros  Feitores 
menores ,  que  ajftfiem  na  Moenda ,  Fazendas  ,     . 
Qf  Partidos  da  Qanna  :fuas  obrigaçoensj 
&'  foldadas* 

S  braços ,  de  que  fe  vai  o  Senhor  do  Engenho  ,  para  o 
bom  governo  da  Gente ,  &  da  Fazenda ,  faõ  os  Feito- 
res. Porém,  fe  cada  hum  delles  quizer  fer  cabeça,  fera  o  go- 
verno monítruofo,  6c  hum  verdadeiro  retrato  do  Caõ  Cfer- 
bero,  a  quem  os  Poetas  fabulofamente  daó  três  cabeças.  Eu 
naõ  digo ,  que  fe  naõ  dé  authoridade  aos  Feitores :  digo ,  que 
efta  authoridade  ha  de  fer  bem  ordenada  ,  &  dependen  te  ,  naõ 
abfolutaj  de  forte,  que  os  menores  fe  hajaõ  com  fubord  ma- 
ção ao  mayor ,  Sc  todos  ao  Senhor ,  a  quem  fervem.  Convém, 
queosEfcravosfeperfuadaõ,  que  o  Feitor  Mor  tem  muito 
poder  para  lhes  mandar  -,  &  para  os  reprehender ,  &  cafhgar, 
quando  for  neceíTario :  porém  de  tal  forte,  q  também  faibaó  , 
que  podem  recorrer  ao  Senhor j  &  q  haó  de  fer  ouvidos ,  como 
pede  a  juftiça.Nem  os  outros  Feitores,  por  terem  mando,  haõ 
de crer,  que o  feu  poder  naó he coartado,  nem  limitado ,  prin- 
cipalmente no  que  heeaítigar,  &  prender.  Por  tanto  o  Se- 
nhor ha  de  declarar  muito  bem  a  authoridade,  queda  a  cada 
hum  delles ,  &  mais  ao  Mayor :  &  fe  excederem ,  ha  de  puxar 
pelas  rédeas  com  a  r.epreheníaó  ,que  os  exceíícs  merecem: 
mas  naõ  diante  dosEfcravos,  para  que  outra  vez  fe  naó  levan- 
tem contra  o  Feitor  -}  Sceíteleve  a  mal  de  fer  rcprehendido 

diante 


&-  Opulência  do  TZrafiL  15 

diante delles ,  & fe naõ atreva  a  governallos.  Só  bafíarà ,  que 
por  terceira  petToa  fe  faça  entender  ao  Efcravo,  quepadeceo, 
&:  a  alguns  outros  dos  mais  antigos  da  Fazenda,,  que  o  Se- 
nhor eííranhou  muito  ao  Feitor  o  excello,  que  commetteo; 
&:que  quando  fe  naõ  emende,  o  ha  de  defpedir  certamente. 

Aos  Feitores  de  nenhuma  maneira  fe  deve  confentir  o  dar 
couces,  principalmente  nas  barrigas  das  Mulheres,  que  an- 
daó  pejadas;  nem  dar  com  pao  aos  Efcravos  :  porque  na  có- 
lera fè  naó  medem  os  golpes;  8c  pode  ferir  mortalmente  na  ca- 
beça a  hum  Eícravo  de  muito  preííimo,  que  vai  muito  dinhei- 
ro, Sc  perdello.  Reprehendellos ,  &  chegarlhes  com  hum  ci- 
pó âs  coitas  com  algumas  varancadas ,  he  o  que  fe  lhes  pôde, 
&  deve  permittir  para  eníino.  Prender  os  fugitivos ,  &  os  que 
brigarão  com  feridas ,  ou  fe  embebedarão ,  para  que  o  Senhor 
os  mande  caítigar,  como  merecem  j  he  diligencia  digna  de 
louvor.  Porém  amarrar,  &  caíligar  com  cipó,  até  correr  o  fan* 
gue ;  Sc  meter  no  tronco ,  ou  em  liíia  corrente  por  mezes  £ef- 
tando  o  Senhor  na  Cidade  )  aEfcrava ,  que  naõ  quiz  confen- 
tir no  peceado  y  ouao  Eícravo  ,  que  deo  fielmente  conta  da 
infidelidade,  violência,  &  crueldade  do  Feitor ,  queparaif- 
ío  armou  delitos  fingidos  riflo  de  nenhum  modo  fehadefo~ 
frerj  porque  feria  ter  hum  Lobo  carniceiro  y$c  naõ  hum  Fei« 
tor  moderado ,  &  Chriítaó. 

Obrigação  do  Feitor  Mor  doEngenho  He  governar  a  gcn 
te ,  &  repartia  a  a  feu  tempo ,  como  he  bem ,  para  o  ferviço,  Á< 
elle  pertence  faber  do  Senhor ,  a  quem  fe  hadeavifar  para  que 
corte  a  Canna  5  &  mandarlhe  logo  recado.. Tratar  de  aviar  os 
Barcos ,  &  osCarros  para  bufear  a  Canna ,  formas ,  &  lenha. 
Dar  conta  ao  Senhor  de  tudo  o  que  he  neceííario  para  o  apa* 
relho  do  Engenho ,  antes  de  começara  moer  -,  &  logo  acaba- 
da a fafra ,  arrumar  tudo  em  feu  lugar.  Vigiar,  que  ninguém 
falte  áfiiâ  obrigação :  êc  acudir  depreíía  a  qualquer  defaírres  á 
fueceda,  para  lhe  dar,quãto  puder  fer^o  rexnedio.Adoecendb 


Cultura , 

qualquer  E/cravo,  deve  iivrallo  do  trabalho  5  &;pôr  outro  em 
íeu  lugar :  6c  dar  parte  ao  Senhor,  para  que  trate  de  õ  mandar 
curar  5  6c  ao  Capellaõ ,  para  que  o  ouça  deconfillaõ  ,  &  o  dis- 
ponha, crecendo  a  doença,com  os  mais  Sacramétos  para  mor- 
rer. Advirta ,  que  fe  naõ  metaò  no  carro  -os  Boys ,  que  traba- 
lharão muito  nos  dias  antecedentes :  6c  que  em  todo  o  ferviço 
aílim  como  fe  dá  algum  defcanço  aos  Boys ,  òc  aos  Cavallcs  ; 
aílim  fe  dé ,  &  com  mayor  razaõ ,  por  fuás  efquipaçcens  aos 
Efcravos. 

O  Feitor  da  Moenda  chama  a  feu  tempo  as  Efcravas  ,  re- 
cebe a  Canna ,  6c  a  manda  vir,  &  meter  bem  nos  Eixos ,  &  ti- 
rar o  bagaço :  attentando,  q  as  Negras  naõ.  durmão,  pelo  pe- 
rigo que  ha  ,  de  Mearem  prezas ,  6c  moidas  ,  felhes  naõ  cor- 
tarem as  mãos ,  quando  iílo  fueceda  5  6c  mandando  junta- 
mente divertir  a  agua  da  Roda ,  para  que  pare.  Procura ,  que 
de  vinte  6c  quatro  em  vinte  &  quatro  horas  fe  lave  a  Moenda, 
Sc  que  o  Caldo  vá  limpo ,  &  fe  guinde  para  o  Paról.  Pergunta 
quanto  Caldo  ha  mifter  nasCaldeiras,para  que  faiba  com  efte 
avifo,  fe  ha  de  moer  mais  Canna  ,  ou  parar  ,  atè  que  fe  dé  va- 
#aõ  ,  para  que  naõ  azede  o  que  jâ  eítá  no  Paról. 

Os  Feitores ,  que  eílaõ  nos  Partidos ,  &  mais  Fazendas , 
{em  à  fua  conta  defender  as  Terras  :  ■&  avifar  logo  ao  Senhor, 
fe  ha  quem  fc  metta  dentro  das  Roças ,  Cannaveaes ,  &  Mat- 
tos ,  para  tomar  o  que  naõ  he  íeu.  Aíliítir  aonde  os  Efcravos 
trabalhão ,  para  que  fe  faça  o  ferviço ,  como  he  bem.  Saber  os 
tempos  de  plantar ,  limpar,  &  cortar  a  Canna,  &  de  fazer 
Roças.  Conhecer  a  diveríidade  das  Terras ,  que  ha ,  para  fer- 
virfe  delias  para  o  que  forem  capazes  de  dar.  Tomar  a  cada 
Efcravo  a  Tarefa ,  6c  as  mãos ,  que  he  obrigado  entregar.  At- 
tentar  para  os  caminhos  dos  Carros ,  que  fejaõ  taes ,  que  por 
elles  fe  poíía  conduzira  Canna,6c  a  lenha,  de  forte  que  naõ  fi- 
quem na  lama :  &  que  também  os  Carros  fe  concertem  quan- 
do for  necefiario.  Ver  ,  que  cada  Efcravo  tenha  fua  fou- 
ce, 


&  Opulência  do  'Bra/ii.  *  ? 

■çe,  &  enxada ,  Sc  o  mais ,  que  ha  miíter  para  o  ferviço.  E  efte- 
ja  muito  attento ,  que  fe  naõ  pegue  o  togo  nos  Cannaveaes 
por  defcuido  dos  Negros  boçaesyque  ás  vezes  deixaó  ao  ven- 
to o  tiçaó  de  fogo,  que  levâraõcomfigo  para  ufârem  do  ca- 
chimbo: êcem  vendo  qualquer  lavareda,  acuda-lhelogo  com 
toda  a  gente ,  &  corte  com  fouces  o  caminho  á  chama ,  que 
vay  crecendo  ,com  grande  perigo  de  fe  perderem  em  mèya 
hora  muitas  Tarefas  deCanna, 

Ainda  que  fe  faiba  aTarefa  da  Canna ,  que  hum  Negro 
ha  de  plantar  em  hum  dia ,  &  a  que  ha  de  cortar ;  quantas  Co- 
vas de  Mandioca  ha  de  fazer  ,  &  arrancar  ;  Sc  que  medida  de 
lenha  ha  de  dar ,  como  fe  dirá  em  feu  lugar :  com  tudo,  haõ  de 
attentaros  Feitores  â  idade,  &  ás  forças  de  cada  qual ,  para 
diminuírem  o  trabalho  aos  que  elles  manifeítamente  vem, 
que  naõ  podem  com  tanto:  como  faõ  as  Mulheres  pejadas  de- 
pois de  féis  mezes ,  &  as  que  ha  pouco  que  paríraõ ,  8c  criaõy 
os  velhos ,  ôc  as  velhasj  6c  os  que  fahíraõ  ainda  convalecentes 
de  algúa  grave  doença. 

Ao  Feitor  Mor  daõ  nos  Engenhos  ReaesTeíTenta  mil  reis.1 
Áo  Feitor  da  Moenda,  aonde  fe  moe  por  fete  ,  6c  oito  mezes» 
quarenta,  ou  cincoenta  mil  reis ,  particularmente  fe  fe  lhe  en- 
comenda algum  outro  fer  viço  :mas  aonde  ha  menos  que  fa- 
zer 3  Sc  naõ  fe  occupa  em  outra  coufa ,  daõ  trinta  mil  reis.  Aos 
que  aíliftem  nos  Partidos,  &  Fazendas ,  também  hoje,  aonde 
a  lida  he  grande,  daõ  quarenta,  ou  quarenta  &  cinco  mil  reis. 


B 


C  A- 


C   A   P   I    T   U   LO    VI. 

Do  Meftre  do  ^Afjucar ,  Ç$*  Soto-meftré  a  quem  cha? 

maõ  Banqueiro  y  Q?  do  feu  Ajudmte,  a  quem 

chamao  udjudabanqueiro. 


■ 


A  Quem  faz  o  ÁíTucar ,-  com  razaõ  fé  dá  o  nome  de  Me- 
ftre ;  porque  o  feu  obrar  pede  intelligencia ,  attençaõ  y 
Sc  experiência :  &  eíla ,  naõbafta  quefeja  qualquer  5  mas  he 
neceíTaria a  experiência  local ,:  a faber ,  dokigar ,  Sc  qualida- 
de da  Canna  ,  aonde  íe  planta ,  St  fe  moe :  porque  os  Canna- 
veaes  de  hua  parte,  daõ  Canna  muito  forte  $.&  de  outra,  mui- 
to fraca.  Diverfo  çumo  tem  a  Canna  das  Várzeas,  do  que  tem 
a  dos  Outeiros :  a  das  Várzeas  vem  muito  aguacenta,  Sc  o  cal- 
do delia  tem  muito  que  purgar  nas  Caldeiras ,  &  pede  mais 
decoada:  a  dos  Outeiros  vem  bé  aíTiicarada5&:  o  feu  caldo  pe- 
de menos  tempo,  &c  menos  decoada  para  fe  purificar,  Sc  cla- 
rificar. Nas  Tachas  ha  Melado,  que  quer  mayor  cozimento^ 
&  ha  outro  de  menor  :  hum ,  logo  fe  eondenfa  na  batedeira: 
outro ,  mais  de  vagar. Das  três  Temperas ,  que  fe  haõ  de  fazer 
para  encher  as  formas^depende  o  purgar-fe  o  Afilicar  bem,  ou 
mal ,  conforme  ellas  faõ.  Se  o  M  eílre  fe  fiar  dos  Caldeireiros , 
Sc  dos  Tacheiros ,  húas  vezes  cançados,  outras  fonorentos,  Sc 
outras  alegres  mais  do  que  convém ,  Sc  com  a  cabeça  efquen- 
tadajacontecerlhe-haver  perdida  hua,  Sc  outra  Meladura, 
fem  lhe  poder  dar  remédio.  Porifio  vigie  em  coufa  de  tanta 
importância :  Sc  fe  o  Banqueiro ,  Sc  o  Ajudabanqueiro  naõ  ti- 
verem a  intelligencia, &  experiência  neceífaria  para  fuppri- 
rem  em  fua  aufencia>  naõ  defeance  fobre  elles :  enfme-os ,  avi- 
íè-os  3  Sc  fe  for  neceííano  3  reprehenda-os  3  pondo-lhes  diante 

dos. 


&-  Opulência  do  'Bra/íL  xp 

dos  olhos  o^rejiúzo  do  Se  nhor  do  Engenho  ,  &  dosrLan&- 
dores,fe  íe  perder  o  Matado  nas  Tachas,  ou  fe  formal  tempe- 
radopara  as  Formas.. 

Veja,que  o  Feitor  díMoenda  modere  de  tal  forte  o  moer, 
que  lhe  naõ  venha  ao  Pa  rol  mais  caldo  do  que  ha  miíter;  para 
ihe  poder  dar  vazáõ  antes  que  fe  comece  a  azedar ,  purganv 
do-o,  cozendo-o,  &  batendo-o,  quanto  he  neceíTario. 

Antes  de  fe  botara  decoada  nas  Caldeiras  do  caldo,  ex- 
perimente ,  queítalêlla;he-j  &:  depois  veja ,  como  os  Caldei- 
reiros a  botaõ ,  8c  quando  haõ  de  parar :  nem  confinta ,  que  a 
Meladurafe  coe,  antes  de  ver  ,fe  ooddoeftá  purificado,  cp- 
móhadefer  :&omefmoéigodapaíragemdehúa  paraoutra 
Tacha ,  quando  fe  hade  cozer ,  8c  bater  :fendo  a  alma  de  todo 
o  bomfucceífo  a4iligente  attençaõ, 

A  jufíiça,  &  a  verdade  o  obrigaõ  a  naó  miílurar  o  AlTucar 
de  hurn  Lavrador  com  odo  outro  :  8c  por  úTo nas  Formas, 
que  manda  pôr  no  Tendal ,  faça,  que  haja  final  com  que  fe 
poífaõ  diftinguir  das  outras ,  qu  e  pertencem  a  outros  donos* 
para  que  o  Meu  \  8c  o  Teu,  inimigos  da  paz  ,  iiaõ  íejaò  caufa 
de  bulhas.  E  para  que  a  fua  obra  feja  perfeita ,  tenha  boa  cor- 
refpondencia  com  o  Feitor  da  Moenda,  que  lhe  envia  o  Cal- 
do j  com  o  Banqueiro,  &z  Sotobanqneiro ,  quelhefuccedem 
de  noite  no  ofiicio  j  &c  com  o  Purgador  do  Aílucar}  para  que 
vejaõ  juntamente  donde  nace  o  purgar  bem  ,  ou  mal  em  as 
Formas :  8c  fejaõ  entre  fi  como  os  olhos ,  que  igualmente  vi- 
giaõ  ;&  como  as  mãos ,  que  unidamente  trabalhão. 

O  que  até  agora  eílá  dito ,  pertencerem  grande  parte  ao 
Banqueiro  também ,  quehcoSoto-meftre,  &c  aoSoto-ban- 
queirofeu  Ajudante.  Ealemdiflb  pertence  a  éftes  dousOf- 
ficiaes  ter  cuidado  do  Tendal  das  Formas  3  de  taparlhes  os 
•buracos ,  cavarlhes  as  covas  de  bagaço  corri  cavadores ,  endi- 
reitallas,  8c  botar  nellas  o  AíTucar  feito eom  as  três  Tempe- 
ras 5  das  quaes  fe  fallarà  em  feu  lugar  :  8c  depois  detresdias, 

B  %  enviallas 


ao  Cultura, 

enviallas  paraaCafa  de  purgar,  ou  fobrepa  violas,  ou  às  co- 
itas dos  Negros ,  paca.  que  o  Purgador  trate  delias. 

Devem  também  procurar ,  que  fe  faça  a  répartiçaõjufta 
?dos  claros  entre  os  Efcra vos,  conforme  o  Senhor  ordenar  -,  & 
.que  nefta  Cafà  haja  toda  a  limpeza,  &  claridade,  agua ,  der 
coada ,  &  todos  osinftrumentQs , dos quaes nellafeufa.  E ao 
Meftre  pertence  ver ,  antes  de  começar  o  Engenho  a  moer. ,  fe 
.es.  fundos  das  Caldeiras  ,  &  das  Tachas  tem  neceílidadede 
ferefazeremj&fe  os  aífentos  delias  pedem,  novo,  &mais  fir- 
me concerto^ 

AfoldadadoMeílrede  AíTucar  nos  Engenhos  ,  que  fa- 
zemquatro ou  cinco milpaés,,  particularmente  fe  elle  vifita 
também  a  Cafa.de  purgar,  he  de  cento  &■  trinta  mil  reis  :  em 
outros  daõ-lhe  fó  cem  mil  reis.  Ao  Banqueiro  nos  mayores., 
quarenta  mikeis:j  nos  menores  y  trinta  mil  reis.  Ao  Sotoban- 
queiro  (que  comummente  he  algumJVIulato ,  ou  Crioulo  Eí- 
cravo  de  cafa.)  dá.fe  também  no  fim  da  fafra  algum  mimo ,  fe 
fervio  çomfatisfaçaó  no  feu  officioj  para  que  a  efperança  de- 
ite limitado  premio  o/alente  fuav emente  para  o  trabalho. 

C  A   P   I  T   U    LO     VIL 

Do  Purgador  de  Afincar.. 

AO  Purgador  do  AíTucar  pertence  ver  o  barro,  que  vem 
para.o  giraoa  feccar-fe  fobre  oCinzeiro  ,fe  he  qual  de- 
ve fer ,  como  fediri  em  feu  lugar :  olhar  para  o  Amaílador  ,  fe 
anda ,  como  deve ,  com  o  Rodo  no  Cocho :  furar  os  Paens  nas 
Formas ,  &  le vantallas»  Conhecer,  quando  o  AíTucar  eftá  en- 
xuto,&  quando  he  tempo  de  lhe  botar  o  primeiro  barrou  co- 
jnoefte  fe  ha-deeltender ,  &  quanto  tempo  fe  ha  de  deixar , 
antes  de.lhe  botar  o  fegundo :  como  felhe  haõ  de  dar  as  humir 

dades* 


"&-  Opulência  do  cBra(il.  z  i 

dades,  ou  lavagens ,  Sc  quantas  fe  lhe.  haõ  de  dar  v Sç  quaes  faó 
os  finaes  de  purgar  ,  ou  naõ  purgar  bem  o  AíTucar ,,  conforme 
as  diverfas  qualidades ,  Sc  temperas.  A  elle  também  pertence 
ter  cuidado  dos  Meles ,  ajuntai  los ,  cozellos ,  &  fazer  delles 
Batidos  j  ou  guardallos ,  para  fazer  Agua  ardente.  Deve  jun- 
tamente ufa  de  toda  a  diligencia,  para  que  fe  naófnjem  os, 
Tanques  do  Mel  >  Sc  de  alguma  induítria  parar  afugentar  aos 
Morcegos ,  que  cõmúmente  faó  a  praga  quaíi  de  todas  as  Ca- 
ías de  purgar. 

Ao  Purgador  de  quatro  mil  Paes  de  AíTucar  áí-íc  folda^ 
da  de  cincoenta  mil  reis .  Aos  que  tem  menos  trabalho  dá-fe 
também  menos  ,  com  a  devida  proporção. 

CAPITULO     VIII. 

Do  Caixeiro  do  Engenho. 

O  Que  aqui  lê  dirá ,  naõ  pertence  ao  Caixeiro  da  Cidades 
porque  efte  trata  fó  de  receber  o  AíTucar  já  encaixa*» 
do  3  deomandaraoTrepiche  ,  de  o  vender,  ou  embarcar, 
conforme  o  Senhor  do  Engenho  ordenar :  &  tem  Livro  de  ra- 
zão de  dar ,  Sc  haver  :  ajufta  as  contas ,  Sc  ferve  de  Agente, 
Contador,  Procurador ,  Sc  Depoíkario  de  feu  Amo  :  ao  qual, 
fe  a  lida  he  grande ,  dá-fe  foldada  de  quarenta  ou. cincoenta 
mil  reis.  Fallo  aqui  do  Caixeiro ,  que  encaixa  o  AíTucar ,  de- 
pois de  purgado.  E  fua  obrigação  he ,  mandar  tirar  o  AíTu« 
car  das  Formas ,  eftandojá  purgado ,  Sc  enxuto  em  dias  cla- 
ros ,  Sc  de  Sol :  aííiílir,  quando  fe  mafcava,  Sc  quando  fe  bene- 
ficia no  Balcão  de  feccar ,  partindo-o ,  quebrando-o ,  como 
fe  dirá  em  feu  lugar.  Elle  he  que  péza  o  AíTucar ,  Sc  que  o  re- 
parte com  fidelidade  entre  os  Lavradores,  Sc  o  Senhor  do  En- 
genhoj&  tira  o  dizimo,  quefedeveaDeos^  6ç  a  vintena,  ou 

B  3  quinto, 


' 


flly 


ai'  Cintura, 

quinto,  que  pagaõ  os  que lavraõ  em  terras  cio  Engenho .  con- 
forme o  concerto  feito  nos  Arrendamentos ,  &  o  eftylo  ordi- 
nário da  Terra  ,  o  qual  em  vários  lugares  he  diverfo  :  ■&  tudo 
affenta, para  dar  conta  exactamente  de  tudo.  A  elle  também 
pertence  levantar  as  caixas,  &  mandarias  barrear  nos  cantos.- 
encaixar,  &r  mandar  pilar  o  AíTucar,  com  ádiviíaó  do  Branco 
Macho,  do  Batido,  &  Mafcavado  :  fazer  as  Caras  ,  &  os  Fe- 
chos, quando  affim  lho  encomendarem  os  donos  do  AíTu- 
car :  &  finalmente  pregar ,  &  marcar  as  Caixas  j  &  guardar  o 
AíTucar  3  que  fobejou,  para  feus  donoscmlugarfeguro  ,  Sc 
naõ  húmido  ;  &  os  inílrumentos ,  de  que  ufa.  Entrega  as  Cai- 
xas ,  quando  fe  haó  de  embarcar ,  com  ordem  de  quem  as  re- 
cada  ou  como  dono  delias,  ou  porque  as  alcançou  por  j  ufti- 
Ça,  como  muitas  vezes  acontece ,  fazendo  os  Acredores  pe- 
nhora no  AíTucar  dos  devedores,  antes  que  faya  do  Enge- 
nho: &  detudo  pedirá  recibo,  &  clareza,  para  poder  dar  con- 
ta de  íi  a  quem  lha  pedir. 

A  foldada  do  Caixeiro  nos  Engenhos  m ay ores  he  de  qua- 
renta mil  reis :  &  fe  feitoriza  alguma  parte  do  dia ,  ou  de  noy^ 
te,daõ-felhe  cincoenta  mil  reis:  nos  menores  daó  trinta  mil. 


A   P   I   T  U  L   O     IX. 

.Gomo  fe  hade  haver  o  Senhor  do Engenho com  feus 

Mfcravos* 

OS  Efcravos  faó  aSniãos ,  &  os  pés  do  Senhor  do  Enge- 
lho j  porque  fem  elles  no  Braíil  naõ  hepoiTivél  fazer, 
confervar  ,  &  aumentar  Fazenda,  nem  ter  Engenho  corrente. 
£  do  modo,  com  que  fe  ha  com  elles,  depende  tellos  bons, 
ou  maosparaoíerviço.  PoriíTohe.neceíTario  comprar  cada 

anno 


&  Opuhncia  do  TSrafil.  1 1 

ânno  'algumas  peças,  &  repartillas  pelos  .Par  ri-los ',  Roças* 
Serrarias,  &  Barcas.  É  porque  comummente  faõ  de  Naçoens 
diverfas ,  &  huns  mais  boçaes  que  outros ,  6c  de  forças  muito 
differentes  •,  fe  ha  de  fazer  a  repartição  com  reparo ,  &  efco* 
lha  ,6cnaõàs  cegas.  Os  que  vem  para  o  Braíi],  faõ  Ardas  j 
Minas,  Congos,deS.Thomé,  de  Angola,  de  Cabo  Verdey 
6c  alguns  de  Moçãbique,  q  vem  nas  Nãos  dalndia.  Os  Adas; 
■éc  os  Minas  faõ  robuftos.Os  de  Cabo  Verde,  de  de  SJThomè 
faõ  mais  fracos.  Os  de  Angola  creados  emLoanda  faõ  mais 
capazes  de  aprender, oíÍ€Íosinecanicos,q  os  das  outras  partes 
j  á  nomeadas .  E ntre  os Con  gos  ha  também  alguns  baftantemé- 
te  induftriofos ,  6c  bons ,  náõ  fomente  para  o  fervi ço  da  .Can-*' 
na ,  mas  para  as  Officinas  >  8c  para  o  meneo  da  cafa. 

Huns  chegaõ  ao  Brafil  muito  rudes ,  6c  muito  fechados , 
6c  aífim  continuaó  por  toda  a  vida.  Outros  em  poucos  annos 
íaem  ladinos ,  6c  efpertos,  aííim  para  aprenderem  a  Doutrina 
Chriítal ,  como  para  bufearem  modo  de  paliar  a  vida ,  Sc  pa- 
ra fe  lhes  encomendar  hum  barco ,  para  levarem  recados  , 
&c  fazerem  qualquer  diligencia  das  que  coílumaõ  ordinária-' 
mente  oceorrer.  As  Mulheres  ufaõ  de  fouce,  6c  de  enxada, 
como  os  Homens  :  porém  nos  Mattos ,  fomente  os  Eferavos' 
ufaõ  de  machado.  Dos  ladinos  fe  faz  efeolha  para  CaldeireL' 
ros ,  Carapinas ,  Calafates ,  Tacheiros ,  Barqueiros ,  &c  Ma. 
rinheiros;  porque  eftasoecupaçoens  querem  mayor  adver.' 
tencia.  Os  que  defde  novatos  fe  metèraõ  em  alguma  Fazen^ 
da,  naõ  he  bem  que  fe  tirem  delia  contra  fua  vontade  >  por-' 
que  facilmente  feamofinaõ  ,  6c  morrem.  Os  que  nacèraõ  no: 
Brafil,  ou  fecreâraõ  defde  pequenos  em  cafa  dos  Brancos,  af-: 
feiçoando-fe  a  feus  Senhores ,  daó  boa  conta  de  íi :  6c  levando- 
bom  cativeiro ,  qualquer  delles  vai  por  quatro  boçaes. 

Melhores  ainda  faõ  para  qualquer  orBcio  os  Mulatos! 
porém  muitos  delles  ufando  mal  do  favor  dos  Senhores ,  fácV 
foberbosJ  6c  viciofos  ,6c  prezaõ-fe  de  valentes  yaparelhados^ 
•■-"  ■']  B4  para 


^4  Cultura, 

para  qualquer  defaforo.  E  comtudo  elles ,  &  elías  da  mefma 
cor ,  ordinariamente  levaõ  no  Brafil  a  melhor  forre ;  porque 
com  aquella  parte  de  Tangue  de  Brancos ,  que  tem  nas  veas,  & 
tal-vez  dos  feus  mefmos  Senhores,  os  enfeitiçaõ  de  tal  manei- 
ra^ que  alguns  tudo  lhes  fofrem,  tudo  lhes  perdoaõ  r  apare- 
ce, que  fenaõ  atrevem  a  reprehendellos;  antes  todos  os  mi- 
mos faõ  feus.  E  naõhe fácil  coufa decidir,  fe  nefta  parte  faõ 
mais  remidos  os  Senhores ,  ou  as  Senhoras  j  pois  naõ  falta  en- 
tre elles  3  &  ellas ,  quem  fe  deixe  governar  de  Mulatos ,  que 
naõ  faõ  os  melhores  :  para  que  fe  verifique  o  provérbio,  que 
diz :  Que  o  Braíil  he  Inferno  dos  Negros ,  Purgatório  dos 
Brancos,  &  Paraifo  dos  Mulatos,  &  das  Mulatas .'faivo  quan- 
do por  alguma  defconfiança ,  ou  ciúme ,  o  amor  fe  muda  em 
ódio ,  6c  fae  armado  de  todo  o  género  de  crueldade ,  &  rigor. 
Bom  he  valer- fe  de  fuás  habilidades,  quando  quizarem  ufar 
bem  delias,  comoafíim  o  fazem  alguns  -r  porem  naõ  fe  lhes 
ha  de  dar  tanto  a  maõ ,  que  peguem  no  braço ,  &  de  Efcravos 
fe  façaõ  Senhores.  Forrar  Mulatas  defenquietas  ,  he  perdi- 
ção manifefta;  porque  o  dinheiro,  que  daõ  para  fe  livrarem, 
raras  vezes  fae  de  outras  minas ,  que  dos  feus  mefmos  corpos  , 
com  repetidos  peccados :  &  depois  de  forras ,  continuaõ  a  fer 
ruína  de  muitos. 

Oppoem-fe  alguns  Senhores  acs  cafamentos  dos  Efcra- 
vos ,  &  Efcravas  }  &  naõ  fomente  naõ  fazem  cafo  dos 
feus  amancebamentos ,  mas  quaíi  claramente  os  confentem  » 
<8c  lhes  daõ  principio ,  dizendo :  Tu  Fulano  a  feu  tempo  cafa- 
ràs  com  Fulana ;  &  dahi  por  diante  os  deixaõ  converfar  entre 
íi,  como  fe  jà  fofíem  recebidos  por  Marido,  &  Mulher :  &  di- 
zem, que  os  naõ  cafaõ,  porque  temem  que  enfadando- fe  do 
cafamento,  fe  matem  logo  com  peçonha,  ou  com  feitiços; 
naõ  faltando  entre  elles  Meftres  infignes  nefta  Arte.  Outros» 
depois  de  eílaremcafados  os  Efcravos,  osapartaó  de  tal  for- 
te por  annos,  que  ficaõ  como  fefoíTem  folteiros  :  o  que  naõ 

podem 


C>  Opulência  do  "Bra/il.  i  f 

podem,  fazer  em  confciencia.  Outros  faõ'tam  pouco  cuida- 
dofos"do  que  pertence  á  falvaçaõ  dos  feus  Efcravos ,  qlieos 
tem  por  "muito  tempo  no  Cannaveal ,  ou  no  Engenho  fem 
Bautifmo:  &  dos  bautizados  muitos  naõ  fabem,  quem  he  o 
feu  Creador ;  o  que  haõ  de  crer ;  que  ley  haõ  de  guardar  •,  co- 
mo fe  haõ  de  encomendar  a  Deos>  a  q  vaó  osChriftáos  á  Igre- 
ja j  po  rq  adoraó  a  Hoftia  confagrada ;  que  vaó  a  dizer  ao  Pa- 
dre, quando  ajoelhaõ ,  &  lhe  fallaõ  aos  ouvidos  >  fe  tem  alma; 
&fe  ella  morre,&para  onde  vay,quando  fe  aparta  do  corpo.E 
fabendo  logo  os  mais  boçaes ,  como  fe  chama,  8c  quem  he  feu 
Senhor  quantas  covas  de  Mandioca  haó  de  plantar  cada  dia* 
quantas  mãos  de  Canna  haó  de  cortar  ■,  quantas  medidas  de 
lenha  hão  de  dar ;  &  outras  coufas  pertencentes  ao  ferviço  or- 
di  nario  de  feu  Senhor :  &  fabendo  também  pedirlhe  perdaõ  , 
quando  errâraõ  ,  &  encomendarfe-lhe,  para  que  os  naõ  ca* 
fiiprie ,  com  promettimento  da  emenda ;  dizem  os  Senhores , 
que  eftes  naó  faõ  capazes  de  aprender  a  confeflarfe ,  nem  de 
pedir  perdaõ  a  Deos ,  nem  de  rezar  pelas  contas ,  nem  de  fa- 
ber  os  dez  Mandamentos:  tudo  por  falta  de  eniino,  &  por  naó 
confiderarem  a  conta  grande  ,  que  de  tudo  ifto  haõ  de  dará 
Deos  j  pois  (.  como  diz  Saõ  Paulo  )  fendo  Chriftáos  ,  &  def- 
cuidando-fe  dos  feus  Efcravos  ,  fehaõcom  ellespeyor,  do 
que  feibíTem  Infiéis.  Nemosobrigaõ  os  dias  Santos  a  ouvir 
Miffa i  antes  tal  vez  os  oceupaõ  de  forte ,  que  naó  tem  lugar 
para  úTo:  nem  encomendaõ  ao  Capellaõ  doutrinallos ,  dan- 
do-lhe  por  eíle  trabalho ,  fe  í or  neceííario ,  mayor  eftipendio. 
O  que  pertence  ao  fuftento,  veftido,&  moderação  do  tra- 
balho ■,  claro  eftá ,  que  fe  lhes  naõ  deve  negar :  porque  a  quem 
o  ferve  deve  o  Senhor  de  juftiça  dar  fufficiente  alimento ;  me- 
zinhas na  doença  -y  &modo  ,  com  que  decentemente  fe  cu- 
bra ,  &c  viíta,  como  pede  o  eílado  de  Servo,  &  naõ  apparecen- 
do  quaíl  nú  pelas  ruas ;  &  deve  também  moderar  o  ferviço  de 
forte, que  naõfeja  fuperior  ás  forças  dos  que  trabaihaõ3fe  quer 

que 


mm 


%&  Cultura, 

que  poíTaÕ  aturar.  No  Brafil  coftumaõ  dizer ,  que  paraoEf- 
çravo  faó  neceíTarios  três  PPP,  a  faber  Pao,  PaÕ,  6c  Panno.  E 
poílo  que  comecem  mal  ,  principiando  pelo  caítigo,  que  he 
oPaOi  com  tudo  prouvera  a  Deos  que  taõ  abundante  fofle  o 
comer,  &  o  veftir,  como  muitas  vezes  he  o  caítigo,  dado 
por  qualquer  caufa  pouco  provada ,  ou  levantada  ;  6c  com  in- 
ílrumentos  de  muito  rigor,  ainda  quando  os  crimes  faó  cer- 
tos: de  que  fenaõ  ufa  nem  com  os  Brutos  animaes,  fazendo 
algum  Senhor  mais  cafo  de  hum  Cavallo  ,  que  de  meya  dú- 
zia de  Efcravos :  pois  o  Cavallo  he  fervido ,  Sc  tem  quem  lhe 
bufque  capim  ;  tem  panno  para  o  fuor }  ôc  fella ,  6c  frevo  dou- 
rado. 

Dos  Efcravos  novosfe  ha  de  termayor  cuidado;  porque 
ainda  naõ  tem  modode  viver ,  como  os  que  trataõ  de  plantar 
luas  Roças :  6c  os  que  as  tem  por  fua  induftria,  naó  convém , 
que  fejaófó  reconhecidos  por  Efcravos  na  repartição  do  tra- 
balho; 8c  efquecidos  na  doença  >  6c  na  farda.  Os  Domingos, 
3cdiasfantosdeDeos,ellesos  recebem  :  &  quando  feu  Se- 
nhor lhos  tira ,  &  os  obriga  a  trabal  har ,  como  nos  dias  de  fer-  i 
viço,  fe  amofinap  ,  8c lhe  rogaõ  mil  pragas.  Coftumaõ alguns , 
Senhores  dar  aos  Efcravos  hum  dia  em  cada  femana,  parai 
plantarem  para  íi,  mandando  algumas  vezes  com  elles  o  Fei-> 
tor,  para  que  fe  naõ  defeuidem:  &  ifto  ferve  ,  para  que  naq, 
padeçaõ  fome,  nem  cerquem  cada  dia  a  cafa  de  feu  Senhora 
pedindo-lhe  a  raçaõ  de  farinha.  Porem  naõ  lhes  dar  farinha,- 
nem  dia  para  a  plantarem;  &  querer,  que  firvaó  de  Sol  a  Sol 
no  Partido,  de  dia,  6c  denoytecom  pouco  defeanço  no  En- 
genho :  como  fe  admittirá  no  Tribunal  de  Deos  fem  caítigo  ? 
$e  o  negar  a  efmola  a  quem  com  grave  neceílidade  a  pede,  he 
negalla  a  Chriílo  Senhor  nofíò,  comoelle  o  diznoEuange- 
lho ;  que  fera  negar  o  fuítento,  6c  o  vertido  ao  feu  Efcravo  ?  Èr 
que  razaõ  dará  de  fi ,  quem  da  ferafína ,  6c  feda ,  6c  outras  ga- 
las ás  que  faõ  occaíiaõ  da  fua  perdição*  6c  depois  nega  quatro: 


ou  cm- 


&- Opulência  do^ra/th 

da  cinco  varas  de  Algodão,  &  outras  poucas  de  pannò  da  Ser» 
ra,  a  quem  fe  derrete  em  íiior  para  o  fervir,  &  apenas  tem  tem- 
po para  buícar  húa  raiz ,  Sc  hum  caranguejo  para  comer  ?  E  fe 
em  cima  difto  o  caftigo  for  frequente,  8c  exceííivo  [  ou  fcirâõ 
embora ,  fugindo  para  o  Matto j  ou  fe  mataráõ  per  fi  %  como 
coftumaõ, tomando  a  refpiraçaõ , ou  enforcando-fe  -, oupro- 
curaráõ  tirar  a  vida  aos  que  lha  daõ  tammà  ,  recorrendo  (  fg 
for  neceíTario  )  a  artes  diabólicas  •,  ou  clamaráõ  de  tal  forte  a 
Deos ,  que  os  ouvirá ,  6c  fará  aos  Senhores  o  que  já  fez  aos  E- 
gypcios  ,  quando  avexavaõ  com  extraordinário  trabalho  aos 
Hebreos ,  mandando  as  pragas  terriveis  contra  fuás  fazen- 
das, Sc  filhos  3  que  fe  leni  na  fagrada  Efcritura :  ou  permittirás 
que  allim  como  os  Hebreos  foraõ  levados  cativos  para  Baby- 
lonia  em  pena  do  duro  cativeiro,  quedavaõ  aos  feus  Efcra* 
vos ;  affim  algum  cruel  inimigo  leve  eflès  Senhores  para  fuás 
Terras  5  para  que  nel las  experimentem  quam  penofahe  a  vi- 
da, que  elles  deraõ ,  8c  daõ  continuamente  aos  feus  Efcravos. 
Naõ  caftigar  os  exceífos ,  que  elles  cómettem,  feria  culpa 
saó  leve:  porém  eftesfe  haõde  averiguar  antes,para  naõ  cafti- 
gar innocentes :  Scíe  haõ  de  ouvir  os  delatados  5  8c  convencia 
dos ,  caftigarfe-haõ  cóm  açoutes  moderados ,  ou  com  os  me- 
ter em  húa  corrente  de  ferro  por  algum  tempo  ,  ou  tronco, 
Caftigar  com  impeto ,  com  animo  vingativo ,  por  maõ  pró- 
pria ,  8c  com  inftrumentos  terriveis ,  &c  chegar  tal  vez  aos  po- 
bres com  fogo,  ou  lacre  ardente  ,  ou  marcai  los  na  cara,  naõ. 
feria  para  fe  iofrer  entre  Bárbaros  j  muito  menos  entre  Chri- 
ftãosCatholicos.Ocertohe,  que  fe  o  Senhor  fe  houver  com 
os  Efcravos  como  Pay,  dando-lhes  o  neceíTario  para  o  fuften- 
to ,  (k  veftido,  8c  algum  defcanço  no  trabalho^  fe  poderá  tam* 
bem  depois  haver  como  Senhor  :  &z  naõ  eftranharàõ  5  fendo 
convencidos  das  culpas ,  q  cõmettèraõ  5  de  receberem  cõ  mi- 
fericordia  o  judo,  &c  merecido  caftigo.  E  fe  depois  de  errarem 
como  fracos,  vierem  per  fi  mefmos  a  pedir  perdão  ao  Senhor^ 


t8  Cultura, 

ou  bufcarem  Padrinhos  ,  que  os  acompanhem :  em  tal  cafo  he 
coítumenoBrafilperdoarlhes.  Ebemhe,  quefaibaó,  que 
iílo  lhes  ha  de  valer :  porque  de  outra  forte ,  fugiráõ  por  híia 
vez  para  algum  Mocambo  no  Matto ;  6c  fe  forem  apanhados, 
poderá  fer,  que  fe  matem  a  fimefmos  ,  antes  que  o  Senhor 
chegueaaçoutallos  j  ou  que  algum  feu  Parente  tome  áTua 
conta  a  vingança ,  ou  com  feitiço,  ou  com  veneno. 

Negarlhes  totalmente  os  feus  folguedos ,  que  faõ  o  único 
alivio  do  feu  cativeiro,  he  querellos  defconfolados,  6c  melan- 
cólicos, de  pouca  vida,6c  faude.  Por  tanto  naõ  lhes  eítranhem 
os  Senhores  o  crearem  feus  Reys ,  cantar ,  &■  bailar  por  algu* 
mas  horas  honeítamente  em  alguns  dias  do  anno ,  Sc  o  alegra- 
remfe  innocen  temente  á  tarde  depois  de  terem  feito  pela  ma- 
nhãa  fuás  feftas  de  Nofla  Senhora  do  Rofario ,  de  Saõ  Bene- 
dito, &  do  Orago  da  Capella  do  Engenho ,  fem  gaito  dos  En- 
cravos ,  acudindo  o  Senhor  com  fua  liberalidade  aos  Juizes , 
6c  dandolhes  algum  premio  do  feu  continuado  trabalho.Por- 
que  fe  os  Juizes ,  &  Juizas  daFefta  houverem  \ác  gaitar  do 
feu>  fera  caufa  de  muitos  inconvenientes,  6c  oílenfas  de  Deos, 
por  ferem  poucos  os  que  o  podem  licitamente  ajuntar. 

O  que  fe  ha  de  evitar  nosEngenhos,he  o  emborracharem- 
fe  com  Garapa  azeda ,  ou  Agua  ardente  j  bailando  conceder- 
Ihes  a  Garapa  doce ,  que  lhes  naõ  faz  danoj  6c  com  ella  fazem 
feus  refgates  com  os  que  a  troco  lhes  daõ  farinha ,  feijoens,  ai- 
pins ,  &  batatas. 

Ver ,  que  os  Senhores  tem  cuidado  de  dar  alguma  coufa 
dos  fobejos  da  mefa  aos  feus  filhos  pequenos ,  he  caufa  de  que 
osEfcravos  os  firvaõ  de  boa  vontade,  6c  q  fe  alegrem  de  lhes 
multiplicar  Servos ,  6c  Servas.  Pelo  contrario  algumas  Efcra- 
vas  procuraò  de  propofito  aborto ,  fó  para  que  naõ  cheguem 
os  filhos  de  fuás  entranhas  a  padecer  o  que  ellas  padecem. 


C  A. 


<>•  Opulência  do  Tíraftl. 


jÉhdíÉfitt^ittÁm^ 


C   A  P    I    T   U   L  O    X. 

Çomofe  ha  de  haver  o  Senhor  do  Engenho  no  go* 

vernodafua  Família  t  ©*  nos  gaftos  ordi* 

narios  decafa* 

w>  Edirido  a  fabmca  do  Engenho  tantos  ,■  8c  tam  grandes 
w  .  gaftoSr  quantos  acima  duTemps  ybeni  fe  vè  a  parfimo- 
nia  3  que  he  neceflariã  nos  particulares  de;  caía.  Çavallos  de 
refpeito  mais  dosquebaftaõ ,  Ghararmeleiros  ,  Trom betei- 
ros,  Tangedores,  &  Lacayos  mimofosjiaõ  fervem  para  ajun- 
tar fazenda,  pjiradiminuillaem  pouco  tempo  com  obrigai 
çoens,  6c  empenhos*  E  muito  menos  fervem  as  Recreaçoens 
amiudadas,  os  Convites  fuperíluos,  as  Galas,  as  Serpentinas, 
&  o  Jogo.  E  por  efte  caminho  alguns  em  poucos  annos  do 
eílado  de  Senhores  ricos  chegarão  ao  de  pobres  ,  6c  arraftados 
Lavradores,  fem  terem  que  dar  de  dote  ás  Filhas $  nem  mo* 
do  para  encaminhar  honeftamente  aos  Filhos. 

Mao  he  ter  nome  de  Avarento :  mas  naõ  he  gloria  digna 
dle  louvor  o  fer  Pródigo.  Quem  fe  refolve  a  lidar  com  Enge- 
nho, ou  fe  ha  de  retirar  da  Cidade,  fugindo  das  oceupae oens 
da  Republica,  que  obrigaõ  a  divertir-fe  ;  ou  ha  deter  a&ual- 
mente  duas  cafas  abertas  y  com  notável  prejuízo  aonde  quer 
que  falte  a  fua  auTftencia ,  &  cqm  dobrada  defpeza.  Ter  os 
Filhos  fempre  comfigo  no  Engenho ,  he  creallos  Tabarêos> 
que  nas  converfaçoens  naõ  faberáõfallar  de  outra  couíà  mais 
que  do  Caõ-,  do  Cavallo,  8c  do  Boy.Deixallos  fósna  Cidade, 
he  darlhes  liberdade  para  fe  fazerem  logo  viciofos,  8c  enchei 
rem-fe  de  vergonhofas  doenças,  que  fe  naõ  podem  facilmen- 
te curar.  Paraevitar  pois  Hum,,  8c  outro  extremo  3  o  melhor 

con^ 


^ 


30  Culmrày 

coníelho  fera  pqllos  em  caía  de  algum  Parente  ,  ou  Amigo 
grave *,  &  honrado ,  onde  naõ  haja  occafioens  de  tropeçar  ,  o 
qual  folguede  dar  boa  conta  deíi ',  &  com  toda  a  fidelida- 
de avife  dofoom ,  oumao  procedimento ,  &  doproveito,  ou 
negligécia  íioEftudo.Nem  coníinta.q  aMãy  lhes  remettadi- 


poíTa  fer  também  parajogoSvE  por  iíío,  avife  ao  Procurador, 
8c  ao  Mercador ,  de  quem  fe  vai ,  que  lhes  naõ  dé  coufa  algu- 
ma fem  ília  ordem.  Porque  para  pedirem  feràõ  muito  efpecu- 
lativos,  8c  faberàõ  excogitar  razoes ,  Sc  pretextos  verifimeis; 
principalmente  fe  forem  dos  que  já  andaõnoCurfo,  &  tem 
vontade  de  levar  três  annos  de  boa  vida  á  eufta  do  Pay,  ou  do 
Tio ,  que  naõ  fabem  o  que  paíTa  ffâ  Cidade ,  eftando  nos  feus 
Cannaveaes  :  &  quando fejaclaõ  nas converfaçoens  deter 
hum  Ariftoteles  nosPateos,  pode  fer  que  tenhaõssa  Praça 
humAíinio,  ou  hum  Apricio.  Porém  fe  fe  refolver  a  ter  os  Fi- 
lhos em  cafa,  contentando-fe  com  quefaibaõ  ler,  eferever ,  & 
contar ,  6c  ter  alguma  tal  qual  noticia  de  fucceíTos ,  8c  hifto- 
rias ,  para  tallarem  entre  gente  j  naõ  fedefeuide  de  vigiar  fo- 
breelles,  quando  a  idade  o  pedir  :  porque  também  o  campo 
largo  he  lugar  de  muita  liberdade,  8c  pode  dar  abrolhos  ,  &c 
efpinhos.  E  fe  fe  faz  cercado  aos  Boys,  8c  aos  Cavallos ,  para*, 
que  naõ  vaõ  fora  doPafto  3  porque  fe  naõ  porá  também  al- 
gum limite  aos  Filhos,  aílim  dentro ,  como  fora  de  cafa }  mo- 
ítrando  a  experiência  fer  aílim  neceífario  ?  Com  tanto  que  a 
circunfpecçaõ  feja  prudente  -,  Sz  a  demaíia  naõ  acrecente  ma- 
lícia. O  melhor  enfinO  porém ,  he  o  exemplo  do  bom  proce- 
dimento dos  Pays :  8c  o  defeanço  mais  feguro ,  he  dar  a  feu 
tempo  eftado  aílim  ás  Filhas ,  como  aos  Filhos  :  &"  fe  fe  con- 
tentarem com  a  igualdade?  naõ  faltaráõ  caías ,  aonde  fe  pof- 
faõ fazer  trocas-,  8c receber recompeníàs. 

1 

C  A- 


1  ., 
Ill 


-^~— "■■■■ 


&-  Opulência  íoTZrafiL  j* 

Ç   A  P  I  T :V  L   OXL 

Corno  fe  ha  de  haver  o  Senhor  âo  Engenho  no  reCebU 

mento  ias  Ho/pedes ,  ajjim  Religiofos ,  como 

Seculares, 

AHojpitalidade  he  húa  acçaõ  cortez,  &  tãbera  virtude- 
Çhriífoã,  &  uoBrafnímiitp  exercitada,  &:  louvada.' 
porque  faltando  fora  da  Cidade  as  Eftalagens  ,  vaõ  necef- 
fariamente  os  PaíTageiros  a  dar  comíigo  nos  Engenhos,  &  to- 
dos ordinariamente  aehaô  de  graça  o  que  em  outras  Terras 
cuíta  dinheiro :  aííim  QsReligiofòsiep**bufcaó.fuas  efmolas* 
quenaõ  faõ  poucos ,  &  os  Miuíonarios,  que  vaõ  pelo  Recôn- 
cavo, &  pela  Terra  dentro  com  grande  proveito  das  Almas  a; 
exercitar  feus  minifteríos  j.como  os  Seculares ,  que  ou  por  ne- 
ceílidade ,  ou  por  conhecimento  particular  >  ou  por  parentes- 
bufcaõ  de  caminho  agazalho. 

Ter  cafa  feparada  para  os  Hofpedes,  Êe  grande  acerto? 
porque  melhor  fe  recebem,  &  com  menor  eftorvo  da  famí- 
lia ,  &  fem  prejuízo  do  recolhimento ■ ,  que  haõ  de  guardar  as 
Mulheres ,& as  Filhas,  &  as  Moças  de  fer viço  interior  oc- 
cupa^as  no  aparelho  do  jantar ,  &  da  cea. 

O  tratamento  naõha  de  exceder  o  eirado  das  Pefloas,. 
que  fe  recebem  5  porq  no  difcurfo  do  anno  hõ  mu  iras  A  crea- 
çaõ  miúda,  ou  alguns  peixes  do  Mar,  ou  Rio  vizinho,  com 
algu  mariíco  dos  Mangues, .&  o  qdà  o  meímo  Engenho  pa- 
ra docej  bafta,  para  que  ninguém  fe  pofla  queixar  com  razaõ, 
Avançar-feamaisffalvoemhum  caio  particular  por  jliftos 
refpeitos)  he  paflar  os  limites ,  6c  impoíTibilitar-fe  a  poder 
continuar  igualmente  pelo  tempo  futuro» 

Dar 


H! 
II 


3.1  Cultura , 

Darefmolas,  he  dar  a  juro  a  Deos,  que  paga  cento  por 
Ikim  :  mas  em  primeiro  lugar  efíá  pagar  o  que  fe  deve  de  ju- 
ftiça  j  &  depois  eítender-íe  piamente  ás  efmolas  conforme  o 
cabedal,&  o  rendimento  dos  annos.E  nèfta  partenunoa  fe  ar- 
rependerá o  Senhor  de  Engenho  de  fer  efmoler3  &c  apren- 
derá© os  Filhos  a  imitar  ao  Pay:  &  deyxandc-cs  inclinados 
is  obras  de  mifericordia ,  os  deixará  muito  ricos  ,  &  com 
riquezas  feguras. 

Para  os  vadios ,  tenha  enxadas  ,  &  fouces  :  <k  fe  fe  quize- 
rem  deter  no  engenho ,  mande-lhes  dizer  pelo  Feitor,  que 
trabalhando  ,  lhes  pagaráõ  feu  jornal.  E  deita  forte  ou  fegui- 
riõ  feu  caminho  ,ou  de  vadios  fe  faráõ  jornaleiros. 
-     Também  naõ  convém  que  o  Meftre  do  Aílucar  ,  o  Cai- 
xeiro, &:  os  Feitores  tenhaõ  em  fuás  cafas  po  r  tem po  notav  cl 
PelToas  da  Cidade, ou  de  outras  partes,  que  vem  a  paífar  tem* 
po  ociofamente  :  &  muito  mais ,  fe  forem  folteiros ,  &  mo- 
ços j  porque  eftes  naõ  fervem  fenaõpara  eftorvar  aos  mef- 
mos  Officiaes ,  que  haó  de  attender  ao  que  lhes  pertence  >  ôc 
para  defenquietar  as  Efcravas  do  Engenho  ,  que  facilmente 
fe  deixaõ  levar  do  feu  pouco  moderado  appetite  a  obrar  mal. 
E  ifto  fe  lhes  deve  intimar  ao  principio^  para  que  naõ  accarre- 
tem  atraz  de  fi  fobrinhos,ou  Primos,que  com  feus  vicies  lhes 
dem  pezados  defgoftos. 

Os  Miííionarios ,  que  definterelTadamente . vaõ  fazer  feu 
officio,  devem  fer  recebidos  com  toda  a  boa  vontade;  para- 
que  vendo  efquivanças  naõ  venhaõ  a  entender ,  que  o  Senhor 
do  Engenho,  por  pouco  affèiçoado  ás  coufas  de  Deos,ou  por 
mefquinho,  ou  por  outro  qualquer  refpeito,  naõ  folga  com 
aMiífaõ,  em  a  qualfeajuftaõasconícienaas  comDeos,  fe 
dá mftrucçaõ  aos  ignorantes ,  fe  atalhaó inimizades,  &.  oc- 
cafioens  eicandalofas  de  annos,  6c  fe  procura,  que  todos  tra- 
tem da  falvaçaõ  de  fuás  Almas. 


C  A- 


&-  Opulência  dòfâra/í/* 


33 


«B 


Ato 


*®&nm 


'àísfô  fy$%é  %s©w  ^Hp^SiP^ 


C    A   P  I   T   U   L   O     XII. 


C0020  y>  ha  de  haver  o  Senhor  do  Engenho  com  os' 
Mercadores  ,  Qf  outros  [eus  Correjponden- 
tes  na  Praça :  Qf  de  alguns  modos  de  veu» 
der  j  Qr  comprar  v  Aguçar ,  confor- 
me o  ejiyhdo  BrafiL 

O  Credito  de  hum  Senhor  de  Engenho  funda-fe  na  fua 
verdade ,  ifto  he ,  na  pontualidade ,  6c  fidelidade  em 
guardar  as  promeíías.  E  aílím  eomo  o  haõ  de  experimen- 
tar fiel  os  Lavradores  nos  dias,  que  fe  lhes  devem  dar  para 
moer  a  fua  Canna ,  &"  na  repartição  do  ÁíTucar ,  que  lhes  ca- 
be; os  Oífrciaes  na  paga  das  foldadas ;  os  que  daõ  a  lenha  para 
as  Fornalhas,  Madeira  para  a  Moenda,Tijolo,  &  Formas  pa- 
ra a  Cafa  de  purgar  í,  Taboas  para  encaixar,  Boys  ,  '&  Cavai- 
los  para  a  Fabrica  :  affim  também  fe  hade  acreditar  com  os 
Mercadores,  &  Correfpondentes  na  Praça ,  quelhederaó 
dinheyro  ,  para  comprar  Peças ,  Cobre ,  Ferro ,  Aço ,  En- 
xárcias y  Breo,  Velas ;  &  outras  fazendas  fiadas.  Porque  fe  ao 
tempo  da  Frota  naõ  pagarem  o  que  devem;  naõ  teráõ  com 
que  fe  aparelhem  para  a  fafra  vindoura }  nem  fe  achará  quem 
queira  dar  o  feu  dinheiro  eu  fazenda  nas  mãos  de  quem  lha 
naõ  ha  de  pagar,  ou  tam  tarde,  &  com  tanta  difficuldade, 
que  fe  arrií  que  a  quebrar.  t  ,, 

Ha  annos ,  em  que  pela  mui  ta  mortandade  dos  Efcravos, 
Gavallos,  Egoas5  &■  Boys,  ou  pelo  pouco  rendimento  dá 
Canna,  naõ  podem  os  Senhores  de  Engenho  chegar  a  dará 

C  -    fttif- 


Hf  i  Cultura  y 

íatisfaçaõ  inteira  do  que  promettèraó.  Porém  naõ  dando  fe 
quer  alguma  parte ,  naõ  merecem  alcançarasefperas,  que  pe* 
demjprincipalmente  quando  íe  fabe,que  tiveraõ  para  defper- 
diçar,;  &  parajogar,  o  que  deviaõ  guardar  para  pagar  aos 
feus  Acredores. 

.  Nos  outros  annos  de  rendimento  fu ffíciente,  &  çom  per> 
das  moderadas,  oufemellas,  naõ  ha  razaÕ  para  faltar  aos 
Mercadores ,  ou  CõmiíTarios ,  que  negoceaõ  por  feus  Amos, 
aos  quaes  devem  dar  conta  de  íi .-  &  por  iíTo  naõ  he  muito  pa- 
ra feeftran liar  >  fe  experimentando  faltar-fe  por  tanto  tem- 
po á  palavra  com  lucro  vcrdadeyramente  ceílante ,  Sc  danno 
emergente ,  levantão  com  juíta  moderação  o  preço  da  fazen- 
da* que  vendem  fiada,  &  que  Deos  fabe,  quando  poderàõ 
arrecadar. til 

Comprar  anticipadamente  o  AíTucar  por  dous  cruza- 
dos,, verbigratia,  que  a  feu  tempo  commummente  vai  do- 
ze toíloens,  &mais,  tem  fua  dificuldade  :  porque  o  com- 
prador eftá  feguro  de  ganhar  -y  &  o  vendedor  he  moralmente 
certo,  que  ha  de  perder  .-particularmente  quando  o  que  dá  o 
dinheiro  anticipado,  não  o  havia  de  empregar  em  outra  cou- 
Ííi.í  antes  do  tempo  de  o  embarcar  para  o  Reyno. 

Quem  compra  ,  ou  vende  anticipadamente  pelo  preço, 
que  valerá  o  AíTucar  no  tempo  da  Frota  ,  faz  contrato  juílo  ± 
porque  aífim  o  comprador ,  como  o  vendedor ,  eftaõ  igual- 
mente arrifcados.  E  iito  fe  entende  pelo  mayor  preço  geral, 
que  então  o  AíTucar  valer  \  &  não  pelo  preço  particular ,  em 
que  algum  fe  accommodar ,,  obrigado  da  neceíTidade  a  ven- 
dello. 

Comprar  a  pagamentos  ,  he  dar  logo  de  contado  algu- 
ma parte  do  preço  ,  &  depois  pagar  por  quartéis ,  ou  tanto 
por  Cada  anno ,  conforme  o  concerto ,  até  fe  inteirar  de  tudo. 
E  poderá  por-fe  a  pena  de  tantos  cruzados  mais  ,fefe  faltar  a 
algum  pagamento  :  mas  não  fe  poderá  pertender ,  que  fe  pa- 


gue 


&  Opuknciâ  Ò  cBra/tl  $ç 

gue juro  dós  juros  vencidos  }  porque  o  juro,  fó  fé  pagado 

orincipal* 

"j      Quem  diz :  Vendo  o  Aííucar  cativo  :  quer  dizer  :  Venv 

do-o  com  obrigação  de  o  comprador  pagar  todas  às  cuílas- 

tirando  os  três  toíloens-,  que  fe  pagaõ  na  Bahia ,  porque  e£ 

tes  correm  por  conta  de  quem  o  carrega. 

Vender  o  Aiíucat  livre  a  dez  toíloens ,  verbi  gratia ,  pol- 
eada arroba  j  quer  dizer :  Que  o  comprador  ha  de  dar  ao  ven- 
dedor dez  toíloens  por  cada  arroba ,  &hadefazertod.osos 
gaftpsàfuacuíla. 

Quem  comprou  o  Aííucar  cativo ,  Sc  o  defpachou,  d  ven- 
de depois  livre  5  Ôc  o  comprador  faz "osgaíios  ,  fquejfe 
feguem. 

Comprar  o  Aííucar  por  cabeças  ,  quer  dizer.-  Comprar 
as  caixas  de  Aííucar  pelo  numero  das  arrobas  j  que  tem  m, 
Marca,  com  meya  arroba  menos  de  quebra, 

Quando  fe  péza  húa  caixa  de  Aflutar ,  para  pagar  os  di- 
reitos :  fe  ò  Pezadòr  péza  favorável ,  diz,  verbi  gratia ,  que  a 
Caixa  de  trinta  arrobas  tem  vinte  Sc  oyto  Eifco,  El-Reyo 
fofre,  'Ôcconfente  de  favor.  Porém  eífa  Caixa  naófe  vende5 
por  eíle  pezo ,  mas  pelo  que  na  verdade  fe  achar  quando  vaf 
a  pezar-fe  na  Balança  fora  da  Alfandega ,  que  ahá  eílá ,  para 
fe  tirar  toda  a  duvida. 

Vender  as  terras  por  menos  do  que  valem ,  com  obriga- 
ção de  fe  moer  a  Canna ,  que  nellas  fe  plantar  ,  no  Engenha 
do  vendedor ;  He  contrato  licito  5  8c  juílo. 

Comprar  hum  Senhor  de  Engenho  a  hum  Lavrador,  que 
tem  Canna  livre  para  a  moer  aonde  quizer ,  aohrigaçaõ  de  a 
moer  no  feu  Engenho  ,  em  quanto  lhe  naõ  reílituir  o  dinhei- 
ro, que  para  iíío  lhe  deo ,  quando  comprou  a  dita  obrigação} 
pratica -fe  no  Braíil  rnúitasvezes,;  &  os  Letrados  odefendem 
por  contrato  jivílo  :  porque  iílo  naõ  hd  dar-dinheiEQ  ■eii^prej"- 
ílado  com  obrigação  de  moer  j  mas  lie  comi  pi  ar  a  obrigação 

C3  de 


3^  Cultura, 

de  moer  no  feu  Engenho  para  ganhar  a  ametadedo  AíTucar, 
ficando  a  porta  aberta  ao  Lavrador  para  fe  livrar  deíla  obri- 
gação ,  todas  as  vezes  que  tornar  a  entregar  ao  comprador 
o  dinheiro,  querecebeo. 


LIV 


II 


C  A  P  I  T  V  L  O     I. 

T>a  efcolha  da  Terra  para  plantar  Cannas  de 

%AjJucar ,  &  para  os  mantimentos  neceí- 

farios,  &•  provimento  do  Engenho. 

S  Terras  boas ,  ou  más  ,  faõ  o  fundamento  principal, 
para  ter  hum  Engenho  Real  bom  ,  ou  mao  rendi- 
mento. As  que  chamaõ  MaíTapés  j  Terras  negras , 
&  fortes,  faõasmaisexcellentes  para  a  planta  das  Cannas. 
Seguem-fe  atraz  deitas  os  Saloens ,  Terra  vermelha ,  capaz 
de  poucos  cortes;  porque  logo  enfraquece .  As  Areifcas,  que 
faóhúamiíturade  Area,&Saloés ,  fervem  para  Mandioca , 
'&:  Legumes;  mas  naõ  para  Cannas.  E  omefmo  digo  das  Ter- 
ras brancas,  que  chamaó  Terras  de  Área  ,  como  faõ  as  do 
Camamú ,  &  da  Saubâra. 

A  Terra ,  que  fe  efcolhe  para  o  Pafto  ao  redor  do  Enge- 
nho ,  ha  de  ter  agua :  &  ha  de  fer  cercada ,  ou  com  plantas  vi- 
vas, como faó  as  de  Pinhoens  ■,  ou  com  eftacas ,  &varasdo 
matto.  O  melhor  Pafto  he  o  que  tem  muita  grama ,  parte  em 

Outeif 


■■■■ 


&-  Opulência  do  ^BrafiL  %? 

Outeyro ,  Sc  parte  em  Várzea:  porque  deíla  forte  em  todo  o 
tempo ,  ou  em  húa ,  ou  em  outra  parte ,  aílim  os  Boys ,  comq 
as  Beítas,  acharáó  que  comer.  O.Pafto  fe  ha  de  confervar  lim* 
po  de  Outras  hervas,  que  mataõ  a  grama :  &  no  tempo  do  In- 
verno fe  haó  de  botar  íóra  deile  os  Porcos  ,  porque  o  de* 
ftroem  foliando.  Nelle  ha  de  haver  hum,  ou  dous  Curraes, 
aonde  fe  metaó  os  Boys  para  comerem  os  olhos  da  Canna,  Se- 
para eftarem  perto  do  fervíçodos  carros.  E  também  ás  Be- 
ftas  fe  recolhem  no  feu  Curral  ,  para  as  naõ  haver  de  buícar 
efpalbadas.  .  ■ 

AndaõnoPaíto,  além  das Egoas ,&  Boys,  Ovelhas,  &- 
Cabras :  &-aó  redor  do  Engenho  a  criação  miúda1,  como  faó 
Perus,  Gallinhas  ?  &  Patos ,  que  faõ  o  remédio  mais  prompto 
pàraagazamar-oshofpedes  ,  que  vem  de  improvifo/Mas 
porque  as  Ovelhas,  &  os  Gavallos  chegaõ  muito  com  o  den- 
te á  raiz  da  grama,  faõ  de  prejuízo  ao  Paítb  dos  Boys :  &  por 
hTofe  o  deites foíle  d iverfo,  feria  melhor.  f     ' 

Os  Mattos  daõ  as  Madeiras,  &  a  Lenha  para  as  Forna- 
lhas. Os  Mangues  daõCaybros,  &Marifco.  E  os  Apicús 
(  que  faó  as  coroas ,  que  faz  o  Mar  entre  íí ,  &  a  Terra  firme, 
&  as  cobre  a  Maré)  daõ  o  barro,  para  purgar  o  AfTucar  nas 
Formas ,  &  para  a  Olaria,  que  na  opinião  de  alguns  fe  naõ  ef- 
cufa  nos  Engenhos  Reaes. 

De  todas  eftas  caftas  de  Terras  tem  neceflldàde  hum  En- 
genho Real;  porque  húas  fervem  para  Cannas ,  outras  para 
■mantimento  da  Gente ,  &  outras  para  o  aparelho ,  &  provi* 
mento  do  Engenho ,  além  do  que  fe  procura  do  Reyno.  Po- 
rém nem  todos  os  Engenhos  podem  tereíta  dita  : -antes ne- 
nhum (cachará ,  a  quem  naõ  falte  algumadeftas  còufas.Por- 
queaos  queefíaõ  àbeira-mar  commummente  faltaõ  as  Ro- 
ças, &  a  Lenha :  &  aos  que  eftão  pela  Terra  dentro  faltaõ  ou- 
tras muitas  Conveniências  ,  quê  tem  os  que  eítaõ  à  beira-mar 
no  Recôncavo.  Comtudo/  de  ter,  ou  naõ  ter  o  Senhor  do, 

C3     *  '-     \En 


I 

II  i 


5$  Cultura* 

Engenho  cabedal  5  &  Gente,  Feitores  fieis,  &  de  experiên- 
cia, Boys  ,  8c  Beftas ,  Barcos,  6c  Carros ,  depende  o  menear, 
6c  governar  bem ■>  ou  mal  o  feu  E-ngenhcv  E  fenaó  tiver  gen- 
te para  trabalhar  r  6c  beneficiar  as  terras  a  feu  tempo  -r  fera  o 
mefiuo^que  ter  matto  bravo  com  pouco ,  ou  nenhum  rendi- 
mento :  aílim  como  naõ  baila  para  a  vida  politica ,  ter  bom 
natural;  fe  naõ  houver Meítre,  que  com  o  eníino  trate  de  o 
perfeiçoar  ajudando-o.. 


&&3I&.  «s«®&.  dsssii 


G  A   P    I    T   U   L  O    II. 

Da  planta ,  Qf  limpas  das  Cannas :  Qf  da  dfaer- 
fidade,  que  ha  neílas., 

FEita  a  efcolhadà  melhor  Terra  para  a  Canna  j  roça-íê, 
queima-fe ,  &  alimpa-fe ,  tirando-lhe  tudo  o  |que  podia 
fervir  de  embaraço ; 6c  logo  abre-fe  em  regos ,  altos  palmo  &c 
meyo ,.  6c  largos  dous ,  com  feu  camalhaõ  no  meyo,  para  que 
nacendo  a  Canna  naõ  íe  abafe  :  &  neíles  regos  ou  fe  plantão 
os  olhos  em  pé,  oufedeitaõ  as  Cannas  em  pedaços,  tres,ou 
quatro  palmos  compridos :  6c  fe  for  Canna  pequena,  deita- íe 
também  inteira  ,húa  junta  á  outra,  ponta  com  pé :  cobrem-fe 
com  a  terra  moderadamente.  E  depois  de  poucos  dias ,  bro- 
tando pelos  olhos,começaõ  pouco  a  poucoa  moftrar  íua  ver- 
dura á  flor  da  terra,,  pegando  facilmente,  6c  crecendo  mais, 
ou  menos,  conforme  a  qualidade  da  terra,  6c  o  favor,  ou 
contrariedade  dos  tempos.  Mas  fe  forem  muito  juntas ,  ou  fe 
na  limpa  lhes  chegarem  muito  a  terra ;  naõ  poderão  filhar, 
como  lie  bem. 

A  planta  da  Canna  nos  lugares  altos  da  Bahia  começa 
defde  as  primeiras  aguas  no  rim  de  Fevereyro,  ou  nos  princí- 
pios 


&■  Opulência  doTZrafú.  1 30 

pios  de  Março ,  &  fe  continua  atè  o  fí-ni  de  Mâyo  s  5c  nas  bai^ 
xas ,  8c  Várzeas  (  que  faó  mais  frefcas  y&  húmidas )  planta-fc 
também  nos  mezes  de  Julho, &  Agofto,  6c  por  alguns  dias  de 
Setembro.Toda  a  Canna,  q  naõ  for  fecca,  ou  viciada,  nem  de 
Cannudos  muito  pequenos  ,  ferve  para  plantar.  De  fer  a  Ter- 
ra nova,  8c  forte ,  fegue-fe  o  crecer  nelía  a  Canna  muito  vi- 
çofaj&  a  efta  chamaõ  Canna  brava:  a  qual  a  primeyra  ,  &  fe^ 
gunda  vez,  que  fe  corta,  naõ  coftuma  fazer  bom  AíTucar  » 
por  fer  muito  aguacenta.  Porém  dahi  por  diante,  depois  de. 
esbravejar  a  Terra,  ainda  que  creça  extraordinariamente ,  he 
tam  boa  no  rendimento,  como  ferrnofa  na  appareneia  :&  de- 
itas ás  vezes  fe  achaõ  algumas  altas  íete,oito,6c  nove  palmos, 
6c  tam  bem  poftas  no  Cannaveal ,  comoos  Capitaens  nos  ex^ 
ercitos. 

A  melhor  Cannabeade  cannudo  comprido ,  6c  limpo; 
&  as  que  tem  cannudos  pequenos,  6c  barbados,  faó  aspeycn 
res.  Nace  o  terem  cannudos  pequenos,  ou  da  feca,  ou  do  frio:; 
porque  húa,  6c  outra  coufa  as  apertão :  6c  o  terem  barbas  pro- 
cede de  lhes  faltarem  com  alguma  limpa  a  feu  tempo.  Corne- 
ça-fe  a  alimpar  a  Canna ,  tanto  que  tiver  monda,  ou  herva  de 
tirar.  No  inverno  a  herva ,  que  fe  tira , torna  logoa  nacer  $.8Ç 
as  limpas  mais  neceííarias  faó  aquellas  primeiras ,  que  fe  fa-, 
zem,para  que  a  Canna  poífa  crecer,  6c  o  capim  a  naõ  afogue: 
porque  depois  de  crecida ,  vence  melhor  as  hervas  menores. 
E  aílim  vemos ,  que  os  primeiros  vícios  faó  os  que  botaõ  a 
perder  hum  bom  natural.  AsCannas,  que  fe  plantão  nos  oiu 
teiros,  faó  ordinariamente  mais  limpas  ,<qtieas  que  fe  plantão 
nas  Várzeas :  porque  aílim  como  ocorrer  a  agua  do  Outeiro, 
he  caufa  que  fe  naõ  criem  nelle  tam  facilmente  outras  hervas- 
aílim  o  ajuntar-fe  ella  na  Várzea ,  hecaufa  de  fer  eíta  fempre 
muito  húmida  ,  6c  confeguintemente  muito  difpoíta  para 
crear  de  novo  o  capim. 

Por  iííb  em  húas  Terras  ás  vezes  naõ  baftaõ  três  limpas  j 

C4  6c  em 


§ 


íí 


mm 


4°  Cultura, 

6c  em  outra  o  Lavrador  com  a  fcgunda  defcança ,  conforme 
os  tempos  mais  ou  menos  chuvoíòs.  Aílim  como  ha  filhos 
tam  dóceis ,  que  com  a  primeira  amoeflaçaõ  fe  emendaõ  5  6c 
para  outros  naõ  baftaó  repetidos  caíligos. 

As  Socas  também  (que  faõ  as  raizes  das  Cannas  cortadas 
a  feu  tépo,  ou  queimadas  por  velhas,  ou  por  cahidas  de  forte, 
que  fe  naõ  poíTaõ  cortar ,  ou  por  defaílre  )  fervem  para  plan- 
ta: porque  fe  naõ  morrerem  pelo  muito  frio,  ou  pela  muita 
íeci  ■,  chegandolhes  a  terra ,  tornaó  a  brotar ,  6c  podem  defta 
forte  renovar  ao  Cannaveal  por  cinco  ou  féis  annos ,  &  mais. 
Tanto  vai  a  induftria ,  para  tirar  proveito ,  ainda  do  que  pa- 
receria inútil ,  6c  fe  deixaria  por  perdido.  Verdade  he ,  que 
cançandoaTerra,  perde  também  a  Soca  o  vigor  y  &  depois 
de  féis  ou  fete  annosa  Canna  fe  acanha,  8c  facilmente  fe  mur- 
cha ,  atè  ficar  fecca ,  6c  azougada.  E  por  iíTo  naõ  fe  ha  de.per- 
tender  da  Terra,  nem  da  Soca  mais  do  que  pôde  dar ,  parti- 
cularmente fenaõ  for  ajudada  com  algum  benefício  :&  a  ad- 
vertência do  bom  Lavrador  coníiíle  em  plantar  de  tal  forte 
fucceífivamente  a  Canna  ,  que  cortando-fe  a  velha  para  a 
moenda ,  fique  a  nova  em  pé  para  a  fafra  vindoura  5  Sc  deíla 
forte  alimente  com  a  fua  verdura  a  efperança  do  rendimento, 
que  fe  prepara ,  que  he  o  premio  do  feu  continuado  trabalho. 
Plantar  húa  tarefa  de  C  annas,  he  o  meímo  que  plantar  no  ef- 
paço  de  trinta  braças  de  terra  em  quadra.  Finalmente  por- 
que a  diverfidade  das  Terras,,êc  dos  Climas  pede  diverfa  cul- 
tura ;  he  neceííario  informar-fe ,  6c  feguir  o  confelho  dos  ve- 
lhos, aos  quaes  enfinou  muito  o  tempo,  &  a  experiência  5  per- 
guntando em  tudo  o  que  fe  duvidar ,  para  obrar  com  acerto. 


CA- 


&•  Opulência  do  TZrafiL 


41 

**a  *  %  «s.®  *  &  -js«  *a»  as®  '.%  «j.®  <i?j,  &s>  1:*  éé  $q  &&$& :  ÉS  ?%  ^5 £%  i®5  $&  $3  «^  iMSSík  jS S  Jtfc  &«  ©» 
€a#  %®if#  J«  S  ^  %o  ,#  %a  3^  %«S  s*  T<p  ©g  *«»w  •  «Mi»*  «Ssis^^oj.*  ^gjís  %£&$  *&»$£  ^,-  ggg; 

C   A    P   I   TU    L   O    III. 

Dos  inimigos  da  Canna ,  em  quanto  eftá  no  Çan* 

naveal. 

AS  inclemências  do  Ceo  faó  o  principal  inimigo,  que 
tem  as  Cannas j  aflim  como  os  outros  frutos,  &  novi- 
dades da  Terra :  querendo  Deos  com  muita  razaõ ,  que  fe  ar- 
mem contra  nós  os  Elementos  por  caftigo  das  noíías  culpas*; 
ou  para  exercido  da  paciência ,  ou  para  que  nos  lembremos, 
que  elle  he  o  Author,  &  o  Confervador  de  todas  as  coufas,  ôc 
a  elle  recorramos  em  femelhantes  apertos. 

Os  Cannaveaes  nos  Outeiros  reíiftem  mais  ás  chuvas, 
quando  faõdemaíiadasj  porém  faõos  primeiros  a  queixar- fe 
da  fecca.Pelo  contrario  as  Várzeas  naõ  fentem  tam  depreffa 
a  força  do  exceílívo  calor^  mas  na  abundância  das  aguas  cho; 
raõ  primeiro  fuás  perdas.  ACanna  da  Bahia  quer  agua  nos 
mezes  de  Outubro,  Novembro;,  êc  Dezembro  ;  &  para  a 
planta  nova  em  Fevereiro  :  Sequer  também  íiiccémVamente 
rfSoI,  o  qual  commummente  naõ  falta  ■,  aíllm  naò  faltaíTem 
nos  fòbreditos  mezes  as  chuvas.  Porém  o  inimigo  mais  mo- 
ledo ,  &  mais  continuo ,  Sc  domeftico  da  Canna ,  he  o  capi  m> 
pois  mais ,  ou  menos,  até  o  fim  a  perfegue.  E  por  iíTo  tendo  o 
plantar,  &  o  cortar  feus  tempos  certos  >  o  alimpar  obriga  aos 
Efcravos  dos  Lavradores  a  irem  fempre  com  a  enxada  na 
maõ:  &  acabada  qualquer  outra  oceupaçaõ  fora  do  Canna- 
veal,  nunca  fe  mandaõdebalde  a  alimpar.  Exercício,  que 
deveria  fer  também  continuo  nos  que  trataõdaboa  creaça6 
dos  filhos ,  &  da  cultura  do  Animo.  E  ainda  que  fó  eíte  ini- 
migo baile  por  muitos  >  naõ  faltaõ  outros  de  naõ  menor  enfa* 


\if 


^'l 


4t  Cultura, 

do ,  8c  moleília.  As  Cabras , tanto  que  a  Canna  começa  a  ap- 
parecer  fora  da  Terra,logo  a  vaõ  enveítir :  os  Boys,  &  os  Ca- 
vallos  ao  principio  lhe  comemos  olhos,  Sc  depois  a  de  rrubaõ, 
£c  a  pizaõ :  os  Ratos  ,  ocos  Porcos  a  roem :  os  Lad  roens  a  fnr- 
taõ  a  feixes ;  nem  pana  Rapaz ,  911  Caminhante ,  que  fe  naõ 
queira  fartar ,  ôc  defenfadar  á  cuftade  quem  a  plantou.  E  po- 
íto  que  os  Lavradores  fe  âccommodem  de  qualquer  modo  a 
fofrer  os  furtos  pequenos  dos  frutos  do  feu  fwúfivék  ás  vezes 
obrigados  de  húajuíta  dor  a  matar  Porcos ,  Cabras,  &  Be*ys, 
que  outros  naõ  trataõ  de  divertir ,  &  guardar  nos  paítos  cer- 
cados, ou  em  parte  mais  remota  ainda  depois  de  rogados ,  & 
avifados  que  ponhaõ  cobro  a  eítedano  :  donde  íe  feguem 
queixas,inimizades,  Sc  ódios,  que  fe  remataõ  com  mortes,  ou 
comfanguinolentas,6cafrontofas  vinganças.  Por  iffo  cada 
qual  trate  de  defender  os  feus  Canna veaes  ,  Sc  de  evitar  oc- 
cafioens  de  outros  fe  queixarem  jufta mente  do  feu  muito  def- 
cuido  ,  medindo  os  danos  alheyos  com  o  fentimento  dos 
próprios. 

í SSi á5í8Qfc45$S» ai."1 ''%  ««li.'»  iifiS Cw»  «í  1'j, 


CAPITULO    IV. 

Do  corte  4a  Canna  ,  ©*  jua  conducçao  -para 
o  Engenho* 

COmeçando  o  Engenho  a  moer  (  o  que  no  Recôncavo 
da  Bahia  coíluma  ter  feu  principio  em  Agoíto)conu  ca 
também  o  tempo  de  meter  a  fouce  na  Canna,  que  diiío  he 
capaz :  Sc  para  bem ,  antes  de  fe  cortar ,  ha  de  eftar  dezafere, 
ou  dezoito  mezes  na  Terra  :  &  dahi  por  diante,  fe  a  muita 
fecca  a  naó  apertar ,  pôde  feguramente  eítar  na  íncfma  Ter- 
ra outros  fetc,  ou  oito  mezes.  Tanto  pois  que  eitiverde  vi  c, 

fe  nian- 


• 


&  Opulência  doférafil»  4 1 

fe  mandará  pôr  nélla  a  fouce ,  tendo  jà  certo  o  dia ,  em  quefe 
ha  de  moer  j  para  que  naõ  fique  depois  de  cortada  a  murchar- 
fe  no  Engenho,  ou  fe  naõ  feque  expofta  ao  Sol  no  porto,  fe 
eftefordiftante  da  Moenda  :  preferindo  o  Lavrador,  que 
avifado  trouxe  primeiro  a  Canna  para  o  Engenho,  até  fe  aca* 
bar  inteiramente  a  fua  Tarefa ; ,&  perdendo  o  vagarofc i  o  lu- 
gar que  lhe  cabia,fdporfeu  defcuido  deixou  pa{Tar  o  dia  fina- 
lado.  E  o  Senhor  do  Engenho  he  o  que  reparte  os  dias,  afllro 
para  moer  a  fua  Canna ,  como  a  dos  Lavradores ,  conforme 
eabeacadaqual  por  feu  turno  j  &  mandão  avifo  pelo  Feitor 
a  feu  tempo. 

Quando  fe  corta  a  Canna ,  fe  metem  doze  até  dezoito 
fouces  no  Gannaveal ,  conforme  for  a  Canna  grande ,  ou  pe« 
quena.  Eaque  fe  manda  a  moer  de  húa  vez  chama-fe  húa 
Tarefajque  vem  a  fer  vinte  &  quatro  carros  de  Canna,  tendo; 
cada  carro  ajufta  medida  de  oyto  palmos  de  alto  ,  &  fetede 
Iaro-o,  capaz  de  mais  ou  menos  feixes  de  Canna  ,  conforme 
ella  for  grande  ,,ou  pequena  .-porque  menos  feixes  de  Canna 
grande  baftaõ  para  lazer  a  Tarefa  j  &.  mais  hao  de  fer  neceíla- 
rios,  fe  for  Canna  pequena}  pois  a  pequena  occupa  menor  lu- 
gar afíim  no  carro,  como  no  barco  ;  6c  a  grande  occupa  em 
hua ,  êc  outra  parte  mayor  efpaço ,  pelo  que  tem  de  mayor 
comprimento ,  &  gromira.  Raro  porém  feri  o  carro ,  que 
traga  mais  de  cento  &  cincoenta  feixes  de  Canna  :  &:  os  Se- 
nhores do&Partidos ,  pelos  cortes  antecedentes  fabem  muito 
bem ,  quantas  Tarefas  tem  nos  feus  Canna veaesv 

A  primeira^Canna ,  que  fe  ha  de  cortar ,  he  a  velha:,  que 
naó  pôde  efperar :  coftume  ,  que  naõ  guarda  a  Morte  ,  cuja 
fouce  corta  indiíFerentemente  moços ,  &:  velhos*  E  eíla  corr 
te-fe  a  tempo,  que  fe  naõ  faça  prej uizo  á  Soca  ,  conforme  as 
Terras,  mais  ou  menos  frias,.  &  os  dias  de  mayor  ou  menor 
ealory&fem  chuva.  E  diílo  procede  naõ  fe  poder  cortar  a 
Canna.em  huas  Terras  depois  do  fim.de  Fevereiro >&  em  ou- 
tras 


il: 


44  Cultura, 

trás  cortar-ís  ainda  em  Março  ,  &  Abril.  Quanto  ao  corte  da 
Canna  nova :  feo  Lavrador  for  muito  ambiciofo,  &  defejo- 
fo  de  fazer  muito  AíTucar  5  cortará  tudo  em  húa  fafra  ,  & 
àcharfe-ha  com  pouco ,  ou  nada  na  outra.  Por  iflò.  o  corte  da 
nova  ha  de  ter  lua  conta  >  &  fe  ha  de  attentar  ao  futuro ,  con- 
forme o  que  fe  tem  plantado  ,  ufando  de  huma  repartição 
confiderada ,  &  fegura  3  que  he  o  que  didá  em  qualquer  ou- 
tra obra  ou  negocio  a  boa  economia  ,  8c  prudenc  ia. 

Aílim  os  Efcravos,  como  as  Efcravas  fe  occupaó  no  cor- 
te da  Canna:  porém  commummente  os  Efcravos  cortaó ,  & 
as  Efcravas  amarraô  os  feixes.  Confta  o  feixe  de  doze  C.an- 
nas  :8c  tem  por  obrigação  cadaEfcravo  cortar  em  hum  dia 
fete  mãos  de  dez  feixes  por  cada  dedo  9  que  faó  trezentos  & 
cincoenta  feixes  $  8c  a  Efcrava  ha  de  am  arrar  outros  tantos  cõ 
os  olhos  da  mefma  Canna :  &  fe  lhes  fobejar  tempo ,ferá  para 
o  gaitarem  livremente  no  que  quizerem.  O  que  naõ  fe  con- 
cede na  limpa  da  Canna>  cujo  trabalho  começa  deíde  o  Sol 
.ftacido  atè  ó  Sol  pofto:  como  também  em  qualquer  outra  cc- 
cupaçaõ  ,  que  fe  naó  dá  por  Tarefa.  E  o  contar  a  Tarefa  do 
corte,  como  eftá  dito,  por  mãos,  &  dedos,  he  para  fe  accomr 
ínodar  á  rudeza  dos  Efcravos  boçaes  3  que  de  outra  fcrte  naó 
entendem  |  nem  fabem  contar. 

O  modo  de  cortar  he  o  feguinte :  péga-fe  com  a  m  ão  ef. 
querdaenUantasCannas,  quantas  pôde  abarcar  >  &  com  a 
direita  armada  de  fouce  fe  lhe  tira  a  palha,  a  qual  depois  íe 
queima  ou  pela  madrugada,  ou  já  de  noite,  quando  acalman- 
do o  vento  der  para  iffo  lugar  j  &c  ferve  para  fazer  a  Terra 
mais  fértil  -.logo  levantando  mais  acima  a  maõ  efquerda ,  bo- 
taõ-fe  tora  com  a  fouce  os  olhos  da  Canna>  6c  eítes  daó-fe  aos 
Boys  a  comer  ;  cc  ultimamente  tornando  com  a  efquerda 
mais  abaixo ,  corta-fe  rente  ao  pé-,  &  quanto  a  fouce  for  mais 
raíleira  a  terra ,  melhor.  Quem  íegue  ao  que  certa  (que  com- 
mu  m  m  en  te  hehi&  Efcrava)  ajunta  as  Cannas  limpas ,  comu 
;      J  eítu 


e>  Opulência  do  'Brafil.  45 

eftá  dito ,  em  feixes ,  a  doze  por  feixe ,  &  com  os  olhos  delias 
os  vay  atando  :  ôcaíllm  atados  vaõ  nos  carros  ao  porto  j  ou, 
fe  o  Engenho  for  pela  Terra  dentro  ,  chega  o  carro  á 
Moenda. 

A  conducçaõ  da  Canna  por  terra  faz-fe  nos  carros:  &■  pa- 
ra bé  cada  fazenda  ha  de  ter  dousi&fe  for  grande,ainda  mais. 
Por  mar  vem  nas  barcas  fem  vela ,  com  quatro  varas ,  que  fer- 
ve em  lugar  de  remos  nas  mãos  de  outros  tantos  Negros  Ma- 
rinheiros, &  o  Arraes,  que  vay  ao  leme ;  &  para  iíTo  ha  mifter 
duas  barcas  capazes ,  como  as  que  chamão  Rodeiras.  O  La^ 
vrador  tem  obrigação  de  cortar  a  Canna ,  &  de  a  conduzir  á 
fuacuftaaté  o  porto,  aonde  o  barco  do  Senhor  do  Engenho 
a  recebe ,  &  leva  de  graça  até  a  Moenda  por  mar;  pondo-a  no 
dito  barco  os  Efcravos  do  Lavrador ,  6c  arrumando-a  no  bar- 
co os  Marinheiros.  Mas  fe  for  Engenho  pela  terra  dentro^  to- 
da a  conducçaõ  por  terra  atè  a  Moenda  corre  por  conta  do 
dono  da  Canna,  quer  feja  livremente  dada,  quer  obrigada  ao 
Engenho. 

Conduzir  a  Canna  por  terraem  tempo  de  chuvas ,  &  la- 
mas ,  he  querer  matar  muitos  Boys ,  particularmente  fe  vie^ 
raõ  de  outra  parte  magros,  &  fracos,  eftranhando  o  pafto  no- 
vo, &  o  trabalho.  O  que  muito  mais  fe  ha  de  advertir  na  con- 
ducçaõ das  Caixas ,  como  fe  dirá  em  feu  lugar.  Por  ifib  os 
Boys ,  que  vem  do  Certaõ  cançados  ,  &  maltratados  no  ca- 
minho ,  para  bem  não  fe  hão  de  pôr  no  carro  ,  fenaõ  depois 
de  eftarem  pelo  menos  anno  &:  meyo  no  pafto  novo  ,  &  de  fe 
acoftumarem  pouco  a  pouco  ao  trabalho  mais  leve  ,  come- 
çando pelo  tempo  do  Verão,  &  não  no  do  Inverno:  de  ou- 
tra forte,  fuecederá  ver  o  que  fe  vio  em  hum  deft.es  annos  paf- 
fados  ,  em  que  morrerão  fó  em  hum  Engenho  duzentos ,  Sc 
onze  Boys ,  parte  nas  lamas ,  partena  Moenda  >  &  parte  no 
Pafto.  E  fe  moendo  com  agua ,  &  ufando  de  barcos  para  a 
conducçaõ  da  Canna,  heneceílario  terno  Engenho  quatro 

ou  cin- 


afi  Cultura , 

ou  cinco  carros ,  com  doze ,  ou  quatorze  juntas  de  Boys  mui« 
to  fortes ;  quantos  haverá  mifter  quem  moe  com  Beífas ,  6c 
Boys ,  &  tem  Canna  própria  9  para  fe  conduzir  de  longe  á 
Moenda  l  Advirta-íe  muito  nifto  ,  para  fe  comprarem  a  tem- 
po os  Boys ,  &  taes ,  quaes  faõ  neceííarios :  dando  antes  oito 
mil  reis  por  hum  fô  Boy  manfo  9  &  redondo  ,  do  que  outro 
tanto  por  dous  pequenos  3  &  magros ,  que  naõ  tem  forças  pa- 
ra aturarem  no  trabalho. 


?£ji)(fw,*í3©w  ^'«cjsv  •'Sáwi*  ^íjsíw  %asiw  «rj 


(«f€§^€^€l^€ii€l^€! 


CAPITULO    V. 

Do  Engenho  ,  ou  Cafa  de  moer  *a  Canna :  &  cotm 
fe  inove  a  Moenda  tom  agua. 

Inda  que  o  nome  de  Engenho  eomprehenda  todo  o 
Edifício  3  com  as  Oíficinas  ,  •&  caías  neccílanas  para 
moer  a  Canna  7  cozer ,  &  purgar  o  Afincar ;  com  tudo  toma- 
do mais  em  particular,  o  mefmo  he  dizer  Cafa  do  Engenho, 
que  Cafa  de  moer  a  Canna  com  o  artificio,  que  engenhoía- 
mente  inventarão.  E  tendo  nós  já  chegado  a  efta  Caía  cora  a 
Canna  conduzida  para  a  Moenda ,  daremos  alguma  notieia 
éô  que  ella  he ,  &:  do  que  nella  fe  obra ,  para  efpremer  o  Aííu- 
car da  Canna  j  valendo-me  do  que  vi  no  Engenho  Real  de 
Serigippe  do  Conde,  que  entre  todos  os  da  Bahk  he  o  mais 
aífamado. 

Levanta-fe  á  borda  do  Rio  fobre  dezafete  grandes  pila- 
res de  tijolo ,  largos  quatro  palmos ,  altos  vinte  &  dous ,  & 
diftantes  hum  de  outro  quinze,  húaalta,  ■&  efpaçofa  Cafa, 
cujo  teclo  cuberto  de  telha  aííenta  fobre  tirantes,  frechaes,  & 
vigas  de  paos,  que  chamão  deley ,  que  faó  dos  mais  fortes, 
que  ha  noBraíll ,  aquém  nenhúa  outra  Terra  leva  nella  par- 
te ven- 


teventagem 


&*  Opulência  do  ^BrafiL  4$ 

coou  duas  varandas  ao  redor  :  bua" para  rece-* 
ber  Canna ,  6c  lenha  -y  outra  para  guardar  madeiras  ufuaes  de 
íobrecellente-  E  a  eftachamaõ  Gafada  Moenda,  capaz  dé 
receber  commodamente  quatro  Tarefas  de  Canna  ,fem  per- 
turbação, 6c  embaraço  dos  que  necefíariamente  hão  de  lidar 
na  dita  Gafa,  6c  dos  que  por  ella  paífaõ ,  fendo  caminho  aber^ 
to  para  qualquer  oiitra-Officina,  6c  particularmente  para  as 
Cafas  immediatamente  contíguas  das  Fornalhas,  6c  das  Gal  - 
deiras:  contando  de  comprimento  todo  eíte  Edifício  cento  6c 
noventa  &  três  palmos,  6c  oitenta  6c  féis  de  largo.  Moe-fe  ne- 
fra  Gafa  a  Canna  com  tal  artifício  de  Eixos ,.  êc  Rodas,  que 
bem  merece  particular  reflexão ,6c  mais  diílinta  noticia. 

Tomaõ  para  mover  a  Moenda  do  Rio  acima ,  aonde  fa^ 
a  fua  queda  natural,  a  que  chamaõ  Levada,  que  vem  a  fer  mia 
porção  baftante  de  agua  do  açude  y  ou  tanque ,  que  para  iflb 
tem, divertida  com  reprezas  de  pedra, &  tijolo,do  íeu  eurfcv 
&  levada  com  declinação  moderada  por  hum  rego  capaz ,  Sc 
forte  nas  margens,  para  que  a  agua  vá  unida,  &  melhor  fe  có- 
ferve,  cobrado  na  declinação  cada  vez  mayor  Ímpeto*  &  for-~ 
f  a :  com  feu  fangrador,para  a  divertir,  fe  for  neceílario,  quan- 
do por  razaõ  das  chuvas  ou  cheas  vieíle  mais  do  que  fe  per* 
tende ;  6c  com  outraabertura  para  duas  bicas ,  húa  que  leva 
ê  agua  para  a  Gafa  das  Caldeiras,  6c  outra  que  vay  a  refrefcar  a 
Aguilhaó  da  Roda  grande  dentro  da  Moenda ;  fervindo-íe , 
para  a.  communicar  ao  outro  Aguilhaõ ,  de  húataboa :  èc,  aA 
fim  vay  a  entrar  no  cano  de  pao ,  que  chamão  Caliz ,  fuílen- 
tado  de  pilares  de  tijolo ,  6c  na  parte  fuperior  defcuberto,  cu- 
jo extremo  inclinado  fobre  os  cubos  da  Roda  fe  chama  Feri- 
dor;.  porque  por  elle  vay  a  agua  a  feriros  ditos  Cubos,  don- 
de fe  origina,  6c  continua  o  feu  moto.  AíTentão  os  Aguilhoés 
do  Eixo  defta  Roda ,  hum  pela  parte  de  fora ,  6c  outro  pela 
parte  de  dentro  da  Cafa  da  Moenda ,  fobre  feus  chumaceiros 
de.  pao ,  com  chapa  de  bronze \\  òc  a  eílcsluftentaõ  duas  Vir- 
gens^ 


] 


■ » "  -  ■ .  -  * 


Cultura , 

gens ,  ou  Efteyos  de  fora ,  &  duas  de  dentro ,  com  feu  brin- 
quete  ,  que  he  a  traveíía ,  em  que  os  Aguilhoens  fe  encoftão. 
E  fobre  eftes,  comodiíTemos,  vay  femprecahindo  húa  pe- 
quena porção  de  agua,  para  os  refreícar  ,  de  forte  que  peio 
continuo  moto  naõ  ardaõ  -,  temperando-fe  com  a  agua  fu  ffi- 
cientemente  o  calor. 

As  afpas  da  Roda  larga,  8c  grande  fuftentaõ  aos  arcos,  ou 
círculos  delia;  8c  dentro  apparecem  os  Cubos,ou  covas  feitas 
no  meyo  daRoda  ,  8c  unidos  hú  a  outro,  cõ  o  fundo  fechado 
do  forro  interior  da  mefma  Roda  entre  os  dous  arcos  delia, 
aífegurados  cõ  muitas  cavilhas  de  ferro,8ccom  fuás  arruellas 
8c  chavetas,  metidas,  &  atravefiadas,  para  encha  vetar  as  põ- 
tas  das  cavilhas  j  caufa  de  naõ  bulirem  os  arcos ,  né  os  Cubos 
ao  cahir  da  agua ,  &  de  ir  a  Roda  com  fuás  voltas  fegura.  Per- 
to da  Roda  pela  banda  de  fora  eítaõ  dous  Efteyos  altos ,  Se 
groífos,  com  três  traveíTas,  aíTeguradas  também  de  outra  par- 
te ;  húa  das  quaes  fuftenta  a  extremidade  do  Caliz ,  duas  ao 
Feridor ,  &  outra  ao  Pejador  do  Engenho.  He  o  Pejador  húa 
taboa ,  pouco  mais  larga  que  a  Roda,  de  dez  ou  doze  palmes 
de  comprimento  ,  com  fuás  bordas ,  femelhante  a  hum  gran* 
detaboleiro,  debaixo  do  Feridor,  com  húa  cavilha  chave- 
tada, de  forte  que fepoífa  jogar,  &  bulir  com  ella  fem  reíl- 
itencia  j  &  por  iííò  fe  faz  o  buraco  da  cavilha  baftantemente 
largo :  Sc  na  parte  inferior  tem  no  lado ,  que  fe  vay  a  encoftar 
à  parede  da  Moenda,  humefpigaõde  ferro,  prezo  tambem 
cem  húa  argola  de  ferro ,  que  entrando  por  húa  abertura  pe- 
la dita  parede,  com  fua  maõ ,  ou  cabo ,  em  o  qual  fe  encaviiha 
.fobre  hum  Efteyo ,  que  chamaõ  Mourão ,  á  maneira  de  en- 
gonços, fkaàdifpofiçãodequêeítánaMoendao  mandalla 
parar ,  ou  andar  como  quizer ,  empurrando ,  ou  puxado  pelo 
Pejador^o  qual  pondo-fe  fobre  os  Cubos,impede  ao  Feridor 
odarlheomotocom  a  queda  da  agua  j  &  tornando  adefeo- 
brir  aos  Cubos ,  torna  a  mover-fe  a  Roda ,  8c  com  a  Roda  a 

Mocn- 


&  Opulência  do  *Brafil.  49 

Moenda.  E  ifto  he  muito  neceííario  em  qualquerdéfaftre, 
que  pôde  acontecer  j  para  lhe  acudir  deprefía  ,  &  atalhar  os 
perigos.  E  chamão  a  eftataboaPejadori  porque  também  ao 
parar  doEngenho  chamão  pejanpor  vétura,  porfe  pejar  hum 
Engenho  Real  de  fer  retardado  ,  ou  impedido  ,  ainda  por 
hum  inftante ;  6c  de  não  fer  fempre ,  como  he  razão,  moente, 
6c  corrente.  E  ifto  quanto  á  parte  exterior  da  Moenda  ,  don- 
de principia  o  feu  movimento. 

Entrando  pois  na  Cafa  interior^  o  modo  com  que  fe  com- 
munica  o  moto  por  fuás  partes  á  Moenda  ,  heoíeguinte.  O 
Eixo  da  Roda  grande ,  que ,  como  temos  dito  ,  pela  parte  de 
fora  fe  mete  dentro  da  Gafado  Engenho ,  tem  no  feu  remate 
interior ,  chegado  aonde  aíTenta  o  Aguilháo  fobre  o  brinque- 
te ,  6c  Efteyos ,  hum  Rodete  fixo ,  Sc  armado  de  derítes ,  que 
ò  cerca ;  6c  efte  virado  ao  redor  pelo  caminho  do  ditoEixo> 
apanha  fucceflivamente  na  volta ,  queda  com  feus  dentes, 
outros  de  outra  Roda  fuperior ,  também  grande  ,  que  cha- 
mão Volândeira ,  porque  o  feu  modo  de  andar  circularmen- 
te no  ar  fobre  aMoenda  fe  parece  com  o  voar  de  hum  paííaroi 
quando  dá  no  ar  feus  rodeos.  Os  dentes  do  Rodete  ,  que  eu 
vi,  erão  trinta  6c  dous ;  Sc  os  da  Volândeira ,  cento  Sc  doze.  E 
porque  as  afpas  da  Volândeira  palTão  pelopefcoço  do  Eixo 
grande  da  Moenda  >  por  ellas  fe  lhe  comunica  o  impulfo  :  6c 
eíle  recebido  do  dito  Eixo  grande ,  cercado  de  entrozas  ,  6c 
dentes,  fe  communica  também  a  dous  outros  Eixos  menores, 
que  tem  de  ambas  as  ilhargas  ,  dentados  ,  6c  abertos  igual- 
mente, com  fuás  entrozas  do  mefmomodo,  que  temos  dito 
do  grande :  6c  com  eftes  dentes ,  6c  entrozas  fe  caufa  o  moto, 
com  que  uniformemente  o  acompanhão. 

As  afpas  da  Volândeira  faõ  oito,  quatro  fuperiores  ,  6c 
quatro  inferiores  :  6c  as  inferiores  tem  fuás  contrafpas,  para 
mayor  fegurança.  Os  três  Eixos  da  Moenda  fão  três  paos  re- 
dondos de  corpo  esférico,  alto  nos  menores  iguaes  cinco  pai- 

D  mos 


■     »«>' 


50  Cultura, 

mos  6c  meyo  ±  &  no  mayor  5  que  he  o  do  meyo  ,  alto  féis  pat- 
mos ,  &  também  de  esfera  mayor  que  os  outros  ,  &  porelei- 
çaó  o  melhor  ;  porque  jogando  com  os  dous ,  que  nas  ilhar- 
gas continuamente  o  apertão,,  gafta-fe  mais  que  os  outros: 
&porúTopor  boa  regra  os  menores  tem  nove  dentes,  &o 
mayor  onze  ■  &  fó  efte  (  para  fallarmos  com  a  lingua  dos  Of- 
ficiaes)  tem  feu  pefcoço,  &:  cabeça  alta,  conforme  a  altura 
do  Engenho ,  &  commummente  ao  todo  vem  a  ter  o  dito 
Eixo  doze  palmos  de  alto  :  cuja  cabeça  de  dous  palmos  & 
meyo ,  mais  delgada  que  o  pefcoço ,  entra  por  hum  pao  fu- 
rado ,  que  chamaõ  Porca ,  fuftentado  de  duas  Vigas  de  qua- 
renta &  dous  palmos  ,  asquaes  aífentaò  fobre  quatro  Eíre- 
yos  altos  dezafete  palmos,&  groíTos  quatro.,  com  fuás  travef- 
ías  proporcionadamente  diftantes.   Ê  ainda  que  os  outros 
dous  Eixos  menores  naó  tem  pefcoço  j  com  tudo  pela  parte 
de  cima  entraõ  quanto  baila,  com  fua  ponta,  ou  aguilhaõ, 
por  hunspaos  furados,  quechamãoMezas,  cu  Gatos,  cem 
que  fícaô  direitos ,  &  feguros  em  pé.  Os  corpos  dos  três  Ei- 
xos,  da  ametade  para  baixo  faó  veftidos  igualmente  de  cha- 
pas de  ferro  unidas ,  Sc  pregadas  com  pregos  feitos  para  efte 
'  fim  com  a  cabeça  quadrada ,  &  bem  entrante ,  para  fe  iguala- 
rem com  as  chapas  r  debaixo  das  quaes  os  corpos  dos  Eixos 
faó  torneados  com  tornos  de  paos  de  ley ,  para  que  fique  a 
madeira  mais  dura,  8ç  mais  capaz  de  refiftir  ao  continuo  a-' 
perto,  que  ha  de  padecer  no  moer.  Sobre  as  chapas  apparece 
hum  circulo,ou  faixa  de  pao, qhe  a  outra  parte  do  corpo  dos 
mefmos  Eixos,  defpida  de  ferro  :  &  logoimmediatamente 
ie  legue  o  circulo  dos  dentes  de  pao  de  íey ,    encaixados  no 
Eixo  com  fuás  entrozas,  (que  faó  húas  cavaduras  ,  ouvaós 
repartidos  entre  dente,  &  dente)  para  entrarem  ,  &  íahirem 
delias  os  dentes  dos  outros  Eixos  collateraes  >  que  para  iílò 
faó  cm  tudo  iguaes  os  dentes ,  &  as  entrozas  :  a  faber,  os  den- 
tes na  groífura,  Sena  altura  •>  &  as  entrozas  na  largura,  fc 

pio- 


&*  Opulência  do  7$ra/ul  5* 

profundeza  do  encaixamento  ,ou  vazio  ,  que  comummente 
faem  do  corpo  do  Eixo ,  comprimento  de  cinco  ou  féis  de- 
dos, de  largura  de  húamaõ,  &  de  quatro  ou  cinco  dedos  de 
cofta ,  de  forma  quaíi  chata ,  &  nos  extremos  redonda.  E  ain- 
da que  entre  dente ,  &  dente  dos  Eixos  menores  haja  efpaço 
medido  por  compaífo  de  igual  medida,  que  he  hum  palmo 
grande  j  osdoEixomayortem  demais  a  mais  tanto  efpaço, 
alem  do  palmo,  quanto  occupariaa  groflura  de húa  moeda 
de  dons  cruzados :  &  ifto  fe  faz ,  para  que  eftejaõ  em  fua con- 
ta ,  &  naó  entrem  no  mefmo  tempo  os  dentes  dos  Eixos  col- 
lateraesi  mas  hum  fe  ífga  atraz  de  outro,  &  defta  forte  fe  con- 
tinue em  todos  três  o-moto ,  quefe  pertende.  E  por  iílb  tam- 
bém os  dentes ,  Sc  as  entrozas  de  hum  Eixo  fe  haõ  de  defen- 
contrar  dos  dentes,  &  entrozas  de  outro :  a  faber ,  ao  dente 
do  Eixo  grande  ha  de  correfponder  a  entroza  do  pequeno;  M 
ao  dente  do  pequeno  a  entroza  do  grande.  Saõ  os  dentes(co- 
mo  dizia  )  na  parte  que  fae  fora  do  Eixo  algum  tanto  chatos, 
&■  no  rim  quaíi  redondos  ,  largos  quatro  ou  cinco  dedos ,  & 
outro  tanto  groU os :  &  entraõ  quafi  outros  quatro  dedos  pela 
fua  raiz  no  Eixo ,  aonde  fe  aífeguraõ ,  alem  da  parte,  com  que* 
fazem  parede  às  entrozas,  que  faõ  na  mefma  conta  quatro  ou  * 
cinco  dedos  profundas.  Sobre  os  dentes  dos  Eixos  menores 
#)  fica  a  terceira  parte  do  paodefcuberta,  &  fe  remata  a  modo 
de  degraos  em  dous  círculos  menores,  veftidos  de  duas  argo* 
las  de  ferro  de  groífura  de  hum  dedo  &  meyo ,  largura  de  três 
dedos :  &  na  ponta  do  pao  fe  vaza  de  tal  forte,  que  entre  nelle . 
hiu  buxa  quadrada  de  dous  ou  três  palmos ,  de  fapupíra  me- 
rim:  a  qual  buxa  tãbem  em  parte  fe  vaza,  &:  nella  fe  encaixa  o 
aguilhaô  de  ferro,cóprimento  de  três  palmos,  gr  oflura  de  hú 
caibro,  á  força  de  pancadas  com  hum  vay  vem  de  ferro.  E  pa- 
ra melhor  fegurança  do  aguilhaô ,  &  da  buxa ,  fe  abre  na  ca- 
beça dos  quatro  lados  da  buxa ,  com  húa  palmeta  de  íerro ,  á 
força  de  pancadas  do  vay  vem  i  &  fe  lhe  metem  húas.pal  me-, 

D  2  tas* 


: 


li:!»' 


51  Cultura , 

tas,  ou  cunhas  menores  de  pao  de  ley,  para  naõ  aluir.  E  peío> 
mefmoeftylo  de  degraos,  &  argolas ,  buxa,  &"  aguilhaõ,  cora. 
que  temos  ditofe  remata  a  parte  fuperior  dos  dous  Eixos  me- 
nores, feremataõ  também  as  partes  inferiores  de  todos  três, 
ajuntando  de  mais  a  cada  aguilhaõ  feu  piaõ  de  ferro  ,  calça- 
do de  aço  da  groííura  de  húa  maçai ,  que  também  fe  encaixa 
pela  parte  fuperior  até  dous  dedos  dentro  do  aguilhaõ;  &  pe- 
la parte  inferior  põem  a  ponta  fobre  outro  ferro  chato,  que 
chamaó  mancai ,  de  comprimento  de  hum  palmo  ,  também 
calçado  de  aço  ,  para  que  fe  naõ  fure  com  o  continuo  virar, 
que  fobre  elle  faz  o  piaô.  E  todos  eftes  três  Eixos ,  ou  corpos 
da  Moenda ,  aonde  chega  o  piaõ  ao  mancai  ,  aífentao  fobre 
hum  pao,  que  chamaó  Ponte,  de  comprimento  de  quinze  ou 
dezafeis  palmos :  &  para  fuftentar  toda  a  Moenda  forte ,  &: 
fegura,  fervem  quatro  Virgens,que  faõ  quatro  Efteyos,  altos 
da  terra  nove  palmos ,  &  groíTos  fete ,  femelhantes  no  feu  of- 
fíciode  fufter  aos  que  fuílentaõ  as  Vigas  grandes ,  &  a  Perca, 
ou  pao  furado ,  por  onde  paífa  a  ponta  do  Eixo  grande ,  que 
íòbre  os  outros  collateraes  fe  levanta  atèa  dita  altura,  como 
parte  principal  da  Moenda.  Sobre  eíías  Virgens  de  ponta  a 
ponta  vaõ  huns  paos ,  que  chamaõ  Mezas,  quafi  hum  palmo 
de  groííura ,  &  vinte  de  comprimento,  fobre  as  quaes  defean- 
çaõ  as  traveífas ,  que  chamaõ  Gatos  ,  em  que  fe  movem  os  ( 
Eixos  pela  parte  fuperior:  &  fobre  eíles  vay  outro  andar  ao 
comprido ,  de  taboas ,  que  chamaõ  Agulhas,  as  quaes  fervem 
para  fegurar  as  cunhas ,  com  que  fe  aperta  a  Moenda. 

O  lugar  aonde  fe  põem  os  feixes  da  Canna,  queimme- 
diatamente  ha  de  paífar  para  feefpremer  entre  os  Eixos,  faó 
dous  taboleiros ,  hum  de  húa  parte ,  &  outro  de  outra ,  que 
tem  feus  encaixas ,  ou  meyos  círculos  ao  redor  dos  Eixos  da 
Moenda,  afaíladosdelles  tanto,  quanto  baila  para  naõ  lhes 
impedir  fuás  voltas.  Eoeftaremos  taboleiros  chegados  aos 
Eixos,  he  para  que  naõ  cayaa  Çanna.ou  o  bagaço  delia  perto 

dos 


&•  Opulência  do  TZrafil.  53 

dos  aguilhoés ,  &  retarde  de  algum  modo  aos  pioés  •>  &.  para 
,que  fe  naõ  fuje  o  caldo, que  fae  da  Canna  moída. 


C   A   P    I    T   U  L  O    Vi. 

Do  modo  de  moer  as  Cannas :  Qf  de  quantas  peffoas 
neçeffita  a  Moenda. 


Oem-fe  as  Cannas  ,  metendo  algumas  delias  lim 
da  palha ,  Sc  da  lama  (  que  para  ino ,  fe  for  neceííario, 
ieiavaó)  entre  dous  Eixos  :  aonde  apertadas  fortemente  fe 
^fpremem,  metendo-fe  na  vol tanque  daõ  os  Eixos ,  os  dentes 
da  Moenda  nas  entrozas*,  para  mais  as  apertar ,  6c  efpremer 
entre  os  corpos  dos  Eixos  chapeados ,  que  vem  a  unir-fe  nas 
voltas  j  Sc  depois  delias  parladas ,  torna-fe  de  outra  parte  a 
paffar  o  bagaço,  para  que  feefprema  mais,  6c  de  todo  o  çu- 
mo,  ouliquor,  queconferva.  Eefteçumo  (ao  qual  depois 
chamaõ  Caldo  )  cae  da  Moenda  em  húa  Cocha  dè  pao ,  que 
eftá  deitada  debaixo  da  Ponte  dos  Aguilhoens  j  6c  dahi  cor- 
re por  húa  bica  a  humParól  metido  na  terra,  que  chamaõ 
Paról  do  Caldo  $  donde  fe  guinda  com  dous  caldeirões ,  ou 
cubos  para  cima  com  roda ,  eixo  ,  &  correntes  ,  6c  vay  para 
outro  Paról,  que  eftá  em  hum  fobradinho  alto,  a  quem  cha- 
maõ Guinda 5  para  dahi  paíTar  para  x  Cafadas  Caldeiras,aon- 
de  fe  ha  de  alimpar. 

Noefpaço  de  vinte  6c  quatro  horas  moe-fe  húa  Tarefa 
redonda  de  vinte  &  cinco  até  trinta  carros  de  Canna  j  6c  em 
húa  íèmana  das  que  chamaõ  folteiras  (que  vem  a  fer ,  fem  dia: 
fanto  )  chegaõ  a  moer  fete  Tarefas :  6c  o  rendimento  compe- 
tente he  húa  forma,  ou  paõ  de  Aífucar  por  fouce  >  afaber, 
quanto  corta  hum  Negro  em  hum  dia.  Nem  o  fazer  mais Af-. 
-   ^  D  3  fucar 


«a^i 


'  •■ 


54  Cultura, 

fucar  depende  de  moer  mais  Canna  }  mas  de  fer  a  Canna  de 
bom  rendimento ,  afaber,bemafTucarada5  naó  aguacenta, 
nem  velha.  Se  meterem  mais  Canna,  ou  bagaço ,  do  que  cõ- 
vem  j  haverá  rifco  de  fe  quebrar  o  Rodete ,  &  a  Moenda  da- 
rá de  íi ,  &  rangerá  na  parte  de  cima ,  Sc  poderá  fer  }  que  fe 
quebre  algum  aguilhaõ.  Se  a  agua  ,  que  move  a  Roda ,  for 
muita ,  moerá  tanta  Canna,  que  naó  fe  lhe  poderá  dar  vazàõ 
11a  Cafa  das  Caldeiras ,  &  o  Caldo  azedará  no  Paról  de  coar, 
por  fe  naò  poder  cozer  em  tanta  quãtidadenem ,  taõ  depreífa 
nas  Tachas.  E  por  iíío  o  Feitor  da  Moenda  3  &  o  Meftre  do 
AíTucar  hão  de  ver  o  que  convém  ;  para  que  fenaõ  perca  a 
Tarefa. 

O  lugar  de  mayor  perigo ,  quehanoEngenho,  he  o  da 
Moenda :  porque  íè  por  defgraça  a  Efcrava,  que  mete  a  Can- 
na entre  os  Eixos  5  ou  por  força  do  fono ,  cu  por  can cada  5  ou 
por  qualquer  outro  defcuido,  meteo  defattentadamente  a 
mão  mais  adiante  do  que  devia  3  arrifca-fe  a  paífar  moída  en- 
tre os  Eixos ,  fe  lhe  naõ  cortarem  logo  a  maõ ,  cu  o  braço  a- 
panhado  ,  tendo  para  iífojunto  da  Moenda  hum  facaõ*  ou 
jiaõ  forem  taõ  ligeiros  em  fazer  parar  a  Moenda ,  divertindo 
com  o  Pejador  a  agua ,  que  fere  os  cubos  da  Roda  3  de  forte 
que dem  depreífa  a  quem  padece,  de  algum  modoo remé- 
dio. E  efte  perigo  he  ainda  mayor  no  tempo  da  noite  y  era 
que  fe  moe  igualmente  como  de  dia ;  poíto  que  fe  revezem 
as  que  metem  a  Canna  por  fuás  efquipaçoens :  particularmen- 
te ,  fe  as  que  andaó  nefta  occupaçaõ  forem  boçaes }  ou  coíhi- 
madas  a  fe  emborracharem. 

AsEfcravas,  de  que  neceífita  a  Moenda  ,  ao  menos  íaõ 
fcte ,  ou  oito:  a  íáber ,  três  para  trazer  Canna ;  hCia  para  a  me- 
ter j  outra  para  paífar  o  bagaço  j  outra  para  concertar  ,  Sc 
acender  as  candeas  3  que  na  Moenda  faô  cinco ,  &  para  alim- 
par o  Cocho  do  Caldo ,  (a quem  chamão  Cocheira ,  ou  Ca- 
lumbá)  &  os  aguilhoés  da  Moenda3$c  refreícallos  com  agua, 

para 


• 


&•  Opulência  do  Trafê.  5 y 

para  que  naõ  ardaõ ,  fervindo-fepara  ifíbdoParól  da  agua 
que  tem  debaixo  do  Rodete  ,  tomada;da  quecae  noAptii- 
lhaõ  i  como  também  para  lavar  a  Carina  enlodada  5  &  outra 
finalmente  para  botar  fora  o  bagaço , .  ou  no  Rio  ,  ou  na  ba- 
gaceira .  para  fe  queimar  a  feu  tempo.  E  fe  for  neceííario 
botallo  em  parte  mais  diftantei  naõ  bailará  húa  fó  Efcrava,. 
mas  haverá  mifter  outra,  que  a  ajude :  porque  de  outra  for- 
te naó  fe  daria  vazáõ  a  tempo  ,  &  ficaria  embaraçada  a 
Moenda. 

Sobre  o  Paról  do  Caldo ,  que,  como  temos  dito  ,  eílá 
metido  na  terra,  ha  húa  Guindadeira ,  que  continuamente 
guinda  para  cima  com  dous  cubos  o  Caldo  :  Sc  todas  as  fo- 
breditas  Efcravas  tem  neceífídade  de  outras  tantas  ,  quèas 
revezem  depois  de  encherem  o  feu  tempo,  que  vem  a  fera 
ametade  do  dia  >  Sc  a  ametade  da  noite :  &  todas  juntas  laváo 
de  vinte  Sc  quatro  em  vinte  Sc  quatro  horas  com  agua,  Sc  vafr 
culhos  de  piaíTába  toda  a  Moenda.  A  tarefa  das  Guindadei- 
ras  he  guindar  cada  húa  três  Paroes  de  Caldo. ,  quando  for 
tépo,  para  encher  as  Caldeiras*  6c  logo  outra  outros  tresj  ftK> 
cedendo  deita  forte  húa  á  outra,  para  que  poííaõ  aturar  no 
trabalho.  E  para  o  bom  governo  da  Moenda,  alem  do  Feitor, 
que  attende  a  tudo ,  neffe  lugar  mais  que  em  outros,  parte  de 
dia,  Sc  parte  de  noite _,  ha  hum  Guarda  ,  ou  Vigiador  da 
Moenda:  cujo  officiohe,  attentar  em  lugar  do  Feitor,  que 
a  Canna  fe  meta ,  Sc  fe  paíTe  bem  entre  os  Eixos ;  que  fe  defpe* 
j  e ,  &  tire  o  bagaço  5  que  fe  refrefquem ,  Sc  alimpem  os  Agui- 
lhoens ,  Sc  a  Ponte  :  Sc  fuccedendo  algum  defaftre  na  Moen* 
da  j  elle  he  o  que  logo  acode,  6c  manda  parar. 


D  4 


CA. 


Cultura , 

C   J^?   I  T   U    L  O    VII. 

Das  Madeiras  ,  de  que  fe  fa\  a  Moenda ,  £r*  todo 
o  mais  madeiramento  do  Engenhe ,  Canoas  ,  Qf? 
Barcos  :  ©*  do  que  fe  coftuma  dar  aos  Car- 
pinteiros ,  Qf  outros  femelh  antes 
Officiaes* 

ANtes  de  paíTar  da  Moenda  para  as  Fornalhas ,  Sc  Cafa 
dasCaldeirasjpareceme  neceííario  dar  noticia  dosPaos 
&  Madeiras,  de  que  fe  faz  a  Moenda,  6c  todo  o  mais  madeira- 
mento do  Engenho ,  que  no  Brafil  fe  pôde  fazer  com  efcolha, 
por  naõ  haver  outra  parte  do  Mundo  tam  rica  dePaos  fele- 
êtos ,  Sc  fortes  y  naõ  fe  admittindo  nefta  fabrica  Pao ,  que  naõ 
feja  de  ley ,  porque  a  experiência  tem  moftrado  fer  ailim  ne- 
cefíario.  Chamaõ  Paos  de  ley  aos  mais  folidds ,  de  mayor  du- 
ra ,  6c  mais  aptos  para  ferem  lavrados :  &  taes  faõ  os  de  Sapu- 
câya,de  Sapupíra,  de  Sapupíra  cari,  de  Sapupíra  merim  , 
de  Sapupíra  açú ,  de  Vinhatieo,  de  Arco,  de  Jetay  amarel- 
lo,  de  Jetay  preto,deMeffetaúba,  de  Maífarandúba,  Pao 
Brafil ,  Jacarandá ,  Pao  de  Óleo,  Picai ,  6c  outros  femelhan- 
tes  a  eftes.  O  madeiramento  da  Cafa  do  Engenho,  Cafa  das 
Fornalhas ,  6c  Cafa  das  Caldeiras ,  &  a  de  Purgar ,  para  bem 
ha  de  fer  de  Maífarandúba $  porque  he  de  muita  dura ,  &c  fer- 
ve para  tudo ,  a  faber ,  para  Tirantes ,  Frechaes ,  Sobrefre- 
chaes ,  Tifouras ,  ou  Pernas  de  Afna ,  Efpigoés ,  &  Terças  : 
&  deita  cafta  de  Pao  ha  em  todo  o  Recôncavo  da  Bahia,  6c 
em  toda  a  Cofta  do  Brafil.  Os  Tirantes,  &  Frechaes  grandes 
valem  três ,  6c  quatro  mil  reis  3  6c  ás  vezes  mais ,  conforme  o 

f«u 


&  Opulência  do  TZrafil*  57 

feu  comprimento  ,  &  groífura  ,  aíTimtofcoscomovemdo 
matto  ,ió  com  a  primeira  lavradura.  Os  Eixos  da  Moenda  fe 
fazem  de  Sapucâya,  ou  de  Sapupíra  cari:  a  ponta,ou  cabo  do 
Eixo  grande ,  de  Pao  de  Arco,  ou  de  Sapupíra :  os  dentes  dos: 
três  Eixos  da  Moenda ,  do  Rodete ,  &  da  Volandeira  faõ  d© 
Mefletaúba.  As  Rodas  da  agua,  de  Pao  de  Arco,  ou  de  Sa- 
pupíra, ou  de  Vinhatico.  Os  Arcos  do  Rodete, &  Volandei- 
ra ,  Ôc  as  Afpas ,  Sc  Contrafpas ,  de  Sapupíra.  As  Virgens ,  Sc 
mais  Eíteyos ,  Sc  Vigas ,  de  qualquer  Pao  de  ley.  Os  Carros, 
de  Sapupíra  merím,  ou  de  Jetay ,  ou  de  Sapucâya.  ACaliz, 
de  Vinhatico.  As  Canoas,  de  Picay,  Joairâna,  Jequitiba* 
Utufsíca,  Sc  Angelí.  As  cavernas ,  Sc  braços  dos  Barcos,  de 
Sapupíra ,  ou  de  Landim  Carvalho ,  ou  de  Sapupíra  merím: 
a  quilha,  de  Sapupíra,  ou  de  Parôba :  os  forros ,  &  coitados , 
de  Utím,  Parôba  ,  Burayém  ,  &  Unhuíba  :  os  maítos,  de 
Inhuibatan:  as  Vergas,  de  Camafíarí:  o  leme,  de  Averao,  ou 
Angelí :  as  curvas ,  Sc  as  rodas  da  proa ,  Sc  poppa ,  de  Sapu- 
píra, com  feus  coraes  metidos :  as  varas ,  de  Mangue  branco: 
Sc  os  remos ,  de  Lindirâna ,  ou  de  Genipappo. 

As. Caixas ,  em  que  fe  mete  o  AíTucar ,  fe  fazem  de  Jequi- 
tibà,  Sc  Camaífarí :  Sc  naõ  havendo  deitas  duas  caítas  de  pao, 
quanto  baíta ;  fe  poderáõ  valer  de  Burifsica  para  fundos ,  Sc 
tampos.  E  eítas  taboas  para  as  Caixas  vem  da  Serraria  já  fer- 
radas ,  Sc  no  Engenho  fó  fe  levantaõ ,  endireitaõ ,  Sc  aparaõ : 
Sc  haõ  de  ter  nos  lados ,  para  bem ,  dous  palmos  Sc  meyo  de 
largo ,  Sc  fete  &  meyo ,  ou  oito  de  comprido  :  Sc  os  fundos 
três  palmos  de  largo,  Sc  o  mefmo  de  comprimento.  Valia 
rma  Caixa  nos  annos  paífados ,  dez ,  ou  doze  toftoens  -,  agora 
íubíraõ  a  mayor  preço. 

Hum  Eixo  da  Moenda  tofco  no  matto ,  Sc  torado  fó  nas 
pontas ,  ou  ainda  oitavado ,  vai  quarenta ,  cincoenta ,  Sc ÍqÍ- 
fenta  mil  reis,  Sc  mais,  conforme  a  qualidade  do  pao ,  Sc  a*te- 
ceífidade ,  que  ha  delle.  Os  que  vem  de  Porto- feguro  ,  Sc  Pa- 


58 


Cultura , 


tippe ,  ho  fomenos ,  por  ferem  creados.  em  Várzeas :  os  me- 
lhoresfaõ  os  que  vem  da  Pitanga,  &  daTerra-nova  acima 
de  Santo  Amaro.  Toda  a  Moenda  importa  mais  de  mil  cru- 
zados ;  alem  da  Roda  grande  da  agua,  que  por  fer  chea  de 
cavilhas ,  &  cubos ,  vai  mais  de  duzentos  mil  reis. 

Ao  Carapina  da  Moenda  fedaõ  cinco  toíloés  cada<Iia  a 
feco:  &  fe  lhe  derem  de  comer,  dáfe-lhe  hum  cruzado,  &  ain- 
da mais  neítes  annos,  em  que  todos  os  preços  fubíraõ.  Quafi 
o  mefmo  fe  dá  aos  Campinas  de  obra  branca.  Aos  Carapinas 
de  Barcos,  &  aos  Calafates  fe  daó  a  feco  fete  toíloés  &c  mey  o: 
3c  féis  toíloés  ,  ou  duas  patacas ,  fe  lhes  derem  de  comer. 
Hum  Barco  velejado  para  carregar  lenha ,  &  caixas ,  cuíla 
quinhentos  mil  reis  :  hum  Barco  para  conduzir  Canna,  tre- 
zentos mil  reis:  &  húa  Rodeira  quatrocentos  mil  reis,  As  Ca- 
noas vendem-fe  conforme  a  fua  grandeza,  &  qualidade  do 
Pao.  Por  iífo  fendo  as  de  qiie  comummente  fe  ufa  nos  Enge- 
nhos-, húas  pequenas ,  &  outras  mayores ;  mayor ,  ou  menor 
também  feri  o  preço  delias,  a  faber,  de  vinte,  trinta,  qua- 
renta, <k  cincoenta  mil  reis. 

Cortaõ-fe  os  Paos  no  matto  com  machados  no  difcurfo 
detodooanno,  guardando  as  conjunções  da  Lua,  a  faber, 
três  dias  antes  da  Lua  nova,  ou  três  depois  delia  chea ;  &  ti- 
rão-fe  do  matto  diverfamente;  porq  nas  Várzeas  huns  os  vaõ 
roíando  fobre  eílivas  ;  outros  os  arraílaõ  a  poder  deEfcra- 
vos,  q  puxão :  &  nos  Outeiros,  de  alto  a  baixo  fe  decem  com 
Socairoj  &  para  cima  dos  mefmos  Outeiros,  também  fe  arra- 
ílaõ puxando.  Iílo  fe  entende  aonde  naõ  ha  lugar  de  ufar  dos 
Boy  s ,  por  fer  a  paragem  ou  muito  a  pique  ,  ou  muito  funda, 
&  aberta  em  covões.  Mas  aonde  podem  puxar  os  Boys ,  fe 
tiraó  do  matto  com  tiradeiras,  amarrando  com  cordas,  ou  cõ 
íip òs,  ou  couros  a  tiradeira ,  fegurada  bem  com  chavelha :  Sc 
na  lama  em  tempo  de  chuva  ,  dizem  que  íe  arraílaõ  melhor, 
que  em  tempo  de  feca  5  porque  com  a  chuva  mais  facilmente 
«ícorregao.  C  A- 


&-  Opulência  do  UrafiL 


5P 


CAPITULO    VIIL 

Da  Cafa  das  Fornalhas,  (eu  aparelho ,  Qf  Lenha , 

que  ha  mifter  :  &  da  Cinza ,  Qffaa 

]Decoada. 


JUnto  á  Cafa  da  Moenda  ,  que  chamaõ  Cafa  do  Enge- 
nho, fegue-fe  a  Caía  das  Fornalhas  ,  bocas  verdadeira- 
mente tragadoras  de  Mattos  5  Cárcere  de  fogo ,  &  fumo 
perpetuo,  &  viva  imagem  dos  Vulcões,  Vefuvios,  &Et~ 
nas ,  &  quaíi  diífe  do  Purgatório ,  ou  do  Inferno.  Nem  fal- 
taõ  perto  deílas  Fornalhas  feus  condenados  *  que  faô  os  Ef- 
cravos  boubentos ,  &:  os  que  tem  cor  rim  entos }  obrigados  a 
eíla  penofa  aíTiftencia ,  para  purgarem  com  fuor  violento  os 
humores  Gallicos,  de  que  tem  chey os  feus  corpos.  Vem-fe 
ahitãbem  outros  Efcravos  facinoroíbs,q  prezos  em  compri- 
das ,  &  groílas  correntes  de  ferro ,  pagaõ  nefte  trabalhofo  ex« 
ercicio  os  repetidos  exceífos  da  fua  extraordinária  maldade^ 
com  pouca ,  ou  nenhúa  efperança  da  emenda. 

Nos  Engenhos  Reaes  coftuma  haver  féis  Fornalhas ,  & 
nellas  outros  tantos  Efcravos  affiftentes,  que  chamaõ  Mete- 
doresda  Lenha.  As  bocas  das  Fornalhas  faõ  cercadas  com 
arcos  de  ferro :  naõ  fó  para  que  fuftentem  melhor  os  tijolos } 
mas  para  que  os  Metedores  no  meter  da  lenha  naõ  padeçaõ 
algum  defaftre.  Tem  cada  Fornalha  fobre  a  boca  dous  boei- 
ros,  que  faõ  como  duas  ventas,  por  onde  o  fogo  resfolega. 
Os  pilares ,  que  fe  levantaõ  entre  húa ,  &  outra ,  hão  de  íèr 
muito  fortes,  de  tijolo,  &  cal:  mas  o  corpo  das  Fornalhas  faz- 
fe  de  tijolo  com  barro ,  para  refiftir  melhor  á  vehemente  acti* 

vidade 


;! 


Cultura , 

vidade  do  fogo  -y  ao  qual  naõ  refiftiria  nem  a  eal  ,  nem  a  pedra: 
mais  dura :  &  as  que  fervem  para  as  Caldeiras,faõ  algúa  coufa 
mayores,  que  as  que  fervem  para  as  Tachas.  O  alimento  do 
fogo  he  a  lenha:  6c  fó  o  Brafil  com  a  immenfidade  dos  mat- 
tos ,  que  tem ,  podia  fartar,  com  o  fartou  por  tantos  annos,  & 
fartará  nos  tempos  vindouros ,  a  tantas  Fornalhas,  quantas 
íàò  as  que  fe  contaó  nos  Engenhos  da  Bahia,  Pernambuco , 
&  Rio  de  Janeiro ,  que  com mumm ente  moem  de  dia ,  &  de 
noite ,  féis  >  fete ,  oito,  &  nove  mezes  do  anno.  E  para  que  fe 
veja ,  quam  abundantes  faõ  eftes  Mattos ;  fó  os  de  Jaguarip- 
pebaftaòpara  dar  lenha  a  quantos  Engenhos  haá  beira-már 
no  Recôncavo  da  Bahia ;  &  de  facto  quaíi  todos  deita  parte 
fô  fe  provém.  Começa  o  cortar  da  lenha  em  jaguarippe  nos 
princípios  de  julho  >  porque  na  Bahia  os  Engenhos  começaó 
a  moerem  Agofto. 

Tem  obrigação  cadaEfcravo  de  cortar,  &  arrumar  ca- 
da dia  húa  medida  de  lenha ,  alta  fete  palmos ,  &  larga  oito  -, 
6c  eftahe  também  a  medida  de  hum  carro  :  &  de  oito  carros 
conftaaTarefa.O  cortar,  carregar,  arrumar,  6c  botara  le- 
nha no  Barco ,  pertence  a  quem  a  vende :  o  arrumalla  no  Bar 
co ,  corre  por  conta  dos  Marinheiros.  Ha  Barcos  capazes  de" 
cinco  Tarefas  -y  ha  de  quatro ;  ha  de  três  :  &  eufta  cada  Tare- 
fa dous  mil  6c  quinhentos  reis,  quando  o  Senhor  do  Engenho 
a  manda  bufear  com  o  íeu  Barco :  6c  fe  vier  no  Barco  do  ven- 
dedor ,  ajuntarfe-há  de  mais  o  frete ,  conforme  a  mayor ,  ou 
menor  diftancia  do  Porto.  Hum  Engenho  Real ,  que  moe 
oito,  ou  nove  mezes,  gaita  hum  anno  por  outro  dous  mil  cru- 
zados na  lenha :  6c  houve  anno  ,  em  que  o  Engenho  de  Seri- 
gippe  do  Conde  gaitou  mais  de  três  mil  cruzados,  por  moer 
m  ais  tempo,  6c  por  cu  fcar  a  lenha  mais  caro.  Vem  a  lenha  em 
Barcos  á  vela,  com  quatro  Marinheiros ,  6c  o  Arraes :  &  para 
bem ,  o  Senhor  do  Engenho  ha  de  ter  dous  Barcos ;  para  que 
cm  chegando  h*m,  volte  o  outro.  O  melhor  íortimentoda 

Lenha 


e>  Opulência  docBrajíl.  6  $ 

Lenha he  aqnelle ',  cuja  ametade  confta  de  rolos  -grandes ,  Sc 
traveços ,  que  faõ  menores ;  Sc  outra  de  lenha  miúda  :  porque 
a  groíta  ferve  para  armar  as  Fornalhas ,  &  para  cozer  o  Aflii- 
carnasTachas ,  aonde  he  neceffario  mayor  fogo  ,  para  fe 
coalhar:  a  mediana  ferve  para  fazer  liga  cõ  a  grcíía :  &  a  miú- 
da ferve  para  alimpar  o  Caldo  da  Canna  nas  Caldeiras  5  por- 
que para  fe  levantar  bem  a  efcuma,  demandaõ  continuamen- 
te lavaredas  de  chama.  E  por  ifib  a  groíTafe  chama  Lenha  de 
Tachas ;  &■  a  miúda,  Lenha  de  Caldeiras. 
t  Chegada  a  Lenha  ao  Porto  do  Engenho  ,  arruffia-fe  na 
fua  bagaceira :  5c  íempre  bebem,  que  diante,  ou  perto  das 
Fornalhas  eílejaó  arrumadas  cinco  ,  ou  féis  Tarefas  de  Le- 
nha. Gaftaõ  dous  Barcos  de  Canna  ordinariamente  hum  de 
Lenha ,  fe  for  Lenha  fortida  :  porque  íe  for  miúda ,  naõ  ba- 
ila. O  primeiro  aparelho  da  Lenha ,  para  fe  botar  fogo  á  For- 
nalha ,  chama-fe  armar :  &  ifto  vem  a  fer,  empurrar  Rolos,  & 
eftendellos  no  laílro  ,  (  o  que  fe  faz  com  varas  grandes ,  que 
ehamaõ  Trasfogueiros  )  &  fobreelles cruzar  traveços,  Sc  le- 
nha miúda,  para  que  levantada  chegue  mais  facilmente  com 
a  chama  aos  fundos  das  Caldeiras ,  Sc  Tachas.  E  o  Metedor 
ha  de  eftar  attento  ao  que  lhe  mandão  os  Caldeireirosj  botan- 
do precifamente  a  lenha ,  que  os  de  cima  conhecem,  Sc  avifaõ 
fer  neceíTaria  j  aíllm  para  que  naõ  trasborde  o  Caldo ,  ou  Me* 
lado  dos  Cobres ;  como  para  que  naõ  falte  o  ferver.  Porque 
fe  naõ  ferverem  fua  conta ,  naõ  fe  poderá  alimpar  bem  da  im- 
mundicia ,  que  ha  de  vir  acima ,  para  fe  tirar ,  &  efeumar  das 
Caldeiras.  Porém  para  as  Tachas,  quanto  mais  fogo,  me- 
lhor. 

Á  Cinza  das  Fornalhas  ferve  para  fazer  Decoada :  Sc 
efta  para  alimpar  ao  Caldo  da  Canna  nas  Caldeiras ,  Sc  para  q 
íaya  o  Aífucar  mais  forte.  Paraiííb  ,  arrafta-fe  com  Rodo  de 
ferro  atè  a  boca  das  Fornalhas  pouco  a  pouco  a  Cinza,&  bor- 
ralho -  &  dalii  com  hua  pá  de  ferro  fe.  tira  x  Sc  fe  leva  fobre  ai 

me&- 


r— «* 


r  " 


6%  Cultura , 

mefma  pá  para  o  Cinzeiro ,  que  he  hum  Tanque  de  tijolo  fo- 
bre  pilares  de  pedra  &  cal ,  de  figura  quadrada ,  com  fuás  pa- 
redes ao  redor :  6c  aqui  fe  conferva  quente ,  &  afíim  quente  fe 
põem  nas  tinas ,  que  para  iíío  eftaó  levantadas  da  terra  fobre 
huns  efteyos  de  três  palmos.  Ahi,  depois  de  bem  caldeada,  & 
arrumada,  fe  lhe  bota  agua,  tirada  de  hum  tacho  grande,  que 
eftá  fervendo  fobre  a  fua  proporcionada  fornalha  perto  do 
Cinzeiro.  E  para  iífo  ferve  a  agua,  que  palia  pela  bica ,  que 
vay  á  Cafa  das  Caldeiras  :  &  coando  eira  agua  pela  Cinza , 
âté  paí^r  pelos  buracos ,  que  tem  as  tinas  no  fundo ,  cobra  o 
nome  de  Decoada ,  &:  vay  a  cahir  nas  formas ,  ou  vaíilhas  en- 
terradas atè  a ametadej  Scdahifetira  com  hum  coco  ,  &  fe 
paíTa  em  hum  tacho  par  a  aCaíà  dasCaldeirasjaonde  fe  repar- 
te pelas  Formas ,  que  eftaó  porias  entre  as  Caldeiras,  &  ferve 
para  os  Caldeireiros  ajudarem  com  ella  ao  Caldo,  como  fe 
diràemfeu  lugar. 

Ha-fe  porém  de  advertir,  que  nem  toda  a  lenha  he  boa, 
para  fe  fazer  Decoada  :  porque  nem  os  paos  fortes,  nem  a 
lenha  fecca  fervem  para  ifTo.  E  a  razaõhej  porque  os  paos 
fortes  fazem  mais.  carvaõ ,  do  que  cinza :  &  a  lenha  miúda  dà 
pouca  cinza ,  &  fem  força.  A  melhor  he  a  dos  Mangues  bran- 
cos ,  &  de  paos  mollesj  a  faber,  a  de  Cajueiros ,  Aroeiras ,  Sc 
Gamelleiras.  E  para  fe  conhecer  ,  fe  a  Decoada  he  perfeita , 
ha-fe  de  provar,  tocando  a  lingua  com  hua  pinga  delia  fo- 
bre a  ponta  do  dedo :  &:  fe  arder  ,  fera  boa :  fe  naó  arder ,  fera 
fraca.  Também  ,  fefobejar  Cinza  de  hum  anno  para  outro 
nas  caixas ,  aonde  a  coftumaõ  guardar ;  antes  de  fe  pôr  nas  ti- 
nas,  deve  tornar  a  aquentar-fe  no  Cinzeiro  ,  ou  mifturar-fe 
com  a  primeira  ,  que  fe  tirar  das  Fornalhas  com  borralho: 
porque ,  fe  antes  enfraqueceo  -,  comede  beneficio  torna  a  co- 
brar feu  vigor. 


C  A- 


&•  Opulência  do  'Bra/IL 


C    A   P  I  T   U   L  O     IX. 


Das  Caldeirado?  Cobres-,  feu  aparelho,  Officiaes, 

&  Gente ,  que  nellas  ha  núíler :  ÊT '  Inftrtí- 

mentos  Àe  que  ufaÕ. 

A  Terceira  parte  deUeEdifício  fuperior  ás  Fornalhas,  hts 
a  Caía  dos  Cobres;  porque  ainda  que  eíla  fe  chame  cõ* 
mummenteaCafa  das  Caldeiras,  naó  faó  ellas  fó ,  que  tem 
lugar  neíta  parte;  mas  outros  grandes  Vafos  de  cobre,,  como 
faõ  Paroes,  Bacias,  &  Tachas  i  &  deíbes  Vafos  tem  os  Enge- 
nhos Reaes  dous  ternos  femprcem  obra  ;  porque  de  outra 
forte  naópoderiaõ  dar  vazàõ  ao  Cafdo ,  quevemdaMoen^ 
da.  Eftaõeftes  Cobres  poftos  fobreaabobada  dais  fornalhas 
em  aífentos ,  ou  encoftadores  de  tijolo ,  & cal  ao  redor }  aber- 
tos  de  tal  forte ,  que  com  o  fundo,  que  metem  dentro  da  mef- 
ma  Fornalha,  tapa  cada  qual  a  abertura ,  em  que  fe  recebe; 
&:  entra  por  ella  proporcionadamente  aO  corpo ,  que  tem  y  a 
faber ,  menos  as  Tachas ,  &  muito  mais  as  Caldeiras.  E  afEia 
como  tem  fua  parede ,  que  divide  húa  de  outra  $  &  outra  pa* 
rede ,  que  divide  efta  Gafa  da  outra  contigua  do  Engenho^ 
aflim  tem  diante  de  fi  hum ,  ou  dous  degraos ,  por  onde  fe  fo- 
be  a  obrar  nelles  com  os  inftrumentos  neceífarios  nas  ftiãos$ 
&:  com  baftanteefpaço ,  para  dominar  fobre  elles com  ajufta. 
da  altura  ?  Sc  diftancia;  &  ao  redor  de  todaa  parede  dianteira, 
com  caminho  defafogado  no  meyo ,  eltáo  Tendal  das  For* 
mas,  em  que  íe  bota  o  Aílucar  já  cozido  acoaiiar  5  &he  ca- 
paz de  oitenta ,  &  mais  Formas. 

Confia  hum  terno ,  ou  ordem  de  Cobres  f  alem  do  Paról 

do 


6a  Cultura^ 

do  Caldo  ,  6c  do  Paról  da  Guinda  ,  que  ficaó  na  Cafa  da 
Moenda)  de  duas  Caldeiras,  a  faber ,  da  do  meyo,  &  da  ou- 
tra de  melar :  de  hum  Paról  da  Efcuma  :  de  hum  Paról  gran- 
de ,  que  chamão  Paról  do  Melado;  &  de  outro  menor,  que  fe 
chama  Paról  de  coar :  de  hum  terno  de  Tachas ,  que  faõ  qua- 
tro 3  a  faber ,  a  de  receber ,  a  da  porta  ,  a  de  cozer ,  &  a  de 
bater :  &)  finalmente  de  húa  Bacia  ,  que  ferve  para  repart  ir  o 
Aflucar  nas  Formas.  E  de  outros  tantos  Cobres  de  igual,  oti 
pouco  menor  grandeza,  confia  outro  andar  femelhante. 

Leva  o  Paról  do  Caldo  de  hum  Engenho  Real  vinte  ar- 
robas de  cobre :  o  Paról  da  Guinda ,  outras  vinte  arrobas  :  as 
duas  Caldeiras,  feflfenta  arrobas :  o  Paról  da  Efcuma,  doze 
arrobas :  o  Paról  do  Melado,  quinze  arrobas :  o  Paról  de  coar, 
oito  arrobas :  o  terno  das  quatro  Tachas ,  a  nove  arrobas  ca- 
da hua,  trinta  &'■  féis  arrobas:  a  Bacia,  quatro  arrobas:  que  em 
tudo  faõ  cento  &  fetenta  &  cinco  arrobas  de  cobre  :  o  qual 
vendendo-fe  lavrado ,  quando  he  barato,  a  quatrocentos  reis 
a  livra ,  importa  dous  contos  &  duzentos  &  quarenta  mil 
reis,  que  faõ  cinco  mil  &  feiscentos  cruzados.  E  fe  fe  acrecen- 
tar  outro  terno  de  Cobres  menores,  ou  iguaes,  crecerá  pro- 
porcionadamente o  feu  valor. 

A  parte,emq  as  CaldeiraSj&asTachas  mais  padece,  heo 
fundo :  &c  fe  efte  for  de  ruim  cobre ,  &  naõ  tiver  a  grofliira  ne- 
ceífaria,  naõ  fe  poderá  alimpar  o  Caldo,  comohe  bé,nas  Cal- 
deiras i  &  o  fogo  queimará  nas  Tachas  ao  Aflucar  5  antes  de 
fe  cozer ,  &  bater.  Por  iflb  nos  Engenhos  Rcaes ,  que  moem 
fete ,  &  oito  mezes  do  anno ,,  fe  tornaõ  a  refazer  todos  os  fun- 
des das  Caldeiras  ■>  &  Tachas. 

As  PeíToas ,  que  afliftem  nefta  Cafa ,  faõ  o  Meftre  do  Af- 
fucar ,  o  qual  preíide  a  toda  a  obra  -}  &  corre  por  fua  conta  jul- 
gar, fe  o  Caldo  efrá  já  limpo ,  &  o  Aflucar  cozido ,  &  batido, 
quanto  pede ,  para  eftar  em  fua  conta :  afliíle  às  temperas ,  & 
ao repammento  delias  nas  Formas  ;  alem  do  que  lhe  cabe  fa- 
zer 


ç>  Opulência do£Bra/iL  6$ 

zer  na  Caía  de  Purgar ,  de  que  fatiaremos  no  feu. próprio  lu- 
gar. A  fua  aíliftencia  principal  he  de  dia  : .  &  ao  chegar  da 
noite  entra  a  fazer  o  mefmo  ®  Banqueiro ,  que  hecoraoo 
Contramcftre  deita  Cafa  :  Scdaintelligencia,  experiência^ 
6c  vigilância  de  hum,  &"  outro  depende  em  grande  parte  o  fa- 
zer-íe  bom ,  ou  mao  Aflucar.  Porque  ainda  que  a  Canna  naó 
feja,qualdevcferj  muito  pôde  ajudar  a  Arte  ,  no  que  faltou 
a  Natureza.  E  pelo  contrario  pouco  importa  ,  que  a  Canna 
fej  a  boa,  fe  o  fruto  delia  ,  &  o  trabalho  de  tanto  cufto  fe  bo- 
tar a  perder  por  defcuido  ,  com  naó  pequeno  encargo  de 
confciencia  para  quem  recebe  aventajadoeftipendio.  Tem 
mais  por  obrigação  o  Banqueiro,  repartir  de  noite  o  A ífuçar 
pelas  Formas,  aííentallas  noTendal,  &  concertallas  com 
fípó.  E  para  lhe  diminuir  o  trabalho  neílas  ultimas  obriga- 
çoens,tem  hum  Ajudante  de  dia,  aquém  chamaõ  Ajudabã- 
queiro,  o  qual  também  reparte  o  Aííucar  pelas  Formas,  af« 
fenta-as,  &concerta-as,comoeftá  dito, 

Revezaõ-fe  nas  Caldeiras  oito  Caldeireiros  ,  divididos 
era  duas  efquipaçoens ,  hum  em  cada  húa ,  de  aíliftencia  con- 
tinua atè  entregalla  ao  feu  fucceíToryefcumandoo  Caldo  que 
ferve ,  com  Cubos ,  Sc  Tachos.  Obrigação  de  cada  Caldei- 
reiro, he  efcumar  três  Caldeiras  de  Caldo ,  que  chamao  três 
Meladuras  :  5c  a  ultima  fe  chama  de  Entrega y,  porque  a  deve 
dar meyolimpaao Caldeireiro,  que  o  vem  render.  Epara 
eftas  três  Meladuras ,  lhe  ha  de  dar  a  Guindadeira  o  Caldo, 
que  ha  mifter ,  a  íèutempoj  a  faber ,  acabado  de  efcumar ,  & 
alimpar  húa  Meladura,  darlhe  outra. 

Nas  Tachas  trabalhão  quatro  Tacheiros  por  efquipa- 
çoens de  aíllfíencia ,  hum  em  cada  Terno  de  Tachas :  &  tem, 
por  obrigação  cada  hum  delles,  cozer,  &  bater  tanto  A  fíli* 
car,  quanto  heneceííario  para  fe  encher  húa  Venda  de  For* 
mas,  que  vem  a  fer  quatro ,  ou  cinco  Formas. 

Serve,  finalmente  para  varrer  a  cafa,  &  para  concertar ,  & , 

E  i  'í ;  ■  acen-: 


$6  Cultura , 

acender  as  carideas,(que  faõ  íeis,  &  ardem  com  azeite  de  pei- 
xe) &  para  tiraras  fegundas,  &  terceiras  efcuraas  doíeu  pró- 
prio Paról ,  «8c  f  ornalias  a  botar  m.  Caldeira  ,  húa  Efcrava ,  a 
quem  chamaõ  por  alcunha  A  Calcanha. 

He  também  eíia  Cafa  lugar  de  Peoidentes  :  porque -com- 
mumméiite  fe  vem  nella  Imns  Mulatos ,  6c  huns  Negros 
Crioulos  exercitar  oollicio  de  Tacheiros,  Sc  Caldeireiros, 
amarrados  com  grandes  correntes  deferro  a  hum  cepo  ,  ou 
por  fugi  tivos,  ou  por  iníignes  em  algum  género  de  rnaldade} 
para  que  deita  férreo  ferro ,  Sc  o  trabalhosos amaníè.  Mas  en- 
tre elles  ha  também  ás  vezes  alguns  menos  culpados ,  &  ain- 
dainnocentesj  por  fer  oSenhor  ou  demafiadamente  fácil  a 
crer  o  que  lhe  dizem ,  ou  multo  vingativo ,  Sc  cruel 

Os  Inft  rumemos  ,  de  que  fe  ufa  na  Cafá  das  Caldeiras , 
faõ  Efeumadeiras,  Pombas ,  Reminhoes ,  Cubos  9  Paílàdei- 
ras,  Repartideiras,  Tachos ,  Vafculhos ,  Batedeiras,  Bicas, 
Cavadores,  Efpatuks ,  Sc  Picadeiras.  Das  Efcutnadeiras ,  Sz 
Pombas  grandes  irfaõ  os  Caldeireiros:  fervem  as  Efcumadei- 
ras  para  alimpar :  as  Pombas ,  parabotaroCaldo  de  húa  Cal- 
deira para  outra  -y  ou  da  Caldeira  para  o  Paról :  &  por  iíío  os 
cabos,  aílim  de  húas,  comodeoiitras,  tem  quatorze  ou  quin- 
ze palmos  de  comprido,  para  fe  poderem  menear  bem.  Os 
Reminhoes  fervem  para  botar  agua ,  &:  decoada  nas  Caldei- 
ras; &  para  ajudar  aos  Tacheiros  a  botar  o  Aífucar  na  Repar- 
tideira,  para  irás  Formas.  Das  Efeumadeiras  mais  pequenas,, 
Batedeiras ,  Sc  Panadeiras ,  Picadeiras ,  &  Vaículhos  ti  íaõ  os 
Tacheiros  da  Repartideira ,  Cavador ,  Sc  Efpatulas  o  Ban- 
queiro ,  8c  o  Ajudabanqueiro  :<6c  dos  Tachos ,  Cubos ,  8:  Bi  - 
ca  ufa  a  Cak  anta  a,  para  tiraraefeuma  do  feu  próprio  1 .-. u  ol, 
6c  para  tornaljaa  pôr  na  Caldeira.  Scrveo  Vaículho  p^rati- 
rar  alguaimmundicia  ao  redor  das  Tachas :  a  Picadeira,  para 
tirar  o  Aífucar ,  que  eírá  como  grudado  nas  rnefm  as  Tachas; 
Sc  o  Cavador,  para  fazer.no  bagaço  do  Tenda!  as  covas,  aon- 
de fe  põem  as  íormas.  C  A- 


&-  Opulência d'o*Bra(il. 


6? 


CAPITULO     X. 

Do  wo^o  á*  alimpar ,  ©*  -purificar  o  Caído  da  Can- 

na  nas  Caldeiras  ,  Cf  #0  Par 61  de  coar ,  tf/e 

f  afiar  para  as  Tachas. 

Uindando-feo  çumo da Canna  (que chamaõ  Caldo): 
J  para  oFaról  da  Guinda  ydahi  vay  por  hm  bica  a  entrar 
na  oaía  dos  Cobres-:  &;  o  primeiro  lugar ,  em  que  cae  ,  he  a 
Caldeira,  que  chamaõ  do  Meyo ,  para  nella  ferver  ,&  come* 
çar  a  botar  fora  a  immundicia ,  comi  que  vem  da  Moenda.  O 
£  )gofaz  neíte  tempo  o  feu  oírlcio  •,  Sc  o  Caldo  bota;  fora  a 
primeira  efcuma  >  a  que  chamaõ  Cachaça  .*  &  cita  por  fer  ira* 
miindtííimay  vay  pelas  bordas  das  Caldeiras  bem  ladrilha- 
das fórada  Caía ,  por  hum  cano  enterrado ,  que  a  recebe  poi 
hua  bica  de  p®&$  metida  dentro  doladrilhoy  queerlá  aoré- 
dor  da  Caldeira  -,  &  vay  caltindo  pelo  dito  cano  em  hum 
grande  Cochodepao ,  &  ferve  para  as  BeílaSy Cabras,  Ove- 
lhas y  &  Porcos  i  &  em  algumas  partes: y  também  os  Boys  a 
lambem ;  porqiue  tudo  o  que  he  doce ",,  ainda  qtieimmundoj 
deleita.  E  para  que  o  fogo  naó  levante  a  efcuma  mais  do  que 
heju-íto  >&  dé  lugar  de fe  alimpar  o  Caldo ,  como  he  bem ; 
footaólhe  os  Caldeireiros  de  quando  em  quando  agua  com 
hum  ReminhòL :  &  deita  forte  fe  reprime  a  deraafiada  for- 
ça da  fervura,  Sc  o  Caldo  ainda  immundofe  alimpa. 

Saàidaa  primeira  efcuma  per  íi  mefma,  começaó  os  Caíw 
deireiros  com  grades  eícumadeiras  de  ferro  a  efcumar  o  Caí- 
do, &  ajudallo  ;  &  chamaõ  ajudar  o  Caldo*,  obotarlhede 
qaando  em  quando  jàrhum  Reminhòl  de  decoada 3  jà  outro 

Ez  de 


t« 


■ 


6%  Cultura , 

de  agua ,  que  ahi  tem  perto :  a  agua  nas  tinas ,  &■  a  decoada 
nas  Formas.   Serve  a  agua ,  parola v ar  o  Caldo  \  &  a  decoa- 
da, para  que  toda  a  immundiçia,  que  relia  na  Caldeira  , 
venha  mais.dè  preffa  arriba,  &  naòaííente  nó  fundo.  Ser- 
ve também  para  condenar  o  Aílhcar,  &  fazello  mais  for- 
te; encoporando-fe  com  o  Caldo,  âo  modo  quer  fe  encorpo* 
raofalcomaagua.  Eíta  fegunda  Efcuma  fe guarda,  &c  cae 
por  outra  bica  da  mefma  borda  do  ladrilho  para  o  Farol  mais 
baixo  ,&  afaftado  do  fogo  ,  que  fe  chama  Paról  da  Efcuma  : 
&dahi  com  cubo,  5c  tacho  torna  a  botallo  a  Negra  Cal  ca- 
nha, qtietemiftoporofficio,  na  mefma  Caldeira,  parafe 
purificar ,  que  chamaó  repaífar :  8c  vay  por  húa  bica  de  pao, 
encavilhada  fobre  hum  efteyo  de  igual  altura  das  Caldeiras , 
(a  que  chamaô  Viola,  por  imitar  no  feitio  a  eíle  inírrumento) 
larga  no  corpo ,  ou  parte ,  em  que  recebe  a  efcuma^  &  eítreira 
no  canno,  por  onde  cae  na  Caldeira.  E  tanto  que  o  Caldo  ap- 
parece  bem  limpo,  (efquefe  conhece  pela  efcuma,  8c  pelos 
olhos,  &  empolas,  que  levanta  ,  cada  vez  menores ,  &  mais 
claros  )  com  húa  Pomba  grande  (  que  he  hum  vafo  concavo 
de  cobre,com  feu  cabo  de  pao  comprido  doze  ou  quinze  pal- 
mos) obótaõ  na  fegunda  Caldeira,  que  chamaõ  de  Melar:  & 
aqui  fe  acaba  de  purificar ,  com  o  mefmo  beneficio  de  agua  & 
decoada,  atè  ficar  totalmente  limpoJDeixa-fe  alimpar  oCal- 
do  na  Caldeira  do  meyo  comummente  pelo  efpaço  de  meya 
hora :  Sc  já  meyo  purgado  paífa  a  cahir  na  Caldeira  de  Melar 
por  húa  hora  ,.ou  cinco  quartos ,  atéacabar  de  fe  efcumar :  & 
nunca  fe  tira  todo  o  Caldo  das  Caldeiras ,  por  razaó  dos  Co- 
bres, que  padeceriaõ  detrimento  do  fogo  ;  mas  fe  lhes  deixa 
dous,  ou  três  palmos  de  Caldo,  8c  fobre  efte  febota  o  novo. 
A  Efcuma  tanibem  deita  fegunda  Caldeira  vay  aoParòl  da 
Efcuma  •,  Sc  dahi  torna  para  a  primeira ,  ou  fegunda  Caldeira 
até  o  fim  da  Tarefa :  8í  deita  Efcuma  tomaó  os  Negros  para 
fazerem  fua  Garappa ,  que  he  a  bebida,  de  que  mais  goftaõ , 

&  com 


&  Opulência  do  73rafil.  69 

goftaõ ,  6c  com  que  reígataó  de  outros  feus  Parceiros  farinha, 
bananas ,  aipins ,  8c  feijoens ;  guardando- a  em  potes  ate  per- 
der a  doçura ,  6c  azedar-fe ,  porque  entaõ  dizem  que  eílà  em 
feu  ponto  para  fe  beber:  oxalá  com  medida,  &  naó  atè  fe  em- 
borracharem. A  derradeira  Eícuma  da  ultima  Meladura,que 
he  a  ultima  purificação  doCaldo,chamaõ  Claros:  &  eftes  mi- 
fturados  com  agua  fria ,  faõ  bua  regalada  bebida ,  para  reíref- 
car,  &  tirar  a  fede  nas  horas ,  em  que  faz  mayor  calma.  Final- 
mente tanto  que  o  Meftre  do  AíTucar  julgar  que  a  Meladu- 
raeftá  limpai  o  Caldeireiro  com  húa  Pomba  bota  o  Caldo, 
aquejáchamãoMel,  no Paról grande,  que  chamaó  Farol 
do  Melado ,  &  eftá  fora  do  fogo ,  mas  junto  á  mefma  Caldei- 
rajdòde  o  coaó  para  outro  Paról  mais  pequeno  ,q  charnaõPa- 
ról  de  coar,  com  pannos  coadores  eftendidos  fobre  húa  gra- 
de. E  para  que  naó  caya  alguma  parte  delie  na  paífagem  de 
hum  Paról  para  outro,  &  fc  perca ;  botaõ-lhe húa  telha  de 
forma  de  purgar ,  que  como  feu  arco,  6c  volta  abarca  aos  bei- 
ços de  ambos  os  Paroes,  por  onde  corre  o  Caldo,  que  cae  no 
pa{Tar  da  Pomba ,  k  vay  a  dar  em  hum ,  ou  em  outro  Paról  : 
êcdefta  forte  nem  húa  fó  pinga  fe  perde  daquelle  doce  liquor, 
que  baftante  fuor ,  fangue ,  6c  lagrimas  eufta  para  fe  ajuntar. 

> 

CAPITULO     XI. 

Do  modo  de  co^er ,  Qf  bater  o  éA/lelado  nas 
Tachas. 

EStando  já  o  Caldo  purificado ,  6c  coado ,  pafíaa  cozer- 
fe  nas  Tachas,  ajudadas  de  mayor  fogo  ,  6c  chama  da 
que  haó  mifter  as  Caldeiras}  com  tanto  que  os  fundos  tenhaó 

E3  agrof- 


H 


7&  Cultura , 

a  grofTura  baftante ,  para  reíiftir  á  mayoracHvidade ,  qne  ne- 
íte  lugar  fe  requer.  E  íe  o  Melado fe  levantar  de  forte,  que 
ameace  tresbordar  5  botando!  he  hum  poucodefevo,  \Go0 
amaina,  &fecalla.  O  que  tal-vez  também  fana  húa  boa  ra- 
zão, fehouvefíè  quem  a  fuggeriíreno tempo  ,  em  qne  a  in- 
dignação quer  fahir  fora  de  feus  limites.  Dizem,  que  fe  fe  bo- 
taííe qualquer  liquor  azedo  nas  Caldeiras  ,  ou  nas  Tachas, 
como  verbi  gratia  çumo  de  limaò ,  ou  outro  femelhante;  o 
Melado  niinca  fe  poderia  coalhar,  nem  condenfar,  comoVe 
pertende:&  allegaõcafos  íegmdos.  Porém  rito  naó  parece 
fer certo,  falíando de  qualquer  caffa de iiquor azedo,  fenaó 
dodelimaõ:  porque  já  houve  quem  botou  no  Caldo  Cacha- 
ça azeda  em  quantidade  baftante,  ou  por  fazer  peça , ou  por 
enfado,  &  impaciência  j .  &  com  tudo  coalhou  muito  bem  a 
feu  tempo.  Só  de  alguns  ânimos  fe  verifica,  que  por  hum  le- 
ve defgofto  bótaó  a  perder  hum  grande  cumulo  ,  &  naó  de 
quaefquer  benefícios.  O  certo  he ,  que  em  paííando  o  Mela. 
do,  ou  Mel  para  as  Tachas,  pede  mayor  vigilância,  &  at- 
íencao  dos  Tacheiros,  Banqueiro,  &  Sotobanqueiro ,  & 
Méftre  :  porque  cite  propriamente  he  o  lugar,  em  que  obra 
como  Meíire  intelligeníe  3  &  aonde  he  neceífario  todo  o  cui- 
dado, &  artificio. 

Paliando  pois  o  Melado  do  Paról  de  coar  para  o  Terno 
das  Tachas,  corre  por  cada  húa  delias  ordenadamente  5  &:  ' 
pára  em  cada  hua ,  quanto  for  neceíTario:>  &maó  mais ,  para  o 
fim ,  que  em  cada  qual  fe  pertende.  Na  primeira  Tacha ,  que 
fe  chama  a  de  receber, ferve,  &  começa  a  cozer-  fc}  &  íelhe 
tiraó  as  efcumas  mais  finas,  que  ehamaõ  Nettas,  6c  fcbótaõ 
com  húa  pequena  efcumadeira  em  húa  Forma,  que  ahieftá 
poíta ,  &  fe  as  quizerem  aproveitar,  como  he  bem,  faraó  del- 
ias no  lim  da  femana  hum  Paó  de  /Uíucar  fomenos  :  porque 
eftaEfcuma  naó  torna  á  Tacha,  como  torna  a  do  Caldo  ás 
Caldeiras.  Da  Tacha  de  receber,  aonde  eílá  pouco  tempo,. 

paíTa-fe 


^-■^■1  *■ 


&  Opulência  do  'Brafil.  y% 

paffa-fe  o  Melado  com  húa  PaíTadeira  de  cobre  (quehedo 
feitio  de  húa  Pomba  pequena) para  a  íegunda  Tacha  ,q  cfoa- 
maõ  da  Porta :  6c  aqui  continuando  a  ferver ,  &  engroííar  >  fe 
lançar  de  fi  para  a  borda  algúa  immundicia ,  tira-fe ,  &  alim- 
pa-fe  ao  redor  com  hum  Vafculho,  que  he  como  hum  pincel, 
ou  efcova  de  imbíra ,  amarrado  na  ponta  de  iiúa  vara :  &c  ne- 
fta  Tacha  fe  deixa  eftar  mais  tempo,  atè  ficar  jà  meyo  cozi- 
d  o.  Daqui  com  a  mefma  PaíTadeira  íe  bota  na  terceiraTacha, 
que  chamaõ  de  cozer  :  porque  ainda  que  nas  outras  também 
fe  coza;  comtudo  aqui  acaba  de  fe  cozer,  6c  de  fe  condenfar 
perfeitamente,  até  eftar  em  feu  ponto,  para  fe  bater  :  ôcifto 
o  ha  de  julgar  o  Meftre  ,,  ou  em  feu  lugar  o  Banqueiro ,  pelo 
corpo ,  &  groííura  >  que tem.  E  eftando deíla  forte,  chama- fe 
Mel  em  ponto,  groífb  fuíheienternente,  6ccornpa£to,  6c  jà 
difpofto  para  paílar  á  quarta  Tacha ,  que  chamaõ  Tacha  de 
bater ,  aonde  fe  mexe  com  húa  Batedeira ,  que  he  femelhan- 
te  à  Efcumadeira ,  mas  com  feu  beiço ,  '6c  fem  furos  >  6c  bate- 
fe,  para  fe  naó  queimar:  6c  quando  o  tem  bem  batido>  6c'  com 
baítante  cozimento,  o  levantaõ  com  a  mefma  Batedeira  fo* 
bre  a  Tacha  ao  alto,  que  pode  fer;  6c  a  iífo  chamaõ  defafo- 
gar,  no  que  os  Tacheiros  moftraõ  deftreza  íingular  :  6c  con- 
tinuaõ  aílim,  mais,  ou  menos ,  conforme  pedem  as  três  Tem- 
peras, que  fehaõ  de  fazer  doAífucar  ,  que  ha  de  ir  para  as 
Formas.  Das  quaes  Temperas ,  por  ferem  tam  neceíFarias,  6c 
diíferentes,  fera  bem  fallar  no  Capitulo  feguinte. 


íi 


Cultura , 


CAPITULO     XIL 

E>as  três  Temperas  do  ^Melado,  &*  fiíajttfta  re- 
partição pias  Formas. 

ANtes  de  paliar  o  Melado  para  as  Formas,  efiandoain- 
da  na  Tacha  de  bater,  íe  ha  de  ajuftar  o  cozimento  às 
Tem  peras ,  que  pede  a  ley  de  bem  repartir.  E  três  faõ  ellas , 
èc  entre  íl  differentes ;  &  cada  húa  leva  cozimento  diverfo. 
AíTim  por  diverfos  modos,  &  com  repetidas  razoes  procu- 
ramos temperar  os  ânimos  alterados  de  qualquer  paixão  ve- 
Jhemente,. 

Chama-fe a  primeira,  Tempera  de  principiar ,  ou  Tem- 
pera de  Bacia:  a  qual  confta  de  Mel  folto  ,  porque  tem  me- 
nos cozimento  /  &he  o  primeiro,  que  fe  tira  da  Tacha  de 
bater  logo  no  principio  ^&  fe  bota  em  húa  Bacia  fora  dofo- 

fo  apar  das  Tachas  com  a  Batedeira  -,  aonde  fe  mexe  com 
,fpatula ,  ou  com  Reminhól  virado  com  a  boca  para  baixo. 
E  tendo  jà  o  Banqueira,  ou  o  Ajiidabanqueiro  aparelhado 
quatro  ou  cinco  Formas  no  Tendal,  dentro  de  huas  covas  de 
bagaço,  com  feu  buraco  fechado,  &  igualmente  altas,  às 
quaes  chamaò  Vendaj  fe  paíTa  eíla  Tempera  com  Reminhól 
centro  de  húa  Repartideira  r  &  a  reparte  pelas  ditas  quatro 
ou  cinco  Formas  o  Banqueiro ,  ou  o  Ajudabanqueiro ,  ou  al- 
gum Tacheiro  ,  porém  com  ordem  do  Meftre  ;  botando 
igualmente  em  cada  húa  delias  a  fua  porçaõ  r  de  forte  que  fi- 
que lugar,  para  receber  as  outras  duas  Temperas,  que  logo 
ie  haó  de  íeguir. 

Afegunda  chama-fe  Tempera  de  igualar:  Ôctemmayor 

cozi- 


ç>  Opulência  do^Br  a  fil. 

cozimento  •,  porque  o  Mel  y  que  traz,  eíteve  mais  tempo  na 
Tacha  de  bater ,  &  ahi  mexido ,  &  engroíTaéQfoy  mais  ba- 
tido. E  efta  também  tirada  da  Tacha ,  ■&■  pofta  y  &  mexida 
com  Reminhól  na  Bacia,  paíkparaas  ditas  quatro  Formas 
na  Repartideira ,  &  com  igual  porçaõfe  reparte  por  el las* 
aonde  com  Efpa.tuks.fe  mexe  mais  que  a  primeira. 

Segue-fe  por  ultimo  a  terceira ,  que  chamaõ  Tempera  de 
encher ;  a  qual  tem  já  todo  o  cozimento ,  &  groífura  neeeíTa- 
ria :  &  com  ella  paliada  para  a  Bacia ,  &  mexida  ainda  mais 
com  Reminhól ,  &  levada  na  Repartideira  para  o-Tendal, 
fe  enchem  as  Formas ,  continuando  com  a  Eípatula  a  mexer 
nellas  todas  as  três  Temperas,  de  forte  que  perfeitamente  fe 
encorporem ,  &  de  três  fe  faça  hum  fo  corpo.  Eíle  benefício 
he  tam  neceíTarioi  que  fem  elte  o  Aílucar  pofto  nas  ditas  For- 
mas, naõ  fe  poderk  depois  branquear  ,  &  purgar.  Porque,  fe 
fe  botaíYenas  Formasfó  a  Tempera,  que  tem  cozimento  per- 
feito j  coalharia,  &  fe  condenfaria  de  tal  forte ,  que  naó  po- 
derk parlar  por  elle  a  agua ,.  que  o  ha  de  lavar,  depois  de  fer 
barreado.  E  fea  Tempera  foífe  totalmente  foi  ta  4  efcorrerk 
todo  o  AíTucar  das  Formas  na  Cafa  de  purgar ,  &•  fe  desfaria 
todo  em  mel.  E  afllm  cóa  mifturadas  três  Téperas  le  coalha 
de  tal  forte ,.  que  fica  lugar  á  agua  de  panar  pouco  a  pouco  g 
eonfervando-fe  o  Afincar denfo,  6c  forte  j.  Sc  recebe  o  bene- 
ficio de  fe  branquear,  fem  o  prejuízo  âeie.  derreter,  Íèna6 
quanto  bafta  para  perfeitamente  fe  purgar.  E  achar  efte  me~ 
yo,  com  acertar  bem  nas  Temperas,  he  amslhoriuduftria, 
&  artificio  do  Meftre  rafllm  como  cita  he  a  mayor  di  acuida- 
de no  exercício  das  virtudes ,  queeítaó  nomeyo  de  dous  ex- 
tremos viciofos. 

O  Melado,q  fe  dá  era  pratos,  &  vafilhas  para  comer,he  o 
da  primeira,  &  fegundaTempera.  Do  daterceira  bem  batido 
na  Repartideira  fe  fazem  as  Rapaduras  ,  tam  defejadasdos 
Meninos :  8c  vem  a  fer  Melado  coalhado  fobre.  hum  quarto 


■ 
I 


74  Cultura , 

de  papel  com  todas  as .qua.tr©  partes  levantadas,  como  fefof- 
íem  paredes*. dentro. das  quaes  endurece  esfriando-fe  ,  de 
comprimento  ,  &  largura  da  palma  da  mão.  E  bemaventura- 
do  o  Rapaz,  que  chega  a  ter  hum  par  delías,fazendo-fe  mais 
de  boa  vontade  lambedor  deites  doces  papeis,  do  queeferi- 
vaõnos  que  lhe  daõ  para  trasladar  alfabetos. 

Com  i.ftofe  entenderá  donde  nace  o  ter  eftadoceDroo-a 
tantos  nomes diverfos,  antes  de  lograr  o  mais  nobre  ,  &o 
mais  perfeito  de  AíTucar:  porque  conforme  o  feu  princípio, 
melhoria ,  Sc  perfeição,  &  conforme  os  eítados  diverfos ,  pe- 
los quaes, paira,  vay  também  mudando  de  nomes,  E  aílim,  na 
Moenda  chama-feçumo  da  Canna  :  nos  Paroes  do  Engenho 
até  entrar  na  Caldeira  do  meyo ,  Caldo :  nefta  ,  Caldo  fervi- 
do ;  na  Caldeira  de  Melar  ,  Clarificado  :  na  Bacia  ,  Coado  : 
nas  Tachas,  Melado  :  ultimamente  Tempera  :  6c  nas  For- 
mas Afliicár  i  de  cujas  diverfas  qualidades  fallaremos ,  quan- 
do chegarmos^  vello  poíto  nas  caixas. 

Os  Claros,  ou  ultima  efeuma  das  Meladuras,  que,  como 
temos  dito,  fervem  para  a  Garappa  dos  Negros  ,  fe  lhes  re- 
parte alternadamente  por  efta  ordem.  No  fim  de  húa  Tarefa 
fe  daõ  aos  q  aífíftem  naCafa  das  Caldeiras,&:  nas  Fornalhas: 
no  fim  de  outra  Tarefa  fe  daõ  ás.Efcravas,que  trabalhão  oa 
Cafa  da  Moenda  :&:  depois  deita  fe  daõ  aos  que  bufeaõ  Ca- 
ranguejos, &  Marifco,  para  fe  repartirem-,  &  aos  Barqueiros, 
que  trazem  a  Canna,  &  a  Lenha  ao  Engenho]  E  fempre  fe  re- 
pete a  diítribuiçaõ  comamefma  ordem ;  para  que  todos  os 
que  fentem  o  pezo  do  trabalho ,  cheguem  também  a  ter  o  feu 
pote ,  que  he  a  medida,  com  que  fe  reparte  eíte  feu  defejado 
Néctar ,  &:  Ambrofia. 

Quando  fe  manda  parar,  ou  pejar  o  Engenho  aosDomin- 
gos ,  &  dias  Santos  j  tira-fe  dos  fundos  das  Tachas  com  hua 
Picadeira  de  ferro  o  Melado ,  que  ficou  nelles  grudado  ;  por- 
que com  eíte  naõ  pacteriao  esiriar-fe :  &  alem  diíto  fe  lhes  bo- 
ta 


&-  Opulência  do^BraJil.  7% 

ta  agua ,  para  que  fe  naõ  queimem  os  Cobres  \  Sc  ferve  junta- 
mente para  os  lavar  :  &  aílimfedeixaó  as  ditas  Tachas  *  até 
ent  rar  nellas  o  Mel,  que  fe  ha  de  eozer. 


O  II 


CAPI  TV  LO     L 

T)as  Formas  do  Afluem-  ,  ú^/uapaj/á 
cTendai  para  a  Caf a  de  purgar. 

SAõas  Formai  do  Aííuearhimsvafos  de  barro  queima- 
do  na  fornalha  das  telhasa&  tem  aígúa  femeUiança  com 
os  finos ,  altas  três  palm  os  &  mey o ,  &  proporcionada- 
mente largas  >  com  mayorcirCLimferenciana  boca,  &  mais 
apertadas  no  fim  3  aonde  íao  furadas  ,pará  fe  lavar ,  èc  purgar 
oAfTucarpor  eíre  buraco.  Vendiaõ-fe  por  quatro  vinténs* 
falvo  fea  falta  delias  3,èc  o  defeuidodeas  procurar  a  ieuteni- 
po  lhes  acrecentafle  o  valor. 

O  ferem  de  ruim  barro,  6c  mal  queimadas ,  he  defeito  no- 
tável -y  como  também  o  ferem  pequenas.  As  boas  faõ  capazes 
de  dar  Pães  de  três  arrobas  Sc  meya.  Tem  na  Caía  das  Cal- 
deiras feu  Tendal ,  cheyo  de  bagaço  de  Canna  r  que  vem  da 
bagaceira  5  o  qual  cavado  com  hum  Cavador  de  ferro,  ou  de 
pao  5  ferve  de  cama  3  ou  cova,  para  nelle  fe  aííentarem  as  For- 
mas direitas  em  duasfileiras  iguaes  :  &  como  temos  ditoaci- 
ma  i  de  cada  quatro  ou  cinco  Formas  coníta  húa  venda..  An- 
tes 


wmmtmm 


-*-" 


76  Cultura, 

tes  de  botar  nellas  o  AíTucar,  felhes  tapa  o  buraco,  que  tem 
ao  fundo,  com  feus  tacos  de  folha  de  bananna ,  &  fe  aífegu- 
raõcom  arcos  de  Sipó  ,.  &  canna  brava,  para  que  coma  de- 
mafiada  quantidade  do  AíTucar  naó  arrebentem.  Logo  fe 
lhes  bota  o  AíTucar  por  Temperas ,  como  já  temos  dito }  o 
qual  no  efpaço  de  três  dias  endurece  div  erfamente ,  hu  mais, 
outro  menos ;  &  ao  q  mais  fe  endurece  3  &  difflcultofamente 
fe  quebra ,  chamaõ  Aíllicar  de  cara  fechada  -y  &  ao  que  facil- 
meatecom  qualquer  pancada  fe  quebra,  chamaó  AíTucar  de 
cara  quebrada.  Metáforas ,  que  também  exprimem  as  díver- 
fas  naturezas ,  &  condiçoens  dos  Homens :  huns  tam  vidren- 
tos  i  &  outros  tam  tolerantes.  E  de  fer  bom ,  ou  mao  o  AíTu- 
car ,  depende  o  fazer  as  Vendas  de  mais ,  ou  menos  Formas. 
Porque  para  o  bom,'  que  coalha  deprefía ,  baila  tomar  qua- 
tro Formas :  &  para  o  que  coalha  mais  de  vagar,  tomaõ-fe 
féis ,  íete ,  Sc  oito  Formas ,  para  que  crie  com  omayor  tem- 
po ,  que  he  neceífario  para  as  encher  todas ,  mais  graõ.  Dahi 
paira  às  coitas  dos  Negros,  ou  fobre  paviòlas  para  a  Cafade 
purgar ,  da  qual  logo  {aliaremos. 

Faz  hum  Engenho  Real  de  dous  ternos  de  Tachas,  fea 
Cauna  render  bem,  cadafemana  folteira  perto  ,  &  pafsantc 
de  duzentos  Paes  de  Afsucar:  mas  fenaó  render  -,  apenas  dá 
cento  &  vinte.E  o  render  pouco,nace  ou  de  fer  a  Canna  mui- 
to velha ,  ou  de  fer  muito  aguacenta :  prova  bem  clara  de  fe- 
rem os  extremos ,  quaefquer  que  fejaõ ,  viciofos. 


C  A. 


— • 


&•  Opulência  do^Bra/il. 


7+ 


®'-íí.  «<s  ? ••>  ,v® >>  Avorv,  aíi^Ji. *i.s>Vm  £&.*•>&&$&& ,á£S5%&SS& âK8".«fe  sg&|&  i£l&& £§£& âKS&Jfe 


^Baí^  víjí 


CAPITULO    II. 

Da  Cafa  de  purgar  o  ç/ljjucar  nas  bormas* 

Caía  de  purgar  hecommumcncntè  íeparada  doEdí- 
fíciQ  do  Engenho  :&  a  melhor  de  quantas  ha  tio  Re- 
côncavo da  Bahia^  hefem  duvida  a  doEngenho  de  Serigippe 
do  Conde,fabricada  de  pedra, 8r  eal,emmadeirada  com  paos 
de  Maííaranduba,  &  cubettacom  todo  oaííeyo  de  telhas,  de 
comprimento  de  quatrocentos  ôc  quarenta  &  íeis  palmos,  ôc 
oitenta  &  féis  de  largura  j  dividida  em  três  carreiras  de  andai- 
nas ,  com  vinte  &  féis  pilares  de  tijolo  nameyo ,  altos  quinze 
palmos  &  meyo , .&  largos  quatro ,  para  íuílentarem  o  tecto* 
que  aíFenta  ao  redor  fobre  paredes  largas,  Sc  fortes.  Recebe 
efta  Cafa  a  luz,  Sc  ar  neceífario  por  cincosnta  &  duas  janellas, 
altas  oito  palmos ,  &  largas  féis ,  vinte  &  três  de  cada  banda, 
três  na  fachada  com  fua  porta ,  &  três  na  teftada.  Repartem- 
feas  andainas  por  quartéis  de  taboas  abertas  era  redondo  ío- 
bre  pitares  de  tijolo,altos  da  terra  fete  palmos;&:  leva  cada  ta- 
boa  dez  deitas  aberturas,  para  receber  outras  tantas  Formas?, 
de  forte ,  que  por  todas  faõ  capazes  de  purgar  commodarnê- 
te  no  mefmo  tempò-atè  a  dous  mil  Paens.  Debaixo  das  ditas, 
taboas  aíllm  abertas  ha  outras  tantas  taboas  do  mefmo  com- 
primento ,  cavadas  á  maneira  de  regos ,  &  inclinadas  na  par- 
te dianteira,  que  íervemde  bicas,  ou  correntes,  por  onde  cor- 
re o  Mel ,  que  cae  dos  buracos  das  Formas,  em  que  fe  purga 
o  AíTucar ,  aos.  Faiíques  enterrados :  ôc  h*a  no  fim  húa  Forna- 
lha, para  o  cozer,.  Sc  tornar  a  fazer delle  AíTucar,  com  feu: 
Tendal  capaz  de  quarenta  Formas.  Ha  também  na  entrada 
£  maà  efquerda  da  porta  húa  caíinha  de  madeira ,  para  neilat 

gua*. 


Cultura , 

guardar  o  Aflucar,  que  fobejou  ao  encaixar  ;  &  quantos In- 
ftrumentos  faõ  necefíarios  para  barrear  ,mafcavar,  fecar,  & 
encaixar:  &  o  primeiro  efpaço  da  Caía  de  purgar,'  capaz  de 
trezentas  Caixas,,  antes  de  chegar  ás  andatnas  cias  Formas, 
ferve  da  Caixaria  mais  refguardada,  &  fegura,  côa  porta  ao 
Poente,  para  que  gozando  toda  a  tarde  do  Sol,  defenda  cõ  o 
feu  calor  ao  Aflucar  do  mayor  inimigo,que  tem  depois  de  fei- 
to, &  encaixado ,  que  be  a  humidade. 

Diante  da  porta  da  Cafa  de  purgar  levanta- fe  fobre  féis 
pilares  hum  Alpendre  de  oitenta  &dous  palmos  de  compri- 
mento,  Ôc  vinte  &  quatro  de  largo,  debaixo  do  qualeftà  o 
Balcão  de  mafcavar  :  &  da  outra  parte  eftá  o  Cocho  para  a- 
mafla-r  o  barro ,  que  fe  bota  nas  Formas ,  para  purgar  o  AíTu- 
car :  &  mais  adiante  o  Balcão  para  o  fecar  ,  comprido  oiten- 
ta palmos ,  &  largo  cincoenta  &  féis ,  fuftentado-  de  vinte  &: 
cinco  pilares  de  tijolo,  mais  alto  no  meyo,,  &  com  baílante 
inclinação  nos  lados ,  paraefcorrer  melhor  a  agua  ,  que  ca- 
likdoCeo,&ferdemaisdura.  E para iífo ferve* também  f»r 
feito  de  pao  de  ley  ,a  faber  ,  de  Maffarandúba,  de  Vinhatico, 
capaz  de  feífenta  toldos ,  &  de  íècar  np  mefmo  tempo  outros 
tantos  Paes  de  Aííucar. 


C  A- 


&- Opulência  doBra/tL  r$ 


C   A   P  I  T   U   L 


Vm  Péfíoas  ,  <pe  fe  ocwpdõ  em  purgar  ,  mafça* 

var ,  fecar9  Qr  encaixar  o  Aguçar  :  Qf 

dos  InBmmentos ,  que  fora  ifl.o  faõ 

necefsanos. 

AOssée-naõlha  Purgador ,  (  quefempreferia  bem  teílo) 
prefidetambeni  na  Caía  de  purgarei  Meftre  de  AfFu- 
car,  a  quem  pertence  julgar  3  quando  fe  ha  de  botar  o  primei- 
ro,-&  o  legando  barro  nas  Formas  ,  quando  fe  ha  de  hume- 
decer ,  &  borrifar  mais,  ou  menos ,  conforme  a  qualidade  do 
Aííocar  ;■&  quando  fe  ha  de  tirar  o  barro .,  &  o  .Afincar  das 
Formas.  Mas,  ainda  que  haja  Purgador  distinto  com  ítiafol^ 
dada  5  fempreferá  bem ,  qtieeftefeaconfelhe  com  o  Meftre» 
para  obrar  com  rnayor  acerto ;  &  que  tenhaó  ambos  entre  li 
toda  a  boa  correfpondencia ,  para  que  fiquem  melhor.fervi- 
dos  aílim  o  Senhor  do  Engenho5como  os  La  v  radares, 'Sc-elles 
mais  acreditados  em  feus  oôicios. 

Preíide  ao  Balcaõ  de  mafcavar ,  &  de  fecar  *  &:  ao  pezo , 
6c  ao  encaixar  do  Afincar  o  Caixeiro :  &  corre  por  fua  conta 
repartir ,  'Sc  aífentar  com  toda  a  verdade ,  Scifídelidade  d  que 
cabe  a  cada  qual  defua  parte :  pregar  5  &  marcaras  Caixas^  &: 
entrega-las  afeus  donos. 

Trabalhão  na  Cafade  purgar  quatro  Efcravas,  &  iaõ  as 
que  entaipaó ,  6c  hótaõ  barro  nas  Formas  do  AiTucar ,  &  lhe 
daõfuas  lavagens.No  Balcaõ  demafcavar  affiífem  duas  Me- 
gras  das  mais  experimentadas5qúe  chamaõ  Mãys  dofialcaoi 
Sc  com  outras'©  mafcavaõ3  &  -  aparta©  o  kferior  do  melhor-* 

boas 


mm 


Sd  Cultura , 

huns  Negros  ,  que  trazem ,  &  aventaõ  as  Formas  ,  &  tiraó 
delias  os  Paes  de  Afsucar  5  &  oAmafsador  do  barro  de  pur- 
gar, que  he  também  outro  Negro. 

No Balcaô defecar  trabalhão  as  mefm as  duas  Mays  com 
as  fuás  companheiras ,  que  faõ  atè  dez  ,  eftendendo  os  Tol- 
dos ,  &  quebrando  com  toletes  as  lafcas ,  6c  os  torrões  gran- 
des em  outros  menores  atraz  dos  quebradores  dos  Paes.  E  na 
Caixaria  ajudaõ  ao  Caixeiro  no  pezo  ,  &  encaixamento  do 
Afsucar  as  Negras,  6c  Negros,  que  faõ  necefsarios  s  como 
também  no  pilar ,  igualar ,  pregar ,  &z  marcar. 

Os  Inílrumentos ,  de  que  fe  ufa  na  Cafa  de  purgar,  faõ 
Furadores  de  ferro ,  para  furar  os  Paes  em  direitura  do  bura- 
co das  Formas ;  Cavadores  também  de  ferro,  para  cavar  o 
Paõ  no  meyoda  primeira  Cara,  antes  de  lhe  botar  o  primei- 
ro ,  8c  fegundo  barro  •,  &  Macetes  ,  para  o  entaipar.  No  Balr 
•caõdemafcavar  ufaõ  de  couros,  para  aventar  fobre  ellesas 
Formas  •,  de  Facoens ,  8c  Machadinhos ,  para  mafcavar  ■  8c 
de  Toletes,  para  quebrar  o  Afsucar  Mafcavado.  No  Bal- 
cão de  fecar  faõ  necefsarios  Facões ,  Toletes ,  8c  Rodes ,  &"  o 
•  Pao  quebrador  de  quatro  lados  de  coita  para  quebrar  c  s  Paes 
de  Afsucar.  No  Pezo,  balanças,  pezes  de  duas  arrobas,  5c 
outros  menores  ,com  o  da  tara ;  Pás ,  8c  Panacvis.  Na  Caixa- 
ria, Piloens,  Rodo,  Paodeaísentar,  ao  qual  huns  chamaõ 
Moleque  de  afsentar  j  Sc  outros  Juiz  ;  Enxó,  Verrumas, 
Martellos,  8c  Pregos  -y  Pé  de  Cabra,  para  tirar  pregos  das 
Caixas  •,  ôc  o  Gaftalho ,  que  ferve  para  unir  as  taboas  rachaT 
das,  cu  abertas,  metendo  fuás  cunhas  entre  os  lados  da  taboa, 
êc  os  dentes,  ou  baraços  do  Gaftalho,  q  a  abraça  por  cinia,& 
dece  pelas  ilhargas ;  &  as  Marcas  de  ferro,  com  que  fe  mar- 
ca, &  declara  a  qualidade  do  Afsucar ,  o  numero  das  arro- 
bas, èc  o  final  do  Engenho,  em  que  fe  fez,  8c  encaixou.  E  de- 
fta  forte ,  qualquer  Arte  fe  vai  de  feus  Inílrumentos ,  para  fa- 
cilitar o  trabalho,  &  fahir  com  fuás  obras  perfeitas  -,  o  q  fem 
clles  naó  poderia  alcançar,  nem  efperar. 

C  A- 


C>  Opulência  do^rúfil. 


' 


81 


C   A   P   I    T  U  L  O    IV. 

Do  Barro  ,  que  fe  bota  nas  Formas  do  Afsucar  : 
qual  devefer>  &  comofe  ha  de  amafsar :  & 
fe  he  bem  ter  no  Engenho  Olaria. 

O  Barro  ,  com  que  fe  purga  o  Aííucar ,  tira-fe  dos  Api-  - 
cus,  que,  como  temos  dito,  faõ  as  Coroas ,  que  faz  o 
Mar  entre  íi,&  a  Terra  firme,  &  ascobreaMaré.  Vemefte 
em  Bar  cos,  Canoas,  ou  Balças,  que  faõ  duas  Canoas  juntas 
com  paos atraveíTados,&  fobre ellestaboas,  nasquaesfe  a- 
montoaoBarro.  Chegado  ao  Engenho  ,  poem-fe  em  lugar 
feparado  ;  &  dahi  pafla  a  fecar-tè  dentro  da  Cafa  das  For- 
nalhas fobre  hú  andar  de  paos  fegurado  com  efteyos ,  q  cha- 
maó  Girão,  fobre  o  Cinzeiro,  quando  tem  feu  borralho,  q  he 
a  cinza  mifturada  com  brazas.  E  ainda  quefe  feque  em  quin- 
ze dias  ;  comtudo  ahi  fe  deixa ,  tomando  a  feu  tempo  a  quã- 
tidade,  que  for  neceífaria ,  para  barrear  as  Formas  já  cheas, 
como  fe  dirá  em  feu  lugar.  Seco  fe  desfaz  com  Macetes ,  que 
faõ  paos  para  pizar;  &  dahi  fe  bota  em  húa  Canoa  velha  ,  ou 
Cocho  grande  de  pao ,  &  fe  vay  desfazendo  com  agua ,  mo- 
vendo-o,  8c  amaífando-o  com  feu  Rodo  o  Negro  Amaífa- 
dor,  quefcoccupaneftetrifte  trabalho*  pois  os  outros  Ef- 
cravos,  quecortaõ,  &  trazem  Canna  ,  &  os  que  obraõna 
Moenda ,  nas  Caldeiras ,  nas  Tachas ,  na  Cafa  de  purgar ,  &: 
nos  Balcões,  fempre  tem  em  quepetifcar:  &  fó  eíle  mifera- 
vel ,  &  os  que  metem  lenha  nas  Fornalhas ,  paííaõ  em  feco.  E 
ainda  que  depois  todos  tenhaõ  fua  parte  na  repartição  da  Ga- 
rappaj  com  tudofentem  muito  o  trabalho  fem  efte  limitada 

F  alivio 


*  I — 


-— 


ff» 


í"",l 


■  ; 


I 


8i  Cultura , 

alivio  entre  dia.  Mas  naõ  faltaõ  Parceiros ,  quefecompade- 
Çaõdafuafórre,dando-lhesjáhúaCanna,  já  hum  pouco  de 
Mel ,  ou  de  AíTucar :  &  quando  faltaííe  nos  outros  a  compai- 
xão j  naõ  faltaria  â  elles  a  induftria  3  para  bufcarem  feu  remé- 
dio ,  tirando  donde  quer  quanto  podem. 

O  final  de  eftaf  berii  amâíTado  o  Barro,he  naõ  ter  já  godi- 
Ihoens ,  que  faõ  huns  torróéfinhos  ainda  naõ  desfeitos :  &  en- 
tão eftá  em  feu  ponto,  quando  botando-lhe  hum  pedaço  de 
telha,  ou  hum  caco  de  Forma,  fefuftem  nafuperficie,  fem  ir 
ao  fundo.  Do  Cocho  fe  tira  com  hua  Cuya ,  &  fe  bota  em  ta- 
chos de  cobre ,  &■  nelles  o  levaõ  para  a  Cafade  purgar  :  aon- 
de com  hum  Reminhól  de  cobre  fe  tira  dos  tachos ,  &  íe  re- 
parte pelas  Formas,  quando  for  tempo ,  do  modo  que  fe  dirá 
mais  abaixo. 

Ter  01arianoEngenho,hunsdizem,queefcufamayo- 
res  gados  ;  porque  fempre  no  Engenho  ha  neceílidade  de 
Formas,  tijolo,  &  telha.  Forem  outros  entendem  o  contra- 
rio: porque  a  Fornalha  da  Olaria  gafta  muita  lenha  de  ar* 
mar,  &  muita  de  caldear  :&  a  de  caldear  ha  de  ferde  Man- 
gues 5  os  quaes  tirados ,  faõ  a  deftruiçaõ  do  Marifco ,  que  he 
o  remédio  dos  Negros.  E  alem  difto ,  a  Olaria  quer  ferviço 
de  féis,  ou  fete  Peças,que  melhor  fe  empregaõ  no  Cannaveal, 
ou  no  Engenho :  quer  Oleiro  com  foldada ,  Roda ,  &  apare, 
lho :  &  quer  Apicús ,  ou  Barreiro ,  donde  fe  tire  bom  Barro  : 
ôc  tudo  ifto  pede  muito  gafto :  '&  com  muito  menos  fecom- 
praõ  as  Formas,  &  as  Telhas ,  que  faõ  neceífarias.  O  melhor 
confelho  he ,  meter  hum  Crioulo  em  alguma  Olaria :  porque 
efte  ganha  a  ametade  do  que  faz  ,  &  em  hum  ar\r»-">  chega  a  fa- 
zer três  mil  Formas,  das  quaes  o  Senhor  fe  pôde  valer  com 
pouco  difpendio.  Tendo  porem  o  Senhor  do  Engenho  mui- 
ta gente,  lenha ,  &  Mangues  para  marifcar  de  fobejo  j  poderá 
também  ter  Olaria :  &  fervirá  efta  Officina  para  grandeza,  u- 
tilidade ,  &  commodidade  do  Engenha 

C  A- 


&  Opulência  do  TSrafiL 

CAPITULO 

Do  modo  de  purgar  o  ^Afsucar  nas  Formas  :  Qf 
de  todo  o  beneficio  ,  que  fe  lhe  fa\na  Çafa  de     , 
Purgar ,  atè  fe  tirar. 


Ntrando  as  Formas  na  Cafa  de  Purgar ,  fedeitaõ  fobrc 
as  Andainas ,  6c  fe  lhes  tira  o  taco ,  que  lhes  metèraó  n® 
Tendal :  &  logo  com  hum  Furador  agudo  de  ferro ,  de  com- 
primento de  dou.s  palmos  6c  meyo,fe  furaó  os  Paes  á  for 
pancadas,  ufando  para  iiTo,  do  Macete  >  6c  furados ,  fe  leyan 
taõ  3  &  endireitaó  as  Formas  fobre  as  taboas ,  que  chamaõ  de 
furos,  entrando  por  elles  quanto  baila  para  fe  fufterem  fegu- 
ras :  6c  aíllm  fe  deixaó  por  quinze  dias  fem  barro,  começando 
logo  a  purgar,  6c  pingando  pelo  buraco  que  tem  ,  o  primei- 
ro Mel :  o  qual  recebido  debaixo  nas  bicas ,  corre  ate  dar  no 
íèu  Tanque.  Eíle  Mel  he  inferior ,  6c  dá-fe  no  tempo  do  In- 
verno aos  Efcrayos  do  Engenho ,  repartindo  a  cada  qual  ca- 
da femana  hum  tacho ,  6c  dous  a  cada  cázalj  que  he  o  melhor 
mimo,  6c  o  melhor  remédio,  que  tem.  Outros  porém  o  tor- 
iiaõ  a  cozer ,  ou  o  vendem  paraiífo  aos  que  fazem  delle  AíTu- 
car  branco  batido ,  ou  eftillaô  Agua  ardente. 

PafTad>  i>  os  quinze  dias ,  dahi  por  diante  fe  pode  barrear 
fegu  ramente :  o  que  fe  faz  deite  modo.  Cavaõ  primeiro  as 
quatro  Efcravas  Furgadeiras  com  Cavadores  de  ferro  no 
meyo  da  Cara  da  Forma  (  que  he  a  parte  fuperior)  o  Aííucar 
já  feco-,  6c logo  otornaõa  igualar,  6c  entaipar  muito  bem 
com  Macetes :  botaõ-lhe  entaõ  o  primeiro  barro ,  tirando^ 

Fz  com 


, 


I 


Cultura, 

com  hum  Reminhóí  dos  Tachos,que  vieraô  cbeyos  delle  do 
feu  Cocho ,  eftandõjá  ámaíTadq  em  ília  conta  -y  &.  com  a  pal- 
ma da  maó  o  eítendem  fobre  toda  aCara  da  Forma,alto  doire 
dedos.  Ao  fegundo ,  ou  terceiro  dia ,  bótaõ  em  riba  do  mef- 
mo  barro  meyoReminhól,  ou  húa  Cuya  &  meya  de  agua: 
&  para  que  naocaya  no  barro  de  pancada  ,  &  cahindo  faça 
covas  no  AíTucar;  recebem  fobre  a  maó  efquerda,  chegada  ao 
barro  ,  a  agua ,  que  bótaõ  com  a  direita  igualmente  fobre  to- 
da a  fuperrkie :  &  logo  com  a  palma  damaõ  direita  mexem 
levemente  ao  barro ,  de  forte  que  com  os  dedos  naõ  cheguem 
a  bulir  na  Cara  do  AíTucar.  E  a  eíte  beneficio  charaaõ  hume- 
decer ,  borrifar , ;&  dar  lavagens,  ou  também  dar  hum  idades: 
&deftas  o  primeiro  barro  naõ  leva  mais  quehuaj  &  eftána 
Forma  féis  dias  ,  donde  fe  tira  jà  feco  ,  &  eava-fe  outra  vez  o 
AíTucar  no  meyo,  como  fe  fez  ao  principio,  &  entaipa-fe  j  & 
com  a  mefma  diligencia  fe  lhe  bota  o  fegundo  barro,  o  qual 
eftána  Forma  quinze  dias,  &  leva  féis,  fete  ,  &  mais  hum  i- 
diades,  conforme  a  qualidade  do  AíTucar :  porque  o  que  he 
forte  ,  quer  mais  humidades,  refiftindo  á  agua  ,  que  ha  de 
correr  por  elle  purgando-o ,  às  vezes  ate  nove  >  &  dez  humi- 
dades.  E  fe  for  fraco ,  logo  a  recebe  ,.&  fica  em  menos  tempo 
lavado :  mas  difto  naó  fe  alegra  o  dono  do  AíTucar ;  porque 
antes  o quizera  mais  forte,  do  que  tam  de  preíTa  purgado. 
Também  no  Ver-aõ  he  neeeíTario  repetir  as  lavagens  mais  ve- 
zes ,  a  faber ,  de  dous  em  dous ,  ou  de  três  em  três  dias ,  con- 
forme o  calor  do  tempo  .-advertindo  de  lhe  dar  eftas  lava- 
gens ,  antes  que  o  barro  chegue  a  abrir- fe  em  gretas  por  feco: 
No  tempo  do  Inverno  tamoem  fe  deixa  o  primeiro  barro  féis 
dias :  dalguns  naõ  lhe  daõ  outra  humidade  mais  que  a  que 
traz  comfigoj  principalmente  fe  forem  dias  de  chuva.  Porém 
tirado  o  primeiro ,  &  pofto  o  fegundo ,  daõ-lhe  féis ,  fete ,  &: 
oitohumidades,  de  três  em  três  dias ,  conforme  a  qualidade 
do  AíTucar  K6c  conforme  obedecer  às  ditas  lavagens. 

Como 


—• 


&-  Opulência  do  'Brafil.  &  5 

Como  o  AíTucar  vay  purgando  ,  affím  fe  vay  branquean- 
do por  feus  grãos:  a  faber,  mais  na  parte  fuperior  ,  menos  na 
do  mcyo,  pouco  na  ultima,6c  quaíl  nada  nos  pés  das  Formas, 
aos  quaes  chamaõ  Cabuchos  :  6cefte  menos  purgado  he  o  q 
lê  chama  mafcavado.  Também  como  vay  purgando  ,  vay 
decendo  o  barro  pouco  a  pouco  dentro  da  Forma :  6c  fe  pur- 
gar bem  de  vagar ,  decendo  fó  mey a  maõ ,  que  cham  aõ  Me- 
dida de  chave,  6c  vem  a  fer  defde  a  raiz  do  dedo  polegar  atè 
a  ponta  do  dedo  moftrador ,  a  purgação  fera  boa,  6c  de  rendi- 
mento de  mais  AíTucar  ,  6c  forte  :  mas  fe  purgar  apreflada- 
mente ,  renderá  pouco. 

O  purgar-fe  mais  deprefía,  ou  mais  de  vagar 'o  Afiucar 
nas  Formas,  nace ,  parte  da  qualidade  da  Cannaboa,  ou  má; 
6c  parte  do  cozimento  feito  ,  6c  temperado  em  feu  ponto.. 
Porque ,  fe  o  cozimento  for  mais  do  que  he  jufto,  ficará  o  Af- 
fucar  empanturrado, 6c  nunca  fe  poderá  purgar  bém}  refiftin- 
do  às  lavagens  naõ  por  forte ,  mas  por  demafiadamente  cozi- 
do :  6c  ifto  fe  conhecerá  de  naõ  purgar ,  6c  de  naó  decer  o  bar- 
ro nas  Formas.  Pelo  contrario ,  íe  o  AíTucar  levar  pouco  co- 
zimento, 6c  a  Tempera  for  muito  folta,  irá  pela  mayof  par» 
te  desfeito  em  Mel  para  as  correntes.  O  fazerem  os  Paens  do 
AíTucar  olhos,  ifto  he ,  terem  entre  o  AíTucar  branco  veas  de 
Mafcavado  ■>  huns  dizem,  que  procede  de  botar  mal  ashu- 
midades  no  barro  das  Formas}  6c  outros  das  Têmperas  mais 
ou  menos  quentes ,  ou  deíigualmente  botadas. 

O  Mel ,  que  cae  das  Formas  depois  de  lhes  botarem  ban- 
ro,  torna  a  cozer-fe,6c  a  bater- fe  nas  Tachas,  que  para  iífo 
eftaõ  deftinadas  ,  com  fua  Bacia  :  6c  fel  faz  delle  AíTu- 
car, que  chamaõ  Branco  batido  >  6c  dá  também  feu  Mafcava- 
do ,  que  chamaõ  Mafcavado  batido.  Ou  fe  eftilla  delle  Agua 
ardente :  que  eu  nunca  aconfelharia  ao  Senhor  do  Engenho  ; 
para  naõ  ter  húa  continua  defenquietaçaõ  na  fanzâla  dosN  e- 
gros  í  6c  para  que  os  feus  Efcravos,  6c  Efcravas  naõ  fejaõ  com 


*w? 


I 


86  Cultura  > 

a  Agua  ardente  mais  borrachos  do  que  os  faz  a  Cachaça. 

O  primeiro  barro,  quefe  poz  na  Forma  alto  dons  dedos; 
quando  fe  tira  jà  feco ,  tem  fo  altura  de  hum  dedo,  que  he  de- 
pois de  féis  dias:  quando  fe  tira  o  fegundo,  (que  fe  botou  com 
a  mefma  altura  de  dons  dedos  )  depois  de  quinze  dias ;  tem 
fó  meyo  dedo  de  altura.  Acabando  o  Aífucar  de  purgar,  pa- 
raõ  também  as  lavagens :  &  três ,  ou  quatro  dias  depois  da  ul- 
tima ,  tira-fe  o  fegundo  barrojá  feco }  &  depois  do  barro  fora» 
•daó-lhemais  oitodias,  para  acabar  de  enxugar ,  ôtefcorrer: 
&  então  fe  pode  tirar.  Ne  carece  de  admiração,  o  ferobairo, 
q  de  fua  natureza  he  immundo ,  inílrumento  de  purgar  o  Aí- 
fucar  com  fuás  lavagens  :  aíHm  como  com  a  lembrança  do 
noífo  barro,  &  com  as  lagrimas  íepurifica6,6c  branqueaõ  as 
Almas ,  que  antes  eraõ  immundas. 


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&&&&£  Safe  >)í-iíNV3'ífe^í(^líá'"'  Safe  ^sa>2ií4  «tf  SafeA**1©*»  .««&•; 


CAPITULO    VI. 

Do  modo  de  tirar ,  mafcavar ,  (^Jecar  o  Af~ 

fucar. 


JK 


CHegado  o  tempo  de  tirar  o  AíTucar  das  Formas ,  fe  paf- 
faráó  em  hum  dia  muito  claro  tantas ,  quantas  pode  re- 
ceber o  Balcaõ  de  fecar:&  palTaõ  ás  coitas  dos  Negros,  ou  em 
Paviôlas ,  daCafa  de  purgar  para  o  Balcaõ  de  mafcavar.  E 
quanto  ao  fer  o  dia  muito  claro ,  he  ponto  de  grande  adver- 
tência :  porque  fe  o  AíTucar  fe  humedecer  -y  ainda  que  o  tor- 
nem por  ao  Sol ,  nunca  mais  torna  a  fer  perfeito ,  como  era : 
<afIitti'tomo  o  que  ficou  de  hum  anno  para  outro  ,  perde  de 
tal  forte  o  vigor ,  &  alvura ,  que  nunca  mais  a  torna  a  cobrar : 
propriedade  também  da  Pureza ,  que  húa  vez  oflendida,  nu- 
ca tor- 


&•  Opulência  do^ra/íí.  87 

ca  torna  a  fer  o  que  foy.  Preíide  a  todo  efte  beneficio  o  Cai- 
xeiro j  &  corre  por  fua  conta  o  que  agora  direy.   Ao  pé  do 
Balcão ,  que  chamaõ  de  mafçavar ,  fe  aventaó  as  Fornias  fo- 
bre  hum  couro  v  que  vem  a  fer,  bulir  nellas  de  vagar  com  as 
bocas  viradas  para  o  dito  couro,  para  que  fayaõ  bem  os  Paes: 
os  quaes  poftos  fucceííi vãmente  por  hum  Negro  fohre  hum 
toldo ,  que  eftà eftendido  nefte  Balcaõ s  por  maõ  de  húa  Ne- 
gra (à  qual  chamaò  Máy  do  Balcaõ)  fe  lhes  tira  com  hum  fa- 
cão todo  aquelle  AíTucar  mal  purgado,  &  de  cor  parda,  que 
tem  na  parte  inferior  :  &  ifto  fe  diz  mafçavar ,  &  ao  tal  Afin- 
car chamaõ  depois  Mafcavado.  E  entre  tanto  outra  fuaCom- 
panheira ,   que  he  das  mais  praticas ,  tira  com  htmi  macha- 
dinho  do  mefm o  Mafcavado  o  mais  húmido,  que  chamaõ 
Pé  da  Forma ,  ou -Cabucho  -,  &  efte  torna  para  a  Caía  de  pur- 
gar-em  outras  Formas  ,até  acabar  de  fe  enxugar;  &  logo  ou- 
tras Negras  quebraõ  com  toletes  os  torroens  do  Mafcavado 
íbbre  hum  Toldo ,  que  também  ha  de  ir  ao  Balcaõ  de  fecar. 
A  perfeição  dos  Paens  confifte  em  terem  pouco  Mafca- 
vado ,  &  darem  duas  arrobas  8c  meya  de  AíTucar  branco  j  que 
conforme  a  medida  das  Formas  da  Bahia,  he  muito  bom  ren- 
dimento;-Se  quizerem  fazer  Caras  de  AíTucar  para  mimos  4 
o  Caixeiro  cortará  aqui  mefmo  cõ  hum  facaõ  a  primeira  par- 
te do  Paõ  •,  de  forte  que  endireitada , '  &  aplainada  tenha  hííai 
arroba  de  pezo : ,&  eítas  depois  de  eítarem  ao  Sol,  empalhao- 
fe ,  ou  encouraõ-fe,  &  vaõ  para  o  Reyno.  Também ,  fe  qui  zer 
fazer  Laicas ;  cortara  ao  Paõ  (  depois  de  fe  lhe  tirar  o  Mafca- 
vado) em  féis ,  ou  oito  partes ,  &  as  endireitará  todas  de  qua- 
tro cantos  era  quadra ;  para  irem  tam  viftofas ,  como  doces. 
E  querendo  fazer  Fechos ,  ou  Caixas  de  encommenda;  efco- 
lherà  da  parte  do  AíTucar,  que  couber  a  quem  as  manda  fa- 
zer, ornais  fino,  que  he  o  das  Caras  das  Formas,  ate  doze  ar- 
robas por  Fecho  j  &  trinta  atè  trinta  Ôc  cinco  por  Caixa.  E  de* 
que  temosdito  atè  agora  fe  entenderá  bem  q  que  querem  d}~ 
->•;'  F4  zer 


Mi 
■ 

nu 
WÊ  . 

J! 
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■  I1 


88  Cultura , 

zereítes nomes ,  que  íignificaõ  varias  repartiçoens de  Apli- 
car; a  faber,  Caixa,  Fecho,  Paõ,  Cara,  Laica,  Torrão, 
&  migalhas  :  guardando  para  outro  Capitulo  o  dar  noticia 
de  varias  qualidades ,  &  dirrerenças  de  Aílucan 

P^íTando  pois  do  Balcão  de  mafcavar  para  o  Balcaõde 
fecar:levão-feem  primeiro  lugar  para  elle  tantos  Toldos, 
quantos  faó  neceííarios  para  oAíTucar  ,  que  naquelle  dia  fe 
ha  de  fecar.  Efe  for  de  diverfos  donos ,  fe  conhecera  a  repar- 
tição, que  cabe  a  cada  qual,  pelos  Toldos  .continuados  na 
mefma  fileira,  fe  pertencerem  ao  mefmo;.  ou  defcontinuados, 
fe  forem  de  diverfos  Senhores  ;  &  o  que  fe  diz  doAílucar 
Branco,  fe  ha  de  dizer  também  doMafcavado  ,  repartido 
pelo  mefmo  eftylo  nas  fuás  próprias  fileiras,  Iíto  feito ,  levao 
os  Paens  para  os  Toldos ,  &  com  hum  pao  grande  ,.&  redon- 
do no  cabo ,  em  que  fe  pega,  .8c  no  remate  de  feitio  c  lia  to,  co- 
mo húa  lança  fem  ponta ,  (  ao  qual  chamaõ  Quebrador ,  ou 
Moleque  de  quebrar)  quebraõ  em  quatro  partes  aos.Paens,. 
&  cada  húa  deitas  era  outras  quatro :  &  logo  outros  com  fa- 
coens  dividem  as  mefm as  em  torroens  ;  &  eftes  fucceíTiva- 
mente  fe  tornaõ  a  partir  com  toletes ,  em  outros  torroens  me- 
noresrôc  finalmente  depois  de  eítarem  jà  por  algum  tempo 
aoSot,  aeabaõ-fede  quebrarem torroêfinhos  pequenos*  E 
guarda-fe  de  propofito  efta  ordem  em  quebrar  ao  Aífucarj 
para  que  tendo  dentro  algua  humidade,quebrado  pouco  a 
pouco  fe  enteze ,  &  naõ  fe  faça  logo  cm  migalhas ,  ou  em  pó. 
Eftandoaílimeftendido,  pegaõ  nas  pontas  dos  Toldos,  &c 
levantando-as  fazem  em  cada  Toldo  hum  montàõ;  &  entre- 
tanto aquentaó-fe  as  Taboas,  8c  os  Toldos  :  &  logo  tornacV 
a  abrir  aquelles  montes  com.  Rodos  i  &  deita  forte  as  partes , 
que  eraó  interiores ,  ficaõ  expoítas  ao  Sol }  &  as  outras  eíten- 
didas  fçbre  as  pontas  dos  Toldos ,..  fentemocalor,  queelles, 
&  as  Taboas  ganharão.  Efpalhado  torm?fe  a  mexer  com  Ro- 
dos^de  Canibaâ,.  como  elles  dizem  :  a  faber 3  hum  de  húa 

baa~ 


&•  Opukncia  dó  "Brafil.  g£ 

banda  ,  &  outro  cie  outra ,  empurrando  cada  hum  da  fm  par- 
te o  Aííiicarr  &  puxando  por  elle  por  modo  oppoílo  ao  que* 
faz  no  mefmo  Toldo  o  Negro  fronteiro ;  atè  acabar  de  fecar. 
E  fe  de  repente  ap  parecer  alguma  nuvem ,  que  ameace  dar 
chuva ,  logo  acode  toda  a  Gente  ,'  ainda.  (  fe  for  neceíTario  ) 
a  que  trabalha  na  Moenda  ^  pejando  o  Engenho  >  até  fe  reco- 
lher nos  mefmosToldos  o  AíTucar  dentro  da  Caía  de  encai- 
xar ,  ou  em  outra  parte  cuberta :  &  daqui  torna  outra  vez  pa- 
ra o  Balcaõ  em  outro  dia  claro  ,  eítando  as  Taboas  enxutas.. 
Que  feo  tempo  der  lugar  de  enxugar  perfeitamente  o  AíTu- 
car no  mefmo  dia  no  Balcaõ  >  paíTará  logo  (  do  modo ,  que 
agora  direy  )  ao  Pezo ,  &  fe  encaixará  com  ftia  regra. 


tó^Ç^^MIÍ^iií 


Í^#l#f||M|^#I|tli^#f| 


CAPITULO    VIL 

Dê  Pezo ,  Repartição ,   &*  Emaixament® 
do  Afmçar, 

DO  Balcaõ  de  fecar  vay  o  AíTucar  em  Toldo*  ao  Pezo>; 
eftando  prefente  o  Caixeiro,  q  tudo  aíTentacom  fide- 
'  lidade,  Sc  verdade;  para  qfe  dé juftamente  acada  hum  o  q  he 
feu*E  para  iíTo  haBalanças  grandes,&  pezos  de  duas  arrobas, 
&:  outros  menores  de  livras ,  com  opezo  também  da  tara  do 
Panacú,  em  que  vay  o  AíTucar  ao  Pezo:  ufarrdo  de  Pá  peque- 
na ,  para  tirar  o  que  fobeja ,  ou  ajuntar  O:  que  falta.  E  aííim  co- 
mo as  duas  Mãys,  do  Balcaõ  ajudaõ  ao  pezo,  para  dar  lugar 
ao  Caixeiro  „  que  eftá  aflentando  o  que  peza  *  aíEm  dous 
Negros  levaõ  o  Afllicar  pezado  para  as  Caixas  ,,  enxtw 
tas,  &  bem  aparelhadas,  a  faber,  barreadas  pordentronas 
untas  com  barro  x  &  folhas  fecas  de  bananeira  Cobre  o  barro; 

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$0  v    ^Cultura, 

pondo  igualmente  tanto  AíTucar  na  Caixa  do  Senhor  do  En- 
genho, quanto  na  Caixa  do  Lavrador ,  cuja  Canna  fe  moeo 
no  meímo  Engenho ,  fendo  Lavrador  de  fuás  próprias  Ter- 
ras, &  naõ  das  do  Engenho  :  porque  fe  as  Terras  forem  do 
Engenho,  paga  também  o  Lavrador  vintena,  ou  quinto  ,  que 
vem  a  fer ,  alem  da  ametade ,  de  cada  cinco  Paens  hum  ,  ou 
hum  de  cada  vinte  j  conforme  o  úfo  das  Terras:  porque  em 
Pernambuco  paga  quinto,  &  na  Bahia  vintena,  ouquinde- 
na,  que  vem  a  fer  de  quinze  hum ,  conforme  o  que  fe  ajuítou 
nos  arrendamentos ,  porferem  as  Terras  já  de  rendimento, 
ou  por  neçeílitarem  de  menos  limpas.  E  aííim  como  íe  péza, 
&r  reparte  igualmente  o  Branco  j  aííim  fepéza  ,  &  reparte 
do  mefmo  modo  o  Mafcavado  entre  o  Senhor  do  Engenho , 
&*  o  Lavrador ,  que  moe ,  como  temos  dito ,  de  meyas  :  &  íb 
íicaó  os  Meles  por  em  cheyo  ao  Senhor  do  Engenho,  por  ra- 
zão dos  muitos  gaftos ,  que  faz.  Tira-íe  também  o  Dizimo , 
que  fe  deve  a  Deos ,  que  vem  a  fer  de  dez  hum  :  &  efte  fica  no 
Engenho  ,  &  poerri-fe  nas  Caixas  ,.  que  anticipadafçente 
manda  o  Contratador  dos  Dizimos  ao  Caixeiro  vazias ,  & 
delle  as  torna  a  cobrar  cheas. 

O  AíTucar,  q  fe  bota  nas  Caixas ,  ao  principio  fomente  fe 
iguala  com  Rodo,§r  Pilões*  &:  naó  fe  pila,  paraq  fe  naõ  que- 
brem as  Caixas.  Porém  depois  de  botar  nellasdous  ,  ou  três 
pezos,q  vem  a  fer  quatro, ou  féis  arrobas,.entaó  fe  pila oó  oito 
ou  dez  Piloens ,  quatro  ou  cinco  de  cada  banda ,  para  que  af- 
íênte  unido  igualmente.  E  ainda  que  a  derradeira  porção  do 
AíTucar,  q  fc  chama  Cara  daCaixa,  he  bem  q  feja  do  mais  c{- 
colhido*  com  tudo  feria  grande  defcred  ito  do  Engenho ,  en- 
gano, &  manifefta  injuftiça ,  fe  no  nieyo  fe  botaflem  Bati- 
dos ,  ôc  na  Cara  AíTucar  mais  fino ,  para  encubrir  com  o  bom 
o  ruim,  &  fazer  também  ao  AíTucar hypocrita. 

Acabado  de  enchera  Caixa,  iguala-fe  com  Rodo,  Sz  com 
hum  Paochato^c  groflb  >  que  huns  cliamaó-lhe.Moleque  de 

allèn- 


e>  Opuknciâ  do  TBrafil.  91 

áfteiítar  \  outros  juiz  :  &  logo  íe  prega ,  ufando  de  Verruma, 
Pregos ,  èz  Martello ,  &  doGaílalho ,  ou  Gato ,  para  apertar 
alguma  taboa  rachada,  do  modo  que  acima  eftá  dito.  Leva 
húa  Caixa  oitenta  Sz  íeis  pregos :  &:  ultimamente  fe  marca  do 
modo  que  diremos ,  conforme  a  difFerença  do  Aííucar  ,  que 
agora  fe  ha  de  explicar. 


}B  &&&<&M$$&$$B 


*  %cJg«f  W&jifâ.  %-Í8é's*  T«ii^ 


CAPITULO     VIII. 

.....  ..  ■     •   ;  -    .  i  [ 

De -varias  c aftas  de  Aguçar,  que  feparaddmente  fe 

encaixao  :  Marcas  das  Caixas  ,  Qffuacon- 

dmçaQ  ao  Trapiche* 

ANtes  de  marcar  asCaixas,  he  neceííario  fallarde  varias 
caílas  de  Aílucar  ,  que  feparaclaiiiente  fe  encaixaõj 
porque  também  nefta  Droga  ha  fua  nobreza  3  ha  caíta  vil ,  ha 
miftura.  Ha  primeiramefite  AímcarBranco, .&  Mafc.ava.do.* 
o  Branco  toma  efte  nome  da  cor ,  que  tem  3  -&  muito  fe  lou- 
va j  &  eftima  no  AfTucar ,  mais  admirável ,  por  quanto  fe  lhe 
t  communica  do  barro.  O  Mafcavado  de  cor  parda  he  o  que  fe 
tira  do  fundo  das  Formas ,  a  que  chamaõ  Fés,  ou  Cabuchos* 
Do  Branco  ha  ti  no  3  ha  redondo,  6c  ha  baixo  .•  &  todos  eftes 
faõ  Afincares machos.  O  fino  he  mais  alvo ,  mais  fechado  y&c 
de  mayor  pezo :  &  tal  he  ordinariamente  a  primeira  parte  ,  q 
■chamaõCara  daForma.  O  redõdo  he  algú  tanto  menos  ai vo> 
&:  menos  fechado:  &  tal  he  comummente  o  da  fegunda  parte 
da  Forma  :&:  digo  commummentejporq  naõ  heefta  revira 
infallivel,  podendo  acontecer ,  que  a  Cara  de  algumas  fíeV 
mas  feja  menos  alva ,  &  menos  fechada  3  que  a  fegunda  parte 
de  outra  Forma.  O  baixo  he  ainda  menos  alvo  /&  quafi  -tr  i- 

gueiro 


*7- 


■"■—^■B 


I 


9*  Cultura, 

gueiro  na  cor :  &  ainda  que  feja  bem  fechado ,  &  forte  -,  com- 
tudo ,  por  ter  menos  alvura,  chama-fe  baixo ,  ou  inferior. 

Alem  deitas  três  caftas  de  Branco,  ha  outro,  que  cha- 
maõ  Branco  Batido ,  feito  do  Mel ,  que  efcorreo  das  For- 
mas do  Macho  na  Caía  de  purgar  ,  cozido,  &  batido  outra 
vez :  &  fae  ás  vezes  tam  alvo ,  èz  forte ,  como  o  Macho.  E  af- 
fim  como  ha  Mafcavado  Macho ,  que  he  o  pé  das  Formas  do 
Branco  Machoj  aílim  ha  Mafcavado  Batido,  que  he  o  pé  das 
Formas  do  Branco  Batido.  O  que  pinga  das  Formas  do  Ma- 
cho ,  quando  fe  purga,  chama-fe  Mel:  &  o  que  efcorre  do  Ba- 
tido Branco,  chama-fe  Remei.  Do  Mel  huns  fazem  Agua 
ardente  ,eftillando-o:  outros  o  tornaõ-a-cozer,  para  fazerem 
Batidos ;  &  outros  o  vendem  a  panellas  aos  que  o  eílillaó ,  ou 
cozem ':  &  o  mefmo  digo  do  Remei. 
.  Vifta  a  diverfidade  dos  Afincares,  feguefe  fallar  dasMar- 
cas,  que  fehaó  de  pôr  com  a  mefma  diftinçaõ  nas  Caixas. 
Marcaó-fe  as  Caixas  com  ferro  ardente,  ou  com  trinta:  êc 
três  faõ  as  Marcas ,  que  ha  de  levar  cada  Caixa  :  a  faber ,  a 
das  arrobas,  a  do  Engenho,  &  a  do  Senhor,  ou  Mercador, 
por  cuja  conta  feembarca.  A  Marca  de  fogo  do  numero  das 
arrobas  fepoem  em  cima  na  cabeça  da  Caixa,  junto  ao  tam- 
po, começando  do  canto  da  banda  direita ,  de  tal  forte ,  que 
abarque  juntamente  a  cabeça  da  Caixa ,  &  o  tampo.  E  ifto  fe 
faz ,  para  que ,  fe  depois  fe  abriífe  a  Caixa ,  fe  conheça  mais  ' 
facilmente  pelas  partes  da  Marca  ,  que  eítaó  na  cabeça ,  &c 
naó  correfpond  em  ás  outras  partes  ,  que  eítaõ  na  borda  do 
tampo. 

A  Marca  do  Engenho ,  também  de  fogo,  fe  põem  na  mef- 
ma telta  da  Caixa,  junto  ao  fundo,  no  canto  da  banda  direi- 
ta >  para  que  fepoífaó  averiguar  as  faltas,  que  poderiaò  ha- 
ver no  encaixamentodo  Aílucar.  Porque-aílim  como  ás  ve- 
zes nas  pipas  de  breo ,  que  vem  de  Portugal,  fe  achaõ  pedras 
breadas  j  &  nas  peças  de  panno  de  linho  fino  por  fora,  no 

meyo 


ç>  Opulência  do  TZrafiL  p  $ 

meyo  fe  acha  pannòde  eítopa ,  ou  menor  numera  de  varas , 
que  as  que  fe  apontaõ  na  face  da  peça  raíllm  fe  poderiaõ  mã- 
dar  nas  Caixas  de  Aílucar  menos  arrobas  das  que  fe  apontaõ 
na  Marca  •,  &:  no  meyo  da  Caixa  AITucar  Maícavado  por 
Branco  j  como  tem  já  acontecido  ,  por  culpa  de  algum  Cai- 
xeiro infiel. 

AMarca  do  Senhor  do  AíTucar,  ou  do  Mercador ',  por 
cuja  conta  fe  embarca,  fe  for  de  fogo,  fe  põem  no  meyo  da 
dita  teíta  da  Caixa  j  &  fenaõforde  fogo,  põem -feno  mef- 
mo  lugar  com  tinta  o  feu  nome:  o  qual  fe  poderá  tirarcom- 
hua  enxó,  quando íe  vende ííe  a  Caixa  a. Outro  Mercador a 
pondo  na  dita  parte  o  nome  de  quem  a  comprou. 

Leva  a  Marca  do  Branco  Macho  hum  fó  B.  o  Branco 
Batido  dous  BB.  O  Mafcavado  Macho  hum  M.  o  Mafcava- 
do  Batido  hum  M,  6c  hum  B.  A  Marca  verbi  gratia  do  En^ 
gentio  de  Serigippe  do  Conde  leva  hum  S,  da  Pitanga  hum 
í.  E  a  Marca  verbi  gratia  do  Collegio  da  Companhia  de 
Jefu  ,  leva  hiiaCrirz  dentro  de  hum  circulo  deita  figura.  (í) 

Njs  Engenhos  àbeira-mar,  levaõ-fe  as  Caixas  ao  Porto 
defta  forte.  Com  Rolos ,  &r  Efpeques paííacj  bua  atrarde  ou- 
tra da  Cafada  Caixaria  para  húa  Carreta,  feita  para  iíTome& 
mo  mais  baixa-;  &:  fobre  eftafe  leva  cadá*íCaixa  atè  o  Porto, 
puxando  pelas  cordas  os  Negros  de  quem  a  mãda  embarcar 
por  fua  conta*. 

Dos  Engenhos  pela  Terra  dentro,  vem  cada  Caixa  fobrò 
hum  Carro  com  três  ou  quatro  juntas  deBoys,  conformeas 
lamas ,  que  haõ  de  vencer:  &  nilío  cufta  caro  o  defcuido^  por- 
que por  naó  as  trazerem  no  tempo  do  Veraõ ,  depois  no  In- 
verno eííazaõ-fe,8rmatão-fé  os  Boys. 

Do  Porto  paíTa  fobre  taboas  groíías  a  pique  para  o  Bar- 
co:  &r  ao  entrar ,  haõ  de  ter  maÕ  nella  com  focairo ,  para  que 
naõcaya de  pancada ■,&  padeça  algum  detrimento.  No  Bar- 
co fe  haõ  de  arrumar  as  Caixas  muito  bem ,  para  que  vaõ fè~ 

guras» 


. —  ■■ 


II      ■■'« 


P4  •  Cultura , 

giiras ;  nem  fe  metaõ  mais ,  antes  menos  das  que. o  Barco  po- 
de receber,  &  levar  :6c  feja  forte,  &  bem  velejado,  6c  com 
Arraes  pra&ico  das  coroas ,  &  pedras,  6c  com  Marinheiros 
naó  atordoados  da  Agua  ardente ;  fahindo  com  bom  tempo, 
6c  maré. 

Do  Engenho  até  o  Trapiche,  ou  até  a  Nao,  em  que  fe 
embarca , paga  cada  Caixa,  que  vem  por  mar ,  húa  pataca  de 
frete.  Ao  entrar,  6c  fahir do  Trapiche ,  meya  pataca.  No 
pnm  eiró  mez ,  quer  começado  fó ,  quer  acabado,  aind  a  que 
-naó  fonem  mais  que  dous  dias,  paga  dous  vinténs  :  nos  ou- 
tros mezesfeguintes,  hum  vintém  cada  mez.  E  fe  oTrapi- 
cheiro,  ou  o  Caixeiro  do  Trapiche  vender  por  corcmiílaó 
do  dono  algum  AíTucar,  ganha  húa  pataca  por  cada  Caixa. 

E  com  ífto  temos  levado  o  AíTucar  do  Cannaveal ,  aon- 
.denace,  até  os  Portos  do  Brafil,  donde  navega  paraPortur 
gal,  para  fe  repartir  por  muitas  Cidades  da  Europa.  Faíta 
agora  dizer  alguma  coufa  dos  preços  antigos ,  6c  modernos 
dèile  i  6c  das  caufas ,  porque  faó  hoje  tam  exceilivos. 


■1 


i 


CAPITULO     IX. 
Dos  Preços  antigos ,  (ff  modernos  do  ^djjucar. 

DE  vinte  annos  aefta parte  mudáraõ-fe  muito  os  pre- 
ços aílim  do  AíTucar  Branco  ,  como  do  Mafcavado, 
.^  Batido.  Porque  o  Branco  Macho,  que  fe  vendia  por  oito, 
nove ,  6c  dez  toftoens  a  arroba  -y  fubio  depois  a  doze,  quinze, 
6c  dezafeis ,  6c  ultimamente  a  dezoito ,  vinte ,  vinte  6c  dous, 
.&"  vinte  6c  quatro  toftoens  *  6c  depois  tornou  a  dezafeis.  Os 
Brancos  Batidos ,  que  fe  largavaõ  por  fete  ,  6c  oito  toftoens, 
fubíraóadoze,  6caquatorze.  O  Mafcavado  Macho,  que 

.  valia 


&  Opulência  do  UrafiL  p$ 

valia  cinco  toftoens ,  vendeo-fe  por  dez  ,  &  onze ,  &:  ainda 
mais.  E  o  Mafcavado  Batido ,  cujo  preço  era  hum  cruzado  / 
chegou  a  féis  toftoens. 

A  necefíidade  obriga  a  vender  barato,  &  a  queimar  Çco* 
mo  dizem  )  o  Aflitcar  fino  ,.  que  tanto  cufta  aos  fervos  ,  aos 
Senhores  de  Engenho ,  8^  aos  Lavradores  dà  Çannaí ,  ttába- 
lhando,  6c  gaitando  dinheiro.  Também  a  falta  de  Navios  , 
he  caufa defenaó  darporelle  o  que  vai.  Masotercrecido 
tanto  neftes  annos  o  preço  do  cobre ,  ferro,  &  panno,  &  do 
mais,  de  que  neceflkaõ  os  Engenhos;  &  particularmente  o 
-valor  dos  Efcravos,  que  os  naõ  querem  largar  por  menos  de 
cem  mil  reis ,  valendo  antes  quarenta ,  .&  cincoenta  mil  reis 
os  melhores ;  he  a  principal  caufa  de  haver  fubido  tanto  ò  Af- 
fucar ,  depois  de  haver  moeda  Provincial ,  Sc  Nacional ,  & 
depois  de  defcubertas  as  Minas  de  Ouro,  que  fervíraõpara 
enriquecer  a  poucos ,  &  para  deftruir  amuitos :  fendo  as  me? 
IhoresMinasdoBraíilos  Cannaveaes,  &  as  Malhadas  ,  em 
que  fe  planta  o  Tabaco. 

Se  fe  attentar  para  o  valor  intrinfeco ,  q  o  AíTucar  merece 
ter  pela  fua  mefma  bondadej  naõ  ha  outra  Droga ,  que  o  igua- 
le. E  fe  tanto  fabe  a  todos  a  fua  doçura  %  quando  o  comem; 
naõ  ha  razaó,  para  que  fe  lhe  naõ  dè  tal:  valor  e^triníèco,. 
,  quando  fe  compra ,  &  vende,  aflim  pelos  Senhores  de  En- 
genho, &  pelos  Mercadores,  como  pelo  Magiftrado  >  aqu# 
pertence  ajuftallo,-  que  pofla  dar  por  tanta  defpeza  algum 
ganho  digno  defereftimado.  Portanto ,  fefe  reduz  irem  os 
preços  das  coufas  que  vem  do  Reyno ;y  &  dos  Efcravos ,  que 
vem  de  Angola ,  &  Cofta  de  Guiné ,  a  húa  moderação  com- 
petente ;  poderáõ  também  tornar  os  AiTucâres  ao  preço  mo- 
derado de  dez ,  &  doze  toftoens :  parecendo  a  todos  ímpof^ 
íivel  o  poderem  continuar  de  húa ,  &.  outra  parte  tam  dema- 
íiados  exceíTos,femfe  perder  o  BmfiLj   , 

- 

C  â- 


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ps 


Cubara , 


■   . 


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C   A   P    I    T   U  L  O    X, 

Do  numero  das  Caixas  de  ^éffucar ,  que  fe  fatiem 
cada  armo  ordinariamente  no  BraJiL 


!t»   'r!  > 


GOntaõ-fe  no  Território  da  Bahia  ao  prefente  cento  & 
quarenta  &  féis  Engenhos  de  AíTucar  moentes  3  Sc  cor- 
rentes j  alem  dos  que  fe  vaó  fabricando,  huns  no  Recônca- 
vo á  beira-mar ,  6c  outros  pela  Terra  dentro ,  que  hoje  fa©  de 
mayor  rendimento.  Os  de  Pernambuco ,  pofto  que  menores, 
chegaó  a  duzentos  Sc  quarenta  &c  féis :  6c  os  do  Rio  de  Janei- 
ro a  cento  6c  trinta  6c  féis. 

Fazem-fe  hum  anno  por  outro  nos  Engenhos  da  Bahia 
quatòrze  mil  6c  quinhétas  Caixas  de  AíTucar.  Deitas  vaó  pa- 
ra o  Reyno  quatòrze  mii:  a  faber.oito  mil  de  Branco  Macho, 
três  mil  de  Mafcavado  Macho ,  mil  6c  oitocentas  de  Branco 
Batido ,  mil  6c  duzentas  de  Mafcavado  Batido :  6c  quinhen- 
tas de  varias  caílas  fe  gaftaõ  na  Terra. 

As  que  fe  fazem  nosEngenhos  de  Pernambuco  hum  anno 
por  outro,faó  doze  mil  6c  trezentas. Vaó  doze  mil  6c  cem  pa- 
ra o  Reyno :  a  faber ,  fete  mil  de  Branco  Macho ,  duas  mil  £c 
feiscentas  de  Mafcavado  Macho  ,  mil  6c  quatrocentas  de 
Branco  Batido ,  mil .&  cem  de  Mafcavado  Batido:  6c  gaítaó- 
íe  na  Terra  duzentas  de  varias  caftas. 

No  Rio  de  Janeiro  fazem-fe  hum  anno  por  outro  dez 
mil  duzentas  6c'vinte,  As  dez  mil  6c  cem  vaó  para  o  Reyno: 
a  faber  5  cinco  mil  6c  feiscentas  de  Branco  Macho,  duas  mil 
&  quinhentas  de  Mafcavado  Macho  ,  mil  6c  duzentas  de 
BrancoBatido,  oitocentas  de  Mafcavado  Batido  :^&  ficaó 

na 


C>  Opulência  do  'Brafil.  97 

na  Terra  cento  6c  vinte  de  varias  caftas ,  para  o  gafto  delia. 

E  juntas  todas  eftasCaixas  de  AíTucar,  que  fe  fazem  hum 
anno  por  outro  no  Braíil ,  vem  a  fer  trinta  6c  fete  mil  6c  vinte 
Caixas.  , 

CAPITULO      XI. 

Que  cufla  bua  Caixa  de  Ajjucar  de  trinta  >  Qf  cin- 
co arrobas ,  fojla  na  Alfandega  de  Lisboa , 
&JÀ  defpackada:  &*  do  valor  de  todo 
o  iM$nç0 ,  que  cada  anno  fe  fa^ 
no  Brafil. 

D  O  Rol,  quefefegue,  conftará  primeiramente  cont 
exa&a  diftinçaõ  o  cufto ,  que  faz  húa  Caixa  de  AíTu- 
car  Branco  Macho  de  trinta  &  cinco  arrobas,  defde  que  fe  le- 
vanta em  qualquer  Engenho  da  Bahia  j  até  fe  pòr  na  Alfan- 
dega de  Lisboa,  &  pela  porta  dei  la  fora  :  6clogooquecuíta 
húa  de  Mafcavado  Macho,  húa  de  Branco  Batido ,  6c  húa  de 
Mafcavado  Batido.  Em  fegundo  lugar  o  Refumo  do  valor 
de  todo  o  Afincar ,  que  cada  anno  fe  faz  nas  fafras  da  Bahia s 
Pernambuco  >  &  Rio  de  Janeiro. 


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Cultura , 


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Quilos  de  bua  Caixa  de  ^fiucar  Brama  Macho  de 
trinta  &  cinco  arrobas» 


Elo  Caixaõ  no  Engenho  ao  menos 

Por  fe  levantar  o  dito  Caixaõ 
Por  86  pregos  para  o  dito  Caixaõ 
Por  3  5  arrobas  de  AíTucar  a  i  U6oa 
Por  carreto  á  beira-mar 
Por  carreto  do  Porto  do  Mar  atè  o  Trapiche 
PorGuindafte  no  Trapiche 
Por  entrada  no  mefmo  Trapiche 
Por  aluguer  do  mez  no  dito  Trapiche 
Por  fe  botar  fora  do  Trapiche 
Por  Direitos  do  fubfidio  dáTerra 
Por  Direito  para  o  Forte  do  Mar 
Por  Frete  do  Navio  a  20U 
Por  defcarga  em  Lisboa  para  a  Alfandega 
Por  Guindafte  na  Ponte  da  Alfandega 
Por  fe  recolher  da  Ponte  para  o  Almazem 
Por  fe  guardar  na  Alfandega 
Por  Cafcavel  de  arquear  por  cada  arco 
Por  Obras,  TaraSj  &  Marcas 
Por  Avaliação  >  &  Direitos  grandes ,  a  800  reis 

a?opor  100 
Por  Confuladoa  3.  por  100 
Por  Comboy  a  140  reis  por  arroba 
Por  Mayoria 

O  que  tudo  importa 


& 


1U200 
U050 
U320 

56U000 
2U000 
U320 
U080 
U080 
U020 
U160 
U300 
LJ080 

11U520 
U200 
U040 
U060 
U050 
U080 
U060 


5U600 
U840 

4U900 

U600 

84U560 


Cufíes 


ç>  Opulência  do  *Bra/il. 


99 


Cuftos  de  hua  Caixa  de  Ajfucar  Mafcavado  Macho  de  trinta 
&  cinco  arrobas. 

Por  35  arrobas  do  dito  AíTucar  a  1U000  reis  35  Uooo 

Por Avaliaçao5&:Direitos3a45oreis3&a20.por  100  3U150 
Por  Confulado  a  3  por  100  U472 

Por  todos  os  rriais  gaftos  22U120 

O  que  tudo  importa  6017742. 

Gz/ftw  ^  h»a  Caixa  de  Aflucar  Branco  Batido  de  trinta 
&  cinco  arrobai. 

Por  3  5  arrobas  do  dito  AíTucar  a  1U200  reis  42U00.0 

Por  Avaliação,  8c  Direitos,a  600  reis,ôe  a  20  por  ioo    4U72Ó 
Por  Confulado  a  3.  por  too.  U648 . 

Por  todos  os  mais  gaftos  azUiao 

O  qiie  tudo  importa  ^69  U488 

Cu  fios  de  hua  Caixa  de  Ajfucar  Mafcavado  Batido  de  trin- 
ta &  cinco  arrobas. 

Por  35 .  arrobas  do  dito  AíTucar  a  640  reis  22U400 

PorAva1iaçaõ,&Direitos,a30oreis,&:a20por  100   2U100 
Por  Confulado  a  3  por  100  U315 

Por  todos  os  mais  -gados  22U120 

O  que  tudo  importa  _  4611935* 


**&&<>%*' 


Gz 


Caixas 


100 


Cultura , 


Caixas  de  Affucar,  que  ordinariamente  fe\tirdo  cada  anno  àa 
Bahia :  &  o  que  importa  o  valor  delias  *z  3  5 .  arrobas. 


Por  8000  Caixas  de  Branco  Macho  a  84.U5  60- 
Por  3000  Caixas  deMafcav.  Macho  a  60U742- 
Por  1800  Caixas  de  Branco  Batido  a  69U488- 
Por  1 200  Caixas  deMafcav.  Batido  346U935- 
Por  _foo Caixas,  q fe gaft. naTerra^a 60U200- 
Saô  m  soa  Caixas  :&  importaó- 


67648011000 
182226U000 

125078U400 
5 63 2 2 U 000 
301 00U000 

10702Õ6U4Õ0 


Caixas  de  Ajjucar,  que  ordinariamente  fe  tirão  cada  anno  de 
Pernambuco:  &  o  que  importa  o  valor  delias  a]$  5  .arrobas. 

Por  7000  Caixas  de  Branco  Macho  a  78U420-  548940 Uooo 
Por  2600  Caixas  deMafcav. Macho  a  54U500-  141700U000 
Por  1400  Caixas  de  Branco  Batido  a  63  U  200-  8  8480U000 
Por  1 100  Caixas  deMafcav. Batido  a  39U800-  43780U000 
Por  200  Caixas3q  fe  gaft.naTerra,,  a  5  6U200-  1 1 240 Uooo 
Saõ  J^l£2  Caixas :  6c  importaó-  ^83414011000 

Caixas de  Ajfucar ,  que  ordinariamente  fe  tirão  cada  anno  do 
Rio  de  Janeiro:  &  o  que 'impor 'ta  o  valor delias a  35.  arrobas. 

Por  5  600  Caixas  de  Branco  Macho  a  72U340-  405 104U000 
Por  2500  Caixas  de  Maícav.  Machoa48U22o  120550U000 
Por  1200  Caixas  de  Branco  Batido  3591X640-  7 1568  Uooo 
Por  800  Caixas  de  Mafcav. Batido  a  34U 1 20-  27296U000 
Por  ixo^Caix.  para  o  gaíí.da  Terra  352^20-  Ò278U400 
Saô  101  *a  Caixas :  &c  im  portão  ^6307961X400 


Refumc 


ç>  Opulência  do^Brajil.  mn 


Refurno  do  que  importa  todo  o  Affucâf* 


O  da  Bahia,  mil  Sc  fetenta contos, 
duzentos  Si  íeis  mil  ôc  qua- 
trocentos reis— 

O  de  Pernambuco,  oitocentos  & 
trinta  &  quatro  cotos,  cen- 
to &  quarenta  mil> reis— 

O  do  Rio  de  J  aneiro ,  feiscentos  Sc 
trinta  contos,fetecentos  Sc 
noventa  &  íeis  mil  &  qua- 
trocentos reis-- 
Somma  todo  dous  mil  quinhentos 
&  trinta  Sc  cinco  contos  , 
cento  Sc  quarenta  Sc  dous 
mil  Sc  oitocentos  reis. 


1070206U400 
834140U000 


_  630796U400 
25-35142,^800 


1  «A 


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Cultura , 


CAPITULO    XII. 

Do  que -padece  o  Ajfucar  de/de  o  feu  nacimento  na 
Canna  atèfahir  do  Brafil. 


H 


ME  reparo  fingular  dos  que  contem  plaó  as  coufas  natu- 
raes,  ver  que  as  que  faõ  de  mayor  proveito  ao  género 
10,  naõ  fe  reduzem  á  fua  perfeição  fem  paíTarem  pri- 
meiro por  notáveis  apertos  :  &  ifto  fevè  bem  na  Europa  no 
Pannode  Linho,  noPaõ,  no  Azeite,  6c  no  Vinho,  frutos  da 
Terra  tam  neceííarios ,  enterrados ,  arraftados ,  pizados ,  ef- 
premidos  3  &  moídos  antes  de  chegarem  a  fer  perfeitamente 
o  que  faõ.  E  nós  muito  mais  o  vemos  na  fabrica  do  AíTucar, 
oqualdefde  o  primeiro  inftante  de  fe  plantar,  atè  chegar  ás 
mefas ,  &  paliar  entre  os  dentes  a  fepultar-fc  no  eítomago  dos 
que  o  comem,  levahúa  vida  chea  de  taes  ,  &  tantos  marty- 
rios,  que  os  que  inventarão  os  Tyrannos,  lhes  naõ  ganhão 
ventagem.  Porque  fe  a  Terra  ,  obedecendo  ao  império  do 
Creador,deo  liberalmente  a  Canna,  para  regalar  com  a  fua 
doçura  aos  paladares  dos  homésjeíles,  defejofos  de  multipli- 
car em  fi  deleites,&  goftos,inventáraõ  contra  a  mefma  Cana, 
com  feus  artifícios,  mais  de  cem  inftrumentos,  para  lhe  mul- 
tiplicarem tormentos ,  &  penas. 

Por  iíTo  primeiramente  fazem  em  pedaços  as  que  plan- 
tão, &  as  fepultaó  aílim  cortadas  na  Terra.  Más  ellas  tornan- 
do logo  quaíi  milagrofamente  a  refufeitar ,  que  naõ  padecem 

dos 


&-  Opulência  do  ISrafiL  %  03 

dos  que  as  vem  fahir  com  novo  alento,&  vigor  ?  já  abocanha- 
das de  vários  Animaes;  já  pizadas  das  Beftas;jà  derrubadas 
do  Vento ;  &  alfim  defcabeçadas ,  &  cortadas  com  fouces. 
Saem  do  Cannaveal  amarradas :  &  oh  quantas  vezes  antes  de 
fahirem  dahi  ,  faó  vendidas  í  Levaõ-fe  affim  prezas ,  ou  nos 
Carros  ,  ou  nos  Barcos  àvifta  das  outras  ,  filhas  da  meíma 
Terra,  como  os  Reos ,  que  vaò  algemados  para  a  Cadea ,  ou 
para  o  lugar  do  fupplicio ;  padecendo  em  íi  confufaõ,  &  dan- 
do a  mu  itos  terror,  Chegadas  à  Moenda ,  com  que  força  ,  Sc 
aperto,  poílas  entre  os  Eyxos,faõ  obrigadas  a  dar  quanto  tem 
de  fuílancia  ?  Com  que  defprezo  fe  lançaõ  feus  corpos  efma- 
gados ,  &  defpedaçados  ao  Mar  ?  Co  que  impiedade  fe  quei- 
maõ  fem  compaixão  no  bagaço  ?  Arrafta-fe  pelas  bicas  quan- 
to humor  fahiodefuasveas,  &  quanta  fuílancia  tinhaó  nos 
oíTos :  tratea-fe ,  8c  fufpende-fe  na  Guinda  :  vay  a  ferver  nas 
Caldeiras,  borrifado  Ç para  mayor  pena)  dos  Negros  com 
JDecoada:  feito  quaíl  lama  no  Cocho ,  paíía  a  fartar  as  Beílas, 
&  aos  Porcos:  fae  do  Parol  efcumando,  &  fe  lhe  imputa  a  be- 
bedice dos  Borrachos .  Quantas  vezes  o  vaõ  virando ,  êc  agi- 
tando com  Efcumadeiras  medonhas?  Quantas^  depois  de 
paíTado  por  Coadores,  o  batem  com  Batedeiras,  experimen- 
tando elle  de  Tacha  em  Tacha  o  fogo  mais  vehemente  -,  às 
vezes  quafi  queimado*  %c  às  vezes  defaffogueado  algum  tan- 
to, fópara  que  chegue  a  padecer  mais  tormentos  ?  Crecem 
as  bateduras  nas  Temperas :  multiplica-fe  a  agitação  com  as 
Efpatulas :  deixa-fe  esfriar  como  morto  nas  Formas  :  leva- fé 
para  a  Caía  de  Purgar ,  fem  terem  contra  elle  hum  mínimo 
indicio  de  crime  ;  èc  nella  chora  furado ,  Sc  ferido  a  fua  tam 
malograda  doçura.  Aqui ,  daõ-lhe  com  barro  na  Cara :  &  pa- 
ra mayor  ludibrio,  até  asEfcravas  lhe  botaò  fobre  o  barro 
fujo  as  lavagens.  Correm  fuás  lagrimas  portantos  rios,  quan- 
tas faõ  as  bicas,  que  as  recebem  :  &"  tantas  faõ  el  Ias,  que  ba- 

G  4  ftaõ 


■■  II 


■i 


104  Cultura , 

ítaõ  para  encher  Tanques  profundos.  Oh  crueldade  nunca 
ouvida !  As  mefmas  lagrimas  do  innocente  fe  põem  a  ferver, 
&  a  bater  de  novo  nas  Tachas  :  as  mefmas  lagrimas  fe  eítil- 
Jaõà  força  de  fogo  em  lambique  :  &  quando  mais  chora  fna 
forte,  entaõtornaó  a  darlhenaCara  com  barro,  &  tornaõ 
as  Efcravas  a  lança rlhe  em  rofto  as  lavagens.  Sae  deíía  forte 
do  Purgatório ,  &  do  Cárcere,  tam  alvo,  como  innocente  j  & 
íbbre  hum  baixo  Balcaõ  fe  entrega  a  outras  Mulheres ,  para 
que  lhe  cortem  os  pés  com  facoens :  &  eílas  naõ  contentes  de 
lhos  cortarem ,  em  companhia  de  outras  Efcravas,  armadas 
detoletes,  folgaó  de  lhe  fazer  osmeímospés  em  migalhas. 
Dahi  paflà  ao  ultimo  Theatro  dos  íeus  tormentos,  que  he  ou- 
tro Balcaó  mayor,  &  mais  alto  ->  aonde  expofto  a  quem  o  qui- 
zer  maltratar,  experimenta  o  que  pôde  o  furor  de  toda  a  gen- 
te fentida  j  &  enfadada  do  muito  que  trabalhou  andando 
atrazdelle  :  &  por  iíío  partido  com  quebradcres,  cortado 
com  facoens,  defpedaçadoçom  toletes,  arraftado  com  ro- 
dos ,  pizado  dos  pés  dos  Negros  fem  compaixão ,  farta  a 
crueldade  de  tantos  Algozes ,  quantos  faõ  os  que  querem  fu- 
bir  ao  Balcaõ.  Examina-fe  por  remate  na  balança  do  mayor 
rigor  o  que  péza ,  depois  de  feito  em  migalhas :  mas  os  íeus 
tormentos  graviffimos,  aílim  como  naõ  tem  conta,  aflim  naó 
haquempoíTabaftantemente  ponderallos,  ou  defcrevellos- 
Cuidavaeu,  que  depois  de  reduzido  elle  a  efte  eftado  tam 
laftimofo ,  o  deixaítem  :  mas  vejo  ,  que  fepultadoem  hiia 
Caixa ,  naó  fe  fartaõ  de  o  pizar  com  pilocns  >  nem  de  lhe  dar 
na  Cara  ,  já  feita  em  pó,  com  hum  pao.  Pregaõ-no  finalmen- 
te, &  marcaõ  com  fogo  ao  fepulcro,  em  que  jaz :  &  aílim  pre- 
gado ,  &  fepultado ,  torna  por  muitas  vezes  a  fer  vendido ,  Sc 
revendido,  prezo,  confifcado,  &"  arraítado:  &  fe  livra  das  pri- 
zoens  do  porto  ,  naó  livra  das  tormentas  do  Mar,  nem  do 
degredo ,  cora  impofíçoens ,  &:  tributos  :  tam  feguro  de  fer 

com 


C>  Opulência  do  UrâfiL  *o  j 

comprado,  Sc  vendido  entre  Chriftáos,  como  arrifcado  a 
fer  levado  para  Argel  entre  Mouros.  E  ainda  aílim ,.  íempre 
doce ,  &  vencedor  de  amarguras ,  vay  a  dar  gofto  ao  paladar 
dos  (eus  inimigos  nos  banquetes,  faude  nas  mezinhas  aos  En- 
fermos, &  grandes  lucros  aos  Senhores  de  Engenho,  Sc  aos 
Lavradores ,  que  o  períeguíraó  ,  &"  aos  Mercadores,  que  o 
comprarão,  &  o  leváraó  degradado,  nos  Portos >  &  muito 
mayores  emolumentos  à  Fazenda  Real  nas  Alfandegas. 


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^,^F^K=^^i^áfíÊ^^á€^^^F^^^^iô  .í^€^^^€^%  í^S^c^i^^^^^^ 


SEGUNDA  PARTE. 
JLTU 


OPVLE  NC1A  DO  BRASIL 

Na  Lavra  do  Tabaco. 

■■'     aã        '  I        .       i   .        I 

CAPITVLO     I. 

Como/e  começou  a  tratar  no  ^Brajil  da  Tlanta  do 

tabaco  :  &•  a  que  eíiimaçao  tem 

chegado. 

E  oAííucardoBrafil  o  tem  dado  a  conhecer  a  to. 
dos  osReynos,&  Provindas  da  Europa}  o  Tabaco 
o  tem  feito  muito  mais  afamado  em  todas  as  qua- 
tro Partes  do  Mundo:em  as  quaes  hoje  tanto  fe  de- 
feja,  Sz  cõ  tãtas  diligécias,  &  por  qualquer  via  fe  procura.Ha 
pouco  mais  de  cem  annos  5  que  eíla  folha  fe  começou  a  pían-' 
tar ,  6c  beneficiar  na  Bahia  :.&  vendo  o  primeiro  ?  que  a  plan- 
tou ,  o  lucro  3  pofto  que  moderado ,  que  entaó  lhe  deraõ  húW 

pou- 


, 


wm 


m 


lò8  Cuhura\ 

poucas  arrobas,  mandadas  com  pequena  efperança  de  algum 
retorno  a  Lisboa  ,animou-fe  a  plantar  mais  ;  naò  tanto  por 
cobiça  de  Negociante,  quanto  por  fe  lhe  pedir  dos  feus  cor- 
re fpondentes,   Sc  amigos  ,   que  a  repartiaõ  por  preço  ac- 
commodado  ,   porém  já  mais  levantado.    Atb  que  imita- 
do dos  vizinhos ,  que  com  ambição  a  plantarão,  Sc  enviai 
Taõem  mayor quantidade:  Sc  depois,  de  grande  parte  dos 
Moradores  dos  Campos,  quechamaõ  da  Cachoeira,  Sc  de 
outros  do  Certaõ  da  Bahia  3  paííou  pouco  a  pouco  a  fer  hum 
dos  géneros  de  mayor  efíiniaçaó,  que  hoje  faem  deíla  Ame- 
rica Meridional  para  o  Reyna  de  Portugal,  &  para  os  outros 
Reynos  >  Sc  Republicas  dê  Nações  eftrannas.  E  deita  forte 
Jrõafoíha  antes  defprezada,  Sc  quafidefconhecida,  tem  da- 
do, &  dà  actualmente  grandes  cabedaes  aos  Moradores  do 
Brafil,  Sc  incríveis  emolumentos  aos  Erários  dos  Príncipes. 
Defta  pois  fallaremos.  agora  ,  moítrando  primeiramente 
como  fe  fêmea ,  Sc  planta :  como  fe  alimpa ,  Sc  colhe  :  como 
fe  beneficia, Sc  cura*:  como  fe  enrola,  Sc  fe  defpacha  na  Alfan- 
dega. 2.  Como  fe  piza ,  Sc  fe  lhe  dà  o  cheiro :  qual  he  melhor 
f  a  ra  fe  mafcar  j  qual  para  o  cachimbo ;  Sc  qual  para  fe  pizar : 
Sc  fe  o  granido,  ou  o  empo.  3.  Do  ufo  moderado  delle  para 
a  faude  -y  Sc  do  im  modera  do ,  Sc  viçiofo  na  quantidade,  no  lu- 
gar ,  Sc  no  tempo.  4.  Dos  Rolos ,  que  cada  anno  ordinaria- 
mente fe  embarcaõ  doBrafil  para  Portugal:  do  valor  delle  na 
Bahia ,  &  no  Reyno :  das  penas  para  fe  naó  mandar ,  ou  intro- 
duzir femdefpacho:  &  dos  artifícios  para  fe  paífar  de  contra- 
bando,  naó  obítante  a  vigilância  dos  Guardas ,  afíim  dentro,, 
como  fora  de  Portugal.  E  finalmente  do  rendimento  deite 
Contrato,  &da  repartição  do  Tabaco  por  todas  as  partes 
do  Mundo.  Tudo  conforme  as  noticias  certas  ,  que  procu- 
rey ,  Sc  me  deraó  os  mais  iiitelligentes  >Sc  mais  verfados  nefta 
lavra  iaosquaes  naquedirey ,  me  reporto. 


CA. 


&•  Opukncia  do  Urafil. 


10£ 


CAPITULOU. 

Em  que  conftfte  a  Lavra  do  Tabaco :  Qfde  comofe 

fêmea,  planta,  &  alimpa :  &  em  que  tempo 

fe  ha  de  plantar. 

TOda  a  lavra ,  &  cultura  do  Tabaco  conílftepor  Tua  or- 
dem  em  fe femear,  plantar,  alimpar ,  capar,  def olhar , 
colher ,  efpinicar,  torcer,  virar,  a juntar,  enrolar,  encou  rar  y& 
pizar ;  &  de  tudo ■ifto  iremos  fatiando  nos  Capítulos  feguin- 
tes.E  começando  neííe  pela  planta  :femea-fe  eílaem  cantei- 
ros bem  eftercados  3  ou  em  queimadas  feitas  no  matto,  aon- 
de ha  terra  conveniente  para  iífo,  &  aparelhadas  no  mefmo. 
ànno ,  em  que  fe  ha  de  femear.  O  tem  po  >  em  que  conimum- 
mente  fe  fêmea ,  faõ  os  mezes  de  Mayo ,  Junho ,  ■&  julho :  & 
depois  de  nacidaafemente  ,  nace  também  com  eíla  algum 
capim  -,  o  qual  fe  tira  com  tento ,  que  fe  naõ  arranque  por  def- 
cuido  com  o  capim  viciofo  a  planta  innocen te. 

Tendo  a  planta jà hum  palmo,,  ou  pouco  menos  de  al- 
tura ,  fe  paífa  dos  canteiros ,  aonde  naceo ,  para  os  cercados,, 
ou  curraes ,  aonde  fe  ha  de  criar :  cuja  terra  quanto  mais  efter- 
cada ,  he  melhor.  Mas  fe  nos  ditos  curraes  morou  por  muito 
tempão  Gado }  ha-fede  tirar  antes  alguma  parte  do  eftercór 
para  que  a  força  delle,ainda  naõ  cortido  do  tempo,  naõ  quei- 
me a  planta ,  em  vez  de  a  ajudar. 

Diftribue-fe  a  dita  terra  em  regos  com  rifcador,  para  que 
a  planta  fique  viftofa.  A  diftancia  de  hum  rego  de  outro  he  de 
cinco  palmos  :  &  a  das  plantas  entre  fihe  de  dous  palmos  ■& 
rneyo  ,para  que  fe  poífao  eítender, ,.  &:  crecer  folgadamente* 


■■  i 


-— 


1 

Hl 
■ 


lio  Cultma , 

fem  hua  fer  de  embaraço  à  outra.  Planta- fe  em  covas  de  hum 
palmo,  quanto  cava  a  enxada  metida;  ôceftasfe  enchem  de 
terra  bem  eftercada :  &  com  vigilância ,  &  cuidado  fe  corre  a 
dita  planta  todos  os  dias  ,  para  ver  fe  tem  Lagarta ;  &  efta  lo- 
go fe  mata,  para  a  naõcomer,  fendo  tenra.  Os  inimigos^da 
planta  faõ  ordinariamente,  alem  da  Lagarta,  a  Formi^j'  o 
Pulgaó,  ScoGrillo.  A  Lagarta  em  pequena  corta-lhe  o  pé, 
ou  raiz  debaixo  da  terra  j  &  em  crecendo ,  cortalhe  as  folhas. 
O  mefmo  faz  também  a  Formiga :  &  por  ifib  fe  põem  nos  re- 
gos, aonde  efta  apparece,  outras  folhas  de  mandioca,  ou  de 
aroeira^  para  que  delias  comaõ  as  Formigas,  &  naõ  cheguem 
a  cortar,  &  comer  as  do  Tabaco,  que  fendo  cortadas  deita 
forte  naolervem.  O  Pulgaò ,  que  he  hum  Mofquito  preto, 
po  iico  mayor  que  hua  Pulga ,  faz  buracos  nas  folhas^  &  eftas 
aííim  furadas,  naõ  preftaõ  para  fe  fazer  delias  torcida.  O 
Grillo ,  em  quanto  a  planta  he  pequena ,  a  corta  rente  da  ter- 
ra i  &  fendo  jà  crecida  ,  também  fe  atreve  a  cortarlhe  as 
folhas. 

Sendo  jà  a  folha  baftantemente  crecida ,  fe  lhe  chega  ao 
pé  aquella  terra ,  que  fe  tirou  das  covas  em  que  foy  plantada, 
daquella  parte ,  que  ficou  arrumada  raais  alta  :  porém  em 
tempo  de  Inverno  naõ  fe  aperta  muito ,  porque  toda  efta  hú- 
mida :  no  Veraõ  aperta-fe  mais ,  para  que  a  terra  a  defenda ; 
&  a  hum  idade,  pofto  que  menor,  lhedè  o  primeiro  alimen- 
to. E  ifto  faz  quem  a  planta. 

E irando  a  planta  em  fua  conta,  com  oito,  ou  nove  folhas, 
conforme  a  força ,  com  que  vem  crecendo ,  fe  lhe  tira  o  olho 
decima,  ougrello,  antes  de  eípigar  :  o  que  por  outra  frafe 
chamaó  capar.  E  porque  íaltando-lhe  efte  olho ,  nace  em  ca- 
da pé  das  folhas  outro  olho-,  todos  eftes  olhos  fe  haõ  de  bo- 
tar fóra,(&:  a  ifto  chamaõ  defolhar)para  q  naõ  tirem  a  fuftan- 
cia  às  folhas.  E  efta  diligécia  fe  faz  pelo  menos  de  oito  em  oi- 
to dias:  &  mais  frequentemente  fe  vifitaõ,&:  correm  os  regos, 

para 


&•  Opulência  doBrafil.  1 1 1< 

para  tirar  o  capim ,  atèeftarem  as  folhas  fazonadas :  o  que  fe 
conhece  por  apparecerem  nellas  mias  nódoas  amarelías ;  ou 
por  eftar  jà  preto  por  dentro  o  pè  da  folha ,  o  que  commum- 
mente  fuccede  ao  quarto  mez  depois  de  polias  em  fuás  co^ 
vas  as  plantas . 

■ 

C    A    P    I    T    U    L    O     III. 

Como  fe  tiraõ,  Q?  carão  as  folhas  do  [Tabaco :  co- 
mo delias  fefa^em  y  &  beneficiao  as 
mrdas. 


,  ■  .  '     ■       '         ti  x  '■ 

Uebraõ-íè  as  folhas  rente  da  haftía  com  otalo ,  Sc  jim- 
<  tas  em  cafa  fedeixaô  eftar  aílim  por  vinte  &  quatro* 

horas,  pouco  mais ,  ou  menos  :  &  logo  antes  de  fe  ef~ 
quentarem  5  &feccarem3  fedependuraõ  duas  &  duas  pelo 
pè ,  metidas  entre  a  palha  (  de  que  conftaõ  as  cafas ,  em  que 
fe  beneficiao  )  &  as  varas  j  ou  em  outra  parte ,  aonde  lhes  dè 
o  vento,  mas  lhes  naó  chegue  o  Sol  .-porque  fe  eftelhesche- 
gafle,  logo  fefeccariaõ ,  &1  perderiaó  a  fuftaneia*  %  tanto 
que  eftiverem  enxutas  em  fua  conta ,  que  pouco  mais  ou  me  - 
nos  fera  depois  de  eítarem  aííim  dependuradas dous  diasjfe 
botão -np-çhaõ,.  &:  fe  lhes  tira  a  mayor  parte  do  talo  pela  parte 
inferior3com  o  devido  cuidado,  para  qfe  naó  rafguem  com  o 
defvio  do  talo :  ftj  a  ifto  chamaõ  efpinicar.  E  entaô  fe  dobrão 
pelo  meyo as  melhores,  qhaõdefervirdecapa  paraacorda, 
quefe  ha  de  fazer  de  todas  as  mais  folhas.  E  advirta-fe  5  que 
as  folhas ,  que  fe  tiráraõ  em  hum  dia  ,  naó  fe  haõ  de  m-iilurar 
fenaõ  comas  quefe  tirarem  no  dia  feguinte  j  para:  que .feja6 


—  — 


,iii  Cultura, 

igualmente  fazonadas  :  &  fe  naõ  forem  aífim ,  húas  prejudi- 
caráõ  ao  bom  concerto  das  outras. 

Curadas  as  folhas ,  &  tirado  já  o  talo  como  eftá  dito*  del- 
ias fe  faz  húa  corda  da  grofliira  quafi  de  três  dedos.  E  pata  if- 
fo  haverá  Roda ,  &  hum  Torcedor  entendido,  para  que  a 
corda  fique  unida,  igual,  &  forte  :  ôcatraz  delle  eftará  ou- 
tro colhendo  a  torcida  fobre  hum  pao,  ou  fobre  o  aparelho , 
como  qualquer  outra  corda  fimples ,  &  naõ  como  as  que  fe 
fazem  de  cordoes :  &  junto  do  Torcedor  vaõ  os  Rapazes , 
que  daõ  as  folhas  para  fe  torcerem  em  corda. 


■I 
■I 

■ 

H 
■II 


CAPITULO     IV. 

Como  fe  cura  o  Tabaco  depois  de  torcido  em 
corda. 

FEita  a  corda  do  comprimento  ,  que  quizerem  ,  Sc  enro- 
dilhada em  hum  pao}fe  defenrola  cada  dia,  a  faber ,  pela 
manhaá,  &  ánoyte,  ôtpafía-feaoutropao,  para  que  naõ 
arda:  &  na  paífagem  fe  vay  torcendo,  &  apertando  branda-  t 
mente ,  para  que  fique  bem  ligada,  &  dura.  E  tanto  que  ficar 
preta,  vira-fe  fó  húa  vez  cada  dia  :  &  como  fe  vay  aperfei- 
çoando, fe  diminuem  as  viradurasj  atè  ficar  em  eííado,  que 
fe  poífa  recolher  fem  temor  de  que  apodreça.  E  commum- 
mente  efte  beneficiocoftuma  durar  quinze,  ou  vinte  dias,  cõ- 
forme  vay  o  tempo ,  mais  ou  menos  húmido ,  ou  fecco. 

Segue-fe  atraz  difto  o  que  chamaõ  ajuntar  ,  que  vem  a 
fer ,  pôr  três  bollas  de  corda  de  Tabaco  em  hum  pao ,  aon- 
de rica,  atè  que  chegue  o  tempo  de  enrolar.  E  entre  tanto 
gtiardaõ-íeeítas  bollas  no  Tendal,  que  he  como  hum  andai- 
me 


&-  Optikncia  do  TèrafiU  1 1 3 

me  alto ,  cornfeus  regos  em  baixo  ,  para  receberem  a  cal  da , 
que  botaõ  de  íi  eíTas  bollas }  &  efta  fe  ajunta ,  &  guarda  T  pa- 
r&depois  ufar  delia ,  quando  for  rempo  de  enrolar. 

O  ultimo  benefício,,  que  fe  lhe  faz,  he  ofeguinte.  Tem- 
pera-fe  a  calda  dò  mcfmo  Tabaco  com  feus  cheiros  de  herva 
doce,  alfavaca,  &  manteiga  de  porco  :  ôcquem  faz  mano* 
jos  de  encomenda ,  botalhe  almifcar  >ou  âmbar ,  fe  o  tem :  5c 
por  efta  caida  mifluradacommeldeaíTucar  (  quanto  mais 
groílb ,  melhor)  fe  paífa  a  raefma  corda  de  Tabaco  húa  vezj 
£c  logo  fe  fazem  os  Rolos  do  modo  feguinte.- 

CAPITULO      V. 

Como  fe  enrola*  Çf  encoura  o  Tabaco:  ©*  què- 
FeJJoas  fe  occupav  em  toda  a  fabrica  delle  r 
defde  a  [ua  planta  atèfe  enrolar. 

PAraenrolaro  Tabaco,  dobrão  a  cordajá  curada  ,&*  nffei- 
lada ,  de  comprimento  de  três  palmos^  fobre  húa  eftacár 
naó  muito  groffa,  6c  leve,  que  nas  extremidades  tem- 'quatro1 
taboinhasem  cruz. "fobre as quaes  dobrada  ,  &  feguradade- 
húa  &  outra  parte  a  ditacorda,  fe  vay  enrolando  atè  ofímr 
puxando  fempreben*,  &  unindo  húa  dobra  com  outra ;  de 
íbrtcque  naó  fique  vaó  algum  entre  as  dobras.  E  para  4  as  ca-^ 
becas  fiquem  fempre  direitas^  alem  das  cruzetas ,  que  levaõV 
lhes  vaõ  metendo  folhas  deUrucurí  nos- vãos,  para  que  fi- 
quem bem  unidas  com  as  dobras  de  dentra 

Acabado  o  Rolo,  fe  cobre  primeiramente  com  folhas  de 
Caravatá  feccas,amarradas  cõembíraj&depoisfe  lhe  faz  hú& 
çappa  de  couro  da  medida  do  rolo :  a  qual  colida ,  &:  aperta^ 


*m 


Mi 


■ 

■II 


JI4  Cultura, 

da  muito  bem,  marca-fe  com  a  marca  do  fen  dono.  Edefta 
forte  vaõ  osRolos  por  terra  em  carros,8rpor  mar  em  barcos,  a 
ferem  defpachados  na  Alfandega.,  antes  de  fe  meterem  nas 
a  tS/  ,cada  Ro*°  Péza  comrnum  mente  oitoarrobas 
Vindo  agora  ajallar  dasTeílbas,  que  fcoccupaó  na  fabri- 
ca, &  cultura  do  X  ábaco  j  ella  he  tal,  que  a  todos  4á  que 

íazer :  porque  r^llatrabalbaõ  grandes.,^  pequenos  ihom  és, 
&  mulheres  5  Feitores  ,  Sc  fervos.  Mas  nem  todos  fervem  pa- 
ra qualquer  minifterio  dos  que  acima  fieaõ  referidos.  Parafe- 
mear3&píantarafciha, ne  necefTario ,  que  feja  pefToa ,  que 
entenda  diíTo,  para  que  fe  guarde  bem  o  modo,  a  direitura, 
&adiítancia  aflim  dos  regos,  cómodas  covas.  O. cavar  as 
covas  pertence  aos  que  andaõ  no  ferviçocom  a  enxada :  os 
Rapazes  botaé os  pés  da  planta,  afaber,  hum  em  cada  húa 
das  covas ,  que  jà ficaõ  feitas.  E  o  que  planta,  apertalhea 
terra  a opé,  mais  ou  menos,  conforme  a  humidade  delia.  To- 
da aGente  fe  occupa  em  catar  a  Lagarta  duas  vezes  no  dia ,  a 
faber,  pela  madrugada,  &  depois  de  eftar  o  foi  pofto:  porque 
de  dia  eftá  debaixo  da  terra;Sc  o  final  de  eftar  ahi5be  o  acharfe 
algúa  folha  cortada  de  noite.  Chegarlhe  a  terracom  a  enxa- 
da, he  trabalho  dos  grandes.  Capar  a  planta  jà  crecida ,  ifto 
he ,  tirarlhe  o  olho ,  ou  grello  na  ponta  da  ha&a  -y  he  officio 
de  Negros  Meftres.  Defolhar,quevemafer3tirar  os  outros 
olhos ,  que  nacem  entre  cada  folha,  &  ahaftia;  fazem  peque- 
nos ,  &  grandes.  Apanhar,  ou  colher  as  folhas,  he  de  quem  fa- 
be  conhecer  quando  he  tempo,  pelo  final ,  que  tem  a  folha, 
aonde  fe  pega  com  ahaftia ,  que  heo  fer  ahi  de  cor  preta.To- 
da  a  Gente  de  ferviço  íè  occupa  em  dependurar  as  folhas  nos 
altos :  &  ifto  fe  faz  commummente  de  noite.  Pinicar ,  ou  ek 
pinicai- ,  ou  efpicar ,  que  tudo  he  o  mefmo ,  &  vem  a  fer,  tirar 
otalo  às  folhas  do  Tabaco  •>  he  trabalho  leve  de  pequenos ,  Sc 
grandes.  Torcer  as  folhas  fazendo  delias  corda3  encomenda- 
k  a  algum  Negra  Meftre ;  ôc  o  que  anda  com  a  -Roda,  ouEn- 

genho 


&  Opulência  do  ^Brafil.  %%% 

genho  de  torcer,  ha  de  fer  Negro  robufto  :  &  também  botar 
acappa  á  corda  ,  para  que  fique  bem  redonda,  he  obra  de 
Negro  experimentado-  Os  Rapazes  daõ  ao  Torcedor  as  fo- 
lhas, &  também  as  cappas  ao  que  vay  cobrindo  com  as  me* 
íhores  a  corda : •&  o  memio  que  bota  as  cappas ,  heo  que  en- 
rola. O  palíar  as  cordas  de  hum  pao  para  outro,  corre  por 
conta  de  dous Negros :  dos  quaes  hum  ©ítà  no  virador,  &  ou- 
tro vay  defandando  a  corda  enrolada  n  o  pao.  Os  que  víraõ* 
ou  mudaõ  a  corda  de -hum-  pao  para cãftfo;  fao  Negros  Me- 
ítres  5  Sc  em  cada  virador  faõ  neceílarios  três  .*  hu  m  ,  que  lar- 
gue acorda^  outro; que  a  ColH^Sc  outro,que  ande  no  virador. 
Ajuntar,  que  hepôraGordadetresbollasemhiim  pao,  he 
obra  dos  Negros  mais  deíf  ros : Sc  faõ  três,  éo  às  vezes  quatro^ 
porque  naõ  bafta  hum  fò  no  virador,  mas  ha  mifter  doiis,  pa- 
ra que  apertem  bem  a  corda.  Enrolar  finalmente,  he  occupa- 
çaõde  bonsOffíciacs;,  paraquefícpeaobrâfegura. 


C  AP  r  T   0  t   o 

Dajegunda ,  Qf  terceira  folha  do  Tabaco :  ( 
de  diverfas  qualidades  delle r,  fará  fe  mají 
[  C4r,  cachimbar ,  Qffi^ar* 


TVdo  o  que  eftá  dito  até  aqui  do  Tabaco  ,"  que  cham  a$ 
da  primeira  folha ,  &■  vai  o  mefmo ,  que  o  da  primeira 
colheita*  feha  de  entender  também  do  da  fegunda ,  Sc  tercei^ 
ra  folha }  fe  a  Terra  ajudar  para  tanto ,  Sc  for  para  ííTo  ajuda- 
dacomo  beneficio  do  tempo ,  Sc  do  efterco.  Por  tanto  tira-, 
áastodasaspnmeiasfolhaSíCorta-feahaítia menos  de  hum 

Hz 


=— ■ 


uí  Cultura, 

palmo  fobre  a  Terrâ^  para  que  brote  as  fecundas  :8r  recen- 
do ellas,  felhestiraó  (  como  eftà  dito  acima  )  os  olhos  do 
tronco  í  &  o  capim  dos  regos :  &  o  mefmo  benefício ,  que  fe 
fez  às  primeiras  folhas,  fefaz  às  da  fegund  a  colheita.  Efe  a 
1  erra  for  forte,  faz- fe  a  terceira,  6cmultiplicaõ-fe os  Rolos. 
O  Tabaco  da  primeira  folha  heo  melhor,  ornais  forte3  3c 
o  que  mais  dura:  &  .efte  ferve  para  o  eachirnbo,,  6c  para  fe  maf- 
çar ,  &  pizar.  O  fraco ,  parafemafcar  naó  ferve  5  Sc  fó  prefla 
para  fe  beber  no  cachimbo.  Os  que  oquizerem  pizar,  haõ  de 
ajuntar  ao melhor.aquel]es  talos,  q  fe tiraõdas folhas,  depois 
d  eeftarem.bexnfeccos:  porque  eftespizados  corn  as  folhas 
fazem  ao  Tabaco  forte,  Sc  deboacor,  E  para  o  Tabaco  era 
pó ,  o  das  Alagoas  de  Pernambuco,  &  o  dpsCampos  da-Ca. 
choeira .,  6c  das  Capivaras,  he  o  melhor, 


CAPITULO 

Comofifi^a  o  Tabaco  i  do  Granido ,  &  eMfó; 
Qfcomofç  lhe  dà  o  cheiro, 

PAra  fe  pizar  o  Tabaco ,  ha  de  ferbem  fecco ,  ou  ao  Sol , 
ou  em  bacias,  ou  fornos  de  cobre,  com  attcnçaó  para 
que  fe  naó  queime;  6c  por  iífofe  ha  de  mexer  continuamen- 
te :&  os  piloens  ,  cm  que  fe  piza,  haódefer  de  pedra  már- 
more, com  as  mãos  de  pizar  de  pao.  Pizado,  peneira-fe :  6c 
o  que  eftiver  capaz  ,fe  tira  aparte*  6c  o  mais  groífo  fe  torna 
a  pizar ,  até  fe  reduzir  em  pó.  E  efte  he  o  que  commummentç 
mais  fe  procura,  6cfeeítima. 

Do  Granido  fe  ufa  muito  em  Itália :  6c  faz-fe  defta  forte. 
.Toma-fe  o  Tabacojá  feito  em  pó,  §c  poem-fe  em  hum  algui- 

tez 


C>  Opulência  do  líra/iL  1 i  y 

dar  vidrado  :  botafe-lhe  em  quantidade  moderada  algum 
mel,  ou  calda  de  Tabaco  -,  &  fe  efta  for  muito  grofla ,  fe  fará 
liquida  com  hum  pouco  de  vinho.  Depois ',  para  que  fe  vá 
encorporandoj.  fe  mexe  muito  bem ,  &  mexido  fe  levanta,  6c 
mcnea-fe  entre  as  mãos,  como  quem  faz  bolinhos :  &  eílan- 
doaííim  húmido  ,  fe  paíTa  porhúa  oropêma  fina  :  Sc  nefta 
pàiTagem  pelos  buraquinhos  da  oropêma  fe  formão  os  gra- 
nitos, como  os  da  pólvora  fina  ;&  fica  o  Tabaco  granido.  E 
o  que  naõ  paíla  pela  oropêma ,  por  fer  ainda  groíTo ,  torna-fe 
a  menear,  como  eílá  dito,  entre  as  mãos ,  atèfer  capaz  de  paf- 
far.  Paflado ,  fe  féccãao  Sol  fem  fe  mexer  -y  para  que  naõ  torne 
a  amaííar-fe  i  &  perca  o  fer  de  granido. 

Depois  de  o  Tabaco  granido  eftar  fecco ,  fe  lhe  quizerent 
dar  algum  cheiro ,  borriía-íe  com  agua  cheirofa :  ou  poem-fe* 
no  mefmo  vafo ,  em  que  fc  recolheo ,  húa  vainilha  inteira ,  ou; 
alguma  quantidade  de  âmbar ,  ou  de  algalia ,  ou  de  almifcar.> 
Porém  o  Tabaco  em  pò  naó  he  capaz  de  fer  borrifado  com: 
agua  cheirofa ;  porque  com  ella  fe  amaífaria ,  8c  naõ  ficaria , 
como  fe  pretendeo ,  folto  em  pó. 

O  Tabaco ,  que  fe  piza  no  Brafil ,  vay  fem  miftura ,  íin- 
gelo ,  &  legitimo  em  tudo ;  &  por  iífo  tanto  íè  eftima.  Mas  o 
que  fe  piza  em  algumas  partes  da  Europa,  vende- fe  tam  vi- 
ciado, que  apenas  merece  o  nome  de  Tabaco  |  pois  com  ellc; 
ate  as  cafeas  de  laranjas  fe  pizaô. 


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Cultura  > 


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C    AP    I    U    LO      VIII. 

.  Do  ujo  moderado  do  Tabaco  fará  a  faudei  Qf  da 
demajia  nociva  d  mefmafaude ,  de  quais 
quer  modo  que  Je  ufe  delle* 

OS  que  faõ  demaíiadamente  affetçoados  ao  Tabaco  , 
o  chamaõHer  va  fanta:  nem  lia  epitheto  de  louvor,que 
lhe  naô  dem,  para  deféder  o  exceflb  digno  de  reprehenfaõ,  6c 
de  nota.  Homens  ha,  que  parece  náõ  podem  viver  fero  efte 
quinto  elemento  ;  cachimbando  a  qualquer  hora  em  cafa ,  6c 
nos  caminhos  \  roafeandoas  fuás  folhas  3ufando  de  torcidas> 
&■  enchendo  os  narizes  defte  pó.  E  efta  demaíia  naó  fomente 
fe  vè  nos  Marítimos ,  &  nos  trabalhadores  de  qualquer  cafta, 
forros  ,-..&  Efcravos ,  os  quaes  eftaõ  per  fu  adidos  y  que  fó  com 
Tabaco  haõ  de  ter  alento ,  &  vigor  h  mas  também  em  muitas 
Peíloas  nobres ,  ôcociofas;  nosfoldados  dentro  do  corpo  da 
guarda  ■>  6c  em  naó  poucos  Ecctefiaftieos  Clérigos ,  6c  Reli- 
giofosma  opinião  dos  quaes  toda  eíTa  demaíia  fe  defende, ain- 
da quando  fe  vè  manifeftamente  >  q  fe  naõ  ufa  por  mezinha, 
mas  por  dar  goíto  a  hum  excelíivo,  &  mal  habituado  prurito. 
Eu  3  que  de  nenhum  modo  ufo  delle ,  ouvi  dizer  3  que  o  fumo 
do  cachimbo }  bebido  pela  itíanhaã  em  jejum  moderadamen- 
te, deífeca  as  himiidades  doeftomago ;  ajuda  para  a  digeftaõâ 
&  naõ  menos  para  a  evacuação  ordinária;  alivia  ao  peito,  que 
padece  n\ixaò  afmatica  >  &  diminue  a  dor  infoportavel  dos 
dentes. 

Qma.fcallonaõhetamfadio  :  porém  aflimcomomafca^ 

'  d7 


ç>  Opulência  do  'Brafil.  1 1 9 

ão  pel a  manhãa  em  jej um  moderadamente ,  ferve  para  deííe- 
car  a  abundância  dos  humores  do  eftomago ;  afíini  o  ufo  im- 
moderado  o  relaxa :  &  pela  continuação  obra  menos  ,  altera 
o  gofto ,  faz  grave  o  bafo,  negros  os  dentes  ,  &■  deixa  os  beir 
ços  immundos.  ; 

Vfaõ  alguns  de  torcidas  dentro  dos  narizes,  para  purgar 
por  efta  via  a  cabeça,  &  para  divertir  o  eftillicidio  ,  quevay 
a  cabir  nas  gengivas,  &  caufa  dores  de  dentes :  Sc  poftas  pela 
manhãa ,  &  á  noite ,  naõ  deixaõ.de  fer  de  proveito.  Só  fe  en- 
commenda  aos  que  ufaõ  delias,  o  evitarem  a  indecencia ,  que 
caufa  o  apparecer  com  ellas  fora  dos  narizes,  &  com  húa  got- 
ta  de  eftillicidio  fempremanante,  que  fujaa  barba,  &  càtifa 
nojo  a  quem  com  elks  converfa. 

Sendo  o  Tabaco  em  pó  o  mais  ufado  ,  he  certamente  o 
menos  fadio :  aílim  pela  demafia ,  com  que  fe  toma ,  que  paf, 
fa  de  mezinha  a  fer  vicio  -,  como  por  impedir  o  méfmo  coftu. 
me  exceílivo  os  bons  eífeitos ,  que  fe  pertendem ,  ôc  que  talA 
vezcaufaria  ,  fe  o  ufo  foífe  mais  moderado.  Deixando  po. 
rém  de  reparar  nefta  viciofa  fuperfluidade ,  fó  lembro  quan^ 
todous  Surtimos  Pontífices  Vrbano  VIII.  &  Innocencio  X 
eftranháraõ  oufar  delle  nas  Igrejas ,  pela  grande  indecencia,* 
que  reparâraõ,&  julgarão  ter  efte  intolerável  abufo,digno  de 
fe  notar,  &  eftranhar  nos  Seculares,  &  mais  nos  Eccleíiafticos 
pouco  acautelados  ainda  quando  afliftem  no  Coro  aos  Offi* 
cios  d  i vinos  -,  &  muito  mais  nos  Religiofos ,  que  devem  dar 
exemplo  a  todos  (  &  mayormcnte  nos  lugares  fagrados  )  de 
gravidade,  &modeftia.  E  por  iífo  ambos  os  fobreditos  Pon- 
tífices chegarão  a  prohibillo  corri  excommunhaõ  mayor  :  o 
primeiro  com  hum  Breve  de  30.  de  Janeiro  do  anno  1Ó42.  o 
proh ibio  na  Igreja  de  Saõ  Ped ro  em  Roma ,  &  no  adro ,  Sê 
alpendre  do  dito  Templo  :  o  fegundo  com  outro  Breve  de- 
baixo da  mefma  pena  aos  8 .  de  Janeiro  de  1 61)  o. nas  Igrejas  de 
^odo  hum  Arcebifpado ,  em  que  fe  hia  introduzindo  eíta  de- 
mafia 


■i 


tiíu 


■i 


x*o  Cultura, 

máfia  com  cfcandalo.  E  em  algumas  Rdigícens  mais  0bfcr; 
vantes  feprohibio  o  uíò  publico  do  Tabaco  nas  Ideias  com 
privação  de  voz  aftiva ,  &  paffiva ,  ifto  lie ,  fob  pena  de  mó 
poderem  fer  eleitos  os  transgreííores,  nem  poderem  efeolher 
a  outros  para  Superiores,  Separa  outros  oííicios  da  Ordem. 

CAPITULO      IX. 

Do  modo  com  quefe  def-paeba  o  Tabaco  na  Alfan* 
dega  da  Bahia. 

BEneflciado,&  enrolado  o  Tabaco  5  &  pago  ofeu  dizi- 
mo a  Deos .  que  he  de  vinte  arrobas  húa :  (  &■  rende  efte 
dizimo  hum  anno  por  outro  dezoito  mil  cruzados ,  como 
contra  çlo  arrendamento  do  dizimo,  que  fe  tira  da  Cachoeira 
da  Bahia ,  &  fuás  Fréguezias  annexas  -y  fora  o  que  fe  lavra  pe- 
ias mais  partes  do  CertaÕ  delia  em  Serigippe  de  EIRey,  Co- 
tmguíba,  Rio  Real ,  Inham búpe ,  Montegordo,  &  Torre, 
que  apartado  do  rendimento  do  dizimo  do  AíTucar,  &  mais 
meunças,  rende  dez  atè  doze  mil  cruzados)  vem  pagando 
feus  carretos,  &  fretes  para  a  Cidade  da  Bahia,  atè  fe  meter 
em  hua  lua  própria  Alfandega ,  aonde  fe  defpachaÕ  para  Lis- 
boa ,  hum  anno  por  outro ,  de  vinte  Se  cinco  mil  Rolos  para 
cima :  os  quaes  pagão  por  hum  Contrato  da  Camera,  a  feten- 
ta  reis  por  cada  Rolo 5  &  deites  tem  Ei-Rey  a  terceira  parte : 
&  as  duas  faõ  para  o  Frefidio  da  mefma  Cidade ,  q  ue  im  por- 
tão eme  o  mil  cru  zados. 

PagaÕ  mais  a  húa  balança  a  três  reis  por  arroba,  que  a 
iieraarrendanamefmaformajádita,  6c  importa  mil  & 

:enrns  rrur^Hno  -  * 


Carne 

duzentos  cruzados. 


Deite 


&*  Opulência  doBrajil.  iu 

i  Deite  Tabaco  íepermitte  a  extracção  de  treze  mil  arro- 
bas ,  para  a  navegação  da  Coita  da  Mina ,  que  fe  arrumaõ  em 
cinco  mií  Rolos  pequenos  de  três  arrobas  :  os  quaes  também 
pagaõ  a  íetenta  reis  por  cada  Rolo  para  o  íbbredito  Contra- 
to 3a  Camera ,  &  importa  mil  cruzados.. 

Deitas  treze  mil  arrobas  íe  pagaõ  por  dizimo  a  F.l-Rey 
quatro  vinténs  por  arroba,  &pagaõ-íe  na  Caía  dos  Contos: 
o  que  importa  três  rail  cruzados. 

Vaó  para  o  Rio  de  Janeiro  todos  os  annos,  três  mil  arro- 
bas :  as  quaes  nada  pagaõ  na  Bahia  j  mas  vao  a  pagar  no  dito 
Rio  de  Janeiro  vinte  Óz  cinco  mil  cruzados  cada  anno  por 
Contrato  de  El-Rey  3  o  qual  pouco  mais  ou  menos  por  tanto 
fe  arrenda. 

E  tudo  o  que  neíteCapitulo  do  dcfpacho  do  Tabaco  eítá 
dito,  importa ieííenta  &  cinco  mil  &  duzentos  Cruzados. 


C  A- 





Ill 


Cultura , 


C    Â    P    I    T    U    L    O     X. 

^#£  cufla  hum  Rolo  de  Tabaco  de  oito  arrobas  foflo 
da  Bahia  na  alfandega  de  Lisboa  ,  Qf  já 
def cachado  >  Çff  corrente  fará 
jahir  delta. 


O  Rolo  do  Tabaco 
O  couro ,  &  ò  enrolallo  nelle 
O  Frete  para  o  Porto  da  Cachoeira 
O  Aluguer  no  Almazem  da  Cachoeira 
O  Frete  para  a  Cidade  da  Bahia 
A  defcarga  no  Almazem  da  Cidade 
O  Aluguer  no  Almazem  daCidadc 
O  chegar  á  Balança  do  pezo 
O  pezar  a  dez  reis  por  Rolo ,  &  botar  fóra 
O  Pezo  da  Balança ,  a  três  reis  por  arroba 
Direitos ,  6c  Fretes ,  &  mais  gaftos  em  Lisboa 

O  que  tudo  importa  doze  mil  cento  Sc  vinte 

Sc  quatro  reis— 


8Uooò 

1U300 

U550 

U040 

U080 

U020 

.  U040 

"Uoio 

poio 

XJ024 

2U050 

1 2U 1 24 


Vaõ  ordinariamente  cada  anno 
da  Bahia  vinte  6c  cinco  mil  Rolos 
de  Tabaco :  Sc  a  doze  mil  cento  6c 


vinte 


ç>  Opulência  do  cBra/il. 

vinte  Sç  quatro  reis ,  importaõ  tre- 
zentos &  três  contos  &  cem  mil 
reis 

Vaõ  ordinariamente  cada^nno 
das  Alagoas  de  Pernambuco  dous 
mil  &  quinhétos  Rolos :  &  a  deza- 
íeis  mil  feiscentos  &  vinte  réis  , 
por  fer melhor  o  Tabaco,  impor- 
taõ quarenta  &  hum  contos  ,  qui- 
nhentos &  cincoenta  mil  reis— 

Importa  todo  eíleT ábaco  tre- 
zentos &  quarenta  &r  quatro  con- 
tos ,  feiscentos  &  cincoenta  mil 
reis— 

E  reduzidos  a  cruzados  yíâõ  oi- 
to çétos  Sfltíeífenta&  hum  mil,  feis- 
centos &  vinte  &  cinco  cruzados. 


"3 


303.100U000 


41.550U000 


344.65'oUboo 


€  A- 


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Cultura , 


C   A   P    I    T   U  L  O    XI. 

Da  eítimaçaõ  do  Tabaco  do  Brafil  na  Europa  1 
Qf  nas  mais  fartes  do  &lâundo:  &  dos  gran* 
des  emolumentos ,  que  delle  tira  a  Fazen- 
da Real. 


II 


O  que  até  agora  fe  tem  dito ,  facilmente  fe  pode  enten- 
der a  eftimaçaó  ,  6c  valor  a  que  tem  chegado  o  Ta- 
baco ?  Sr  mais  particularmente  o  do  Brafil.  Pois  (como  diííe 
ao  principio)  havendo  pouco  mais  de  cem  armos,  quefe  co- 
meçou a  plantar,  &:  beneficiar  na  Bahia ;  foraó  as  primeiras 
arrobas,  que  fe  mandarão  a  Lisboa ,  como  húa  íementeira  de 
defejos,  para  que  cada  anno  fe  pednTem  logo ,  &  femandaf- 
fem  mais ,  St  mais  arrobas.  E  paliando  de  mimo  a  fer  mercan- 
cia-, hoje  apenas  os  tantos  milhares  de  Rolos  ,  que  levaõ  as 
frotas ,  faòbaílantes  para  fatisfazér  ao  appetite  de  todas  as 
Naçoens ,  naó  fomente  da  Europa ,  mas  também  das  outras  , 
partes  do  Mundo  ,dqnde  encarecidamente  fe  procuraõ.Val 
húa  livra  de  Tabaco  pizado  em  Lisboa  de  vinte  atè  vinte  &c 
quatro  toftoens ,  conforme  he  mais ,  ou  menos  fino :  &  o  que 
El-Rey  tira  defte  Contrato  cada  anno,  faó  dous  milhoens,  & 
duzentos  mil  cruzado*.  Nem  hoje  tem  os  Principes  da  Eu- 
ropa Contrato  de  mayor  rendimento ,  pela  muita  quantida- 
de de  Tabaco ,  que  fe  gaita  em  todas  as  Cidades,  Sc  Villas. 

Sirva  de  prova  o  que  conta  Engelgrave  no  primeiro  To- 
mo da  Luz  Evangélica ,  na  Dominga  quinta  depois  do  Pen- 
tecoíteaojf.  i.allegando  por  teftimunho  do  que  diz  aoHi- 

ítoria- 


&  OpuhmU  h  ^Brdfíl.  1 1 5 

ftoriador  Barnabè  de  RijcKe ,  como  certamente  informado. 
Diz  pois  efte  Author,  que  na  Cidade  de  Londres,  Cabeça  dá 
Gram  Bretanha  j  povoada  de  mais  de  oitocentas  mil  Almas, 
paíTaó  as  vendas  do  Tabaco  o  numero  de  fetemil  |  &c  dando, 
que  cada  húa  deftas  naó  venda  mais  cada  dia,  que  hum  flo- 
rim &:  meyo  de  Tabaco ;  importará  o  que  fe  vende  cada  diz. , 
dez  mil  &  quinhentos  florins  :  os  quaes  reduzidos  ámceda 
Portugueza ,  em  que  cada  florim  faò  dous  toítoens  ,  ímpor- 
taó  cinco  mil  6c  duzentos  Sc  cincoenta  Cruzados;  E  confe- 
quentemente  o  que  fe  vende  fó  cm  Londres  em  humanno, 
que  confta  de  trezétos  Sc  feílenta  Sc  cinco  dias  ,  importa  hum 
milhaò  ,  novecentos  8c  dczafeis  mil ,  duzentos  &  cincoenta 
cruzados.  E  a  que  fomma  chegará  o  que  fe  vende  cada  anno 
e  m  toda  a  Gram  Bretanha  ,  em  Flandes ,  em  França ,  em  to^ 
da  Hefpanha,  Sc  em  Itália  ?  para  naó  fallar  de  outras  partes, 
Sc  do  que  vay  para  fora  da  Europa  ,  particularmente  às  ín- 
dias Oriental,  6c  Occidental :  procurando-feo  doBrafil,  por 
mais  perfeito,  6c  melhor  curado,  em  mayor  quantidade  da 
que  fe  Ihepóde  mandar ,  por  naó  faltarem  os  |  CommirTarios 
aos  Mercadores,  que  trataõ  de  prover  as  paítes  mais  pró- 
ximas. *  í 


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Cultura , 


C   A   P   I    T   U  L  O    XII 

D^í  p^y  afer  qmleztâ  Tabaco  naõ  defpacha* 

do  nas  Alfandegas  :  <gr  das  induftrias , 

^  <p<?  /<<?  ^  -parafe  levar  de  com 

trabando* 


V.' 


I 

Hl 

I  i 


QUalqucr  defcaminhodo  Tabaco,  por  qualquer  defta< 
partes  do  Brafil ,  fora  do  Regiílo  á  5c  Guias ,  debaixo 
_  ^°  Wl  tudo  vay  defpachado  ,  tem  por  pena  a  perda 
do  1  ábaco,  &  daEmbarcaçaÕ,  em  que  fe  achar  ,  &  mais 
cinco  annosde  degredo  para  Angola  ao  Author  deita  culpa. 
1  orem  muito  mayores  fóas  penas ,  que  tem  os  transgrcfib- 
res  do  bando  em  Portugal.  E  em  outros-Rey  nos  fao  tantas,  & 
tam  graves,  que  a  cada  paífoíaõ  cauía  da  mina  de  muitas 
famílias.  E  quanto  mais  rigorofas  faõ  eftas  penas  }  tanto 
may or  prova  faõ  do  muito  a  que  fubio  o  Contrato,  &  do  gra- 
de lucro,  que  tem  delle  todos  os  Príncipes. 

Mas  ainda  mayor  prova  do  grande  valor,  &  lucro,  que 

dao  labaco,heoperderemmuitos,  por  ambição,  otemor 

deltas  penasj  amfcando-fea  elías  com  dcfprezo  do  perigo  de 

ie  verem  comprehendidos  nas  mefmas  miferias ,  a  que  outros 

íe  reduzirão,  por  ferem  tam  confiados.  E  para  ifTo  parece  , 

quenaõhamduítria,  dequefenaóufe,  para  o  embarcar,  Sc 

tirar  das  Embarcaçoens  às  efcondidas  ,  à  vida  dosmefmos 

Miniitros,  que  como  Argos  de  cem  olhos  vigiaõ  ;  quando 

naolao juntamente  Briarêos  de  cem  mãos  para  receber  ;  & 

mais  mudos,  que  os  peixes,  paracallar.  Paraapontaralgíías 

deitas 


&•  Opulência-  do  ^Brafit.  n  7 

deftas  índuílrias,  direy,  por  relação  dos  cafos ,  em  que  fe  apa- 
nharão naõ  poucos  ;  q  huns  mandarão  o  Tabaco  dentro  das 
peças  da  artilharia  j  outros  dentro  das  caixas,  8c  feches  do 
AíTucarj  outros  arremedando  as  caras  também  de  AíTucar 
muito  bem  encouradas.  Servírao-fe  outros  dos  barris  de  Fa- 
rinha da  Terra3dos  de  Breo  Sc  dos  de  Melado,cobrindo  cora 
a  fuperficie  mentirofa  oquehia  dentro  em  folhas  de Flandes. 
Outros  valeraõ-fe  das  caixas  de  roupa ,  fabricadas  a  dous  fo- 
brados,  para  dar  lugar  a  efeondrijos  :  de  frafqueiras  que  eftaõ 
ávifta,  pondo  entre  os  frafeos  de  vinho  outros  também  de 
Tabaco.  Quanto  foy ,  &  vay  cada  anno  nas  obras  mortas  3  &c 
nos  forros  das  cameras  8c  das  varandas  das  Nãos  ?  Quanto 
nas  curvas ,  que  para  iíTo  nas  partes  mais  efeuras  fe  forraõ  ?  E 
na5  faltou  quem  lhe  déffe  lugar  até  dentro  de  huas  Image  ns 
ocas  de  Santos }  aflim  como  huns  Carpinteiros  de  Navios  o 
efcondèraõ  em  paos  ocos ,  mifturados  entre  os  outros  3  de 
que  coítumaõ  valer-fe.  Deixo  o  que  entra ,  &  fae  em  algib  ei- 
ras grandes  de  couro  dos  que  vaó  4  8c  vem  das  Nãos  para  os 
Portos,  com  repetidas  idas,,  8c  voltas ,  debaixo  de  Lobas ,  Sc 
Túnicas :  Sc  o  que  {barrada  debaixo  dos  bateis .,  èz  das  pipas 
da  aguada  pelas  ondas  do  mar.  Nunca  acabaríamos ,  fe  qui- 
zeílemos  relatar  as  invençoens  5  que  fuggerio  a  cautela  ambi- 
iciofa:  porém  iemprearrifeada,  8c  muitas  vezes  defeuberta, 
com  fucceíTo  infeliz.  O  que  claramente  prova  aeitimaçaõ3o 
appetite ,  8c  a  efperança  do  lucro ,  que  ainda  entre  rifeos  acõ- 
panha  ao  Tabaco. 


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TERCEIRA  PARTE. 

CULTURA 

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O  P  V  LENCIA  DO  BRASIL 
Pelas  Minas  do  Ouro. 


CA.  PITVLO     L 

Das  *5\dinas  do  Ouro ,  que[e  dej cobri- 
rão no  ^Bra/il. 

Oy  fempre  fama  confiante,  que  no  Brafil  havia 
Minas  de  Ferro, Ouro,&  Prata.Mas  também  hou- 
ve fempre  baílante  defcuido  de  as  defcobrir,  6c  de 
aproveitar- fe  delias  :  ou  porque  contentando-fe 
os  Moradores  com  os  frutos,  que  dá  a  Terra  abundantemen- 
te na  tia  fuperíkie  •,  &  com  os  peixes,  que  fe  pefcaó  nos  Rios 
grandes,  &  aprazíveis  *  naõ  tratarão  de  divertir  o  curfo  na- 
tural deites,  para  lhes  examinarem  o  fundo,  nem  de  abrir 
áquella  as  entranhas ,  como  perfuadio  a  ambição  infaciaveí 
a  oufrasmuJLtas  Naçoens  ;  ou  porque  o  génio  de  bufcarln- 
»     ;  1  dios 


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;.  -i 


f|*  Cultura, 

dios  nos  mattos  os  defviou  deita  diligencia  "menos  efcrupu* 
lofa,&:  mais  útil. 

Na  Villa  de  Saõ  Paulo  ha  muita  pedra  ufual,  para  fazer 
paredes ,  &  cercas ;  a  qual  com  a  cor ,  com  o  pezo ,  &  eom  as 
veas t  que  tem  em  íi,  moftra  manifeftamente,  que  naõ  defme- 
rece  o  nome,  qne  lhe  deraõ  de  Pedra  ferroj  &  q  donde  ella  fe 
tira  x  o  ha.  O  que  também  confirma  a  tradição  de  que  já  fe  ti- 
rou quantidade  delle,  &  fe  achou  fer  muito  bom  para  aso- 
bras  ordinárias ,  que  feencommendaó  aos  Ferreiros.  E  ulti- 
mamente na  Serra  Ibirafoyâba ,  diftante  oito  dias  da  Villa  de 
Serocâba ,  &:  doze  da  Villa  de  Saõ  Paulo  *  a  jornadas  mode- 
radas, o  Capitão  Luiz  Lopez  de  Carvalho,  indo  lá  por  man- 
dado do  Governador  Artur  de  Sá,  com  hú  Fundidor  Eftran- 
geiro,  tirou  ferro,  ôc  trouxe  barras,das  quaes  fe  fizeraõ  obras 
excellentes.     ' 

Que  haja  também  Minas  de  Prata ,  naõ  fe  duvida  .-por- 
que na  Serra  das  Colunas  ,  quarenta  lcgoas  alem  da  Villa  de 
Outú ,  que  he  húa  das  de  Saõ  Paulo  ao  Leite  direito ,  ha  cer- 
tamente muita  prata ,  &  fina.  Na  Serra  de  Seboraboçú  tam- 
bém a  ha;  Da  Serra  de  Guarumê  defronte  do  Ceara  tirâraõ  os 
Hollandezes  quantidade  delia  no  tempo  ,em  queeftavaõ  de 
políe  de  Pernambuco.  E  na  Serra  de  Itabayâna,  ha  tradição, 
que  achou  prata  o  Avó  do  Capitão  Belchior  da  Fonfeca  Dó- 
ria. Eernbufca  de  outra  foy  alem  do  Rio  de  SaõFrancifco 
Lopo  de  Albuquerque ,  que  faleeeo  neíta  fua  malograda  em* 
preza. 

Mas  deixando  as  Minas  de  Ferro,&  de  Prata,  como  infe- 
riores 3  paliemos  ás  do  Ouro,  tantas  em  numero ,  Sc  taõ  ren- 
dofas  aos  que  delias  o  tiraõ.  É  primeiramente  he  certo  ,  que 
de  hum  Outeiro  alto  ,  diftante  três  legoas  da  Vi  lia  de  SaõV 
Paulo,  a  quemchamãojaraguâ,  fe  tirou  quantidade  de  ou- 
ro ,  que  paífou  de  oitavas  a  livras.  Em  Parnaíba,tambem  jun- 
to da  meíma.  Villa  no  Serro  Ibiturúna,  fe  achou  Ouro,  ècú- 

rou-fe 


e>  Opufencid  do  UrafiL  %$  % 

fciroii-fe  por  oitavas.  Muito  mais ,  &"  por  muitos  annos  fe  conT 
tinuou  a  tirar  em  Parnaguâ ,  &  Coritiba ,  primeiro  por  oita- 
vas ,  depois  por  livras ,  que  chegarão  a  alguma  arroba  ,  pofto 
que  com  muito  trabalho  para  o  ajuntar  ,  fendo  o  rendimento 
no  catar  limitado  *  atè  que  íè  largarão ,  depois  de  ferem  ,de£ 
cubertas  pelos  Pauliftas  as  Minas  Geraes  dos  Cataguâs  ,  &  as 
que  chamaõ  do  Caetê  j  &  as  mais  modernas  no  Rio  das  Ve- 
lhas ,  Sc  em  outras  partes  ,  que  defcobríraõ  outros  Pauliftas ; 
<Sc  de  todas  eftas  iremos  agora  diftintamente  fallando. 

t».«>  *'-&  &*>?>  j&«*£t  ssss&í  i£®?]&  ^fi^^&U»  jSJffl?&  «sjS1Sí&  «*■!$&-&  áS  SíiiSSS&^Sí*  á$!;?£iiÊ8-*í?Ét 


CAPITULO    II. 

Das  Minas  do  Ouro  ,  que  chamaõ  Geraes  :  &2 
dos  defcobridores  delias* 

HA  poucos  annos  ,  que  fe  começarão  a  defcobrir  as  Mi- 
nas Geraes  dos  Cataguâs  ,  governando  o  Rio  de  Ja- 
neiro Artur  de  Sá :  èc  o  primeiro  deícobridor  dizem  ,  que  foy 
hum  Mulato  ,  que  tinha  eftado  nas  Minas  de  Parnaguâ ,  6c 
Coritiba.  EfteindoaoCertaõ  com  nuns  Pauliftas  a  bufcar 
índios,  &  chegando  ao  Serro  Tripuí ,  deceo  abaixo  com 
huma  gamella ,  para  tirar  agua  do  Ribeiro,  que  hoje  chamaó 
çlo  Ouro  preto :  h  metendo  a  gamella  na  ribanceira  para  to-* 
mar  agua,  ôcroçando-a  pela  margem  do  Rio }  vio  depois, 
que  nella  havia  granitos  da  cor  do  aço ,  fem  faber  o  que  eraò : 
nem  os  companheiros,  aos  quaes  moftrou  os  ditos  granitos* 
fouberaõ  conhecer,8c  eftimar  o  que  fe  tinha  achado  taõ  facil- 
mente ;  6c.  fó  cuidarão ,  que  ahi  haveria  algum  metal ,  naõ 
bem  formado,  &  por  iífo  naõ  conhecido.  Chegando  porém 
a  Taubatê »  naõ  deixarão  de  perguntar,  que  cafta  de  metal 
•^   "  íz  .feria.' 


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1 

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41 


ii 

ii 


1  'i/íJ 


131  Cultura, 

feria  aquelle.  E  fem  mais  exame ,'  venderão  a  Miguel  de  Sou- 
fa  alguns  deftes  granitos,  por  meya  pataca  a  oitava  ,  fcm  fa- 
berem  elles  o  qué  vendiaõ,  nem  o  comprador  que  eoufa  com- 
prava j  atè  que  íe  reíblvèraõ  a  mandar  alguns  dos  granitos  ao 
Governador  do  Rio  de  Janeiro  Artur  de  Sá  :  &  fazendo-fe 
exame  delles ,  fe  achou ,  que  era  Ouro  riniflimo. 

Em  diftaneia  de  meya  legoa  do  Ribeiro  do  Ouro  preto , 
achou-fe  outra  Mina,  que  fe  chama  a  do  Ribeiro  de  António 
Dias  :  &  dahi  a  outra  meya  legoa  a  do  Ribeiro  do  Padre  Joaó 
de  Faria :  &  junto  defta ,  pouco  mais  de  húa  legoa ,  a  do  Ri- 
beiro do  Bueno ,  &  adeBentoRodriguez.  E  dahi  três  dias 
de  caminho  moderado  atè  o  jantar,  a  do  Ribeirão  de  Nofla 
Senhora  do  Carmo  ,  defcuberf  a  por  Joaó  Lopez  de  Lima ; 
além  de  outra,  que  chamaó  a  do  Ribeiro  Ibupiranga.  E  todas 
eftas  tomâraõo  nome  dos  feus  defcobridores ,  quetodosfo- 
raõ  Pauliftas. 

Também  ha  hua  paragem  no  caminho  para  as  ditas  Mi- 
nas Geraes,  onze, ou  doze  dias  diílante  das  primeiras,andan~ 
tio  bem  até  as  três  horas  da  tarde  :  a  qual  paragem  ehamaô  a 
do  Rio  das  Mortes ,  por  morrerem  nella  huns  homens ,  que  o 
paífáraô  nadando  -,  êc  outros ,  que  fe  matàraõ  às  pelouradas , 
brigando  entre  ú  fobre  a  repartição  dos  índios  Gentios ,  que 
traziaõ do  Certaõ.  E  nefte  Rio,  &:  nos  Ribeiros ,  que  delle 
procedem ,  &  em  outros ,  que  vem  a  dar  nelle,  fe  acha  Ouro: 
&:  ferve  efta  paragem ,  como  de  éftalagem  dosque  vaó  ás  Mi- 
nas Geraes  >&  ahi  fe  provém  do  neeefTario,  por  terem  hoje 
es  que  ahi  aíTiflem ,  Roças ,  &:  creaçaõ  de  vender. 

N  aõ  fallo  da  Mina  da  Serra  de  Itatiay  a ,  (  a  faber  do  Ou- 
i  o  branco ,  que  he  Ouro  ainda  naõ  bem  formado  )  diftante 
do  Ribeiro  do  Ouro  (preto  oito  dias  de  caminho  moderado 
atè  o  jantar:  porque  deita  não  fazem  cafo  os  Pauliftas,  por 
terem  as  outras  de  Ouro  formado,  &  de  muito  melhor  ren- 
dimento. E  eftas  Geraes,  dizem,  que  íicão  na  altura  da  Capi- 
taniadoEfpiritoSaitfo,.  Ç  -fa 


■■ 


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&•  Opulência  do  fèrafíl. 


C    A    P    I    T    U    L    O      III. 

De  outras  Minas  de  Ouro  no  Rio  das  falhas, 
&  no  Çaetê. 

ALcm  das  Minas  Geraes  dos  Cataguâs ,  defcobrlraõ-fe 
outras  por  outros  Pauliftas  no  Rio,  que  chamaõ  das 
Velhas :  &  ficaõ ,  como  dizem ,  na  altura  de  Porto-feguro,  6c 
de  Santa  Cruz.  Eeftasfaõ,a  do  Ribeirodo  Campo  ,  defcu- 
berta  pelo  Sargento  Mor  Domingos  Rodriguez  da  Fonfeca: 
a  do  Ribeiro  da  Roça  dos  Penteados :  a  de  Nofla  Senhora  do 
Cabo,  da  qual  foy  defcobridor  o  mefmo  Sargento  Mor  Do- 
mingos Rodriguez :  a  de  NoflaSenhora  de  Monferrate :  a  do 
Ribeiro  do  Ajudante  :-&  a  principal  do  Rio  das  Velhas  he  a 
do  Serro  de  Seboraboçu,  defeuberta  pelo  Tenente  Manoel 
Borba  Gato  Paulifta ,  que  foy  o  primeiro ,  que  fe  apoderou 
delia ,  &  do  feu  Território. 

Ha  mais  outras  Minas  novas  -,  que  chamaõ  do  Caetê ,  en- 
tre as  Minas  Geraes,  6c  as  do  Rio  das  Velhas,  cujos  descobri- 
dores foraõ  vários :  &  entre  ellas  ha  a  do  Ribeiro ,  que  defeo- 
brio  o  Capitão  Luis  do  Couto ,  que  da  Bahia  foy  para  ena 
paragem ,  com  três  Irmãos ,  grandes  Mineiros  5  alem  de  ou- 
tras, que  fecretamente  fe  achao ,  &  fe  naõ  publicaó ,  para  fe 
aproveitarem  os  descobridores  delias  totalmente  ,  Sc  naõ  as 
fujeitarem  á  repartição  1.  &  as  que  ultimamente  déícobrio  o 
Capitão  Garcia  Rodriguez  Paez,  quando  foy  abrir  o  cami* 
nho  novo  detraz  da  Cordelheira  da  Serra  dos  Orgaõs  ,  no 
diftri&o  do  Rio  de  Janeiro,  por^nde  corta  òRiõ  Paraíba  do 
Sul; 

U  C  A. 


■  t*  ■ 


134 


Cultura  $ 


ÍJÍWfllÇisJ 


C   A   P  I  T 


U  L   O     IV, 


[Lo  rendimento  dos  Ribeiros  :  &*  de  diverfas  qua- 
lidades de  Ouro  >  que  delles  fe  tira. 

D  As  Minas  Geraes  dos  Cataguâs  as  melhores ,  &  de  ma- 
yor  rendimento  foraõ  até  agora  a  do  Ribeiro  do  Ouro 
preto  ,  a  do  Ribeirão  de  NcíTa  Senhora  do  Carmo  ,  &  a  do 
Ribeiro  de  Bento  Rodriguez,do  qual  em  pouco  mais  de  cin- 
co braças  de  terra  fe  tiráraõ  cinco  arrobas  de  Ouro.  Também 
o  Rio  das  Velhas  he  muito  abundante  de  Ouro  r  affim  pelas 
margens  3  como  pelas  Ilhas,  que  tem,  &  pela  Madre  ou  Veyo 
da  agua :  &  delle  fe  tem  tirado ,  &  íe  tiraainda  em  quantida- 
de abundante. 

Chamaó  os  pauíiítas  Ribeiro  de  bom  rendimento  3  o  que 
dá  em  cada  bateada  duas  oitavas  de  Ouro.  Porém  affim  co- 
mo ha  ba  teadas  de  meya  oitava,  &  de  mey a  pataca ;  affim  ha 
também  bateadas  de  três  ,  quatro ,  cinco  ,  oito,  dez,  quinze, 
vinte,  &  trinta  oitavas ,  &  mais:  &  ííto  naõ  poucas  vezes  fuc- 
eedeo  na  do  Ribeirão,  nado  Ouro  preto,na  de  Bento  Rodri- 
guez,  &  na  do  Rio  das  Velhas. 

Osgrãosdemayorpezo,  que  fe  tirarão ,  foraõ  hum  de 
noventa  <k  cinco  oitavas:  outro  de  três  livras,  que  repartirão 
entre  íi  três  PelTòas  com  hum  machado  :  outro  ,  que  paííou 
de  cento  &cincoenta  oitavas  ,  em.  forma  de  hua  lingua  de 
Boy  ,  que  fe  mandou  ao  Governador  da  Nova  Colónia :  & 
outro  mayordefeislivraSr 

Quanto  ás  qualidades  dtverfas  do  Ouro :  fabe-fé^  que  o 
Ouro,  a  quem  chamaó  preto,  por  ter  na  fuperficie  húa  cor 

leme* 


»-v 


&  Opulência  do  TSraJfl.  *5  f 

femelhante  á  do  aço ,  antes  de  ir  ao  fogo ,  provando-fe  com? 
o  dente  logo  apparece  amarellõj  vivo ,  gemado ,  Sc  he  o  mais 
fino 5 .porque chega quaíiavinte Serres  quilates  :  Sc  quando 
fejlhe  põem  o  cunho  na  fundição ,  faz  gretas  na  barreta  ,  co- 
mo fe  arrebétaííe  de  todas  as  partes  :  &  por  dentro  áá  taes  re- 
flexos, que  parecem  ray os  do  Sol.  O  do  Ribeirão  he  mais 
miúdo ,  &  mais  polme ,  &  compete  na  bondade  com  o  Ouro 
preto ;  porque  chega  a  vinte  Sc  dous  quilates.  O  Ouro  do 
Ribeiro  de  Bento  Rodriguez ,  pofto  que  feja  mais  grofTo,  Sb 
palpável ,  &  bem  amarello  5  comtudo  naõ  tem  a  perfeição  do 
Ouro  preto ,  &  do  Ouro  do  Ribeirão ;  mas  quando  muitos 
chega  a  vinte  quilates.  O  Ouro  do  Ribeiro  do  Campo,  6c  o 
do  Ribeiro.de  NoíTa  Senhora  de  Monferrate  he  groíío  ,  6c 
muito  amarello,  Sc  tem  vinte  Sc  hum- quilates Scmeyo.  O 
Ouro  do  Rio  dasVelhas  he  finifíimo,&  chega  a  vinte  Sc  dons 
quilates.  O  Ouro  finalmente  do  Ribeiro  de  Itatiaya  hédc 
cor  branca  3<:omo  a  prata  i)  por  naõ  eftar  ainda  bem  formado, 
como  diífemos  acima :  Sc  defte  fe  faz  pouco  cafo  ;  pofto  que 
alguns  digaó  ,  que  indo  ao  fogo  ás  vezes  por  mais  formado, 
foymoftrandoacor  amarella. 

Houve  anno ,  em  quede  todaseftas  Minas ,  ou  Ribeiros 
fe  tirâraõ  mais  de  cem  arrobas  de  Ouro  $  fora  o  que  fe  tirava* 
8c  tira  efeondid amente  de  outros  Ribeiros ,,  que  os  defcobrin 
dores  naó  manifeftâraõ,para  os  naõ  fujeitarem  logo  á  reparti- 
ção» E  le  os  quintos  de  EiRey  chegarão  a  dezafete ,  Sc  a  vinte 
rrobas,  fonegando-fe  tanto  Ouro  naõ  quintado ;  bem  fe 
leixa  ver ,  que  o  Ouro ,  que  cada  anno  fe  tira,  fem  encareci- 
mento algum  pa(Ta  de  cem  arrobas  :  Sc  que  neftes  dez  annos* 
aífados  fe  tem  tirado  mais  de  mil  arrobas.  E  fe  nos  primeiros 
nnos  naõ  chegarão  a  cem  arrobas  -,  nos  outros  certamente9- 
aflaraó.  E  continuado  ao  prefente  o  rendimento  com  igual, 
u  com  mayor  abundância  por  razaõ  do  mayor  numero  dos 
ae  fe  em pregaõem catar  j  í&os  Quintos^  devidos  a-Sua  Ma- . 

I4  gefta; 


Cultura , 

geftade  j  fe  foraõ  notavelmente  diminuindo :  ou  pur  ie  diver- 
tir para  outras  partes  o  Ouro  em  pó  >  ou  por  naõ  ir  á  Caía  dos 
Quintos  j  ou  por  ufarem  alguns  de  cunhos  falfos ,  com  enga- 
no mais  deteftavel.  Mas  ainda  aífim  não  deixou  Sua  Mage- 
flade  de  ter  grande  lucro  na  Cafa  da  Moeda  do  Rio  de  Janei- 
ro: porque  comprando  o  Ouro  a  doze  toíloens  a  oitava,  6c 
batendo-fe  em  dous  annos  três  milhoens  de  moeda  nacional, 
&■  provincial  de  ouro  i  foy  lucrando  feiscentos  mil  cruzados 
de  avanço. 


C   A  P   I  T  U  L  O    V; 

Das  Pefjoas ,  que  andaõ  nas  Minas  r  Ç$*  &■*& 
Ouro  dos  Ribeiros» 

A  Sede  insaciável  do  Ouro  eítimulou  a  tantos  a  deixa* 
rem  fuás  Terras  ,  &  a  meterem-fc  por  caminhos  tarn 
aíperos  , corno  faõ  os  da^Mírras;  que  diilicultofamente  fe  po- 
derá dar  conta  do  numero  dasPeífaas,  que  a&ualmente  là 
cftaõ.  Com  tudo  os  que  affiftiraónelías  neftes  últimos  annos 
por  largo  tem  po,.&  as  correrão  todas,  dizem,  que  mais  de 
trinta  mil  Almas  fe  occupão  ,  húas  em  catar  ,  &  outras  em 
mandar  catar  nos  Ribeiros  do  Ouro  j  &  outras  em  negociar, 
vendendo,  ôc  comprando  o  que  fe  hamifter  naô  fó  para  a 
vida ,  mas  parao  regalo ,  mais  que  nos  Portos  do  Mar. 

Cada  anno  vem  nas  Frotas  quantidade  de  Portuguezes» 
&  de  Eftrangeiros  ,  para  paífarem  às  Minas.  Das  Cidades . 
Villas,  Recôncavos,  &  Certoens  do  Brafil  vaõ  Brancos, 
Pardos,  &  Pretos  j  6c  muitos  índios ,  de  que  os  Pauliftasfe 
íervcm.  A  mifturahe  de  toda  a.  condição  de  Pefíòas :  Ho- 
mens, ' 


— 


*TT 


&•  Opulência  do  IZraJiL  137 

mcns ,  Sc  Mulheres :  Moços ,  Sc  Velhos :  Pobres ,  Sc  Rieos : 
Nobres,  & Plebeos: Seculares  ,  Sc  Clérigos ■:& Religiofos 
dediverfoslnftitutos ,.  muitos  dos  quaes  naó  tem  no  Braíil 
Convento,  nem  Cafa, 

Sobre  efta  Gente  quanto  ao  temporal  naõ  houve  atè  o 
prefente  coacção,  011  governo  algum  bem  ordenado  :  &ra- 
penasfe  guard ao  algumas  Leys,  que  pertencem  às  Datas ,  Sc 
Repartiçoens  dos  Ribeiros.  No  mais  nãoha  Miniítros ,  nem 
Juftiças ,  que  tratem ,  ou  poílaõ  tratar  do  caftigo  dos  crimes; 
que  naõ  íaõ  poucos  r  principal  mente  dos  homicidios  ,  Sc  fur- 
tos* Quanto  ao  efpiritual,  havençtoaté  agora  duvidas  entre 
os  Prelados  acerca  da  Jurifdiçaõ,  os  mandados  dehua,  Sc 
outra  parte ,  ou  como  Cura»,  ou  corroo  Vilitadores,  fe  acha- 
rão baftantemente  embaraçados  :  Scmô  pouco  embaraçarão 
a  outros,  que  naóacabaõ  defaber  a  que  Paftor  pertencem 
aquelles  novos  Rebanhos.  E  quando  fe  averigue  o  direito 
do  provimento  dos  Párocos ;  pouco  haõ  de  fer  temidos ,  Sc 
refpeitados  naqucllas  Fréguez ias  móveis  de  hum  lugar  pa^ 
ramitro .,  como  os  Filhos  de  Ifrael  noDeferto. 

Teve  El-Rey  nas  Minas  porSuperintendente  delias  ao: 
Defembargador  Jofeph  Vaz  Pinto,  o  qual  depois  de  dous , 
ou  três  annos  tornou  a  recolher-fe  para  o  Rio  de  Janeiro 
,  com  baftante  cabedal:  Sc  delle  fupponho  ficaria  plenamente' 
informado  doque  por  là  vay  j  6c  que  apontaria  asdefordens, 
Sc  o  remédio  delias  ,fe  foíTe  poílivel  a-execuçaõ: 

Aílifte  também  nas  Minas  hum  Procurador  dá  Coroa,  Sc 
hum  Guarda  Mòrcom  feu  eítipendio.  Houve  atè  agora  Ca- 
ía de  quintar  em  Taubatê ,  na  Viila  de  Saõ  Paulo  ,  em  Pa* 
ratij ,  Sc  no  Rio  de  Janeiro  :  Sc  em  cada  húa  cíèítâs  Caías  ha 
hum  Provedor ,  hum  Efcrivaõ ,  Sc  hum  Fundidor^  que  fun- 
dido o  Ouro  em:  barretas ,.  lhe  põem  o  Cunho  Real >  final  do 
Quinto  que  íepagou  a  El-Rey  deífe  Ouro. 

Havendo  Caías  da  Moeda,,  Sc  dos  Quintos  na  Bahia ,  St 
»  no^ 


*3'  Cultura; 

no  Rio  de  j  aneiro  (  por  ferem  eítes  os  dons  Pólcs  \  aonde  vav 
parar  todo  o  Ouro)  teria  Sua  Mageftade  muito  mayor  lucro 
ao  que  ate  agora  teve :  & muito  mais,  fe  nas  Cafas  da  Moeda, 
bem  fornecidas  dos  aparelhos  neceílarios  ,  houveíTe  fempre 
d ínheiroprõmpto para  comprar  o  Ouro,  que  os  Mineiros 
trazem ,  &  lolgaó  de  o  vender  fem  detença. 

3  4l°ra/OUbemos  ^lle  Sm  Mageftade  manda  Governa- 
dor,MiniírrosdeJuftiça,&ievantar  hum  Terço  de  Solda- 
dos nas  Mmas,  para  q  tudo  tome  melhor  forma,  &  governo. 

C    A   P    IX    V    L    O      VI. 
Das  Datas ,  m  Reparti$aem  das  plainas. 

P  Ara  evitar  a  confufaõ ,  o  tumulto,  &  as  mortes ,  que  ha- 
veria no  descobrimento  dos  Ribeiros  do  Ouro,  fe  aten- 
tou o  que  pertence  ás  Repartiçocns  deita  forte.  Tem  o  Def- 
cobndof  a  primeira  Data,  como  Defcobridor ,  &  outra  como 
Mineiro  :íegue-fe  a  q.ue  cabe  a  El-Rey3  6c  atraz  deita  a  do 
Guarda  Mor :  as  outras  fe  diítribuem  por  fortes.  As  que  cha- 
rnaõ  Datas  inteiras,  faõ  de  trinta  braças  em  quadra  i  &taes 
iaõa  d' Ei-Rey,&  as  do  Defcobridor,  &  Guarda  Mor.  As 
outras ,  que  fe  daõ  por  fortes ,  tem  a  extençaõ  proporcionada 
ao  numero  dos  Efcravos ,  que  trazem  para  catar ;  dando  duas 
braças  em  quadra  por  cada  Efcravo ,  ou  índio ,  de  que  fe  fer- 
vem nas  catas:&  allim  a  quem  tem  quinze  Efcravos  fe  dâ  húa 
Data  inteira  de  trinta  braças  em  quadra.  Paraferadmittidoá 
Repartição  por  fortes,  heneceífario  fazer  petição  ao  Super- 
intendente das  ditas  Repartiçoens ,  ao  qual  fe  dá  pelo  defpa- 
cho  da  petição  húa  oitava  de  Ouro ,  &  outra  ao  feu  Efcrivaó: 
&  ás  vezes  acontece  ofièreceré-fe  quinhentas  petiçoens,&  le- 
varem, 


&>  Opulência  do  "Bra/iU  i jj> 

varem  ó  ÍLepzMdóf  5  êr  o  Efcrívaó  mií  oitavas  $  &  naõ  tira- 
r em  todos  os  Mineir os  juntos  outro  tanto  de  taes  Datas  5  por 
falharem  tio  feu  rendimento :  Sc  poríflb  procuraò  outras  Da- 
tas ,  havendo  defco  brímento  de  novos  Ribeiros,  A  Data 
d*El-Rey  logo  fe  vende  a  qitémais  offerece.'  Sc  pôde  também 
qualquer  vender  ,ou  trocar  a  fua  Data  :  &  nifto  fe  viraõ  9  êc 
vem  a  cada  paílo  vários,  &  diíTereiltes fucceífos  3 tirando hiís 
Mineiros  de  poucas  braças  muito  Ouro  -y  &  outros  de  muitas 
pouco :  5cjá  houve  quem  por  poiTComaiscfe  mií  oitavas  ven -. 
deo  Data ,  da  qual  o  comprador  tirou-  fetearrobas  de  Ouro, 
Pelo  que  fe  tem  por  jogo  de  bem ,  ou  mal  afortunado ,  o  tirar/ 
c n  naõ  tirar  Ouro  das  Datask 


C    A    F    I    T    U    L    O     Víí. 

&a>  abundância- de  Mantimentos  ,   <5f  ^  f^ 
*/ftf/~,  que  hoje  ha naf  Mtna? :  &* do  fouc® 
caf o  que Je  fardos  preps  extraor* 
,  dinariamente  altos  s 

SEndo  a  Terra  que  dá  Ourocfteriliílima  de  tudo  óqiíê 
feha  mifiêr  para  a  vida  humana  3  6c  naõ  menos  eíterif 
a  mayor  parte  dos  caminhos  das  Minas  '?  naõ  fe  pode  crer 
o  que  padecerão  ao  principio  os^Mineiros  por  falta  de  man- 
timentos ,  áchando-fe  naõ  poucos  mortos  com  humaefpi-r 
ga  de  milho  namaõ  ,  fem  terem  outro  fuí!ento;  Forem 
tanto  que  fe  vio  a  abundância  do  Ouro,  que  fe  tirava*  & 
a  largueza  5  com  que  fe  pagava  tudo  o  que  lá  hía-  logo* 
k  íizeçaõ  eftalagens ,  &  logo  começarão  0$  Mercadores 

ama»* 


H'.  ' 


149  CulvUTd  y 

a  mandar  ás  Minas  o  melhor  que  chega  nõs  Navios  do  Rey- 
no ,  &  de  outras  partes  >  aílim  de  mantimentos ,  como  de  re- 
galo ,  .&  de  pompoío  parafe  veílirem ;  alem  de  mil  bugiarias 
de  França,  que  lá  também  foraõ  dar.  E  aefterefpeito  ,  de 
todas  as  partes  do  Braíil  fe  começou  a  enviar  tudo  oqueclá  a 
Terra ,  com  lucro  naõ  fomente  grande,  mas  exeeíEvo.  E  naõ 
havendo  nas  Minas  outra  moeda  mais  que  Ouro  em  pó }  o 
menos  que  fe  pedia ,  Sedava  por  qualquer  coufa  ,  erao  oita- 
vas. Daqui  fefeguio,  mandarem-fe  às  Minas  Geraes  as  Bo- 
yadas  de  Parnaguâ ,  &  às  do  Rio  das  Vellias  as  Boyadas  dos 
Campos  da  Bahia  -f  &  tudo  o  mais ,  que  os  Moradores  imagi- 
na vaõ  poderia  a  ppetecer-fe ,  de  qualquer  género  de  coufas 
naturaes,  Sc  induftriaes,  adventícias,  &  próprias.  E  ainda  que 
hoje  os  preços  fejap  mais  mode/adoS  -,  çomtudo  porey  aqui 
hum  Rol ,  feito  íinceramente  por  quem  aííiftio  nas  Geraes 
três  annos ,  dos  preços  das  coufas ,  que  por  commum  aflento 
là  fe  vendiaõ  no  amio  1 705.  repartindo-o em  três  ordês :  a  fa- 
ber,  os  preços  que  pertencem  às  coufas  comeftivcisj  os  do 
veftuario ,  &  armas  5  &  os  dos  Efcravos ,  ôc  Cavalgaduras :  q 
faó  os  íèguintes. 

Preços  das  coufas  comtftiveis. 

POr  húa  Rez  oitenta  oitavas. 
Por  hum  Boy  cem  oitavas. 
Por  húa  mão  de  feífenta  efpigas  de  Milho  trinta  oitavas. 
Por  hum  alqueire  de  Farinha  de  Mandioca  quarenta  oita- 
vas. 
Poríeis  bolos  de  farinha  de  Milho  três  oitavas. 
Por  hum  Payo  três  oitavas. 
Por  hum  Prezunto  de  oito  livras  dezafeis  oitavas. 
Por  hum  Paftel  pequeno  húa  oitava, 
for  húa  livra  de  Manteiga  de  Vaca  duas  oitavas. 

Po* 


&-  Opulência  àoTZrafiL 


141 


Por  húa  Galliiifra  três  ou  quatro  oitavas. 

Poríeis  livras  de  carne  de  Vaca  húa  oitava. 

Por  hum  Queijo  da  Terra  três  ou  quatro  oitavas ,  conforme 
o  pezo. 

Por  hum  Queijo  Flamengodezafeis  oitavas. 

Por  hum  Queijo  de  Alemtejo  três  Sc  quatro  oitavas. 

Por  hua  boceta  de  Marmelada  três  oitavas. 

Por  hum  frafco  de  Confeitos  de  quatro  livras  ,  dezafeis  oi- 
tavas. 

Por  hua  Cara  de  AíFucarde  hua  arroba  3  2  oitavas. 

Por  húa  livra  de  Cidraõ  três  oitavas. 

Por  hum  barrilote  de  Agua  ardente,  carga  de  humEfcravcf 
cem.  oitavas. 

Por  hum  barrilote  de  Vinho,  carga  de  hum  Eferavoj  duzen* 
tas  oitavas. 

Por  hum  barrilote  de 'Azeite  duas  livras; 

Por  quatro  oitavas  de  Tabaco  em  pó  com  cheiro  hua  oitavai 

Por  féis  oitavas  de  Tabaco  em  pó  fem  cheiro  hua  oitava. 

Por  húa  vara  de  Tabaco  em  corda  três  oitavas; 

Preços  das  coufas  >  que  pertencem  a&vefttiariO)  &  armas? 

POr  húaCâçaca  de  Baeta  ordinária  doze  oitavas»- 
Por  húa  Caçaca  de  Panno  fino  vinte  oitavas. 
Por  húa  Vefte  de  feda  dezafeis  oitavas: 
Pdr  huns  Calçoens  de  Panno  fino  nove  oitavas* 
Por  huns  Calçoens  de  feda  doze  oitavas. 
Por  hua  Gamiza  de  linho  quatro  oitavas. 
For  húas  Ciroulas  de  linho  três  oitavas. 
Por  hum  par  de  Meyas  de  feda  oito  oitavas.' 
Porjhum  par  de  C3apatòs  de  Cordovaòi:inco  oitaya& 
Por  hum  Chapeofino  de  Caftor  doze  oitavas, 
^£1^5*  Ghapço  ordinai :io  íeis.  oitavas-. 


I 


I 

■ 


*4^  Cutw.t9 1 

Por  hila  Carapuça  de  feda  quatro  ou  cinco  oira^as^ 
Por  húa  Carapuça  de  panno  forrada  de  feda  cinco  oitavas. 
Por  húa  boceta  de  Tartaruga  para  Tabaco  féis  oitavas. 
Por  húa  boceta  de  prata  de  relevo  para  Tabaco.,  fe  tem  oito 

oitavas  de  prata, daõ dez,  ou  doze  de  ouro,  conforme 

o  feitio  dei  la. 
Por  húa  Efpingarda  fem  prata  dezafeis  oitavas. 
PorhúaEfpingarda  bem  feita,  &  prateada,  cento  &  vinis 

oitavas. 

Por  húa  Piftola  ordinária  óez  oitavas. 

Por  húa  Piftola  prateada  quarenta  oitavas. 

Por  húa  faca  de  ponta  com  cabo  curiofo  féis  oitavas. 

Por  hum  Canivete  duas  oitavas. 

J?or  húa  Tizoura  duas  oitavas. 

E  toda  a  bugiaria ,  que  vem  de  França ,  &■  de  outras  par- 
tes ,  vende-fe  conforme  o  defejo ,  quemoltraõ  ter  delias  os 
compradores. 

Preços  dos  Efcravosy  &das  Cavalgaduras, 

FOr  hum  Negro  bem  feito ,  valente ,  Sc  ladino  trezentas 
oitavas. 
Por  huni  Molecaõ  duzentas  Sc  cincoenta  oitavas. 
Por  hum  Moleque  cento  Sc  vinte  oitavas. 
Por  hum  Crioulo  bom  Ofrkial  quinhentas  oitavas.     < 
Por  hum  Mulato  de  partes,  ou  Oíficial  quinhentas  oitavas. 
Por  hum  bom  Trombeteiro  quinhentas  oitavas. 
Por  húa  Mulata  de  partes ,  feiscentas ,  &  mais  oitavas. 
Por  húa  Negra  ladina  Cozinheira  trezentas  ôc  cinecenta  oi- 
tavas. 
Por  hum  Cavallo  fendeirocem  oitavas. 
Por  hum  Cavallo  andador  duas  livras  de  Ouro. 

Eeftes  preços  taim  altos ,  Sc  tam  correntes  nas  Minas  > 

foraé' 


&-  Opulência  da  çBrafíL  143 

faraó  caufa  de  fubirem  tanto  os  preços  de  todas  as  coufas,  co- 
mo fe  experimenta  nos  Portos  das  Cidades,  &  Vijlas  do  Bra- 
fil  i  6c  de  ficarem  desfornecidos  muitos  Engenhos  de  Aífucar 
das  Peças  neceflTarias ;  &  de  padecerem  os  Moradores  o-rande 
careftia  de  mantimentos  ,  por  fe  levar-m  quaíl  todos ,  aonde 
v e ndido s  haõ  de  dar  mayor  lucro. 


MMGHOi 


•  j^$.<5%  0^*5*  ^§Sfe  j»1? '%  aj^íg*  *«»&  Ataeo 


CAPITULO 

De  diverfos  preços  do  Ouro  vendida  no  Brajtl :  £j* 
do  que  importa  o  que  cada  anno  ordinária* 
mente  fe  tira  das  tZMinas* 

VArios  forao  os  preços  do  Ouro  no  difcurfo  deites  an- 
nos :  naõfó  por  razaõ  da  perfeição  de  hum ,  mayor  á 
a  do  outro  ,  por  fer  de  mais  fubidos  qu  ú  ates ;  mas  também  a 
refpeito  dos  Lugares v  aonde  fe  vendia  :  porque  mais  barato 
fe  vende  npMinasydo  que  na  Villa  de  SafrPauío ,  &  de  San- 
tos :&  muito  mais  vaí  nas  Cidades  do  Rio  de  Janeiro,  &  da 
».Bahia,doquena&  Villas  referidas.  Também  muito  mais  vai 
quintado ,  do  que  em  pó :  porque  o  que  fe  vende  em  pó ,  fae 
do  fogo  com  bafíantes  quebras :  alem  do  que  vay  de  diffèren-r 
ça  por  razaõ  do  que  fe  pagou ,  ou  naó  fepagou de  quintos, 

Hita  arroba  de  Ouro  em  pó  pelo  preço  da  Bahia,  a  quator- 
%t :  toflroens  a  oitava,importa  quatorze  mikrezentos  &  trinta 
&feis  cruzados,  Quintado  r  pelo  preço  da  Bahia  a  dezafeis 
toftoens  a  oitava ,  importa  dezafeis  mil  trezentos  Sé  oitenta 
êc  quatro  cruzados. 

Bua  arroba  de  Ouro  em  pó  pelapreço  daRio  de  JaneiV 
io*a  tj^ze  toftoens  a-oitava,  importa  treze  mã trezentos  &r 

doze 


^H  H! 


I 

■ ' 
■I 


144  Cultura, 

doze  cruzados.  Quintado,  a  quinze  toífcens  aokava,impor*; 
ta  quinze  mil  trezentos  6c  feffenta  cruzados. 

Donde  fe  fegue,  q  tirando-fe  cada  anno  mais  de  cem  arro- 
bas de  Ouro ,  a  quinze  toftoens  a  oitava ,  preço  corrente  na 
Bahia,  6c  noRio  de  Janeiro,  fendo  quintado,  vem  a  impor- 
tar cada  anno  hum  milhaõ  quinhétos  &  trinta  &  féis  mil  cru- 
zados. Das  quaes  cem  arrobas,  fe  fe  quintarem ,  como  he  ju- 
foj  cabem  a  Sua  Mageftade  vinte  arrobas  ,  que  impor tao 
trezentos  &  fete  mil  &  duzentos  cruzados ,  mas  he  certo  que 
cada  annofe  tiraõ  mais  de  trezentas  arrobas. 

E  com  ifto  naõ  parecerá  incrível  o  que  por  fama  conflan- 
tefe-conta  haverem  ajuntado  em.diverfos  tempos  aíílm  nuris 
Defcobridores  dos  Ribeiros  nomeados  ,  como  huns  mais 
bem  afortunados  nasDatas :  6c  também  os  que  metendo  Ga- 
do ,  6c  Negros  para  os  venderem  por  mayor  preço  ,  6c  outros 
géneros  mais  procurados  ,  ou  plantando  ,  ou  comprando 
Roças  deMilho  nas  M inas,fe  foraõ  aproveitando  do  que  ou, 
tros  tirarão.  Naõ  fallando  pois  do  grande  cabedal  9  que  ti- 
rou o  Governador  Artur  de  Sá  ,  que  duas  vezes foy  a  ellas  do 
Rio  de  Janeiro :  nem  dos  que  ajuntarão  hua  ,  duas ,  6c  três  ar- 
robas ,  que  naõ  foraõ  poucos.  Tem-fe  por  certo,  que  Baltha- 
fa.r  de  Godôy ,  de  Roças ,  &  Catas  ajuntou  vinte  arrobas  de 
Ouro.  De  vários  Ribeiros,  8c  da  negociação  com  Roças,Ne-  » 
gros ,  &  Mantimentos  fez  Francifco  de  Amaral  mais  de  cin- 
coenta  arrobas.  Pouco  menos  Manoel  Nunez  Viana ,  &  Ma- 
noel Borba  Gato  :  6c  com  baftante  cabedal  ferecolheo  para 
Saõ  Paulo  Jofeph  Góes  de  Almeyda  ■,  6c  para  o  Caminho  no- 
vo Garcia  Rodriguez  Paez.  Joaõ  Lopez  de  Lima  tirou  do 
{eu  Ribeirão  cinco  arrobas  :  os  Penteados  de  fuás  lavras ,  & 
induílrias ,  fete  arrobas :  Domingos  da  Silva  Moreira  de  ne- 
gocio ,  6c  lavra ,  cinco  arrobas :  Rafael  Carvalho  cinco  arro«* 
bas  .Joaõ  de  Góes  cinco  arrobas :  Amador  Bueno  da  Veiga  3 
do  Rio  do  Ouro  preto  >  do  Ribeirão,  6c  de  outras  partes ,  pi- 
tei 


&-  OpulemiadoBrafiL 

to  arrobas.  E  finalmente  deixando  outros  muito  bem  apro- 
veitados :  Thomás  Ferreira  abarcando  muitas  Boyadas  $& 
Gado ,  que  hia  dos  Campos  da  Bahia  para  as  Minas ,  &  com- 
prando muitas  Roças  3  Sc  occupando  muitos  Efcravos  nas 
Catas  de  Vários  Ribeiros,  chegou  a  termais  de  quarenta  ar- 
robas de  Ouro ,  parte  em  íer,  8c  parte  para  fe  cobrar.  Mas  tra- 
tando de  cobrar  o  Ouro ,  que  fe  lhe  devia  ,  houve  entretanto 
queralhedeopordefgoftos  húas  poucas  balas  de  chumbo  > 
que  he  o  que  fuccede  naõ  poucas  vezes  nas  Minas, 

Também  com  vender  coufas  comeftiveis ,  Agua  ardente, 
Sc  Garapas,  muitos  em  breve  tempo  accumulâraõ  quantida- 
de coníideravel  de  ouro.  Porque  como  os  Negros  ,  &  ós  ín- 
dios efcondem  baftantes  oitavas3  quando  cataõ  nosRibeiros> 
&  nos  dias  fari.tos ,  &:_  nas  ultimas  horas  do  dia  tiraõ  Ouro  pa- 
ra íi ,  a  mayor  parte  deite  Ouro  fe  gafta  em  comer  3  &  beber: 
&  infenfivelmente  dá  aos  vendedores  grande  lucro  ,  como 
coíluma  dar  a  chuva  miúda  aos  campos ,  a  qual  continuando 
a  regallos  fem  eílrondo ,  os  faz  muito  férteis.  E  por  iíTo  àté  os 
homens  de  mayor  cabedal  naõ  deixarão  de  fe  aproveitar  por 
efte  cam  inho  deíía  Mina  á  flor  da  Terra ,  tendo  Negras  co- 
zinheiras ,  Mulatas  doceiras  3  &  Crioulos  Taverneiros  3  oc« 
çupados  nefta  rendoíiílíma  Lavra}  &c  mandando  vir  dos  Por- 
tos do  Mar  tudo  o  que  a  gula  coftuma  appetecer %  Scbufcar. 


K 


CA- 


■ 


I    ! 
1 


C    A    P    I    T    u    L    O     IX. 

%  obrigação  de  pagar  a  El-Rey  noffo  Senhor  ~i 
<jutnt&  farte  doOaro ,  qnefe  ftra  das  Minas 
do  BrafíL 


DE  dous modos  fepóde  tratar  cíle  ponto:afaber,  oir 
pejoq  pcrtenceaoforocxtefriòpelas-Leys,  &  Orde- 
«açoens  do  Reyno  :oh  pelo  que  pertence  ao  fcàw  interno,  at~ 
tentando  a  obrigação  em  confeieneim 

c.     Quanto  á  primeira  parte,  conítapela  Ordenação  de  Por^ 
tugalliv.2tit.26.^ 

/^.ym  >  £  M»*  de  ouro  ,  &  prata ,  &  qualquer  cutro  metaU 
íí.  no  titulo  28.  do mcímo  Livro  2.  expreíTamcnte  fe  de- 
clara :  que  nas  Datasvou  Doaçoens  feitas ,. nunca  fe  entende- 
jao  comprehendidos  os  Veeyros  ,  &  Minas.  Tor  quanto  (  diz 
a  Ordenação )em  muitas  doações  feitas  per  Nósy&perosReys 
mosjntecejjbresyfaa  poftas  algumas -claufulas  muito  mães. 
&^l^mtu:de€larmas^e^taesdoaítíês9  &  claufulas 
ndlasconteudas^nuncafe  entende  ferem  dados  os Veeyros  & 
Mnas,de  qualquer  forte  quefejao;fal™fe  exprejfamente forem 
nameadas  &  dadas  na dtta doação.  Epara  aprefcripçao  das 
i^mmírtl  *"*  ^erUlle^r  P'f*  ^mlpWquefeja 

Podendo  pois  El-Reyrirarà  fua  cufla  das  Minas,  que  re- 
lervaparaii,  osmetaes,  que  faÕ  o  fruto  delias :  attendendo 

!lg     yT,PraÍíí°íaóncceírarios'  &  querendo  animar 
aos  léus  VaíTaUos  ao  defçpbrimento  das  ditas  Minas ,  &  a  par- 
ticipa-* 


y    ( 


&*  Opulência  do  WajiL  i 

ticiparém  do  lucro  delias  :  aífentou,  como  fe  díznotit.  34  j 
do  dito  Livro  2. das  Ordena  çoens  5  quede  todos  os  metaes,  que 
fe  tirarem  ^depois  de  fundido ,  &  apurado ,  paguem  o  quinto,  tm . 
falvode  todos  os  euftos» 

E  para  fegurar ,  que  fe  lhe  pagaíTe  o  dito  quinto ,  man- 
dou ,  que  os  ditos  metaes  fe  marcafiem  3  &  que  fe  naó  pudef- 
fem  vender  antes  de  ferem  quintados  3  nem  fora  doReyno, 
íob  pena  de  perder  a  fazenda,  &  de  degredo  de  dez  annos  pa- 
raoBrafiliComoconftadoditotit.  34.^.5.  E  o  que  vender  os 
ditos  metaes  antes  de  ferem  marcados, ou  em  madre  antes  Refun- 
didos i  perderá,  a  fazenda  3  &ferà  degradado  dez  annos  para  o 
Brajil.  Até  aqui  a  Ordenação. 

E  os  Doutores ,  que  falliraõ  nefta  matéria ,  aífi m  Portu- 
guezes,  como  de  outras  Naçoens,  afíirmaõeoncordemen- 
te ,  ferem  de  tal  forte  as  Minas  do  Direito  Real ,  por  razão 
dosgaftos,  queEl-Rey  faz  em  prol  da  Republica  -3  que  por 
efta  caufa  naõ  os  pode  alienar.Veja-fe  entre  outros  Portugue- 
zes  Pedro  Barbofa  ad  L.  Divortio  §.  Si  vir  íF.foluto  matri- 
monio à-n.  17.  ufque  ad  2 1 .  Cabedo  parte  2.decif.  5  5 .  de  venis 
metallor.  Pegas  adOrd.RegniPort.lib.2,tit.  28.11.24  comoj 
Authores  de  outros  Reynos  5  que  allegaõ :  particularmente  a 
Lucas  da  Penna  L.  Quicumque.  defertum  col.  2.  poft  princi- 
1  pium  Cod.  de  omni  agro deferto  9 Sc  RebuíFo  tom.2.ad  'legefc 
Gallix  tit.  ut  beneficia  ante  vacationem  ari.  1 .  gloífa  nlt.  poífc 
médium  pag.346.  E  alem  deites  veja-fe  Solorzano  de  Indiar, 
Gubern.tom.2.1ib.i.cap.i3.n. 55.8c lib.5.cap.i.n.  19.com  ou- 
tros m uitos ,  que  traz :  o  q  uai  d  i  z ,  ferefte  o  çoftii  me  de  todas 
as  Gentes.  §[uade  caufa  (diz  di£to  n.  55 . )  metallorumfodien^ 
dor  um  jus  ipfi Romani '3  érpoftmodum  alia Gentes  inter  Rega- 
lia computârunt,  &  proprie  adlocorumfapremos  Principes  per* 
tinerefanxerunt, 

E  porque  nefta  matéria  bem  he  ouvir  também  aos  Theo- 
Jogos .,  feja.0  primeiro  o  P.  Molina  de  Juílit,  &  Jure  difp.  5  4* 

K2  tam 


1 

-  1 


tam  verfado  no  Direito  y  como  na  Theologia }  Sshàmm  par- 
ticularméte  no  Direito  de  Portugal. Regulariter(diz  eíle)  de 
jure  civjli5vel  cõmuni,  vel  particularin  Regnorum,  ubicumq 
vcnaemetallorúfuerintrepertae,«ímtòfolent  ene  deputatx 
lnncipi>  autReipublicxadmmptlTs  públicos  ,  oneraque 
Reipublicx fuftinenda :  unde  jf .  16.  tit.26.lib.  2.  Ord.Lufita* 
^xKegniCichabailtem  Direito  Real  he  os  Fèeyros  f  &  MU 
nas  de  ouro ,  &  prata,  oti  qualquer  outro  metal  Ut  tamen  lucri 
fpehominesallicianturadeas  in  bonum  publicum  quxren- 
das ,  &  aperiendas  *  ftatui  íblent  varix  íeges  pro  temporum 
&  locorurn  varietate ,  quibus  vel  pars  aliqua  eorum ,  qux  in- 
de  fuerint  extrada  ,  veíprxmia  alijs  inventoribus  confti- 
tuuntur.  Ein  terminis  pela  Ordenação  de  Portugal  diz :  Cõ- 
ceifam ,  &  ítatutum  eft  ,  ut  deduftis  expenfis ,  quinta  metal- 
lorum  pars,  qux  inde  extrada  fuerit  yRegi  perfol  vatur. 

O  Padre  Vafquez  in  Opuículis  Moralibus  deReftitutio- 
uecap.  5. JT  4.  dub.  2.fallandodoReynode Caítelladiz  :  In 
noftro  Rxgno  applicatafunt  património  Régio  quxeurnque 
Mineralia ,  ubi  metallá  fíunt  argenti,  auri,  &  argenti  vivi  per 
U.Recop.tit.  1 3.I.4.  Sed  quo  jure  (  diz  elle  )  Rex  potuerit  fi- 
biapplicare  Mineraliaomnia,  in  fundis  etiam  privatis  pro- 
creara ,  nullus  Authorum  dixit  ,  quos  cita  vi.  Mini  videtur  ad 
hxcdicendum,  quòd  quamvis  Mineralia  jure  naturaliíint 
dominiipfiusagri ;  potuit  hoc  jus  Mineralium  ab  antiquo 
eíle  indu&um ,  quodfint  Regij  Patvimonij :  eâ  enim  conditio- 
nepotuérunthujusRegniterrx,  &  prxdia  diftribui,  ut  ta- 
men Mineralia  Regibusrefervatamanerent,  fuo  Patrimoniê 
mnumerata. 

E  a  meíma  razaõ  dá  Molina  de  Juft.&Jure  difp.f  6.  jT.ult. 
por  eftas  palavras.  Lieèt  enim  ftando  in  foloGentiumjure, 
ca  inventa  3  qux  domino  carent ,  fint  primo  occupantisi  nihi- 
lominus,quemadmodumjuscivile  ftatuerepotuit,  ut  qui 
cafuthefaurumin  agro  alieno  inveniret;  in  interiori,  &êx* 

terion 


■» 


C>  Opulência do¥>raftl  «4» 

terlorl  foro  teneretur  tribuereilliusdimidiíim  domino  ágri  $ 
qtiiveròillumdeinduftriâ  inveniret,  teneretur  tribuere  eí- 
demtotura  :  curetiamnon  poterit  fimih  modo  ftatue*e,,  ut 
adfuftinendaReipublic*  onera,  thefauri,  qui  demcepsrn- 
venientur,  pertineant  integri  ad  Regem,  aut  ut  in  ilhs  cerram 
aliquamhabeat  partem  ?  Nequeemmideft  ftatuere  aliquid- 
contra  jus  Gentium*  fed  rationabili  ex  caufa  impedire,  ne 
dominium theíauri inventi  fit alicujus  ,  cujus  eflet  *\m&*m 
folonaturaliacGentiumjure;  cfficereque  ut  fit  alteriusiid 
quod  poteft  optimèRefpublicafacere>  non  fecusac  efiicerc 
poteft ;  ut  venatio  aliqua  iilicita  fit ,  quae ,  ftando  in  fojo  jure 
naturaliacGentium,  eíTet licita 5ut  difp.43.oftcniumeit.il* 
pelaméfmarazaõ  fe  ha  de  dizer  o  mefmo  das  Minas,  ainda, 
que  foífem  achadas  em  Terras  de  Particulares. 

E  quando  nao  baftaífe  efta  razaõ  /que  certamente  he  tor- 
çofa;o  Cardeal  de  Lugo  in  tradatu  de  Juftitia  8c  Jure  tom.  1 . 
difp.é.fea.  lo.n.  io8.moftra ,  que  El-Rey  pode  refervar  pa- 
ra fi  as  Minas  (ainda  que  fe  achem  emTerra  de  Particulares^ 
por  modo  de  tributo  ,  &  tributo  muito  bem  pofto ,  mandan- 
do, que  fe  lhe  pague  algúa  parte  do  que  fe  tirar  delias,  para 
os  gaftos  da  Republica.  Et  de  fado  (diz)  jure  humano  fo~ 
lent  hujufmodi  Mineralia  ,  quoad  aliquam  faltem  partem 
maiorem,  vel  minorem,  Principi  applicari;  quoad  aliam  vero 
inventori :  quod  quidem  fieri  potuit ,  vel  quia  ab  mitio  agri 
eâ  lege  fin^ulis  in  ea  Província  diftributi  fuerunt,  ut  Minera* 
liaPrincipis  difpofitioni  refervarentur ,  ut  vult  Vafquez  de 
Reftitutionecap.f.iT4.dub.2.n.  17. vel  cera  per  mdumtrt* 
buti  i  ficut  poteft  Princeps  ad  fubfidkim  &  fumptus  públicos 
alia  tributa  exigere.  Aliunde  vero  juftificatur  non  pa  rum  ille 
modus  tributi  ex  eo  ,  quòd  cum  Aurum  6c  Argentuni  ímt 
potiílimxReipublicx  vires  j  non  expedit,  quòd  in  íjs  Prin- 
ceps ipfe,  ôctotaRefpublica  dependeat  à  duobus,  vel  ta- 
bus privatis,  quifolieametallain  fuis prxdijs colligant ,  aç 

1^  ■*  conecta 


RI  -.<! 


2  *  Xthiiwi  &  ) 

colleaarefervent,  &  ad  nutum  diftribuant 
n,V n  i  confiderem  P°is « Minas  comoparte do Patrimcv 
bio  Real,  oucomojufto  Tributo  para  os  gaftosero  p  ddt 
Republica,  heeerto,  quefedeveaEl-Rey  o  que paFafirí 

ír'frrhClqTparteí0uro  '  q«e  dellasfet  a^ 
pi.ro    &  l'vredetodoSosgaftos:&q„eoquefemandanaS 

deve  nafi^ntqUalqUer P6na ', ° VÚnto ex natum "»" fe H* 
dooa5ra hZn  r' qUMUKO ^^^^jufto tributo , ordena. 
t«E  W  1?"ePubIlca » ou  c°™°  cobra  a  pcnfaõ,  que  im- 

põem febre  qualquer  outra  parte  do  feu  Património?  coZ 
he  a  que  fe  lhe  deve ,  &  fe  lhe  paga  dos  Feudos.  * 

•  li  galguem  diíTer ,  que  de  outra  forte  fe  ha  de  iuW  daff 
Minas  do  Brafi  ,  que  das  do  Reyno  de  PortugaliPor  Ir  mais 
certo  o  direito  do  domínio,  &  poflequecom^  aEl  Rey 
exam^^fePOrtngaUqTO°dasCA«iftasLBrafiS 
rSX  ç  ?,ngJemJ  merecer£  como  temerário  a  mefm» 
reporta   que  fajlando  dasConquiftas  das  índias  Occiden- 

>  andr^V?  T^f*  ?&**  Pd°  Summ°  Pontifi«  Ali 
J-andre  VI.  derao,  depois  de  tratarem  efta  matéria  com  An- 
gular doutrina  &  attécaó,  Varoens  doutillimos  em  feusTrâ- 

át?hòS d°aScBuI,aS'p&P°?derand'3'  &  examinando 

™ °? dade  do  Summo  fowifiee  para  femelhantes  doa- 
çoens;&os^ftos  de  asfazergm.  d.zendo  uk.ma_ 

meme , que  ja  fe  nac >  devia  permirtir  o  por-fe  ifto  em  duvida  . 
cub  Hr  aT^  d°  Vigari°  de  Chrifto  na  Terra ,  dada  & 
fílnK  g,t™amente'JdeP°is  «^maduro  confelho,  & 
K'iH  Tr  °°T  Pedla  a»«eria,  &  defendida  porju- 
ita,vauda,  &  licita  de  tantos,  &  tam  infignes  Doutores 
1  aSolorzano  de  IndiarumGubernationetom.  r.  lib.  Iffi 
ípwron™  AIendanhoinThek«ro  Indico  tom.  t.tit.t.cap. 
„;K°™  j  ^Pl^Pueir.^num.i/.  aonde  também  diz. 
qucMafcardomTraftatude  judxis  &  Infidehbus  t  Pa«é 

cap.14.  ' 


BH 


&-  'Opuhticta  do  <Bra/í!.  i 

cap.  14"  naó  duvida  affirmar  ,  que  o  poder  do  Papá  para  tal 
doação  he  tam  cerco >  que  dizer  o  contrario  parece  que  tem 
fabor  de  herefia:  o  que  o  mefmo  Avendanho  explica  em  que 
fentidofe  deve  entender. 

E  que  mereça  a  mefma  repofta  quem  diífero  mefmoda 
Conquifta  doBrafil,ninguem  o  poderá  negar  com  razaõrpof- 
fuindo  os  Reys  de  Portugal  pelos  mefmos  titulos  o  Braíll, 
&  as  outras  Conquiftas ,  pelos  quaes  todos  eííes  Authores , 
Solorzano,  6c  Avendanho ,  6c  outros  doutiííima ,  &  folidiíli- 
mamente  provaõ  o  legitimo  dominio ,  6c  pofíe ,  que  compe- 
te aos  Reys  de  Cafteíla ,  das  índias  Occidentaes,  como  con* 
lia  pelas  Bulias  dos  Summos  Pontífices  Callifto  III.  Nico- 
lao  V,  6c  Alexandre  VI.  que  fe  aeharáõ  no  mefmo  cap.  24.  de 
Solorzano  defde  a  pag.  344.  atè  a  pag.3  5  3 .  &  em  todo  o  Li- 
vro 2.  do  dito  primeiro  tomo  delndiar.Gubern.  que  coníta 
de  25 .  Capitulos ;  &  no  terceiro ,  que  confta  de  8.  aondecom 
fingular  erudição  prova  unicamente  ajuíliça  ,  com  quefe 
acquirio  ,  6c  fe  conferva  o  dominio  ,  6c  poíTe  deitas  Con« 
quiftas. 

E  fallando  o  mefmo  Solorzano ,  no  fegundo  tomo  lib.  f  J 
cap.  1  .em  particular  das  Minas ,  8c  dos  Metaes ,  que  delias  fe 
tiraõ,  num.  19.  diz,  que  aííim  nas  índias,  como  em  qualquer 
outra  parte  pertence  ao  Direito  de  El-Rey ,  como  íeu  Patri- 
mónio ,  6c  parte  do  feu  fupremo  dominio ,  quer  fe  achem  em 
lugar  publico,quer  em  Terras, ou  Fazendas  de  Particulares; 
de  forte ,  que  nunca  fe  entendem  com  prehendidas  nas  datas  -, 
Sc  doaçoens ,  ainda  que  geralmente  feitas ,  fe  íe  naó  fizer  ef. 
pecialmençaõ  delias.  E  para  confirmar  o  que  diz ,  traz  vin* 
te  6c  quatro  Authores,  que  tratarão  de  Regalibus  ,  de  Me- 
tallis,  6cdeJureFifcij  ou  interpretarão  o  Capitulo  1.  Quae 
fint  regalia ,  ou  a  Ley  %.  Cod.de  Metallar.  Diz  também  num. 
20.  que  por  razaõ  dos  gaftos ,  que  faõ  neceíTarios ,  para  tirar 
os  Metaes  dasMmas  deftasConquiftas,contentaõ-fe  os  Reys 
'":"' .":""  K4  com 


ÍH* 


111 


com  que  fe  lhes  pague  a  quinta  parte  do  Metal,  quefetirar: 
pronibindoufardelle  atènaõfer  mareado  cõ  o  cunho  Real* 
para  que  confte,  que  fe  pagou  a  quinta  parte.  E  porque  po! 
dia  haver  duvida  3  fe  efta  quinta  parte  de  Metal  fe  havia  de 
entender  como  vem  da  Terra  naõ  limpo,  &  fefehaviaõde 
eomprehender  nella  os  gaftos ,  oufe  fe  havia  de  dar  livre  deí- 
ies5traznonum.i6.aordemdeEl-Rey  de  i^.quedecidio 
ambas  as  duvidas  por  eílas  palavras  :  El  quinto  neto  ,  y  fin 
éefcuento de  cofias,  puefio  en  poder  dei mtefiro  Teforero ,  o  Re* 
•eeptor :  que  he  o  que  também  diz  a  Ordenação  de  Portugal 
-t1t.34.do  Livro  2.  Depois  de fundido  >  &  apurado,  paguem  o 
qwnto  emjalvo  de  todos  os  eufios, 

fe  Nota  mais  Solorzanonum.27.do dito cap.  1. do  Livro f. 
que  quando  fe  falia  de  frutos  da  Terra ,  fe  entendem  também 
©s  Metaes;  allegandopara  iíTo  a Joaõ  Garcia  de  expenfis  cap. 

22.n.47.LazartedeGabell!S€ap.i9.num,59.Barbofaindiaô 
tf.  Si vir,  L.Divortio  ff. foluto matrimonio,  Marquech..  de 
diviíionebonorumlib.2.cap.  1 1.  num.  23.&feq.  Cabedode- 
cif.  81.  num.  2. parte  2.Gilken  de  expenfis  metaílorum  in  L>. 
Certum  Cod.de  reivendicát.Cap.5.pag.722.  Farinac.quíeft' 
xo4.num.  62. ..&  63.  Tufch.  verbo Minera>com\.  237.  &  ver- 
bo Pr^ventio  3  aonde  trata  de  como  as  Minas ,.  de  quemquer 
que  fe  oceupem ,  fempre  paífaõ  com  fua  obrigação.  Nxvius 
in  Syftem.  ad  L.  2.  Cod.  deMetallar.  Fancirolus  in  Thefaur 
«D-3-cap.  31.  pag.  214.327.ee  372.  Maríil.fmgul.53i.&  Me. 

íioch.conf.798.ánum.i6.Eque€onfequentemente,comoos- 
outros  frutos  da  Terra ,  eftaõ  fujeitos  ao  dizimo ,  que  os  Pa- 
pas -oncedèraõaos  Reys  de  Portugal,  &  aos  de  Caftella:ut 
ex  L.^un£fr  Cod.de Metallar.Butrius ,  &:  aíij  m  cap.  Ferve- 
»/ídedecimis,ReburTusquxft.io.num.23.&:24.  &  Solor- 
zanodelndiar.  Gubern.tom.2.1ib.3.cap.2i.num.  io.pofto 
que  os  Reys  í  como  diz  o  mefmo  Solorza  no )  naõ  tratem  de 
cobrar,  efte^dizanqs  dos  Minemos,  contentando-fe  porra-  ( 

zaõ 


mm 


&-  Opulência  Hú  ^BraftL  1 5  j 

£aõ  dos  gaftos  com  que  lhe  paguem  a  quinta  parte  do  ouro, 
6c  prata  que  tirão  de  íuas  Minas ,  que  faó  parte  do  feu  Patri- 
mónio, 6c  parte  fempre  refervada3  como  eílà  dito. 

Panando  agora  ao  outro  ponto ,  em  que  fe  pergunta ,  fe 
cita  Ley  de  pagar  a  El-Rey  a  quinta  parte  d&Ouro  que  fe]ti- 
ra  das  Minas ,  obriga  em  confciencia :  Digo ,  que  a  refoluçaó 
deita  duvida  depende  de  tirar  húa  falia  imaginação  de  alguis 
menos  attentos ,  6c  accelerados  em  refolver :  os  quaes  por  ve- 
rem , que  efta  Ley  heacompanhada  da comminaçaõ da  pena 
daperda  da  fazenda  5Sc  do  degredo  por  dez  annos ,  6c  de  ou- 
tras pelo  novo  Regimento  acerca  das  Minas  do  Braíil ,  cui* 
daõ  que  he  Ley  meramente  penal ,  6c  que  como  tal  naó  obri- 
ga em  confciencia ,  nem  antes  da  fentençado  Juiz5  aos  traní- 
greflbres  delia ,  conforme  o  com mum  fentir  dos  Theologos, 
Sc  Moraliftas  r  que  trataõ das  Leys  ,  Ôc  em  particular  das 

penaes.  . .        e     , 

Porém  o  P.  Franeifco  Suarez  examinando  mais  proíun«* 
damente  (  como  coftuma  )  efte  ponto  no  5 .  Livro  de  Legi- 
bus  cap.  15.  à  n,  2.  refolve ,  que  as  ímpofiçoens ,  6c  penfoens  , 
que  fe  pagaõaos  Reys ,.  6c  Principes  por  coufas  fuás  imitio- 
reis ,  6c  frutos  delias ,  faó  tributos  reaes ,  &  naturaes  y  funda* 
dosemjuftiçaj  porque  fecobraõ  dercoufas  próprias  dos  di- 
tos Principes  y  aos  quaes  fe  deraõ  para  a  fua  fuítentaçad }  6c 
ellesas  deraõaosfeus  VaíTallos  com  obrigação  de  lhes  paga-» 
rem  eftas  penfoens :  6c  que  por  iflo  as  Leys  que  mandão  pagar 
eftas  penfoens ,  ou  tributos ,  ainda  que  fe  lhes ac recente  algfm 
pena ,  fem  duvida  naó  fe  podem  chamar ,  nem  faõ  puramen* 
te  penaes,  mas  difpofitivas ,  Sc  moraes :  aíTim  Como  faõ  as  cá* 
vencionaes^ntre  Partes ,  que  para  mayor  firmeza  admíttent 
pena  entre  os  Contrahentes,  para  que  fe  guardemos  contra- 
tos ,  6c  as  promeflas  de  fazer ,  ou  de  pagar  qualquer  divida? 
que  aliunde  de  jufíiça  fe  deva.  E  que  confequentemente  eftas 
>.  JLeys  obrigaó  em  confciencia  a  pagaivtaes  penfoens ,  Sc  tribu. 
r  . 


«54  Cm.. 

tos  inteiramente;  8t  efpontaneamente,  &  fcm  diminuição- 
alguma,  ou  engano,  ainda  quefe  naõ  peçaói  porque  fe  S 
de  juíhça  comutativa ,  que  traz  comigo  eftí  intrinfeca  obrt 
SSSJSfe P^oetncontraà  Atéaqui  oP.£. 
E  deite  fundamento  certiffimofe  infere  também  certa-" 
1U,  íe  devem  a  Ll-Rey  em  confciencia  :  &  que  a  Lev  feita  oa. 

que  traga  annexa  a  commmaçaó  da  pena  contra  os  tranf 
greffoms  ,  mas  que  he  Ley  difpofitiva  ,&  moral"  &  que  obril 

Í„  $? í  **?  ProVado •»  Pnmeira  parte defla  queftaó) 

Senhor  Jegttimo  das  Minas.,  pordoaçaõ,  que  lhe  fez  delias 

ComaConqu  ftadoBrafdoSummopL^ce,  &portoS 
ftomóTTtl '^^^«^SolorzanoemtodooLfvrò  °  do 
J.tomodelndiar.Gubern.  communs  aos  Reys  dePortueal 

to  Real  ,&  parte  dofeu  patr.mionio,como  quaefquer  outros 
Jxns,  que  fe  lhe  deraó  para  a  fua  fuilenfaçaó,  &  gaL  que  faZ 
|m  proldaRepubhca,  Scparaaconferv^ó  I  aumSa 

«n'^1  Vín  ^/n™ fVem t0daS asdatas • nem d^do li. 
cençadet.rarOurodellaS,fenaó  com  condição ,  que  quem    . 

0  tirar  lhe  pague  a  quinta  parte  do  que  tirar ,  puro  8c  defeca. 

rni?-  J- ^  Ͱd°S  °S  gaft<?  \&  Prendo  pertender  ifto 
(prefcmdmdodos  outros  titulos)porjufto,&6em  ordenado 

1  nbuto ,  comoeftaprovadoxró  as  razoes ,  &  authoridade  de 
ía»s  D°"K>res  ac'ma  alegados  :  claro  eftá,  q  efta  obrigação 
elta  tudada  em  juftiça  comutativa ,  como  a  de  quaefquer  ou- 
tros paitos,  Sc  promeíTas  de  qualquer  outrojufto  contrato,á 
çoltumaõ  admittiroscontrahentesemiuas  convencoens  •  Sc 
que  ainda  que  aLey  naó  acrecentafle  pena  aos  transgreuores, 
iempre  deyjaõ  pagar eltes  quintos, por  fer  obrigação  inrrin- 

feca ' 


r— i 


nm? 


PT? 


&  Opulência  do  TZrajil.  1 57 

feca :  Sc  que  crporlhe  a  pena,  he  para  facilitar  mais  a  cobrança 
do  q  fe  lhe  devej  Sc  naõ  para  fazer  húa  Ley  meramentepenal. 
Nam  adje&io  pcenoe  (  diz  Suarez  n.  10. )  noa  tollit  obli- 
gationem ,  quam  eadem  lex ,  prseciíe  lata  fine  pcena,  indu- 
ceret  in  confcientiâ :  ergo  licèt  illi  addatur  poena  3  obligat  per 
feadtributumperfol  vendiam,  vel  reftituendum  (fi  contra 
juftitianinonfitfolutum  )  abfqueulla  condemnatione ,  vel 
fententia,  etiamfi  tune  nemo  obliget  ad  poenx  folutionenx 
antefententiam , juxta  generalem  do£trinam  datam  de  lege 
pcenali.  E  declarando  ifto  mais  diz  y  que  eíla  Ley  he  mifta  , 
©uquaíi  compofta  de  tributo^  Sc  de  pena}  Sc  que fe ordenaõ  a, 
diverfos  fins  a  impoíiçaõ  da  penfaõ  ou  tributo^Sc  a  pena ,  que 
fe  lhe  acrecenta :  porqueo  tributo  fe  ordena  á  fuftentaçaó  de 
El-Rey,  ou  afatisfazer  á  obrigação  natural ,  que  tem  os  Vaf- 
fallosde  dar  jufto eftipendio  a  El-Rey ,  que  trabalha  em  prol 
ck  Republica: Sc  a  pena  fe  ordena  a  que  fe  cumpra  eíià  obri- 
gação ,  5c  fe  caftigue  quema  naõ  comprir  como  deve  .-logo 
ainda  que  o?  tributo  ,  ou  penfaõ  fejajufta ,  5c  adequada  ao 
feu  fim  ,8c  a  obrigação  fique  inteira  >  juftamente  fe  lhe  acre- 
centa a  eommioaçaõ  da  pena ,.  6c  juftamente  fe  executa,  fe 
bouver  culpaa  alem  da  inteira  cobrança  do  tributo.  AffirAco» 
monas  penas,  que  de  comum  eonfentimento  fe  põem  pelos 
►  contrahentes  emalgú  jufto  contrato,  fe  pode  juftamente  obri* 
gar  o  violador  da  promefla  feita  no  contrato  a  q  pague  a  dita 
pena ,  alem  do  interefíe ,  &  dana,  q  da  tranfgreflaõ  le  feguio, 
E  diz  3  que  o-mefmo  fuccede  no  noío  cafo :  porque  fe  faz  co- 
mo hum  contrato  entre  El-Rey,  Sc  os  VaíTallos,  para  que 
El-Rey  os  governe ,  Sc  os  Súbditos  o  fuftentem  com  os  tribu-» 
tos  3  Sc  peníòens .  E  para  fegurar  que  fe  paguem ,  pode  acr$~ 
centar-felhe  apena  -,  a  qual  naõ  diminua  a  força  5  &  obriga- 
f  aõ  do  contrato-,  mas  írrva  de  húa  nova  coacção }  para  que  os 
Súbditos  paguem  oque  por  juítiça  lhe  devem,  Àtè  aqui  o  P, 
i^uarez  no  dito  cap^i  3  .n.  i  o. 


íí 


I 


■  • 


íf*  r        Cultmài 

E  ifto  parece  ^que  bailava  para  moftrar  que  õs  quintos  M 
Ouro  ,  que  fe  tira  das  Minas  do  Brafil,  fe  devem  em  confcien- 
cm,  &  antes  da  condenação  ,  ou  fentença  aEl-Rey  NqíTo 
Senhor  de  juftiça ,  &  naõ  por  níía  Ley  meramente  penal  ^  co- 
mo alguns  erradamente imaginaó.  Acrecentarey  porém  ou- 
tros motivos  para  eftabelecer  mais  efta  IRefoluçaõ.  E  feja  o 
primeiro,  que  efta  Ley  dos  quintos  (como  advertio  Aven- 
danho  in  Theíauro  Índico  tom.i.tit.  5.cap.8.n43.)he  muito 
racional ,  pela  razaó ,  que  traz  Molina  difp. 5  6.âe  Juft.  &  Ju- 
re, §.  ult.  &  vem  a  fer  :  porque  eftá  poftoem  razaó  ,  que  o 
l  rincipe.tenha  alguma  parte  mais,  que  os  outros  particulares 
em  coufas  de  preço  fingular ,  como  tem  em  outros  bensj  ain- 
da quando  pareceria  fer  melhor  dálias  ao  publico.  E  alCrn , 
faltando  os  Parentes  atè  certo  grão  9  os  bens  dos  que  morrem 
ab  inteftato  vaô  ao  Fifco  Real :  m  em  pena  de  alguns  crimes, 
logra  El- Rey  de  tal  forte  os  bens  confifcados  ,  que  fe  alguém 
por  Parente  ,  ainda  que  muito  chegado  do  Reo ,  os  tiraíTe  ao 
^i.fco5peccaria  contra  a  juftiça,  com  obrigação  de  os  reftav . 
tuir.  Logo  quanto  mais  fe  ha  de  dizer  o  -mefmo  ,  quando  o 
refervar  os  quintos  doOurofe  ordena  naõ  fomente  á  fuften* 
taçaõ  deELRey,,  mas  também  aos  gaftos  em  proveito  da 
Republica ,  &  para  a  cojifervaçaõ^  &  aumento  da  Fé  5  fican- 
do aos  Mineiros  o  mais  do  Ouro ,  de  que  fe  tiraó  os  quintos?  1  < 
I     Segundo.  Porque  Filippe  II.  Rey  de  Caftella ,  depois 
de  ter  ouvido  o  parecer  dos  Theologos ,  .&  Confelheiros  di 
índia,  cfcreveo  refolutamente  ao  Viío-Rey  do  Peru  o  Conde 
deV  illar  no  anno  de  15  84-defta  forte :  Tpudierayo  cobrar  en- 
feramente  el quinto  de  todo  ellv :  (aíaber  ,  do  Ouro,  &  Prata 
lavrados  )  y  las  Per  fonas  ,  que  le  deben ,  efian.  obligadas  en  con* 
ciência  ame  lo  pagar.  O  que  naó  diria  de  fua  cabeça ,  contra  o 
carecer  dos  ditos  Theologos,  &  Confelheiros ,  íe  aíllm  o  nao 
tjveflTem  entendido,  como  refere  A vendanho no  ditocap.  8. 
n.  44.  &  traz  logo  em  confirmação  difto  a  Ley  de  Portugal  f 

pel^ 


«M 


&Opyknciado(Brafil.  157 

pela  qual  (como  diz  o  P.  Rebello)  fe  devem  os  quintos  a  El- 
Rey ,  antes  da  condenação  ou  fentença.  Diz  mais  Ayenda- 
nho  em  prova  de  que  fe  devem  os  quintos  em  confciencia , 
queaaímotemmaisdevinteAuthoresquealléga  :  entreos 
quaes  faó  Vafquez  >  Molina,  Lugo,  Rebello  ,  Azor ,  Leííio, 
Caítilho,Fragofo,  Sc  outros  quinze ,  todos  da  mefma.  opi- 
nião. Edealgims  quero  citar  as  palavras,  para  que  melhor 
coníteda  verdade ,  &  da  authoridade  das  Peííoas  ,  que  a-flim 

fentem.  .  :      * 

1  Vafquez  in  tra-ft.  de  Reftitutione  cap.5 .  jT  4-n-  50iait :  Ar~ 
bitror,quòdpr2edi£fex  leges  non  fundentur in prxfumptio- 
ne,  nec  pcenales  fint :  &  ita  nullâ  expe£tatâ  fententiâ  funt  ob« 
fervandx.  Et n.  29.  citat Covarruviam ,  Caietanum ■>  ôc  Na* 
varrum  ita  fentientes.  ; 

Lugo  tom.  r.dejuílitia&juredifp.ó.feíí;.  ii.n.i^i.diz: 
Âlix  autem  leges, qu^  poenales  non  funt,  potuerunt  quideim 
transferre  dominium  in  Fifcum  .*  ôc  ideò  videntur  in  con- 
fcientia  obligare  ante  omnem  fententiam  judieis. 

Molina  di£ta  difp.5 6.de  Juítitia  ôc  Jure  J.ultábi '■:  In  wte* 
riori ,  &  exterioriforo. 

Terceiro.  Porque  do  O  uro,  6t  da  Prata  fe  deve  pagar  a 

Dizimo,  cfomefmo  modo  que  dos  outros  frutos  da  Terra , 

como  eftá  provado  acima  com  os  Authores  que  traz  Solor- 

zano  tom.  2.  lib.  2,  xap.  2 1 .  n <  1  o.  U  o  prova  também  o  P  .Sua- 

reztom.i.deReligionelib.  1.  de  divino  cultucap.  34.  n. 3.6c 

&&  o  P.Tancredi  tra&.  1  .de  Religione  Jibd .  difp.  í  1 .  n.7 .  ex 

omnium  méte:ôc  fe  infere  ex  generali  difpoíltione  in  cap.Ná 

eft,  de decimis,ubi  illa habentur  verba  .*  Deommbus hórnsde^ 

cimafuntmimftris  Ecclefiambuend^iSc  ex  cap.Tranfmiíras 

êcexcap.Tuanobis.  Tendo  pois  os  Sumsnos  Pontifices  da- 

áo  os  Dizimos  do  Brafií,ôc  de  outrasConquiítas  aos  Reys  de 

Portugal ,  pelas  defpezas  que  fazia6 ,  ôc  fazem  nas meímas 

eoiaquiftas;,  & pelos-outíos motivos,  qallegáoemfitòsBuk 

fel 


**- 


mà  II 


■1 


11 


I 

■  I 

■Wfi  ' 


J$%  Cultura, 

Woquépodiaofazer,  Scdefafto  o  fizeraô  a  outros  Revi 
&Principes, pelas  razoens,  Scauthoridades,  quetrazerul 
d.tamemeSolorzano.com  as  mefmas  Bulias,  tom.  2.deín- 

°'ftfT  hy'hC&p-  "*  fe"ue-fe >  1™  <*mb™  &  lhes  dl 
ruo^ielheshaodepagarOsDizimosdoOuro,  &  Prata, 
que  das  minas  do  Brafil  fe  tirarem  :&  qne  affim  eftes ,  como 
os  Dízimos  dosoutros  frutosda  Wfe  lhes  deve  em  cont 
fíTnnr  f  V  d° **• MÍMS  dos  Reys  »  untando  aos  ga- 
o  S£  £le™r tlrar  °S  Metaes  •  naõ  trato»  ^  cobrar 
fnllTr  '  a  c°teBtem  coni  a  Penfao,  ou  tributo  do  Quin- 
^íon  4    P°t  Cíí  dlzerrlg°rofos » »* antesbenignos ,com0 

™  A/W°d^°"oh'gMc^°^-45-comFlgofôtom. 
i.pag.265.i-.AliJaddunf.  T7  5 

m  fií .  c?  £  fegue'  1ue  °  dizer  1lie  os  Quintos  do  O  w 
ro  feaeyem  a  El-Rey  em  confciencia  ,  he  a  opinião  verd.dei- 

teTSTrTf  mds  feSUra' affiffi  Prfos  motivos  intriu- 
tecosdosfeusfUndamentos;particularmente  pelos  quetraz 

th™- ví1TZ/"Sa  referÍdos '  como  PeIos  extrinfecos  da  au. 
thoj  idade  dos  Doutores  alkgados  ,  quefaóTheolosos  de 
grande  doutrina ,  &  ReUglí>  deixaJ0  „  ^^     £££ 

muito  duvidofa ,  muito  fraca ,  &  nada  fegu  ra.  E  que  os  Offi- 
çiaes  deputaaos  por  RURey  á  cobrança  dos  Quintos,  &  a  cu- 

h™  *  fl  ? '  tem  °°fW* iô  Srave  em  confciencia ,  de  fazer  « 
bem  ,&  fielmente  o  feuoflicio  i  &  que  naó  podem  diffimu^ 
fe?  graviffimos  prejuízos  ,  que  fe  fazem  ao  Património 
Real,  defraudadopor culpa delles,  de  muito  lucro  ;  rece- 
bendoeíhpendio  do  mefmo  Rey ,  que  tem  a  fua  tencáó  bem 
tundada,  para  que  com  fidelidade  façaÓ  feu  oflicio.  ItaAven-* 

QantlOn.48» 

-  Q  qual  porém  M6.  hede  opinião,  que  a  prohibiçaõ  de 
negoaarcomOuroempó,  naõ  obriga  em  confeien cia,  co- 
mo obriga  a  Le y  de  pagar  os  Quintos  ;  mas  que  o  dito  Ouro 
empo.p^ila  cora  a  mekna  obrigação  de  ler  quintado  a  quem 

quer' 


Ci>  Opulência  dó  Bra/il.  i$> 

«|tierquevay,  até  íè  fatisfazer  a  eíta  intrinfeca  obrigação.  E; 
com  ifto  mais  fe  confirma  o  que  eftá  dito  daLeydosQun> 
tos,  por  fer  difpofitiva,  •&•  penal ;  porque  em  quanto  be  dif- 
poíitiva  do  que  fe  deve  de  j  uftiça  a  El-Rey ,  que  faõ  os  Quin- 
tos  ^  obriga  em  confciencia :  &  em  quanto  he  penal  ,  faz  que 
a  pena  dos  transgreflbres  náó  fe  deva  em  confciencia,  fenaó 
depois  da  fentença.  Em  húa  palavra:  o  Quinto  femprefe  de- 
ve de  juítiça;  ôc  a  perda  dafazenda,^  o  degredo,ió  poíl  fen- 
tentiam.  : 

CAPITULO    X. 

'Koteiro  do  caminho  da  fâllade  Sati  Paulo  para 

4& Minas  Germes,  ©^  para  o  Rio  das 

f^elbas* 

Àílaó comummente  osPauliftasdefdeaVílía  de  SáÔ 
J  Paulo  até  as  Minas  Geraes  dos  Cataguâs  pelo  menos 
» dous  mezes :  porque  naó  marchaó  de  Sol  a  Sol,  mas  até  o  mè- 
yo  dia  j  &  quando  muito  até  húa ,  ou  duas  horas  da  tarde :  af~ 
ílm  para  fè  arran charé,  como  para  teré  tépodedéfcançar,$: 
de  bufcar  alguma  caça ,  ou  peixe ,  aonde  o  ha ,  mel  de  pao,  Sc 
outro  qualquer  mantimento»  E  deita  forte  aturaõcomtam 
grande  trabalho.  - 

■  O  Roteiro  do  feú  caminho  dèfdè  aVilla  dè  Saõ  Paulo  até 
a  Serra  de  Itatiaya,  aonde  fé  divide  em  dous  j  hum  para  às 
Minas  do  Coatê,  ou  Ribeiràõ-de  NoíTa  Senhora  dó  Carmo, 
■&  do  Ouro  Preto  •,  &  outro  para  as  Minas  do  Rio  das  Ye* 
lhas  i  he  ofeguintei  em  queie  apontaé  es3>ouíòs>&  paragens 


1 


■li 

HII 


160  Cultura  9 

do  dito  caminho,  com  as  diftancias  que  tem ,  Sc  os  dias  que> 
pouco  mais  ou  menos  fe  gaftaõ  de  húa  Eftalagem  para  outra , 
em  que  os  Mineiros  poufaõ ,  &  fe  he  neceííario  defcançaõ .  & 
fe  refazem  do  quehaòmifter  3  ôc  hoje  fe  acha  eni  taes  pa- 
ragens. 

».  No  primeiro  dia  fahindo  da  Villa  deSaõ  Paulo  vaõ  or- 
dinariamente a  poufar  em  Noíía  Senhora  da  Penha ,  por  fer 
{. como  elles  dizem)  o  primeiro  arranco  de cafa  :  Scnaóíaó 
mais  que  duas  legoas. 

Dahivaõà  Aldeã  deTacuaquifetúba,  caminho  de  hum, 
jdia.  '.-.... 

Gaftaõ  da  dita  Aldeã  atè  a  Villa  de  Mogi  dons  dias. 

De  Mogi  vaõ  ás  Larangeiras,  caminhando  quatro  ou  cin- 
co dias  atè  o  jantar. 

Das  Larangeiras  atè  a  Villa  de  Jacarey  hum  dia  até  ás 
três  horas.  | 

De  Jacarey  até  a  Villa  de  Taubatê  dous  dias  até  o  jantar, 

DeTaubatêaPindamonhangâba,Fréguezia  de  NoíTa 
Senhora  da  Conceição,  dia  &  meyo, 

DePindamonhangâbaatéaVilla  de  Guiratínguetâ  cin- 
coou  féis  dias  atè  o  jantar. 

De  Guiratínguetâ  até  o  Porto  de  Guaipacarê ,  aonde  fi- 
caõ  as  Roças  de  Bento  Rodriguez ,  dous  dias  atè  o  jantar. 

Deitas  Roças  atè  o  pé  da  Serra  afamada  de  Amantiquíra, 
pelas  cinco  Serras  muito  altas  ,  que  parecem  os  primeiros 
Muros  3  que  o  Ouro  tem  no  caminho^  para  que  naõ  cheguem 
lá  os  Mineiros,  gaítaõ-fe  três  dias  atè  o  jantar. 

Daqui  começaõ  a  parTar  o  Ribeiro  5  que  chamaõ  PaíTa- 
vinte ,  porque  vinte  vezes  fe  paíTa }  &  fe  fobe  ás  Serras  fobre- 
/ditas :  para  paífar  as  quaes  3  fe  defcarregaó  as  Cavalgaduras, 
pelos  grandes  rifcos  dos  defpenhadeiros  s  que  fe  encontrão: 
.6c  a  (Tini  gaftaõ  dous  dias  em  paílar  com  grande  difficuldada 
eftas  Serras  -,  8c  dahi  fe  defcobrem  muitas ,  Sc  aprazíveis  ar- 
vores 


&  Opulência  do  TSrafít.  i  £i 

,VoresdePinhcens,que  a  íeu  tempo  daõ  abundância  dellei 
para  o  fuftento  dos  Mineiros,  como  também  Porcos  monte* 
zes ,  Araras,  &Papagayos.  o-  ^  \      . 

<  ■  Logo  paflando  outro  Ribeiro  que  chamao  Faíia-trinta , 
porque  trinta  &  mais  vezes  fe  pafla ,  fe  vay  aos  Pinheirinhos: 
lugar  affim  chamado,  por  Ter  o  principio  delles :  &  aqui  ha 
Roças  de  Milho ,  Abóboras ,  &  Feijaõ ,  que  faõ  as  Lavouras 
feitas  pelos  defcobridores  das  Minas ,  &  por  outros,  que  por 
ahí  querem  voltar.  E  fó  difto  conílaó  aquellas,  &  outras  Ro- 
ças nos  caminhos ,  &  paragens  das  Minas :  &.  quando  muito, 
tem  de  mais  algumas  Batatas.  Porém  em  algumas  delias  ho- 
je acha-fe  creaçaõ  de  Porcos  domefticos,  Gallinhas ,  &  Franw 
çãos ,  que  vendem  por  alto  preço  aos  Paflageiros ,  levantan- 
do-o  tanto  mais,  quanto  he  mayor  a  neceíTtdade  dos  que  paf- 
faó.  E  dahi  vem  o  dizerem ,  que  todo  o  que  paflbu  a  Serra  d© 
Ainantiqulra,  ahi  deixou  dependurada ,  ou  fepultada  aconk 

cLonciâ.  '  T 

Dos  Pinheirinhos  fe  vay  á  Eftalagem4o  Rio  Verde ,  eni 
oito  dias ,  pouco  mais ,  ou  menos ,  até  o  jantar :  &  efta  Efta  la 
gem  tem  muitas  Roças, •:&  Vendasde  coufas  comeftiveis, 
íèm  lhe  faltar  o  regalo  de  doces.  ?  i 

Dahi  caminhando  três  ou  quatro  dias ,  pouco  mais ,  ou 
menos,  atè  o  jantar,  fe  dá  na  afamada  Boa  Viftaj  a  quem  bem 
fe  deo  efte  nome ,  pelo  que  fe  defcobre  daquelle  Monte ,  que 
parece  hum  Mundo  novo,  muito  alegre  :  tudo  campo  bem 
eftendido,&  todo  regado  de  Ribeirões  ,  hunsmayores  que 
outros  j  &  todos  com  feumatto,  que  vay  fazendofombra, 
com  muy  to  Palmito.que  fe  come,  &  Mel  de  pao,  medicinal, 
êcgoftofo.  Tem  efte  Campo  feus  altos,  &  baixos  >  porém 
moderados  :  &  por  ellefe  caminha  com  alegria;  porque  tem 
os  olhos,  que  ver,  &  contemplar  na  profpediva  do  Monte 
Caxambu ,  que  íé  levanta  ás  nuvens  com  admirável  altura. 

Da  Boa  Vifta  fe  vay  i  Eífcalagem  chamada  Ubay,  aonde 
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|?l  Cultura , 

também  ha  Rofas:&feráõ  oitodias  de  caminho  moderado 
tteojantar. 

Do  Ubay ,  em  três  ou  quatro  dias  vaõ  ao  Ingay. 
■  Do  Ingay ,  cm  quatro  ou  cinco  dias  fe  vay  ao  Rio  Gran: 
de }  o  qual  quando  cftá  cheyo  j  caufa  medo ,  pela  violência 
com  que  corre :  mas  tem  muito  peixe ,  &  Porto  com  Canoas 
&  quem  quer  paliar,  paga  três  vinténs :  &  tem  também  perto 
luas  Roças. 

Do  Rio  Grande  fe  vay  em  cinco  ou  féis  dias  ao  Rio  das 
Mortes,  aífim chamado  pelasqnelle  fefízeraõ.-ôceftahea 
principal  Eftalagem,  aonde  os  Paflageiros  fe  refazem  ,  por 
chegarem  jà  muito  faltos  de  mantimentos.  EnefteRio,  6c 
nos  Ribeiros,  &  Córregos,  que  nelle  daó ,  ha  muito  Ouro, 
Sc  muito  fetem  tirado ,  &  tira :  &  o  lugar  he  muito  alegre ,  Sc 
capaz  de  fefazer  nelle  morada eftavel,  fenaõ  foíTe  tam  lon- 
ge do  Mar. 

Deita  Eftalagem  vaõemfeis  ou  oito  dias  ás  Plantas  de 
Garcia  Ro  driguez. 

E  daqui ,  em  dous  dias  chegão  á  Serra  de  Itatiâya. 

Defta  Serra  feguem-fc  dous  caminhos :  hum ,  que  vay  a 
'dar  nas  Minas  Gcraes  do  Ribeirão  de  NoíTa  Senhora  do  Car- 
mo ,  Sc  do  Ouro  Preto  -,  Sc  outro ,  que  vay  a  dar  nas  Minas  do 
Rio  das  Velhas  :  cada  hum  delles  de  féis  dias  de  viagem.  E 
defta  Serra  também  começaõ  as  Roçarias  de  Milho ,  &  Fei- 
jão ,  a  perder  de  vifta,  donde  íe  provém  os  que  afHftem ,  &  la- 
vraõ  nas  Mina». 


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&  Opulência  do  Jira/S.  x  <S) 


CA    PITU    LO     XI. 

Roteiro  dó  Caminho  velbo  da  Cidade  do  Rio 
Janeiro  fará  as  Minas  Geraés  dos  Ca* 
tagvâs}&  do  Rio  das^  falhas.  ( 


EM  menos  de  trinta  dias ,  marchando  de  Sol  a  Sol ,  po-í 
dem  chegar  os  que  partem  da  Cidade  do  Rio  de  Janei- 
ro ás  Minas  Geraes  :  porém  raras  vezes  íuccede  poderem  fe* 
fuir  efta  marcha  3  por  fer  o  caminho  mais  aípero  ,  que  o  dos 
'auliítas.  E  por  relação  de  quem  a  ndou  por  elle  em  compa- 
nhia do  Governador  Artur  de  Sá,  he  o  feguinte.  Partindo  aos 
23.de  Agofto  da  Cidade  do  Rio  de  Janeiro  foraó  a  Paratijs. 
De  Paratijs  a  Taubatê.  De  Taubatê  a  Pindamonhangâba.Dc 
Pindamonhangâba  a  Guaratingaetâ.  De  Guaratingaetâ  ás 
Roças  de  Garcia  Rodriguez.  Deitas  Roças  ao  Ribeirão.  E 
do  Ribeirão  com  oito  dias  mais  de  Sol  a  Sol  chegarão  ao  Ria 
das  Velhas  aos  29.  de  Novembro :  havendo  parado  no  cami- 
nho oito  dias  em  Paratijs  i  dezoito  em  Taubatê  5  dous  em 
Guaratingaetâ  ^  dous  nas  Roças  de  Garcia  Rodriguez  ;  8c 
vinte  ôc  íeis  no  Ribeirão  y  que  por  todos  laó  cincoenta  &  féis 
dias.  E  tirando  eftes  de  noventa  8c  nove ,  que  fe  contaõ  defdc 
23.de  Agoftoate  29.  de  Novembro  5  vieraò  a  gaitar  neil:ec% 
minho  nao  mais  que  quarenta  ôc  três  dias. 


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C   AP   I   T   U   LO    XII. 

Roteiro  do  Caminho  novo  da  Cidade  do  Rio  de  f  4+ 
neiro  fará  as  Minas. 

PArtindo  da"  Cidade  do  Rio  de  Janeiro  por  terra  com 
gente  carregada,  &  marchando  á  Paulifta ,  a  primeira 
jornada  fe  vay  a  Irajá :  a  fegunda  aoEngenho  do  Alcaide  Mór 
Thomé  Corrêa  :  a  terceira,  ao  Porto  do  Nóbrega  no  Rio 
Iguaçu  5  onde  ha  pafiagem  de  Canoas,  &:  Saveiros :  a  quarta, 
ao  Sitio ,  que  chamaõ  de  Manoel  do  Couto. 

E  quem  vay  por  mar  em  embarcação  ligeira ,  em  hum  dia 
fe  põem  no  Porto  da  Freguezia  de  NoíFa  Senhora  do  Pilar: 
&c  em  outro,  em  Canoa,  fubindo  pelo  Rio  Morobaí  acima  , 
ou  indo  por  terra,  chega  pelo  meyodia  ao  referido  Sitio  do 
Couto. 

Deííefevay  à  Cachoeira  do  Pé  da  Serra,  &fe  poufa  cm 
ranchos.  E  daqui  fe  fobe  à  Serra ,  que  faõ  duas  boas  legoas  : 
&:  decendo  o  cume,  fe  arrancha  nos  Poufos ,  q  chamaõ  Frios. 
No  dito  cume  faz  humTaboleiro  direito,  em  que  fepóde 
formar  hum  grande  Batalhão  :  &  em  dia  claro,  he  Sitio  bem 
fermofoi  &  fe  defcobre  delle  o  Rio  de  Janeiro,  &  inteiramen- 
te  todo  o  f eu  Recôncavo. 

-.  Dos  Poufos  Frios  fe  vay  á  primeira  Roça  do  Capitão 
Marcos  da  Coita  :  &  delia  em  duas  jornadas  á  fegunda  Ro. 
ça ,  que  chamaõ  do  Alferes. 

Da  Roça  do  Alferes ,  em  húa  jornada  fe  vay  ao  Pao  Gran- 
de, Roça  que  agora  principia ,  &  dahi  fe  vay  ao  poufar  no 
tnattoaopè  de  hum  Morro  ,  que  chamaõ  o  Cabarú. 

'  *~1  "  ~  Dcftcf 


C>  Opulência  do  'Bra/tl.  i 6 5 

t>efte  Morro  fe  vay  ao  famofo  Rio  Paraíba  ,  cuja  patifa 
^em  he  em  Canoas.  Da  parte  dàquem  ,  eítá  húa  venda  de 
Garcia  Rodriguez,6c  ha  baftantes  Ranchos  para  os  Paflagei. 
ros:  &  da  parte  dalèm,eítà  a  Caía  dodito  Garcia  Ródriguez, 
com  larguiílimas  Roçarias. 

Daqui  fe  pafia  ao  Rio  Paraibúna  em  duas  jornadas:  a  pri- 
meira no  matto }  $3  a  fegunda  no  Porto ,  onde  ha  Roçaria  j  ôc 
venda  importante,  6c  Ranchos  para  os  PaíTageiros  de  húa  , 
Ôc  outra  parte.  He  efte  Rio  pouco  menos  caudalofo ,  que  o 
Paraíba:  patifa- fe  em  Canoa.  _ 

Do  Rio  Paraibúna  fazem  duas  jornadas  á  Roça  do  Con- 
trafte  Simaõ  Pereira :  6c  o  poufo  da  primeira  he  no  matto.  Da 
Roça  do  dito  Simaõ  Pereira  fe  vay  á  de  Mathias  Barbofa :  & 
dahiàRoçade  António  de  Araújo  :  6c  deita  à  Roça  do  Ca- 
pitão Jofeph  de  Soufa>  donde  fe  paífa  à  Roça  do  Alcaide 
MórThomè  Corrêa.  Da  Roça  do  dito  Alcaide  Mórfe  vay 
a  húa  Roça  nova  do  Azevedo  :  6c  dahi  à  Roça  do  Juiz  da 
Alfandega  Manoel  Corrêa  :  6c  deftaà  de  Manoel  de  Araújo. 
E  em  todas  eítas jornadas  fe  vay  fempre  pela  vizinhança  do 

Paraibúna. 

Da  Roça  do  dito  Manoel  de  Araújo  fe  vay  á  outra  Roei- 

nhadomefmo. 

Deita  Rocinha  fe.  patife  à  primeira  Roça  do  Senhor  Bif- 
po  :6c  dahi  à  fegunda  do  dito'. 

Da  fegunda  Roça  do  Senhor  Btfpo  fazem  húa  jornada 
pequena  à  Borda  do  Campo  à  Roça  do  Coronel  Domingos 
Rodriguez  daFoníeca, 

Quem  vay  para  o  Rio  das  Mortes  ,  patife  deita  Roça  à  de 
Alberto  Dias  :  dahi  à  de  Manoel  de  Araújo,  que  chàmaó  da 
Refaça :  &  deita  á  Ponta  do  Morro  ,  que  he  Arrayal  baftan* 
te,  com  muitas  Lavras,  donde  fe  tem  tirado  grande  copia  de 
ouro :  6c  ahi  eftàhum  Fortim,  com  trincheiras ,  6c  foflo ,  que 
fizeraóos  Emboabas  no  primeiro  levantamento.  Deite  lugar 


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fevay  jantar  ao  Arrayal  do  Rio  das  Mortes* 
:    E  quem  fegue  a  eftrada  das  Minas  Geraes3da  Roça  fobre- 
dita  de  Manoel  de  Araújo  da  Refaça  do  Campo,  vay  àRo 
çji  qucchámaõ  deJoaÕBautifta  :  dahi  à  dejoaô  da  Silva 
Coita  :  &  deíla  á  Roça  dos  Congonhas  junto  ao  Rodeyod*; 
fcatiaya :  da  qual  fe  palia  ao  Campo  do  Ouro  Preto  \  onde  ha 
varias  Roças  j  &  de  qualquer  delias  he  húa  jornada  pequena 
ao  Arrayal  do  Ouro  Preto,  que  fica  matto  dentro,  onde  eílaõ 
as  Lavras  do  Ouro. 

Todas  as  referidas  marchas  faraó  diftancia  de  oitenta  le 
goas,  arefpeitodosrodeyos  ,  que  fe  fazem  em  razaõ  dos 
muitos,  ■&  grandes  Morros :  &  por  rumo  de  Norte  a  Sul  naõ ; 
iaó  mais  que  dous  grãos  de  diftancia  ao  Rio  de  Janeiro-  por- 
que^ Ouro  Preto  eftà  em  vinte  &  hum  grãos }  &  oRiodas 
V elhas  eftarà  em  vinte  ,  pouco  mais  ou  menos,  E  todo  o  dito 
caminho  f  e  pode  andar  em  dez  até  doze  dias,  indo  efcoteiro 
quem  for  por  elle. 

Do  Campo  do  Ouro  Preto  ao  Rio  das- Velhas  faõcínco 
jornadas,  poufandofempre em  Roças. 


C   A   P   I    T   U  LO     XIII. 

Roteiro  do  Caminho  da  Cidade  da  Bahia  çarà 
as  Minas  do  Rio  das  falhas. 


PArtindoda  Cidade  da  Bahia ,  a  primeira  poufada  he  na 
Cachoeira:  da  Cachoeira  vaô  à  Aldeã  de  Santo  António 
de JoaÕ  Amaro ;  &  dahi  à  Tranqueira.  Aqui  divide-fe  o  ca- 
minho :  &  tomando-o  à  maõ  direita ,  vaõ  aos  Curraes  do  Fil- 
gueira  longo  à  nacença  do  Rio  das  Raás  .Dahi  paíTaõ  ao  Cur- 
ral do 


€>■  Opulência  dõ  TBrafiL 

faldoCoronel  AntòniQ  Vieyra  Lima :  6cdei&Gurràlvaõa© 
Arrayal  de  Mathias  Gardofo.  ,n      >■>  :   ? 

Mas  fe  quizereni  fegUir  o  caminho  à  maõ  efquerda  :  chew 
gando  à  Tranqueira ,  metem-fe  logo  no  caminho  novo ,  6g 
mais  breve ,  que  fez  Joáõ  Gonçalvez  do  Prado*  6c  vaõ  adian- 
te até  a  nacença  do  Rio  Verde.  Da  dita  nacença  vaõ  ao  Garn^ 
po  da  Garça :  6c  dahi  fubindo  pelo  Rio  acima  vaõ  ao  Arrayal: 
do  Borba  ,  donde  brevemente  chegaõ  às  Minas  Geraes  do 

Rio  das  Velhas.  v       J;         . 

Qs  que  feguíraõ  o  caminho  da  Tranqueira  à  maó  direi- 
ta >  chegando  ao  Arrayal  de  Mathias  Gardofo,  vaõ  longo  do 
Rio  de  Saó  Francifco  acima ,  até  darem  na  Barra  do  Rio  das 
Velhas :  6c  dahi,  como  eftà  dito*  logo  chegaõ  às  Minas  do 
mefmoRio.  *  % 

Mas  porque  nefta  jornada  da  Bahia  huns  caminhão  até  o 
meyodia,  outros  até  às  três  da  tarde,  6c  outros  de  Sol  a  Sol: 
porey  âdiítancia  certa  por  legoas  deftes  douscaminhos  da 
Bahia  para  as  Minas  do  Rio  das  Velhas ,  que  heta  feguinte. 

Da  Cidade  da  Bahiaatè  a  Cachoeira  doze  legoas. 

Da  Cachoeira  atè  a  Aldeã  déjoaõ  Amaro  vinte  &  cinco 

legoas. 

Da  Aldeã  de  Joaõ  Amaro  até  a  Tranqueira  quarenta  8c 

três  legoas.  - 

:      Da  Tranqueira  caminhando  à  maó  direita  até  o  Arrayal 

de  Mathias  Gardofo  cincoenta  6c  d  uas  legoas. : 

.-)    Do  Arrayal  de  Mathias  Gardofo  atè  a  Barra  do  Rio  da* 

Velhas  cincoenta  6c  quatro  legoas. 

Da  Barra  do  Rio  das  Velhas  atè  o  Arrayal  do  Borba^on- 
de  eftaõ  as  Minas ,  cincoenta  6c  hua  legoas.  E  faõ  por  todas,- 
duzentas  8c  trinta  6c  fete  legoas.  '     -y 

<     Tomando  o  caminho  da  T  ranqueira  á  maõ  efauerda ,  q 
da  Bahia  atè  ahi  confta  de  oitenta  legoas  :  faõ  da  Tranqueira) 
atè  à  nacença  do  Rio  Giurarutibatrintá6e  três  legoas,     - 
Viu       '^  L4 


- 

Da 


*68  LfíUmaj 

Da  dita  naccnça  atè  o  ultimo  Curral  do  Rio  das  Velhas 
quarenta  &  féis  legoas. 

^Defte  Curral  atèo  Borba  vinte  &  fete  legoas.  E  faõpor 
todas ,  cento  &  oitenta  &  féis  legoas,. 

Eftecaminho  da  Bahia  para  as  Minashe  muito  melhor, 
qucodo Riode Janeiro, ôcoda  Villa de Saõ  Paulo:  porque 
poito  que  mais  comprido,he  menos  difficultofo,  por  fer  mais 
aberto  para  as  Boyadas,  maisabundante.para  ofuftento,  & 
mais  accommodado  para  as  Cavalgaduras,  &  para  as  cardas  i 


CA   P  I  T  U   L  O     XIV. 

Modo  de  tirar  o  Ouro  das  Minas  do  Braftl, 

&*  Ribeiros  delias  ,   obfervado  de  quem 

jgsllas  a/Jtftio  com  o  Governador 

Artur  de  Sà. 

1J  Orcy  aqui  a  Relação  ,  que  o  mefmo  Auaior  meman- 
.  dou,  Scheafcguintc.  Conforme  as  difpoíiçoens ,  que 
vi  peífoalmente  nas  Minas  do  Ouro  de  SaÓ  Paulo,  affimnas 
Lavras  de  agua  dos  Ribeiros,  como  nas  da  Terra  contigua 
a  elks  5  direy  brevemente  o  que  pôde  bailar,  para  queoscu- 
noíos  Indagadores  da  Natureza  mais  facilmcnteconheçaô 
cm  fuás  experiências ,  que  Terra ,  &  que  Ribeiros  poflaõ  ter, 
ounaõtcr  Ouro.  Primeiramente  em  todas  as  Minas ,  que  vi, 
ôcemqueaffiftí,  note y  que  as  Terras  faómontuofas,  com 
berros,  &  Montes,  que  íe  vaó  às  nuvens  >  por  cujos  centros 
correndo  Ribeiros  de  baftante  agua  ,  ou  Córregos  mais  pe- 
quenos, cercados  todos  de  arvoredo  grande  6c  pequeno,  em 

todos l 


&  Opulência  dó  *BrâjiL  i  èp 

todos  eítes  Ribeiros  pinta  Ouro  com  mais ,  cai  menos  abun- 
dância. Osfinaes,  por  onde  fe  conhecerá  fe  o  tem  *  faõ>  naõ; 
terem  áreas  brancas  à  borda  da  agua ,  íenaó  huns  feixos  miú- 
dos ,  8c  pedraria  da  mefmacafta  na  margem  de  algumas  pon- 
tas do&Ribeiros :  Sc  efta  meumformaçaõ  de  pedras  leva  por 
debaixo  da  Terra.  E  começando  pela  Lavra  defta ,  fe  o  Ri- 
beiro depois  de  examinado  com  íbcavaõ  f  aifeou  Ouro,  he  fi- 
nal infallivel ,  que  o  tem  também  a  Terra :  na  qual  dando ,  ou 
abrindo  Catas ,  Sc  cavando-a  primeiro  em  altura  de  dez,  mm 
te,  ou  trinta  palmos*  emfeacabando  de  tirar  efta  Terra ,  que 
de  ordinário  he  vermelha,  acha-fe  logo  hum  pedregulho  ,á 
que  chamaõ  defmonte ,  &  vem  a  fer  feixos  miúdos  com  área,, 
unidos  de  tal  forte  com  a  Terra ,  que  mais  parece  obra  artifi- 
cial j  do  que  obra  da  Natureza  .-ainda  que  também  fe  acha  al- 
gum defmonte  dèfte  folta,  6c  naõ unido»  &  com  raais3  ou  me- 
nos altura.  Efte  defmonte  rompe  fe  comalabancas  :Sc  fe  aca<- 
fo  tem  Ouro ,  logo  nelle  começa  a  pintar ,  ou  (como  dizem) 
a  faifcar  algumas  faifcas  de  Ouro  na  batea  r  lavando  o  dito 
defmonte:  Mas  ordinariamentev  fe  pintou  bem  o  defmonte^ 
he  final ,  que  a  piçarra  terá  pouco  ,oumenhum  Ouro :  &  di* 
go  ordinariamente ;  porque  naó  ha  regra  fem  exceíça5* 

Tirado  fora  o  defmonte  j  que  às  vezes  tem  altura  de  mais 
áèbraça  jfegue-feocafcalho:  Sc  vem  a  fer  huns  feixos  mayo- 
fes ,  Sc  alguns  de  bom  tamanho ,  que  mal  fe  podem  virar }  Se 
tam  queimados ,  que  parecem  de  chaminé.  E  tirado  efte  cate 
calho ,  apparece  a  piçarra ,  ou  piçarracr,  que  he  duro  ,  Scdk 
pouco:  8c  eftehe  hum  barro  amarello,  ou  quafi  brancormt ' 
to*nado  ;  &  o  branco  he  o  melhor  :8calgum<Íeftefeacb 
que  parece  talco,  ou-maracaxetai  a  qual  ferve  como  de  ca 
aonde  eftà  o  Ouro.  E  tomando  comalmocafres  nas  batcà* 
efta  piçarra  r 8c também  aterra ,  que  eftà  entre  ocafcalho  ,/fe 
vay  lavar  ao  Rio :  Sc  botando  fora  aterra  coma  mefma  batea? 
^andandojeonvelk  i roda  dentro  da  agua  pouco  a  pouco  5  o 

-  '  '-  Ouro 


—       «■      — 


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*7®  í/UUwr  a  $ 

Ouro  (  fe  o  tem  )  vay  ficando  no  fundo  da  batea :  ate  que  la* 
vada  toda  a  batea  da  terra ,  pelo  Ouro ,  que  fica ,  fe  vè  de  que 
pinta  he  a  Terra. 

AJgua  Terra  ha ,  que  toda  pinta }  outra  fó  em  partes :  &  a 
cada  paíío  fe  eftá  vendo  ,  que  as  Catas  em  hua  parte  pintaó 
bem }  &  em  outras  pouco ,  ou  nada.  Jà  fe  a  Terra  tem  Veey- 
ro ,  que  he  0  mefmo  que  hum  caminho  eílreito  3  &  feguido, 
por  onde  vay  correndo  o  Ouro  ;  certamente  naõ  pinta  pelas 
mais  partes  da  Cata3  &  f e  vay  entaõ  fèguindo  o  Veey  ro  atraz 
do  Ouro:  &  eiras  de  ordinário  faõ  as  melhores  Lavras,quãdo 
o  Ouro  pega  em  Veeyros,  onde  fe  encontrão  com  grandeza* 
&  he  final  3  que  toda  a  Data  da  Terra ,  para  onde  arremete  o 
Veeyro ,  tem  Ouro.  As  Catas  ordinárias ,  que  fe  daõ  em  ter- 
ra ,  faõ  de  quinze  ,  vinte ,  &  mais  palmos  em  quadra ;  Sc  po- 
dem fer  mayores ,  ou  menores ,  conforme  dà  lugar  a  terra.  E 
fe  junto  dos  Ribeiros  a  terra  faz  algum  taboleiro  pequeno, 
(porque  ordinariamente  os  grandes  naõ  provaó  bem)  eíta  he 
a  melhor  paragem  para  fe  lavrar.  Pofto  que  o  comum  do  Ou- 
ro  he  eftar  ao  livel  da  agua-  vi  muitas  Lavras  (  &  naõ  das  pe- 
yores)  que  naõ  guardaõ  eíta  regra  ,  fenaõ  que  ao  Ribeira 
hiaõ  fubindo  pelos  Outeiros  acima,com  todas  as  difpoíiçoés, 
que  temos  dito ,  de  cafcalho  &c.  mas  naõ  he  ifto  ordinário. . 

Atè  aqui,  o  que  toca  às  Lavras  daTerrajunto.daagua  • 
porém  as  dos  Ribeiros,  fe  elles  faõ  capazes  de  fe  lhes' poder 
«defviar  a  agua,  fe  lavraõ divertindo  eíta  por  hua  banda  do 
mefmo  Ribeiro  5  com  cerco  feito  de  paos  muy  direito }  deita- 
dos huns  fobre  outros  com  eftacas  bem  amarrados ,  feito  era 
forma  decano  poi  hua ,  &  outra  parte ,  para  que  fe  pOíía  en- 
tupir de  terra  por  dentro ,  do  modo  que  aqui  fe  vè» 


i   ;    • 
Mar- 


&•  Opulência  do  TZraJíl. 


Margens 


Margens 

Iílo  fe  entende  ]  quando  fe  nao  pode  defvíar  todo  o  Ri- 
beiro para  outra  parte  :  para  o  que  raras  vezes  daõ  lugar  os 
Serros.  Divertida,  &efgotadaaaguacomasbateasJ  oucu- 
yas  jíe  tira  o  cafealho ,  ou  feixos  grandes ,  &  pequenos  r  que 
na  agua  naõ  he  muy  alto,  6r  fe  dá  cõ  a  piçarra :  vé-fe ,  fe  o  Ou- 
ro denianda  para  a  Terra  depois  de  lavada  a  Cata ;  ôc  fe  buf- 
ca  aTerra ,  entrando  porella ,  &  fe  vay  feguindb  ,&:  abrin- 
do Catas ,  húas  fobre  outras .  E  ordinariamente  fe  deve  pro- 
var feriíprè  em  primeiro  lugar  o  Ribeiro  dentro  daMadre  an- 
tes de  lavrar  na  Terra ,  para  ver ,  fe  tem  Ouro :  porqfe  orem, 
quafi  fempre  o  ha  de  haver  em  terra  com  mais  y  ou  menos 
abundância.  E  muitas  vezes  fuecede  f  como  fe  vio  nas  mais< 
das  Lavras  de  C5aburàbucú)  que  pintando  muy  pouco  na 
agua  5  ou  Madre  >  enrmuitas  Lavras  fora  da  agua  fe  deo  com 
muito  Ouro. 

For  tanto  para  fe  examinar  5  fe  hum  Ribeiro  tem  Ouro v 
vendo-lhe  as  difpofíçoens  ,  que  temos  dito  entre  a  agua ,  Sc 
a.  Terra  ,  fe  dará  hum  focavaõ  de  fete  s„  ou  oito  palmos 
em  quadra  ,,  atè  chegarão  cafealho,  ôc  piçarra-,  &fefaif- 
Car,  he  final,  qxieeni  terra,  8wia  agua  ha  Ouro:  6c  pelas  pin- 
tas 


!,*  I 


IjM  Cultura, 

tas  deites  focâvoèns  fe  conhecerá  ,  fe  faó  de  rendimento.' 
Nem  neítas  Minas  fe  repartem  Ribeiros,  fem  ferem  primeiro  r 
examinados  com  eftes  focavoens  junto  da  agua.  Nos  Ribei- 
ros ,  onde  ha  área  pelo  meyo  ,  &  a  naõ  ha  nas  barranceiras , 
também  fe  acha  Ouro  ,  havendo  cafcalho  :  aífim  também 
nos  Ribeiros,  onde  ha  área  por  entre  pedras,  fe  acha.  O  efmc- 
ril  acha-fe  com  área  preta  entre  o  Ouro :  &  em  qualquer  par- 
te que  fe  acha  efmeril,  tendo  o  Ribeiro  cafcalho,  ha  Ouro. 

Quando  o  Ouro  corre  em  Veeyro,  de  ordin  ario  corre  di- 
reito do  Ribeiro  para  a  Terra  adentro  :  &  no  mefmo  Ribei- 
ro fe  fucceder  acharem-íe  muitos  Veeyros,  feráõ  diítantes 
huns  dos  outros  ;  &•  fuppofto  que  perto  do  Veeyro  fe  ache 
formação }  com  tudo  fó  no  Veeyro  fe  acha  mais  Ouro.  Tam- 
bém fe  àchaõ  muitos  Teixos  com  granitos  de  Ouro. 

Eíias  faó  algúas  das  coufas  >  que  fe  podem  dizer  deftas* 
Minas,  para  que  fe  pofla  por  aqui  fazer  exame  em  alguns 
Ribeiros ,  aonde  fe  fufpeita,  que  haverá  Ouro.  Naõ  deixarey 
com  tudo  de  referir  aqui  também  o  que  vi  no  famofo  Rio  das 
Velhas  j  porque  parece  fora  de  toda  a  regra  do  Mineral.  Em 
humapeninfula  ,  que  da  terra  entra  no  Rjo,  quaíi  atè  o  meyo, 
em  que  com  as  çheas  fica  toda  cuberta  de  agua,  vi  lavrar  dous 
Córregos  pequenos ,  juntoda  aguajos  quaes  abrindo-fe  com 
ajabancas ,  eraõ  todos  de  hum  piçarraõ  duro,  &  claro :  8c  por  < 
entre  elle  fem  fe  ir  lavar  ao  Rio  ,foy  tal  a  grandeza  do  Ouro, 
de  que eítavaõcheyos ,  que  fe  eftava  vendo  em  pedaços ,  Sc 
granitos  nas  mefmasbateas.  Ebateada  houve,  emquefeti- 
jravaó  de  cada  vez  quarenta ,  cincoenta , &  mais  oitavasj  fen- 
do as  ordinárias ,  em  quanto  fe  lavraõ ,  de  oito,  &  mais  oita- 
vas. Ainda  que  lavrando-fe  depois  pela  Terra  adentro  na 
mefma  peninfula ,  foy  diminuindo  cada  vez  mais  a  pinta  j  8c 
•foraõlogo  appareçendo  ,as  difpofiçoenstodas  ,  que  temos 
dito ,  de  terra,  defmonte,  cafcalho,  Sc  piçarra }  que  naõ  ha  re- 
.^ra,cpmojà  diflè,  fem  exceiçaó :  6c  muitas  vezes  naõ  dá  com 

Ouro 


&•  Opulência  dç  'Brafil.  1 75 

wrãtõ  quem  mais  cava ,  fenaõ  quem  tem  mais  fortuna.  Tam- 
pem fe  acha  muitas  vezes  húa  difpofiçaõ  de  defmonte,  que  fe 
chama  Tapahhuacanga ,  q  vai  o  mefmo  q  Cabeça  de  Negro, 
pelo  teçume  das  pedras ,  tam  duro  ,  que  fó  a  poder  de  ferro  fe 
defníancha :  &  naõ  he  mao  íinal ;  porque  muitas  vezes  o  caf- 
calho ,  que  fica  em  baixo,  dà  Ouro. 

De  alo-umas  particularidades  mais  deitas  Minas ,  por  fe- 
rem menos  eííenciaes ,  naõ  fallo  :.  &  porque  faõ  mais  parafe 
verem ,  do  que  para  fe  efcreverem }  &  eftas  faõ  as  que  baftaõ 
para  o  intento  dos  que  ou  por  curioíidade ,  ou  para  acertar  na 
Lavra  as  procuraõ. 

CA   P  I  T  U  L   Q    XV. 

Noticias  para fe  conhecerem  as  Minas  de  f  ratou 

■ .......       I  "/■ 

Primeiramente  pela  mayor  parte  fe  achaõ  as  Minas  de 
Prata  em  terras  vermelhas ,  &  brancas*  limpas  de  arvo- 
res ,  èc  de  poucas  hervas : fcfemprefe  haõ de  bufcar  no  cume 
dos  Outeiros ,  ou  Serros  ,  que  he  onde  arrebentaó  as  betas  a 
modode  paredes  velhas  ,  que  correm  fenipre  direitasyou  a 
modo  de  alicerfes  ,  que  eftaõ  debaixo  da  terra  $  ou  corno  hu 
marachão  de  muitas  pedras  unidas  em-  roda  :  &r  fefe  achaô 
muitas  juntas  ,  bufqne-fe  fempre  a  mais  larga ,  ou  aque  eílà 
mais  no  meyo  daOuteiro*  Em4ravendo  çavadohCia  vara,  oa 
braça  ,feguindo  fempre  abeta,  fe  pode  fazer  experiência  dos 
géneros  de  Metal ,  que  tiver }  porque  ha  batas,  que  tem  c'm~ 
co,  ou  féis  géneros  de  pedras ,,  a  que  chamaõosCaftelhanos 
Metaes.  As  ditas  betas  coftumaõter  de  largo  húa  braça,  oia 
quatro  palmos* ou  três  %m  dous ,  ou  hum.  Pela  mayor  parte 
'  '  entre 


■ 


t74  Cultura, 

çntreabetafe  acha  terra  de  varias  cores  5  &  Is  vezes  tudo  he 
pedra  maciça:  8c  entaõ coftuma fer negra,  &  branca  a  dita 
pedra  a  modo  de  feixos  .«  &:  quando  ha  terra  entre  a  pedra ; 
pedra  ,  &  terra,  tudo  tem  Prata.  Efta  beta  ordinariamente 
eftà  metida  entre  penhafco  agrefte  y  &  defde  a  fuperficie  da 
Terra  atè  o  fundo,  fempre  vay  encaixonada. 

A  pedra  he  de  varias  cores ,  differente  das  outras ,  &:  muy 
alegre :  branca ,  negra ,  a  modo  de  maracaxeta  que  fe  lança 
nas  cartas,  cor  de  ouro,  amarella,  azul,efverdeada,  parda, 
de  cor  de  fígado ,  laranjada,  leonada :  &  ordinariamente  tem 
ocos ,  onde  fe  coftuma  crear  Prata  como  em  cubellos.  Outras 
pedras  faõ  todas  prateadas  j  &:  outras  com  veas  de  prata :  6c 
ío  eftas  fe  conhecem  logo,  que  tem  prata.  Porém  as  acima  no- 
meadas ,  fò  quem  tem  muita  experiência ,  ou  quem  a  fouber 
fazer ,  virá  em  conhecimento  que  a  tem.  Também  às  vezes 
fe  acha  hua  maracaxeta  negra ,  a  qual  toda  tem  prata :  &  de 
ordinário  huma  livra  deita  maracaxeta  rende  duas  onças  de 
prata.  Pela  mayor  parte  naó  ha  beta  de  prata,  que  junto  a  ella 
fe  naó  ache  maracaxeta  branca,  ou  amarella,  ou  em  pedra* 
agreftes,  ou  em  terra. 

A  todas  eftas  pedras  chamaó  os  CaftelhanosMetaes  :8c  a 
algumas  daó  eftes  nomes.  Metal  Cobrizo  :  &  he  hua  pedra, 
que  tira  a  verde ,  muy  pezada ,  falgada  ao  gofto ,  eftitica ,  Ôc 
frange  os  beiços  pelo  acre  do  antimonio ,  8c  vitriolo,  que  tem 
mifturado.  Metal  Polvorilha  :  &  he  hua  pedra  hum  tanto 
amarellaj  8c  he  de  mais  ley,  que  o  acima,  ôc  às  vezes  para  o 
fundo  coftuma  dar  em  prata  maciça.  Metal  Negrilho  da  pri- 
meira qualidade  he  pedra  negra  çomrefplandores  delima- 
duras  groffas  de  ferro  ;  he  de  pouca  ley  j  porém  porque  fac 
mifturado  com  Metal  negro  da  fegunda  qualidade  ,  que  he 
com  refplandores  de  área  miúda ,  6c  com  o  da  terceira  quali- 
dade ,  que  he  aquelie  que  feito  pò,  a  fua  área  naó  temreiplan- 
,dor  algum  >  he  o  melhor ,  6c  dev£fe  fazer  cafodelle.  Metal 

Rociw 


&-  Opulência  do  'Bra/íl.  17$ 

Rocicler  he  húa  pedra  negra ,  como  o  Metal  Negrilho ;,  jne- 
lhor  de  área ,  como  pó  eícuro  fem  refpkndor  :  Sc  fe  conhece 
fer  Rocicler  em  que  lançando  aguafobrea  pedra  ,  fe  lhedi 
com  húa  faca,  ou  chave ,  como  quem  a  moe ,  Sc  faz  hum  mo- 
do de  barro,  comoenfanguentadoi  &  quanto  mais  corado 
o  barro,  tanto  melhor  he  o  Rocicler:  Sc  he  Metal  de  muita  ri- 
queza, Sc  fácil  de  fe  tirar*  Sedando  em  parte  que  haja  deía- 
gue  ao  Serro,  naõtoa  mais  que  pedir  :  dà  em  caixa  de  barro 
como  lama,  Sc  pedrinhas  de  todas  as  cores. 

Metal  Paço  he  também  como  ò  Rocicler ,  ó  qual  he  húa 
pedra  quaíi  parda ,  como  o  panno  pardo ,  ou  defumado  ,  Sc 
muy  pezada.  Seria  eftender-fe  muito ,  fe  fe  houveíTe  de  pôr 
feus géneros  de  caixa,  de  qualidade,  Sc  benefícios .;  porque 
he ,  Sc  fe  faz  de  muitos  modos  fegundo  os  géneros  de  Paços. 
Porém  fendo  a  pedra  fem  gofto  algum  ao  maftigar-fe  pizada, 
fera  de  boa  ley  para  a  fundição  ,  por  ter  muito  chumbo ,  quej' 
ajuda  a  mefma  fundição :  Sc  efbe  género  de  Metal ,  Sc  o  Ne- 
grilho faó os  mais  abundantes  nas  Minas  ,  fem  fe  perderem , 
nem  mudarem  j  Sc  quando  muito ,  mudaõ  de  Paços  a  Negri- 
lhos ,  Sc  de  Negrilhos  a  Paços.  Metal  Piorno  Ronco  he  húa 
pedra  de  cor  de  chumbo ,  porém  mais  efeura ,  Sc  muy  dura, 
&  pezada.  He  riqueza  de  fundição:  Sc  deita  pedra  amrmaõ 
alguns  ,*que  fazem  bóias  de  bolear  os  índios  Charruas,  que 
vizinhaó ,  ou  vizinhavaõ  com  os  Porc«gue  zcs  na  Nova  Co- 
lónia do  Sacramento. 


Cultura, 


C    A   P    I    T   U    L    O      XVI. 

Modo  de  conhecer  4  Prata  >  Qf  de  beneficiar 
os  Metaes. 


I  §1 


SE  houver  lenha  (  Sc  melhor  he  bofta  de  Gado,  por  fer 
mais  a£tivo  o  fogo  delia)  farfe-ha  húa  fogueira^  ôc  no  me  - 
yo  delia  íe  lancem  as  pedras  do  género ,  que  tiver  a  Mina :  6c 
as  deixaráõ  queimar ,  até  que  feponhaó  vermelhas ,  comofe 
põem  o  ferro.  E  eftando  vermelhas  3  fe  lancem  em  agua  fria, 
cada  húa  em  diverfa  parte ,  para  fe  conhecer  qual  das  cores 
tem  mais  Prata  j  que  logo  fe  moftrará  na  agua :  porque  fe  tem 
Prata ,  brotaõ  por  toda  a  pedra  como  cabeias  de  alfinetes,  ou 
como  grãos  de  munição. 

Também  fe  podem  reconhecer  com  chumbo  nefta  for- 
'ma.Quando  os  Metaes  faó  negros,  com  poucas  veas  brancas, 
(que  fe  faõ  muitas  faz-fe  com  azougue  )  fendo  muy  pezados 
íe  moeráõ ,  de  forte  que  o  graó  mayor  fique  como  o  de  trigo: 
6c  em  húa  furna,  como  as  que  fe  fazem  para  derreter  metaes 
de  Sinos  ,  fe  botará  chumbo  ,  &  fe  lhe  dará  fogo  com  fol- 
ie, até  que  aquelle  chumbo  fe  derreta,  &  ponha  corado  j  &c 
entaó  íe  lhe  botará  a  pedra  moida  :  afaber,  em  meyaar- 
robade  chumbo  fepoderáõ  beneficiar  féis  livras  de  pedra  ne- 
fta forma.  - 

Eftando  derretido ,  &  corado  o  chumbo ,  fe  lhe  lançaráó 
âim  livras  de  pedra ,  eftendendo-as  por  cima  do  chumbo :  & 
eftando  tudo  encorporado  com  o  chumbo ,  a  modo  de  ag*a 

(para 


<á>  Opulência  do  *Brâf3'«  tff 

forma  fe  vay  lançando  a  mais  terra,  atè  que  fe  acabem  as  íeis 
livras.  E  em  fe  acabando  a  pedra ,  ou  Metal  3  fe  continue  com 
dar  fogo  ao  chumbo  3  atè  que  o  fogo  o  confuma3  ou  o  conver- 
ta em  hum  farello  3  que  vay  criando  por  cima  >  o  qual  fe  irá  ti- 
rando com  a  efcumadeira 3  6c  apartando  aos  lados  do  vafo  , 
atè  que  a  Prata  por  ultimo  fe  difpa  de  húa  teagem  ,  que  tem 
por  cima  :6c  antes  que  de  todo  o  faça  ,  faz  primeiro  três  ou 
quatro  acometimentos ,  como  quem  abre  &  cerra  os  olhos , 
a  modo  de  ondas  ;  até  que  de  todo  fe  abre,  6c  fica  a  Pra- 
ra  liquida  3  fem  fazer  movimentos.  E  entaó  fe  pára  com 
o  fogo  5  &  eftando  hum  pouco  dura  3  fe  mete  a  efcuma- 
deira por  hum  lado  ,  6c  outro  5  para  a  defapegar  do  vafo ,  6c 
fe  tira  fora. 

Se  quizerem  fazer  enfayo  por  azougue,  farfe-ha  dos  Me- 
taes  3  que  naó  forem  negros :  ou  fe  forem  negros ,  queimarfe- 
haõ  primeiro  em  forno  de  reverberação  ,  até  que  fe  lhes  tire 
a  maldade  de  coufas  acres  ,  que  temosMetaes,  ou  pedras 
negras.  E  efta  queima  fe  faz ,  depois  de  moidos  :  6c  fe  algum 
dos  outros  Metaes  tiver  acridades,  fe  deve  primeiro  queimar 
também.  O  que  pofío :  digo  3  que  todos  os  Metaes}  ou  pedras 
fe  devem  moer  3  U  peneirar  5  de  forte  que  fiquem  como  fari- 
nha de  trigo :  a  peneira  ha  de  fer  de  panno  j  6c  pezarfe-haõ  os 
Metaes.  Se  forem  féis  livras,  fe  lhes  botará  hum  punhado  de 
fal  •,  6c  tudo  junto  fe  molhara  com  agua  3  como  quem  miftu- 
ra  acal  com  área.  Depois  de  bem  unido  3  fe  faz  hum  mònti* 
nho3  de  forte  que  efteja  brando  com  a  agua  3  para  que  feèn- 
corpore  comelle  o  fal :  6c  nefta  forma  íe  deixara  eftarfobre 
húa  taboa  quatro  ou  cinco  dias  ao  Sol.  E  paílados  eftes  dias,- 
fe  desfará  o  montinho,  6cfeLpizarà  muy  bem  aquella  terra :  6c 
em  hum  panno  fino  de  linho  febotaràô  duas  onças  de  azou- 
guevivo3  6c  com  omefmopannofeefpremerà  por  cima  da 
dita  terra,  que  eftaràefpalhada3  6c  bem  fina:  6c  junta  fe  amaf- 

M  íatà 


Bi 

s?8  Cultura^ 

fará  com  á  maõ ,  por  tempo  de  híia  hora  5  Sc  fe  eftiver  muy 
feeo  3  fe  molhará  com  agua  ,  atè  que  fique  como  barro  de  fa- 
«zer  telha. 

Depois  diftofe  tornará  a  fazer  monte,  &  apolloaoSol 
outros  tantos  dias  j  no  cabo  dos  quaes ,  fe  tem  prata  alguma , 
o  moftrarà  nefta  forma :  &'  vem  a  fer,  que  o  azougue,  &  a  pra- 
ta fe  converterão  em  hum  farello  branco.  E  eítando  aíTim,  fe 
lhe  lançará  mais  azouge,  6c  fe  tornara  a  àmafTar,  como  eítà 
dito,  &  a  pollo  ao  Sol  outros  tantos  dias ;  Sc  depois  fe  torne  a 
molhar,  êc  amaflar.  Ifto  feito,  fe  bote  em  húa  cuya  enverniza- 
da hum  pedacinho  daquella  ferra,  do  tamanho  de  húa  noz- 
&  com  agua  limpa  fe  irà  lavando ,  atè  que  fique  limpa  a  areá 
na  cuya ,  para  conhecer  fe  o  azougue  ha  colhido  toda  a  pra- 
ta ;  •&  fe  eftiver  ainda  com  farello ,  fe  lance  mais  azougue,  co- 
mo acima. 

r  Havendocolhidooazouguetodaaprata,  jànaõfarà  fa- 
rello na  cuya  3  ôíeftaràtodaencorporada.  Entaõ  fe  lave  to- 
do o  mente  com  muito  cuidado,  Sc  fe  lance  em  hum  panno 
de  linho  novo,  &feefprema:&aquella  bola,  que  ficar,  fe 
queimara ,  atè  que  fe  queime  todo  6  azouge*  &  ficará  liquida 
a  prata  :  &  fe  conhecerá  ,  fefaõ  os  Metaes  de  rendimento 
cu  naõ.  " 

Se  o  azouge  eftiver  frio  (o  que  fe  conhecera,  eítando  me- 
tido dentro  como  em  hum  faquinho  negro ,  que  de  fi  mefmo 
forma)  fe  lhe  botara  mais  fal,ou  Magiftral:  Sc  fe  eftiver  quen- 
te (o  que  fe  conhecerá  de  eftar  muy  negro  o  farello  da  prata  ) 
fe  lhe  botara  cinza  molhada ,  &  fe  mifturarà  tudo ,  como  fica 
dito  acima.  Alguns  dizem ,  que  a  fobredita  malTa  fe  ha  de  re- 
volver ,  Sc  amaífar  todos  os  dias  duas  vezes ,  por  efpaço  de 
quarenta  dias  j  &  que  a  cada  quintal  de  pedra  fe  lança  hum 
«imude  defaldecompàz,6c  dez  livras  de  azougue  na  forma 
acima. 


&-  Opulência  d^BraftU  179 

Ultimamente  daó  eftas  regras  geraes.  As  Minas  de  Nor- 
te a  Sul  fixo ,  faó  permanentes.  As  Minas  de  Ouro  cabeceaõ 
de  Oriente  a  Poente  j  Sc  daõ  em  feixo  branco ,  ou  negro  >  ou 
em  barro  vermelho ,  fe  faõ  boas,  Naó  havendo  fal  de  pedras 
junto  das  ferras  de  Minas  de  Prata  -,  he  final ,  que  naõ  faõ  Mi- 
nas de  permanência :  ôc  a  efte  chamaó  os  Caítelhanos  Sal  de 
Compàz.  Só  à  vifta  de  quem  tem  experiência  fe  podem  dar 
axonhecer  fixamente  os  Metaes>  porque  ha  outros  géneros, 
de  Pedras  como  elles  3  que  naó  faõ  de  Prata. 

CAPITULO      XVII. 

Dos  danas ,  que  tem  caujado  ao  Br  afã  a  cobiça 

depois  do  defGobrimento  do  Ouro  nas 

iSMÍmas* 


NAõ  ha  côufâ  tam  boa  ,  que  naõ  pofla  fcr  occafiaõ  dé 
muitos  males,  por  culpa  de  quem  naõ  ufa  bem  delia; 
E  atè  nas  fagradas« fe  cõmettem  os  mayores  facrilegios.  Que 
maravilha  pois ,  que  fendo  o  Ouro  tam  fermofo ,  8c  tam  pre- 
cioíb  metal ,  tam  útil  para  o  comercio  humano ,  5c  taõ  digno 
de  fe  empregar  nos  vafòs,  &  ornamentos  dos  Templos  para 
o  culto  divino }  feja  pela  infaciavel  cobiça  dos  Homens,  con* 
tinuoinftrumento,  Sc  caufa de  muitos  danos  ?  Convidou  a 
Fama  das  Minas  tam  abundantes  do  Brafil  homens  de  toda  a 
cafta,8c  de  todas  as  partes:  huns  de  cabedal}  ôc  outros  vadios. 
Aosde cabedal, que  tirâraõ  muita  quantidade delle  nas  Ca- 
tas, foycaufa  de  fe  haverem  comakívez,  6c  arrogância:  de 

Mi  anda- 


«>,.*    D 


i.  ■■; 


ttô  Cultura , 

andarem  fempre  acompanhados  de  tropas  de  efpingardeíros 
de  animo  prompto  para  executarem  qualquer  violência  5  Sr 
de  tomar  fem  temor  algum  da  Juííiça  grandes  ,  &  eftrondo- 
fas  vinganças.  Convidou-os  o  Ouro  a  jogar  largamente,  &; 
agaftaremfuperfluidades  quantias  extriordinarias  fem  re- 
paro ^comprando  (por  exemplo )  hum  Negro  Trombeteia 
f  o  por  mil  cruzados  >  &  húa  Mulata  de  mao  trato  por  dobra- 
do preço,  para  multiplicar  com  ella  contínuos,  .&  efcanda- 
lofos  peccados.  Os  vadios ,  que  vaõ  ás  Minas  para  tirar  Ouro 
naõ  dos  Ribeiros,  mas  dos  canudos,  em  q  O  ajuntaõ,  &  guar- 
daõ  os  que  trabalhão  nas  Catas,  ufâraó  de  traiçoens  lamentá- 
veis, &  de  mortes  mais  que  caieis;  ficando  eítes  crimes  fem 
caftigo  /porque  nas  Minas  a  Juftiça  Humana  naõ  teve  ainda 
Tribunal,  nem  o  refpeito,  de  que  em  outras  partes  goza, 
aondehaMiniftros  defuppoíiçaõ,  aíliftidos  de  numerofo, 
&  feguro  Preíidio }  &  fó  agora  poderá  efperarfe  algum  remé- 
dio indo  là.Governador,&  Mi  niftros.E  até  os  Bifpos,  &os 
Prelados  de  algumas  Religioens,  Tentem  fummamente  o  naõ 
fe  fazer  conta  alguma  das  cenfuras,  para  reduzir  aos  feus  Bif- 
pados,  &  Conventos  naõ  poucos  Clérigos,  &:  Religiofos , 
que  eícandalofamentè  por  lá  aqdaõ  ou  Apoftatas ,  ou  fugiti- 
yos.   O  irem  também  às  Minas  os  melhores  géneros  de  tu- 
do o  que  fe  pôde  defejar,  foy  caufa  ,  quecreceíTem  de  tal 
forte  os  preços  de  tudo  o  que  fe  vende  •,  que  os  Senhores 
de  Engenhos ,  &  os  Lavradores  fe  achem  grandemente  em-, 
penhados  :  &  que  por  falta  de  Negros  naõ  poíTaõ  tratar  do 
Aífucar,  nem  do  Tabaco,  como  faziaó  folgadamente  nos 
tempos  paílad os  ;  queeraõ as  verdadeiras  Minas  do  Braíil, 
&  de  Portugal  Eopeyor  he  ,  que  a  mayor  parte  do  Ouro, 
que  fe  tira  das  Minas  ,  paífa  em  pó ,  .&  em  moedas  para  os 
Rcynos  eítranhos  :  &  a  menor  he  a  que  fica  em  Portugal, 
&nas  Cidades  do  Brafil :  falvo  o  quefe  gaita  em  cordoens,, 

arreca- 


&  Opulência  do  Bra/ií.  1 8 1 

arrecadas,  &  outros  brincos,  dos  qnaesfe  vem  hoje  carre- 
gadas asMulatas  de  mao  viver,  &  as  Negras.muito  mais  qu» 
asSenhoras.  Nem  ha  Peflba  prudente  .  que  |naô  coníeíic 
haver  Deos  permittido  que  fe  defeubra  nas  Minas  tanto 
Ouro,  paracaftigarcomclleaoBrafili  aífimcomoeftâca- 
ftigandonomefmo  tempo  tam  abundante  dç  guerras ,  aos 
Europeos  com  o  ferro. 


Mj 


QU 


r&  IV* 


I  $ .  ■ 


*     ■   I 


QUARTA  PARTE. 

CULTURA 

E     • 

OPVLE  N  C  I  A  DO  BRASIL 

Pela  abundância  do  Gado,  &  Coura-   ; 
ma  ,&  outros  Contratos  Reaes, 
que  fe  remataõ  nefta  Con- 
quiíta* 

C  A  P  I  T  V  L  O    L 

t)a  grmde  extenfao  de  Terras  fdr  a  Taflos^  ; 
\ ;     çhUs  de  Cf  do  %  que  ha  no  TBrafik 

i .  Staide*feoGertâõdaBahiaàté  a  Barra  do  Rio  ââ 
|J  S,  Francifco  oitenta  legoas  por Coítâ:&:  indo  para) 
jj-i  oiRio  adma  atèaBarra}  que  chamaô  d*AguaGran- 
de5  fica  diftante  a  Bahia  da  dita  Barra  cento  &  quinze  legoas;  • 
de  Stauiafé  oentaôc  trinta  legoas.  a  del&odellas  |#  dentro 

M4  oiten- 


■  1 


oitenta  lepàs  :  das  Jaeoabinas  noventa  :  &  do  Tucano  cm* 
coenta.  ^porque as  Fazendas ,  &  os Curraes  do Gadafeil- 
^aoaqnde;ha  largueza deCampo ,  &  agua fempre manántc 
aeKios ,  oiiLagoasj  porifib os  Curraes  da  parte  da  Bahi* 
citao  poftos  na  borda  do  Rio  de  S.  Francifco ,  na  do  Rio  das 
Velnas^na  do  Rio  das  Raãs ,  nado  Rio  Verde ,  na  do  Rio 
mamerim,  nadoRioJacuippe,  na  do  Rio  Pojifca ,  nado 
Kioisnhambupe,  na  doRioItapicurú,  na  do  Rio  Real  na 
dO:Rio  Vazabarrís,  nado  Rio  Serigippe,  &  de  outros  Rios- 
em  osquaes  por  informação  tomada  de  vários  ■,  que  correrão 
eite  Certao,  eítaó  adualmentemais  de  quinhentos  Curraes; 
ócio  na  borda  àquem  do  Rio  de  SaÓ  Francifco  cento  òcíçis. 
&  na  outra  bordada  parte  de  Pernambuco ,  he  certo,  que  faó 
muitos  mais.  E  naó  fomente  de  todas  eftas  partes  ,  &  Rios  jà 
nomeados  vemBoyadas  para  a  Cidade  ,  ôc  Recôncavo  da 
gania>  6c  paradas  Fabricas  dos  Engenhos  >  mas  tambcm  do 
K-io  Iguaçu ,  do  Rio  Carainhaem .,  do  Rio  Corrente ,  do  Rio 
Cjuara^ra,,  6c  do  Rio  Piaguí.  grande,  por  ficarem  mais  per- 
to ^  vindo  caminho  direito,* Bahia, do  que  indo  por  voltas 
a  Pernambuco. 

...  E poftoque  fejaômuitos  os Curraes  da  parte  daBahia, 
cfiegaõa  muito  mayor  numero  os  de  Pernambuco;  cujo  Cer- 
taô  fceftende pela  Cofta deíde a  Cidadede  Olindaatè o  Ria 
de  Saô  Francifco  oitenta  legoas  :  6c  continuando  da  Barra 
daRio  de  Saó  Francifco  atè  a  Barra  do  Rio  Aguaçú  >  con- 
fie âuzentâshgo^s.  De  Olinda  para  Oe fie  atè  oPiaguí, 
Fréguezia  de  Nofla  Senhora  da  Vittoria  ,.  cento  6c  feflenta 
legoas  :  ôc  pela  parte  do  Norte  efiende-fe  de  Olindaatè  o 
Ceará  Merim  oitenta  legoas,,  &a  dahi  atè  o  Açu  trinta  & 
cinco  ;  6c  até  o  Ceara  Grande  oitenta  :  èc  por  todas  > 
vem  aeftender-fe  defde  Olindaatè  efta  parte  quafi  duzca* 
tas  legoas. 

O*  Rios  dePernambuco ,  que  por  terem  junto  de  fi  Pa- 

ftos 


mknciâio^raJíL  -M 

ftô5CÕmpCíténtesr  eftaò  povoados  com  Gado'  (  fofa  o  Rio 
Freto ,  ó  Rio  Guaraíra ,  o  Rio  Iguaçu ,  o  Rio  Corrente 'j  o 
RioGuariguaê,  a  Lagoaàlegre ,  &  o  Rio  de Saó  Francjfco 
da  banda  do  Norte)  faõ  o  Rio  de  Cabaços,  o  Rio  de  Saõ  Mi- 
guel ,  as  duas  Alagoas  com  o  Rio  do  Porto  do  Calvo  ,  o  da 
Paraíba,  odosKarirís,odo  Açu,odoPodi,  ode jaguaré 
be ,  o  das  Piranhas,  o  Payaú,4o  Jacaré ,  o  Kanindè ,  o  de  Par* 
naíba  ,o das  Pedras,o  dos  Camaroens,  Sc o  Piagui. 

Os  Curraes  deita  parte  haó  de  paflar  de  oitocentos :  Sc  dè 
todoseíles  vaó  Boyadas  para  o  Recife,  Sc  Olinda ,  8c  fuás* 
Villas,  &  para  o  fornecimento  das  Fabricas  dos  Engenhos 
defdeo  Rio  deSaõ  Francifcoaté  oRk>Grande ;  tirando  os 
que 'acima  eílaõ  nomeados  defde  o  Piagui  até  a  Barra  de  T- 
guaçu,  ScdeParnaguâ,  S^  Rio  Preto  s  porque  ás  Boyadaí 
deites  Rios vaõquaí]  todas  ^ara  a  Bahia  ,  por  lhes  ficar  mei 
lhor  caminho  pelas  Jacoabinas  ,  por  onde  paífàbv  &  defean- 
çaó.  Aillmeonro  ahi  tambenrparaô ,  &  defcançaõ  à#  que  ás~ 
vezes  vemdemais  longe.Mas  quando  nos  caminhm  fe  àchao' 
paftosyporque  naáfaltáraõ  as  chuvas }  em  menos  de  três  me- 
zes  chegaó  as  Boyadâs  á  Bahia ,  que  vem  dos  Curraes  mais 
diftantés;  Porém*  fe  por  Caufada fecaforerrí  obrigados  a  pa- 
rar com  oGado  nas  Jacoabinas  ,  ahi  o  vendem  os  que  o  lé* 
•  vaõ  s  Sc  ahi  defcançafeis ,  fete ,  Sc  oita  mezes>  âté  poder  ir 
à  Cidade.  - 

Só  no  Rio  de  Iguaçu:  eííâ^hojé  mais  de  trinta  mil  Cabe* 
ças  de  Gado.  As  da  parte  da  Bahia  fe  tem  por  certo ,  que  pa£ 
úlò  demeyo  milhão-.*  8r  mais  de  oitocentas  mH  haõ  dè íer  *s-  • 
da  parte:  de  Pernambuco  ♦   ainda'  que  deitas  fe  aproveitai 
inaisos da  Bahia,  paraonde  vaõ  muitas  Boyadasj  queo^Per> 
i   mbucauos. 

Apartedo  BraíH  ,  que  tem  menos  Gado ,  he  o  Rio  de 
Janeiro :  porque  tem  Curraes  fomente  nos  Campos  de  Santsi 
Ctaz »  <tftànte>  quatorze  legoas  da  JQidáde  •  nos  Campos 

Novof, 


Hl  III 


*$6  <       "Cultúriti  r 

NovosdoRíodeSaóJoaõ,  diftantes  trinta  5  &  nos  Guaítei 
#azes,  diftantes  oitenta  legoas  :  &  em  todos  eftes  Campos 
nacSpaíTaò  de  feíTenta  mil  as  Cabeças  de  Gado ,  que  nelles 
paítaõ. 

A  Capitania  doEfpirito  Santo  fe  provê  limitadamente 
da  M  oribêea 9  .&■  de alguns  Curraes  àquem  Ido  Rio  Paraíba 

dq$ukv , 

_  As  Villas  de  Saõ  Paulo  mataõ  as  Rezes ,  que  tem  em  fuás 
Fazendas,  que  náó  fáõmuito  grandes*  6c  fó nos  Campos 
deporitíba.Yay  crecendo  ;  &  multiplieando.cada  vez  mais 
o  Gado. 

Sendo  o  Certaõ  da  Bahia  tam  dilatado,  como  temos  re. 
ferido*  quafi  todo  pertence  a  duas  das  principaes  Famílias 
dá  n^fmaCidade,  que  faô  a  da  Torre,  &  a  do  defunto  Meftre 
de  Campo  António  Guedes  de  Britto. Porque  a  Gafa  daTor- 
re  tem  duzentas ■&  feíTenta  legoas  pelo  Rio  de  Saõ  Francifco 
acima  à  maõ  direita  > indo  para  o Sul}  .&  indo  do  dito  Rio  pa- 
ra o  Norte  .,  chega  a  oitenta  legoas.  E  os  Herdeiros  do  Me- 
ftre de  Çam  po  António  Guedes  poífuem  defde  o  Morro  dos 
Chapeos  ate  a  Nacenea  do  Rip  das,  Velhas  ,  cento  flç  feíTenta 
legoas,  E  neftas  Terras  .,  parte  os  donos  delias  tem  Curraes  >  ■ 
próprios;  &  parte  faõ  dos  que  arrendarão  Titios  delias  ,  pa- 
gando por  cada  lítio ,  que  ordinariamente  he  de  níia  legoa,  < 
cada  àrihò  dez  mil  reis  de  foro.  É  aílim  como  ha  Curraes  no 
TerritoriodaBahm^^ 

tanías,  de  duzentas,  trezentas,;  quatrocentas,  quinhentas* 
oitocentas ,  &  mil  Cabeças;  aííim  ha  Fazendas**  quem  per- 
tencem tantos  Curraes ,  que  chegao  a  ter  féis  mil ,  oito  mil4 
dez  mil,  quinze  mil  >  &  mais  de;yjnte  mil  Cabeças .  de  Gado; 
donde  fe  tiraó  cada  anno  muitas  Boyadas  ,  conforme  os 
tempos  faõ  mais  ou  menos  favoráveis  à  pariçaõ,  &c  multipli- 
cação do  mefmo  Gado ,  &  aos  paftos  ailim  nos  iitios  ?  como 
íanibem  nos  caminhos,  ..  .  if ,  , 


e>  Opuknciaà)  TZraftl. 

C   A   P  I  T   U   LO     II. 

■t>ás  Èoyadas  ,  qzte  ordinariamente  fe  tirafi  cad&-: 

anno dosQurraes ,  fará  as  Cidades,  Vtllas  r 

Qf  Recôncavos  doBraftl ,  ajfimpara  a 

açougue^  como  para  o  fornecimento 

das  Fabricas* 

PAra  que  fc  faça  juíío  conceito  das  Boyadas,  que  fe  tiraõ 
cada  anno  dos  Curraes  do  Brafil ,  baila  advertir,  que  to- 
aos  os  Rolos  de  Tabaco  que  feembarcaõ  para  qualquer  par- 
te,  vaõ  encourados.  E  fendo cadabitm deoèío arrobas 3  6ç 
5c  os  da  Bahia,  como  vimos  em  feu  lugar  ,  ordinariamente 
cada  anno  pelo  menosyinte  &  cinco  niil,,&  qs  dasAlagoas 
de  Pernambuco 'dòu<rm il  &  quinhentos  -,  ^bem-fe  v%  quantas 
Rçzesfaõ  neceíranasjparaencoLirar  vinte  6c  fetemil  &  qui- 

imentGsP^olos.  t  \ 

Alem  difto ,  vaõ  cada  anno  da  Bahia  para  o  Reyao  ate 
cincoenta  mil  meyos  de  Sola  >  de  Pernambuco  quarenta  mil* 
&  do  Rio  de  Janeiro  (naófeyfe  computando*  os  que  vinhap 
da  Nova  Colónia ,  ou  fó  os-do  mefmo  Rio ,  Sc  outras  Capi- 
tanias do  Sul )  atè  vinte  mil :  que  veraaierpoj;  todas ,  centos 
&  dez  mil  Meyos  de  Sola. 

O  certo  he,  que  naõ  fomente  a  Cidade  rmas  a  mayorpae- 
te  dos  Moradores  do  Recôncavo  mais  abundantes  fe  fuíten- 
taõ  nos  dias  naõ  prohibidos  da  carne  do  açougue ,  &  da  que 
fe  vende  nas  Freguesias  >  &  Villas :  &  que  eommúmente  os 
Neeros,  que  fao  hum  numero  muitograíide.nas  Cidades,  vi- 
»     ô -      ^  vem 


>-« 


! 


■I 


■ 

1  ■ 


7*w  ttútm, 

vem  de  ferçuras ,  bofes  ,  &  tripas ,  fangue ,  &  mais  fato  dâ$ 
Rezes:  &:  que  no  Certaõ  mais  alto  a  carne?&  o  leite  he  o  ordi* 
nario  mantimento  de  todos. 

Sendo  também  tantosos  Engenhos  do  Brafil,  que  cada 
armo  fc  fornecem  de  Boys  para  os  carros ;  &  os  de  que  necef- 
íitaõ  os  Lavradores  de  Cannas ,  Tabaco ,  Mandioca ,  Serra- 
nas, &  Lenhas ;  daqui  fe  poderá  facilmente  inferir ,  quantos 
haverão  miílerdeannoem  anno,  para  confervar  efte  traba- 
Ihofomeneyo.  Por  tanto  deixar  iíloáconíideraçaõ  de  quem 
ler  efte  Capitulo ,  julgo,  que  fera  melhor  acerto  >  do  que  af- 
firmarprecifamentc  o  numero  das  Boyadas  :  porque  nem  os 
mefmos  Marchantes ,  que  faó  tantos ,  &  tam  divididos  por 
todas  as  partes  povoadas  do  Brafil ,  o  podem  dizer  com  cer- 
teza; &dizehcío-o,  temo,  que  naopa^  &que  Je 
julgue  encarecimento fantaítko. 


1 


C    AP    I    T    U    L   O      III. 

pa  eondmçaõ  das  Boyadas  do  Certati  do  Brafil : 

'frtfo  ordinário  do  Gado  que  Je  mata  ,  Q?d$ 

que  vay  para  as  Fabricas, 

■'      '        •  ■ '  '    :■ 

Onftaó  as  Boyadas ,  que  ordinariamente  vem  para  t 
Bahia ,  de  cem ,  cento  &  cincoenta ,  duzentas ,  St  tre- 
zentas Cabeças  de  Gado:  &deftas  quafí  cada  femana  chegaó 
algumas  a  Capoâme ,  Lugar  diftante  da  Cidade  oito  legoas; 
aonde  tem  paito ,  ôc  aonde  os  Marchantes  as  compraó :  ôc  em 
alguns  tempos  do  anno  ha  femanás  >  era  que  cada  dia  chegaõ 
Boyadas.  Os  que  as  trazem ,  faó  Brancos ,  Mulatos,  &  Pre-. 

tos^ 


&•  Opulência h  ^rajiL  %  $$ 

tos  5  8c  também  índios ,  que  com  efte  trabalho  procuraô  ter 
algum  lucro.  Ggíaõfe,  indo huhs adiante  cantando,  para 
ierem  deita  forte  feguidos  do  Gado  y  Sc  outros  vem  atrazdas 
Rezes  tangendo-as  ,  &  tendo  cuidado  ,  quenaõfayaõdo 
caminho,  &  fe  amontem.  Às  fuás  jornadas  faõ  de  quatro , 
cinco ,  &  féis  legoas ,  conforme  a  cómo.didade  des  Paftos> 
aonde  haõ  de  parar.  Porém  aonde  lia  falta  de  agua  ,feguem  o 
caminho  de  quinze ,  &  vinte  legoas,  marchando  de  dia,  &  de 
noite ,  com  pouco  defcanço,  até  que  achem  paragem ,  aonde 
poífaó  parar.  Nas  paflagens  de  alguns  Rios  ,  hum  dos  que 
guiaõ  a  Boyada  g  pondo  hua  armação  de:Boy  na  cabeça,  Sc 
nadando ,  nioftra  ás  Rezes  o  vao ,  por  onde  haõ  de  paífar. 

Queinquer  que  entrega  a  fua  Boyada  ao  PaíTador,  pára 
qiie  a  leve  das  Jacoabinas  v.  g.  até  a  Capoâme ,  que  he  j  orna- 
da de  quinze ,  ou  dezafeis  até  dézafete  dias ;  lhe  dá  por  paga 
do  feu  trabalho  hum  cruzado  por  cada  cabeça  daditaBoya- 
da :  &c  efte  corre  com  os  gaftos  dos  Tangedores ,  &  Guias ;  èc 
fira  daraefmaBõyada  a  matalotagem  da  jornada.  De  forte 
que  y  fe  a  Boyada  conftar  de  duzentas  Cabeças  de  Gadoj 
daó-felhe  outros  tantos  cruzados,  fe  com  todas  chegarão 
lugar  deftinado.  Porém  fe  no  caminho  algumas  fugirem)  tan- 
tos cruzados  fe  diminuem ,  quantas  faõ  as  Rezes  >  que  faltao. 
Aos  índios,  que  das  Jacoabinas  vem  para  Capoâme ;,  fe  daõ 
quatro  atè  cinco  mil  reis  :'&  ao  Homem ,  que  com  o  feu  Ca» 
valloguia  a  Boyada,  oito  mil  reis.  Sendo  as  diftançias  mayo- 
res ,  crece  proporcionadamente  a  paga  de  todos.  EporifTò 
do  Rio  de  Saõ  Francifco  acima  vindo  para-Capoâmeyalguns 
dos  qíietomaõ  á  fua  conta  trazer  Boyadasalheas,  querem 
íeis,  ou  fete  toítoens  por  cada  Cabeçaj  ôc  mais,  fe  for  mayor  & 
diftancia. 

Hua  R.ez  ordinariamente  fe  vende  na  Bahia  por  quatro 
atè  cincc  n  il  reis :  os  Boys  manfos  por  fete  paraoito  mil  reis. 
Nas  Jàc(  ab  nas  vcnde-fe  hua  Rez  por  dous  mil  6c  quinhen- 
S  '.'"■■'"  tos 


s£*  Ctdturà, 

tosatètres  mil  reis.  Porém  nos  Curraes  do  Rio  deSaõFranri 
cifco,  os  que  tem  màyor  conveniência  de  penderem  o  Gado 
para  as  Minas,  o  vendem  na  Porteira  do  Curral  pelo  mefm  o 
preço ,  que  fe  vende  na  Cidade.  E  o  que  temos  dito  atè  aqui 
das  Boyadas  da  Bahia,  fc  deve  também  entender  com  pouca 
dirTerencadasBoyadas  de  Pernambuco,  &  do  Rio  de  Ja- 
neiro, 

CAPITULO     IV. 

G}ue  eufla  hum  Couve  em  cabe  lio ,  &*  hum  Meyo 

de  Sola  beneficiado  até  fe  fór  do  Brajil  na  AU 

fandega  de  Lisboa. 

VAI  cada  Couro  em  cabello  2U 1 00 

Deofalgar3&fecar  U200 

De  o  carregar  ao  cortume  U040 

Deocortir  U600 

Importa  tudo  dous  mil  novecentos  8c  quaren- 
ta reis.  29U40 

Hum  Meyo  de  Sola  vai  1U500 
De  o  carregar  á  Praya  Uo  1  o 

De  Frete  do  Navio  .  U120 

De  defearga  para  a  Alfandega  Uoio 

Por  tod os  os  Direitos  U  340. 

Importa  tudo  mil  novecentos  Sc  oitenta  reis.  1U980 

OsMeyosdeSola,  que  ordinariamente  vaõ  cada  annov 
do  Brafil  para  o  Reyno  3  importaõ  ofeguinte. 

Da* 


■I 


tír-  Opulência  ao  'BraJiL  %9* 

Da  Bahia  cincoenta  milMeyos  de  Sola 

a  1U980  reis  99. oooTJooo 

De  Pernambuco  quarenta  mil  a  1U750      70. 000U000 

Do  Rio  de  Janeiro ,  &  outras  Capitanias 

do  Sul,  vinte  mil  a  1U640  reis         _g2.  gopUooo 
O  que  tudo  importa  duzentos  6c  hurn     aot.  800Ú000 
contos ,  &  oitocentos  mil  reis •:  que  "~~ 

reduzidos  a  cruzados?faõ  quinhen- 
tos &  quatro  mil ,  &  quinhentos 
cruzados. 

s jíp  ííí)!?^ ^jaá^  íi^íí 


CAPITULO     V. 

Refumo  de  tudo  o  que  vay  ordinariamente 
armo  doBrajií  fará  Portugal ;  Q?  do 
jeu  ualor. 


POr  ultima  demooftraçaó  da  Opulência  do  Brafíí en* 
proveito  doReyno  de  Portugal }  porey  aqui  agora  o 
t  Refumo  do  que  neftas  quatro  Partes  tenho  apontado  j  que. 
por  junto  naõ  deixará  de  caufar  mayor  admiração  ,  do  que 
pode  ter  caufado  por  partes. 

Importa  pois  todo  o  AíTucar  ^S^-  142XJ800 

Importa  o  Tabaco  344.650U000 

Importaõ  ao  menos  cem  arrobas  de  Ouro    614.400U000 

Importaõ  os  Meyos  de  Sola  20 1.800  Uboó 

Importa  o  Pao  Braíll  de  Pernambuco.  48.ooo17ooo 

O  que  tudo  fomma 3  como  parece,  três  3744,99^'  ■■-■.^•- 

mil  fetecentos  &  quarenta  &  três  contos, 

novecentos  &  noventa  &  dous  mil  6c  oitocentos  reis.  Os 

quaes 


- 


tftfl 


■  i 


Cultura? 

quaes  redn zidos  §t  cruzados ,  faó  nove  milhoens ,  trezentos 
Òí  cincoenta  6c  nove  mil ,  novecentos  6c  oitenta  Sc  dous  cru- 
zados. 

Aos  quaes  fe  fe  acrecentar  o  que  rende  o  Contrato  das  Ba- 
que por  íeis  annos  fe  rematou  ultimamente  na  Bahia 
porcento  Sc  dez  mil  cruzados ;  6c  no  Rio  de  Janeiro  por  três 
annos ,  por  quarenta  &  cinco  mil  cruzados  :  O  Contrataan- 
pual  dos  Dizimos  Reaes ,  que  na  Bahia  neftes  últimos  annos, 
fora  as  Propinas ,  chegou  perto  de  duzentos  mil  cruzados : 
no  Rio  de  Janeiro  por  três  annos,  por  cento,  &"  noventa  mil 
cruzados:  em  Pernãbuco  por  outros  três  annos,  per  noventa 
St  fete  mil  cruzados :  em  Saõ  Paulo  por  feííenta  mil  cruza- 
dos 5  fora  os  das  outras  Capitanias  menores,  que  em  todas 
notavelmente  crecérao  :  O  Contrato  dos  Vinhos.' ,  que  na 
Bahia  fe  rematou  por  féis  annos  em  cento  &  noventa  &  cinco 
mil  cruzados :  em  Pernambuco  por  três  annos  em  quarenta 
&  íeis  mil  cruzados  >  6c  no  Rio  de  Janeiro  por  quatro  annos 
por  mais  de  cincoenta  mil  cruzados:  O  Contrato  do  Sal  na 
Bahia  arrematado  por  doze  annos,  a  vinte  6c  oito  mil  cruza- 
dos cadaanno:  O  Contrato  das  Aguas  Ardentes  da  Terra,  ôc 
de  fora,  avaliado  por  junto  em  trinta  mil  cruzados  :  O  Ren- 
dimento da  Cafa  da  Moeda  no  Rio  de  Janeiro ,  que  fazendo 
em  dous  annos  três  milhoens  de  Moedas  de  Ouro,  deo  de  lu- 
cro  aElRey ,  que  o  compra  a  doze  toíloens  a  oitava,  mais  de 
feiscentos  mil  cruzados ;  alem  das  arrobas  dos  Quintos ,  que 
cada  anno  lhe  vaó :  Os  Direitos ,  que  fe  pagaõ  nas  Alfande- 
gas dos  Negros,  que  vem  cadaanno  de  Angola  ,  SaõTho- 
mè ,  6c  Mina  em  tam  grande  numero  aos  Portos  da  Bahia  , 
Recife,  6cJRio  de  Janeiro,  atresmil  6c  quinhentos  reis  por 
Cabeça  :E  os  dez  por  cento  das  Fazendas  no  Rio  de  Janei- 
ro ,  que  importaõ  hum  anno  por  outro  oitenta  mil  cruzados; 
Hemfevè  a  utilidade,  querefulta  continuamente  do  Eftado 
do  Bráfilá  Fazenda  Real,  aos  Portos,  Sc  Reyno  de  Portu- 
gal* 


&  Opulência  do  ^Brâjú.  $9 g 

tf  aí  >'  &  tâmbem  ás  N-açoens  eftrangeiras  ,  que  com  toda 
a  induílria  procura© '•  aproveitaste  de  tudo  o  quevay  deíle 
Eftado.  ! 


G  A  PI  T  U  L  O    ULTIMO. 

Quanto  bâjvfto  i  que  fe  favoreça  o  Brafil ,  forfer 

de  tanta  uni  idade  ao  Reynàde  Portugal.- 

Elo  que  temos  dito  ate  agora ,  naõ  haverá  quem  poíílv 
du.v  idar  y  de  íer  hoje  o  Brafil  a  melhor ,  ôt  a  mais  útil 
Coiiquifca,  aílim  para  a  Fazenda  Real,  como  para  o  bem  pu- 
blico ,  de  quànras  outras  eofita  o  Rey no  de  Portugal ,  atten- 
dendo  ao  mui  ío  que  cada  afino  fae  deíles  Portos,  que  íaõ  Mi- 
nas certas ._,  &  abundantemente  rendofos>  Éfeaífifn  he,quem? 
duvida também ,  que  eftatam  grande  }  &  continuo  emolu- 
mento merece  jii  (lamente  lograr  o  favor  de  Sua  Mageftade^ 
&"  de  todos  es  íbus  Mimíhps  nó  defpacho  das  petiçoens  3  que 
oíFereeem  ?$k  na  aceitação  desmeycs,  qi4e  para  alivio .  &  có- 
veniencia  dos  Moradores  ,  as  Gameras  deite  Eirado  humil- 
demente propõem  ?  Se  es  Senhores  de  Engenhos , ■&  os  La- 
vradores do  A  fincar  /&  do  Tabaco  \  faões  queimais  promo-- 
vem huíii lucro tameítimavelj  parece,  que  merecem  mais 
que  os  outros  preferir  no  favor ,  &  acharem  todos  os  Tribu- 
naesaquella  proitipta  expedição,  que  atalha  as  dilaçoens  dos 
réquerim  entos ,  §ç  o  enfado ,  8c  os  gaftos  de  prolongadas  de- 
mandas. Se  erece  tam  copióíò  o  numero  dos  Moradores',  na- 
turaes  de  Portugal  r  que  cada  vez  mais  povoaõ  as  partes,  que 
antes eraõ  defertas ,  /ficando  muito diftantes  das  Igrejas ;  hc 
#juík>  x  que  eílas  fe  multipliquem  ,.  para  que  todos  tenhaõ 

N  mais 


Culatra , 

mais  perto  o  nepeíTario  remédio  de  íuas  Almas.  Pàgando-fc 
tam jon^iàlmente a  í>o!dad€Íca ,  que  ailifte nas Praças ,  & 
nas  FprtãMzas  Marítimas  ;  riaõ  poderiaó  deixar  de  fentir  os 
gue para íílb concorrem,  fecomfervieos  iguaes  naó  fofTem 
adiantados  nos  Poftos.  Se  pelo  feu  trabalho  unto  creceraõ  es 
Dízimos*  que  íe  ofrerecem  a  Deos  •  pede  a  razaó,  que  os  íeus 
Filhos  idóneos  naó  fejaõ  poípoftos  nosCòncurfcs,  &  pro- 
vimentos das i  Igrejas  vacantes  dò  Eílado.  E  fendo  comum- 
mente um  eimoleres com  os  Pobres,  Sc  um  Jiberaes  para  o 
culto  divino  ,-rneíecem  ter  a  Deos  propicio  na  Terra ,  6,  Re- 
munerador eterno  no  Ceo. 


■31 

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■  r^jí^H4^^ :  ^ií«^ ;  r*^^  »*B#fiB^  í*^6^  Hs^ 


I 


D 


PRIMEIRA  PARTE. 


CULT  U  RA 

E 

O  PU  L  E  N  CIA    1}0    BR  A  SI  li 
Na  Lavra  do  Aífuçar. 


LI   V    R 


•   Cap.  I.   tt  ^%  O  Cabedal,  que  ha  de  ter  o  Senhor  dg' 
%^$   .  hum  Engenho  Real.  pag-i. 
Cap.íL  Como  fe  ha  de  haver  o  Senhor  do  Engenho  na 
compra,  Çff  ccn ferva  pê  das  I erras ,  <f*F  nós 
arrendamentos  delias,  p.£. 
Cap.  III.  Coma/e  hade  haver:  a  Senhor  do  Engenho 
comos  Lavradores ,  Qf  outros  vinhos,  Qf 
.   ejles  com  o  Senhor,  p. 7* 
E  Nv  Cap.IV. 


índice. 

Càp.IV,  Comofe  ha  de  haver  o  Senhor  do  Engenho 
m  eleição  das  PeJToas>  Çj*  Offimes)  q»e  ad* 
mlttlraofeu  firviga  ;  &  primeiramente  da 
eleição  do  C apelido  p.  i  o, 

Cap.F,  Po  Feitor  Mar  do  Engenho  y.Q?  dos  antros 
■  Feitores  menores ,  cpe  affiftem  na  Moenda  , 
Fazendas,  Qjk  Partidos  da Canna :  jnas o* 
.    briga  coem  >  QFfoldadas.p.14. 

Cap.VI.  Do  Meftre  do  dffmau  gr  Sotomeflre  ,  a 
quem  chamã.0  Banqueiro  ,  Qf  dofeu  r^\u^ 
daníe^  a  q^cbam-So  Ajudabanqueiro.  p.  18. 

Cap.VIL  Do  Purgador  doA\\mar.  p.20. 

C ap.  V  f  I L  Do  Caixeiro  do  Engenho,  p . z  1 . 

Cap.  IX.  Como  fe  ha  de  haver  o  Senhor  do  Engenho 
com  feus  Efcravos.  p.  1 1 , 

Cap.  X.  Comofe  ha  de  haver  o  Senhor  do  Engenho  no 
governo  da  [na  Família  ,  Qf  nos  gaHos  ordu 
n  ar  los  de  cafa*  p.29. 

Cap*XI.  Como  fe  ha  de  haver  o  Senhor  do  Engenho 
no  recebimento  dos  Hofpedes,  ajjim  Religiofos, 
como  Se  cuia  res.  p .  3 1 . 

Cap,  XII.  Como  fe  ha  de  haver  o  Senhor  do  Engenho 
com  os  $y\/Lerç  adores ,  Qf  outros  feus  Corref- 
■pendentes  na  Praça :  Qf  ^e  alguns  tnoãos  d& 
vender  r&  comprar  o  A\jmar  3  conforme  o 
cfhlo  do  BrafiL  p.53* 


r 


Primeira  Parte. 


- 


L  I  V  R  O    II. 

Ç  '!P\  ^  eftolha  da  Terra  y  fará  -plantar 
'%J  Cannas  de  Aguçar  ,  ©"•  para  os 
mantimentos  nece fartos  ,  Qf  provimento  do 
Engenho,  p.  36. 

Cap.  II.  Da  planta  ,  Çff  limpas  das  Cannas :  &*  da 
diverftdade ,que  ha  nellas.p, 38. 

Cap.IIL  Dos  Inimigos  da  Çanna ,  em  quanto  eflà  no 
CannaveaL  p.41* 

Cap.IV.  Do  corte  da  Canna ,  Qf*  fua  condução  pa* 
ra  v  Engenho,  p.  41. 

Cap.  V.  Do  Engenho  ,  ou  Cafa  de  moer  a  Cam 
na  :  Q?  como  fe  move  a  Moenda  com  agua* 
p*4<S.  ;   : 

Cap. VI.  Do  modo  de  moer  as  Canna?  :&*  de  quan* 
tasPe[[oasneCeJfítaãtWoenda^p.y$. 

Cap.VII.  Das  Madeiras  ,  de  que  fe  fa\a  Moen* 
day  ©*  iodo  o  mais  madeiramento  do  En- 
genho, Canoas v  &  Barcos :  Qf-  do  que/e  co» 
fiuma  dar  aos  Carpinteiros  3  Qj*  outros  [emes 
IhantesOfficiaes.p.ió. 

Cap. VIII.  Da  Cafa  das  Fornalhas ,  fèu  aparelho , 

N3  d* 


\y%  índice.   ^ 

Qf  Lenha-,  que  ha  mifter ,  Qf  da  Cin^a ,  ©* 

Jua  Decoada.p.fô. 
Cap.IX.  Das  Caldeiras  >  Qf  Cobres ,  feu  aparelho  9 

Officiaês,  Qf  Gente,  que  nellas  ha  mifler  :  Qf 

Inftr amentos,  de  que  ufaõ.  p.63. 
Cap.X.  Domodo.de  alimpar ,Ç?f  purificar  o  Caldo  da 

Canna  nas  Caldeiras  ,  Q?  no  Paról  de  coar9 

ate  p  a  ff  ar  para  as  Tachas,  p.  67.  -,\ 
Cap.XÍ.  Do  modo  de  co^er  >  &  bater  o  Melado  nas 

Tachas. p,6p* 
Cap.  XII.  Das  Temperas  do  ^Melado  %  Qffuajujía 

repartição  pelas  Formas,  .p.72.  ) 


Cap,  I, 


As  Formas  do  Afincar ,  Qffua  paf- 
[agem  doTendal  para  a  Cafa  de  pur* 
gar.p.yf. 
Cap.  II.  Da  Cafa  de  purgar  oAJfucar  nas  Formas. 

p.  77. 

Cap.IIí.  Daspefjoas ,  qje  occupaõ  em  purgar,  maf ca- 
var, jecar  ,  Qf  encaixar  o  AfJ^car  :  Qf  dos 
Inflrumentos,  qparaifj.o fao  ?ieceflario*.p.79> 

Cap  J  V.Do  Barro,  quefe  bota  nas  Formai  do  %/$Lm? 
car:  qual  deve  fer>  Qf  comofe  ha  de  amaffar: 

©7' 


£ 


Primeira  Parte.  199 

&  fe  be  bem%  ter  no  Engenho  Olaria,  p.  8 i. 

Cap.  V.  Domododepurgar  o  Affucar  nas  Formas : 
&  de  todo  o  beneficio,  que/e  lhe  fa^naCa* 
fa  de  Purgar ,  atéfe  tirar.p  83. 

Cap.VI.  Do  modo  de  tirar,  mafcavar  ,&fecar  ao 
afincar,  p  86. 

Cap.VII.DoP^p,  Repartição,  Qf  Encanamento 
do  Afíucar.  p.89. 

Cap.VIU.  De  varias  caftas  de  Affucar ,  que  [erra- 
damente fe  encaixao :  Marcas  das  Caixas, 
Qffaa  conducçao  ao  Trapiche,  p.91. 

Cap.  IX.  Dos  Preços  antigos ,  Qf  modernos  do  *Af* 
fucar,  p.94. 

Cap.  X.  Do  numero  das  Caixas  de  Afiucar  ,  que  fe 
fa\em  cada  anho  ordinariamente  no  Brafil. 

Cap.XLg?^?  cuftabSaCaixa.de  Affucar  de  trinta 
Qf.  cince  arrobas,  fofta  na  ^Alfandega  de  Lis- 
boa  ,  Qfjá  defpachada  :  Qf  do  valor  de  todo 
o  Affucar ,  que  cadaanno  fe  fa^  no  BrafiL 

Cap.  XII.  Do  que  padece  o  Affucar  de/de  o  [eu  nacu 
mento  na  Canna ,  atèfahir  do  Braftl.p.  ioi. 


N.4 


S  E- 


20O 


tt  I 


Mhl  1 

1 

■ 

1 1. 

í. 

índice. 


SEGUNDA  PARTE. 


CULTU 


OPVLENCIA    DO  BRASIL 

Na  Lavra  do  Tabaco. 


Cap.  I.  ãr  "l  OMOfe  começou  a  tratar  no  Brafil 
%^^j  da  Planta  do  Tabaco :  &*  a  que  efli- 
maçad  tem  chegado  p .  1 07, 

Cap.II.  Z?//a  <^  confifte  a  Lavra  do  Tabaco '  ©*  de 
como  fe  fêmea  planta  ,  Qf  alimpa  :  Qf  em 
que  tempo Je  ha  de  plant ar. p.  109. 

©&p.III.  Como  fe  tiraõ  3  &*  curaô  as  folhas  do  Ta- 
baco :  Qf  como  delias  fe  fazem,  &  beneficiao 
as  cordas,  p.111. 

Cap.I  V.  Como  fe  cura  o  Tabaco  depois  de  torcido  em 
corda.p.m.  .    .    ,     .    . 

Cap.  V.  Comofe  enrola ,  &*  encoura  o  Tabaco  :  &* 
que  Pefíoasje  occupao  em  toda  a  fabrica  delle, 
defde  a  fua  planta  atè  fe  enrolar,  p .  1 1 3 . 

Xap. 


Segunda  Parte.  tor 

Cap.VI.  Dafegunda ,  &*  terceira  folha  do  Tabaco  : 
Qf  dediverfas  qualidades  delle,  parafe  maf- 
car  ,  cachimbar  ,  Qf  pi^ar. p.n  j. 

Cap.VII.  Como  je pi^a  o  Tabaco  :  do  Granido  ,  Çj* 
em  pó;  Q?  como  Je  lhe  d  d  o  cheiro,  p.  i  i  6» 

Cap.VIII.Do  ajo  moderado  do  Tabaco  para  a  faudé: 
©*  da  demafia  nocwa  àmefmafaude %  de 
qualquer  modo  quefe  ufe  delle.  p.i  1 8. 

Ca  p.  IX.  Do  modo  com  que  je  de fp  acha  o  Tabaco  na 
Alfandega  da  Babia.p. no, 

Cap.X.  §Lpe  cufta  hum  B.olo  de  Tabaco  de  oito  arro* 
bas  ,  pofto  da  Bahia  na  Alfandega  de  Lisboa, 
&  ja  defpachado  ,  &*  corrente  para  fahir 
delia,  p.i-22. 

Cap.XI.Díí  efiimaçaõ  do  Tabaco  do  Brafíl  na  Euro- 
pa, Qf  nas  mais  Partes  do  Mundo :  &>  dos 
grandes  emolumentos  ,  que  delle  tira  a  Fa- 
zenda Real.p.114. 

Czp.Xll.  Das  penas  dos  que  levao  Tabaco  naS  def- 
pachado nas  Alfandegas:  Qf  das  indufirias} 
de  que  fe  ufa  >  parafe  levar  de  contrabando. 

p.120. 


TER» 


I 


? 

TERCEIRA  PARTE. 


OPVLENCIA  DO  BRASIL 
Pelas  Minas  do  Ouro. 

Cap.  I.  T|  "%  ^j  Minas  do  Ouro ,  3/tf/i?  defcobri- 
^J  raõ  noB rafil.  p.  1 2 9 

Cap*  II.  £>^x  Minas  do  Oura,  que  chamaõ  Geraes  : 
&  dos  defcobridores  delias,  p.  1 3 1. 

Cap.  III.  De  outras  Minas  de  Ouro  no  Rio  das  Ve* 
lhas  ,  Q}3  no  Caetêop.  133. 

Cap.IV.  Do  rendimento  dos  Ribeiros  :Qfde  diverfas 
qualidades  de  Ouro,  que  deli  es  fe  tira,  p.134. 

Cap.  V.  Das  Pejjoas  ,  que  andao  nas  Minas,  &  ti* 
raõ  Ouro  dos  Ribeiros,  p.i  56. 

Cap.  VI,  Das  Datas  ,  ou  Repartiçoens  das  Minas. 
p.i$8. 

Cap.VH.D^  abundância  de  Mantimentos,  Çff  de  to* 
do  o  ufual  ,  que  hoje  ba  nas  Minas  :  Qf  do 
pouco  ca/o  qve  fe  fardos  preps  extraordina* 
riamente  altos ,p.i3<?.  Cap. 


Segunda  Parte.  ioj 

Cap.  VIII.  De  diverf os  preços  do  Ouro  vendido  na 

Brafil :  Qf  do  q  importa  o  que  cadaanno  w* 

dinar -lamente  fe  tira  das  ■Minas. p.  1 43 . 
Cap.IX.  Da  obrigação  de  pagar  a  EURey.  NôfTo  Se* 

nhor  a  qúntaparte  do  Ouro»  que  fe  tiradas 

Mtnas  do  Brafil.  pi  146. 
Çap.X.  Roteiro  do  Caminho  daVilla  de  S.  Paulo  pa- 
ra as  Minas  Geraes,  Qf  para  o  Rio  dasl^es 

lhas?i59. 
Cap.  XI. Roteiro  do  Caminho  velho  da  Cidade  do  Rio 

de  Janeiro  para  as  Minas  dos  Cat aguas , 

Qf  do  R, 10  das  Velhas,  p.  i<^j. 
Cap.  XIL  Roteiro  do  Caminho  novo  da  Cidade  do 

Rio  de  Janeiro  para  as  Minas,  p.164. 
Cap  XllL Roteiro  do  Caminho  da  Cidade  da  Bahia 

vara  as  Mtnas  do  Rio  das  Velhas. p  166. 
Cap.  XIV .  Modo  de  tirar  o  Ouro  das  Minas  do  Bra? 
Jily  gf  dos  Ribeiros  delias  ,  obfervado  de  que 
nellas  affíjlia  tô  o  Governador  .Artur  de  Ja\ 

p.168. 
Cap.  XV.  Noticias ,  para  fe  conhecer e  as  Minas  de 

Prata,  p.  173. 
Cap. XVI.  Modo  de  conhecera  Rrata^Çff  de  benefis 

ciar  os  Metaes,  p.iyó. 
Cap.  XVI  LDos  danos ,  q  tem  caufaâo  ao  Brafil  a  co- 
biça ,depois  do  descobrimento  do  Ouro  nas  Mi" 
nas.p.179*  QVAR- 


*~—. 


OPVLENCIA  DO  BRASIL 

Pela  abundância  do  Gado ,  &  Cou- 

rama  ,  &  outros  Contratos 

Reaes,  q  fe  remataõ  nefta 

Conquifta. 

Cap.  I.  T"^  A  grande  extènfaõ  de  Terras  fará 
I  3  Pafios,  cheas  de  Gado ,  que  ba  no  Br  a* 
JiL  p.i8j. 

Cap.  II,  Das  Bojadas  ,  que  ordinariamente  fe  tirão*  ' 
cada  anno  dos  Curraes  para  as  Cidades  , 
Filias ,  &*  Recôncavos  do  Brafã ,  aft.mpa- 
ra  o  dçongue ,  como  para  o  fornecimento  das 
Fabricas,  p.  1 87. 

Cap.  III.  Da  condução  das  Bojadas  doCertaõdo 
Braftl :  preço  ordinariodo  Gado ,  que  fe  ma- 
ta >  &  do  que  vaypara  as  Fabricas,  p.i  88. 

Cap.« 


20 


Quarta  Parte. 

Ctfp.IV.GjW  cufta  bum  Couro  em  çabello ,  hum  Me - 

jo  de  Sola  beneficiado  até  fe  pôr  do  Brafil  na 

^Alfandega  de  Lisboa,  p.ipo. 
Cap*V-  Refumo  de  tudo  o  que  vay  ordinariamente  ca* 

da  anno  do  Brafil  para  Portugal  :  &  dofeu 

valor. p.ipi. 
Çâp.ultimo.  G)j4a?itê  hejttfto ,  que  fe  favoreça  o  Bra* 

Jtl ,  por  fer  de  tanta  utilidade  ao  Reym  de 

Portugal,  p.193. 


FINIS,  LAUS  DEQ. 


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